Não seja cruel comigo.
Não te abandonei e fui embora para curtir a vida como pode ter parecido, leitor-ouvinte.
Tenho um texto chamado “noite na pequena londres vi ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados” escrito ali, em algum lugar, e não o publiquei.
Em primeiro lugar, não o publiquei porque ele estava incompleto. Em segundo lugar, não o publiquei porque... lembra aquela vez em que alguém escreveu três capítulos da história, tudo parou por conta de uma série estranha de acontecimentos e, quando voltou, outra pessoa apareceu escrevendo dois capítulos em uma linha totalmente diferente? Até mesmo reescrevendo um pouco do que tinha acontecido antes?
Não serei tão maldoso contigo ao ponto de dar más notícias: ainda sou a mesma pessoa, não troquei de narrador, posso reconhecer apenas que encontrei o que procurava e, é tão estranho!, porque muito pouco do que imaginava era daquela forma.
Durante essa história consegui me reconhecer uma pessoa muito reprimida, duro comigo mesmo e com os outros.
Uma pessoa que se sentia um baú de desejos e sentimentos, esperando que a chave chegasse, entrasse na fechadura, abrisse e destravasse tudo. E eu estava certo, não posso negar que estava.
Eu era muito consciente de que era uma pessoa difícil e que haviam coisas erradas comigo, embora não soubesse muito bem dizer o que havia, o que me quebrou, o que havia dentro de mim que continuava me quebrando, o que estava fora do lugar.
Não sabia também no que eu estava certo e a verdade é que, em muitas coisas, eu estava certo: talvez eu realmente soubesse o que queria, talvez não houvesse problema nenhum em ser quem eu era, talvez eu não fosse a pior pessoa que já existiu, e talvez... eu não devesse ter ouvido tanto os outros, tantos conselhos, tantas pessoas acreditando que suas tradições, suas opiniões, seus palpites, dariam conta de mim melhor do que os meus próprios sentimentos, a minha própria intuição e percepção de mundo.
Talvez eu não devesse ter sido tão cruel comigo mesmo, devesse ter confiado mais em mim. Não demais, mas ao menos um pouco. Ter confiado que eu tinha direito de tomar as rédeas da minha vida porque, no final das contas, eu é que assumiria as consequências mesmo que outros tomassem essas rédeas.
Essa é a conclusão da noite na pequena londres, fim, finish, done.
Não! É óbvio que não.
Bem-vindos a um possível último capítulo, de qualquer forma! Pretendo terminar. Não sei dizer se conseguirei, mas ao menos direi que pretendo.
Assim como você, ouvinte, no fundo não sei aonde essa história vai dar. Você pode achar que sei e que é fácil, porque estou narrando fatos que já aconteceram mas, acredite em mim, narrar o passado é imprevisível.
Se eu estivesse escrevendo essa introdução após uma conclusão, minhas palavras poderiam ser diferentes, mas ainda não comecei. Não é um prefácio, é uma introdução. É o que sinto agora, antes de escrever. Depois que atravessar o lago dessa história, acredito que serei outro. Tomara que seja alguém melhor, dane-se se for alguém pior. Tomara, ouvinte, que você se divirta comigo, aprenda algo de legal comigo, chore, sofra, e o que mais vier à sua mente.
Bem-vindos ao sexto capítulo da noite na pequena londres.