Série: noite na pequena londres ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados / noite na pequena londres ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados vi / a identidade

vi. ato 8. o que é que será? (Pequena Militante II, Loiríssima II, e outras pessoas também)

29 de março de 2023

Ao invés de me deixar ser consumido por essa ansiedade de quem tem sentimentos por outra pessoa e não sabe se é correspondido, decidi que agiria antes que eles se tornassem incontroláveis.

Antes que eles passassem a me machucar demais. Antes que eu fosse chorar muito se tudo desse errado.

Talvez eu fosse chorar um pouco.

Só um pouco, nada mais que isso.

Essa indefinição da Garota Japonesa passou a me irritar. Chamei ela para ir na festa de formatura da minha turma do seminário, mesmo sabendo que não éramos tão amigos ao ponto dela fazer isso, e de fato ela não fez.

Isso me deixou realmente triste. Não porque eu esperava que ela fosse mas porque, sei lá, fazia falta a presença dela naquela festa.

Também porque me acendia sentimentos com relação à Pequena Militante. Sem contar todas as outras pessoas em quem eu tinha algum interesse, que... digamos que eram algumas.

Conversava com as meninas, elogiava-as, de vez em quando mandava algumas cantadas moderadas, simplesmente porque podia. Estava solteiro, não estava?

No meio dessa festa, por motivos misteriosos, ela trocou de foto no WhatsApp e foi impossível perder a oportunidade de mandar uma cantada. De fato mandei, mas mandei um sentimento um pouco sincero também, o qual gerou uma enorme briga entre nós e vou contar porque foi uma briga hilária, de rir lendo as mensagens no celular: disse que o que ela estava fazendo comigo era uma crueldade, que eu estava tentando me apaixonar por outras pessoas ali na festa e ela, colocando essa foto, me impedia, porque me obrigava a me apaixonar por ela.

Ela achou que eu estava a impedindo de trocar de foto no celular e acusando-a de fazer coisas pra me provocar, o que não vou negar que seria uma acusação sensacional de se fazer, mas não era a intenção. Tudo o que queria era que ela entendesse que estava deslumbrante. Nas entrelinhas, não que fosse meu maior desejo que ela entendesse isso, também desabafei que ela estava empatando a minha foda ao não esclarecer quais eram seus sentimentos por mim.

Acho que já disse antes, mas reitero: não vou negar que fui intrusivo, totalmente inconveniente, com a Garota Japonesa. Mas bem, aquelas meninas da igreja eram todas doidas, eu era péssimo em entender sinais e contava com as mulheres para serem sempre o mais diretas possível, mas essa quantidade exaustiva de meninas me dizendo “não gosto de você” e depois reclamando direta ou indiretamente que eu tinha desistido delas enlouqueceu minha cabeça, eu não tinha mais como saber quem estava fazendo joguinhos e quem não estava.

Poderia mesmo ter levado a sério seus cortes e desistido, juro que poderia, juro que não é meu normal ser tão insistente e chato, ignorar um “não” de uma mulher me horroriza, será que nenhum crente tem medo de ir pro inferno por não respeitar um “não” e descobrir que o inferno são todas as mulheres que você não respeitou te torturando com direito a ultrapassar os limites das leis da física? Porque sempre tive esse medo.

Não façam isso em casa, não façam isso que fiz com a Garota Japonesa, eu insisto. Não importa qual a conclusão dessa história, não façam.

Eliminem o vírus do “joguinho” da sua juventude.

Sejam claros no que sentem e acreditem que as pessoas são claras no que sentem. Não importa que elas briguem com você depois porque você não entendeu que “era pra insistir”, sejam pessoas que dialogam, sejam diferentes.

Essa caipiragem de achar que mulher é ostra e você precisa ficar abrindo, e a caipiragem da mulher que também acredita nisso e se faz de ostra, é danosa e borra limites muito claros e fáceis de uma relação, um “especialista em abrir ostras” aparece e acaba com a sua vida porque ele, é claro, é um manipulador emocional e te coloca em um relacionamento abusivo.

Mas bem, OK, era nesse lugar que eu estava. Não conseguia acreditar nesse negócio de “sinais”, não mesmo. Pra falar a verdade, não sei exatamente o que gostaria que ela falasse pra mim, porque também não era lá aquele exemplo de maturidade.

Talvez se ela falasse sobre um menino que estava afim e me pedisse ajuda? Só que isso também é um “sinal”, embora seja dos mais fatais. Talvez se ela só ignorasse minhas cantadas? Ou se falasse “para com isso, é meio constrangedor”? Se ela não brigasse comigo, como se eu estivesse acusando-a de crimes, ao expressar sentimentos por ela? Se ela dissesse exatamente como me via, como um amigo super legal de conversar, até desabafar às vezes, mas... só? No momento não queria? E também aceitar que, sabe, eu continuaria conversando com ela, continuaria interessado nela e um dia, quem sabe, depois de meses, depois de anos, se surgisse o interesse dela e ambos ainda estivéssemos disponíveis, por que não?

Queria que ela dissesse qualquer coisa coerente, não que brigasse comigo inventando mil e uma análises de comportamento com base nas minhas palavras que não correspondiam à realidade e isso me incomodava, mas também me assustava, porque deixava claro uma única coisa: o fato de que ela dedicava um tempo da vida dela a me fantasiar.

Ela brigou comigo feio nesse dia, de ficarmos uns dias sem nos falar, eu perguntando se ela não iria mais me responder e ela... não me respondendo. Não estava sequer chateado, não tinha como ficar, era uma situação totalmente incompreensível.

A essa altura, uma amiga minha já tinha percebido que eu estava afim dela e só se divertia com a situação, eu contava as histórias bastante irritado e sem entender e ela só dizia “vocês dois vão acabar namorando”, o que eu respondia prontamente “por mim, já estaria faz tempo”.

Mesmo me irritando, mesmo que a gente brigasse relativamente bastante, aliás que passassemos um tempão da nossa relação brigando.

Então, encerrados os eventos do ano, chegamos ao Natal e ao Ano Novo. Esse período mágico onde muita coisa importante acontece em poucos dias, afinal, eu nunca tive férias no Natal e no Ano Novo para ficar uma semana inteira fora de casa e celebrar essas datas com todo mundo, mas sempre dava um jeito de, ao menos na véspera e no dia, viajar e ficar com a minha populosa família com o segundo sobrenome mais comum do Brasil.

Era engraçado pensar que no ano anterior eu estava vivendo aquela situação complicadíssima com a Bem-te-vi e, nesse ano, estava tudo tranquilo, exceto esse detalhe que se chamava “Garota Japonesa”.

Não lembro se era exatamente no Natal ou na véspera mas, em algum momento em que eu conversava com a Loiríssima, ela me deu um ultimato. Um xeque-mate. Mandou aquela cantada fatal que eu deveria responder “sim eu gostaria que você ficasse com meu coração pra sempre” ou fazer alguma piada idiota que distorce todo o sentido do que foi dito e o assunto se esquece num mar de constrangimento. E, vou ser sincero: eu gostava da Loiríssima, tinha interesse nela, ela era uma menina bonita, inteligente e simpática, e aquele medinho por ela ser (ou parecer) meio rica não me assombrava ao ponto de me fazer não querê-la.

Decidi também dar um ultimato na Garota Japonesa, diante dessas circunstâncias.

Se você é moralista e acha triste eu ter cantado duas, três, dez, quinze, vinte, cinquenta, cento e cinquenta mulheres ao mesmo tempo, só lamento. Até hoje não vejo nenhuma maldade no que fiz.

Maldade veria se ficasse que nem idiota maltratando uma pessoa que “me deu o fora”, ou brincando com gente que não era do meu interesse, mas a Loiríssima era. Eu só... tinha essa coisa mal resolvida com a Garota Japonesa e ela teria de me libertar disso naquele momento, porque a Loiríssima foi fofa, madura, abriu seus sentimentos de uma maneira muito bonita, e eu iria dizer “sim” ou “não”. Não iria ficar brincando com ninguém porque ela não merecia.

Expliquei exatamente a situação para a Garota Japonesa: falei que tinha outra menina interessada em mim e que precisava saber se ela queria algo comigo ou não, porque queria algo com essa outra menina, mas queria mais com ela. Ela surtou. Disse que o que eu estava fazendo era muito errado, começou a brigar comigo por eu ser um canalha, e que homem não prestava, e mais um monte de coisa que não lembro muito bem o que era mas no final das contas não tive nenhuma resposta.

Ela não conseguiu me dizer “vá com Deus”, mas também não disse nada sobre estar interessada em mim, só estava muito irritada com o fato de que eu estava interessado em mais pessoas além dela e adereçou isso a todos os seus códigos morais como a menina mais santa da paróquia que, entretanto, se fascinava por grupos de rap do Cotovelo e era apaixonada por autores humanistas que diziam que códigos morais eram lixo.

Eu... infelizmente não tive coragem de jogar meus sentimentos por ela fora, não correspondi aos sentimentos da Loiríssima e passei mais um final de ano solteiro, solteiríssimo, com uma Garota Japonesa de bico comigo.

Tentei o meu melhor para ser uma pessoa desapegada mas lá estava eu, de novo, preso a uma menina tentando decifrar seus códigos, seus sinais, acreditando em baboseiras como “sentimentos ocultos” e tudo mais.

A Loiríssima era objeto de cobiça de muitos rapazes da igreja, uma vez um rapaz que não se dava nada bem comigo, sabendo que eu tinha uma relação tranquila com ela, veio com o rabinho entre as pernas me pedir conselhos sobre como chegar nela, todo morrendo de vergonha, afinal, ela era uma das mulheres que mais correspondia ao padrão de beleza dos garotos. E ela não era só bonita, ela era muito gente boa. Já tinha visto ela irritada, embirrada, como é normal de qualquer ser humano ser às vezes, e era lidável. Meio mimado mas lidável.

E tinha exposto seus sentimentos a mim.

Estava claro que ela gostava do meu jeito, me achava fofo, divertido. Gostava de mim. E eu disse “não”. Por uma menina que não conseguia fazer nada comigo além de brigar e tentar me afastar.

Por que eu era tão idiota?

Você leu um capítulo da série noite na pequena londres ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados

Você leu um capítulo da série noite na pequena londres ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados vi

Você leu um capítulo da série a identidade

escrito por nubobot42 narrado por heartshaped star