Depois disso tudo, ainda continuei forçando um contato com a Garota Japonesa, mas ela me cortava cada vez mais. Inventava dúvidas sobre psicologia e filosofia que não poderiam ser menos verdadeiras só pra puxar assunto e, confesso, me divertia com isso.
Ela não levava só a sério, como alguém apaixonado pelo assunto: nunca vi alguém levar a sério daquela forma. Ela explicava as coisas com um rigor enorme, estava sempre propensa a entrar em um debate agressivo, a brigar comigo porque falei algo errado, me desqualificar porque eu não era psicólogo, enfim, ela parecia ser uma constante acadêmica quando entrava em assuntos que dominava um pouquinho. Era muito engraçado. Mas, imagino eu, estava dando nos nervos dela porque eu estava sempre insistindo, sempre puxando assunto.
Eu sabia que estava sendo inconveniente, pra falar a verdade. É só que boa parte das pessoas já teria me bloqueado ou me xingado, enquanto ela tinha uma coisa esquisita, indecisa, dentro de si.
Quando ela queria que eu parasse de falar, ela era incapaz de dizer exatamente isso, ela usava de indiretas, de joguinhos, e propositadamente decidi ignorar isso.
Eu queria que ela falasse do fundo do seu coração que não tinha nenhum interesse em mim e também não queria ser minha amiga, que ela só queria minha distância, que ela odiava conversar comigo. Ou que contasse tudo o que sentia, independente do que fosse.
Eu já estava começando a entender melhor as meninas da igreja: na igreja, meninas e meninos vivem uma pergunta idiota mas complicadíssima caso você a leve a sério, que é: “existe amizade entre homem e mulher?”.
O “eu” de antes da igreja jamais ligaria pra uma pergunta dessas mas, quando entrei na igreja, fui uma dessas pessoas que jogou fora todas as suas experiências pessoais para acreditar no modo de viver da galera.
Eu tinha muitas amigas, tinha mais amigas que amigos, todo ambiente em que havia muita performance de masculinidade era hostil comigo e quem me acolhia eram as meninas.
Mas, esquecendo “eu” um pouco: e para as meninas, como era a ansiedade de estar conversando com um rapaz? Afinal, na teoria, só se conversa por interesse, essa amizade não existe. Uma hora ele vai chamar pra sair, uma hora ele vai fazer alguma coisa. Ninguém fica jogando conversa fora se não houver a hora do bote, os gêneros opostos estão sempre se cozinhando com pouco fogo.
É importante notar também que isso não é geral da igreja, não é uma lei, uma doutrina social. É um costume. Existem pessoas que simplesmente não pensam assim e pronto, mas existem muitos que pensam assim e, pior, existem também os que pensam assim e impõem aos outros que pensem igual. É uma bagunça.
Também é importante lembrar que, para além da igreja, a Pequena Londres e suas adjacências são cidades de interior, caipiras, pós-rurais, então essa mentalidade não é necessariamente um problema evangélico mas um problema da sociedade que alguns evangélicos utilizam interpretações bíblicas para reafirmar e outros para desmentir.
A Garota Japonesa era de uma cidade ainda menor que a Pequena Londres, dificilmente escaparia disso.
Sabe, faz muita falta para qualquer um ter amizades do sexo oposto. Não sei como é para mulheres não ter amigos homens, mas eu não sei como viveria sem amigas para, além dos assuntos em comum, ter as “opiniões femininas”.
Não porque mulheres têm todas a mesma opinião, mas a sociedade pode exigir delas coisas que não exige de nós e vice-versa, nós nos ajudamos muito navegando por esse mar de papéis sociais e estereótipos e padrões de relacionamento que amamos quebrar mas de vez em quando precisamos fingir nos submeter e definitivamente precisamos compreender.
Se não fosse por isso, como não tenho irmãs (no máximo uma prima próxima), acharia que mulheres são seres de outro mundo.
Quem sabe a Garota Japonesa me via apenas como um amigo? Não tinha interesse em mim mas gostava de conversar comigo, só que não podia porque essa amizade não poderia existir, então ficava estressante. E, como eu não hesitava em demonstrar interesse, ficava ainda mais estressante.
Como lidar com um garoto que claramente está afim de você, e você gosta de conversar com ele, mas não quer nada com ele?
Estou explorando as possibilidades na cabeça dessa menina mas não estava dando muita importância para isso na época, não era problema meu, prometi a mim mesmo que não deixaria as especulações sobre os pensamentos de outra pessoa me destruírem novamente e estava cumprindo à risca.
Só aceitaria uma coisa: chamar para conversar e colocar seus sentimentos na mesa.
Não é que eu não fosse capaz de entender indiretas, sinais, recadinhos, mas estava cansado deles. O que custava para essas pessoas serem claras, firmes e sem rodeios? Será que elas sabiam o que sentiam ou já estava escondido até para elas mesmas? Porque, se fosse isso, a identificação era total, já que eu fazia o mesmo.
Também perguntei à melhor amiga dela se ela poderia ter algum interesse em mim e a resposta foi “não”, no que respondi “pena que não vou desistir” e segui meu caminho tranquilo.
Por outro lado, os dias continuavam passando normalmente.
Continuava em contato com várias meninas e tinha interesse em muitas delas, de vez em quando jogava algo em rede social e desenrolava um fio por alguns instantes, não dava em nada porque eu não sabia muito bem sair disso, e vida que segue.
Uma moça que conheci em outra igreja e acabou vindo pra minha era bem interessante, tinha assuntos legais e era bonita, mas nunca saímos dos assuntos legais.
Era ano de eleição e, na minha sala do seminário, houveram duas aulas de doutrinação olavista assim, na surdina, eu tava lá de boa de repente plau Olavo de Carvalho e conspirações anticomunistas e George Soros e Antônio Gramsci e todas essas putarias aí.
Na segunda aula eu não me aguentei e desmenti tudo, desmontei a aula do cara. Achei um negócio absurdo mesmo. Dentre tantas coisas que aconteceram após isso e não cabem nessa história, uma foi descobrir que havia uma menina de esquerda na minha sala.
Pra falar a verdade não lembro se foi exatamente isso ou se foi um pouco antes, porque é minha cara me meter numa enrascada do tamanho de impedir uma doutrinação política bilionária dentro da igreja só pra deixar uma garota feliz mas, como não lembro, fiquem com a versão cheia de dúvidas.
Já sabia que ela não podia ser “de direita”, ela fazia uma graduação na UEL que até tem um doutor fascista mas ela não podia ser. Ela era parda, como eu. Da Zona Norte, como eu. Estava na igreja aparentemente há muito tempo mas não era lá muito famosa, como eu. Era bem baixinha.
E finalmente esbarrei num problema que não tinha visto até então na igreja: padrões de beleza. Ela não era branca e nem loira, não tinha uns peitões gigantes nem uma bunda gigante, então... os meninos faziam piadas imbecis sobre ela e se surpreendiam quando eu falava que a achava bonita.
Sinto muito se estar dizendo isso é como se “estivesse a chamando de feia”, que pode “parecer humilhante”, mas não tenho como não relatar isso, é impossível não relatar isso.
Ela era fofa que doía, tinham olhos clarinhos e hipnóticos, um rosto lindo e, como era de se esperar, era uma das pessoas mais estilosas naquela igreja. Ela e a Garota Japonesa eram páreas nisso.
Ela conseguia fazer qualquer moda se tornar parte da personalidade dela. Ela inventava trocentos penteados, e até chegou a raspar tudo uma vez, e conseguia montar looks com todos esses cabelos e tudo ficava incrível, digno de um Clover Canyon Resort 2014 da Vogue.
Era de doer ver aqueles garotos cujas preferências sexuais tinham paleta de cor e tamanho de manequim me perguntando o que eu via de bonito nela. Tudo nela era bonito.
Espero que, se ela chegar a me ler um dia ou se isso chegar nela, ela saiba reconhecer que não tem nada de errado com ela, tudo é uma mistura de machismo com racismo e os vilões são as pessoas que os proliferam.
Também passei pelo mesmo: não sou aquele branco barbudo de olho azul, estilo lenhador, espelho de uma série de pastores e pregadores famosos para jovens, e ouvi por vezes dentro daquela igreja que não era um padrão de beleza e que teria que me esforçar em outras qualidades porque não seria com beleza que conquistaria alguém. E eu, por mais que seja difícil assumir depois de todos esses anos, sou bonito sim.
O meu interesse nela na época veio também pelo fato de que faríamos uma missão internacional juntos. Queria conhecer as pessoas que fariam viagem comigo, isso é normal, e ela era quem eu menos conhecia. Não era pra ser, afinal, tínhamos esse monte de coisa em comum.
Fomos lentamente nos tornando amigos antes dessa viagem, era muito fácil ter assunto com ela porque a gente... só tinha. Éramos parecidos, ponto final. Muitos gostos em comum e, principalmente, num tempo como aquele, num contexto como aquele, concordávamos com tudo sobre política.
Pode não parecer grande coisa mas era um grande refúgio ter gente para falar sobre política com pontos-de-vista parecidos, com críticas em comum, porque éramos reprovados pelos olhares, pelas falas e até pelos púlpitos e nos aconselhamentos por causa disso. E o mais engraçado é que, conhecendo ela melhor e ficando mais próximo do seu grupo de amigas, fui conhecendo algumas outras meninas que também tinham um pouco mais de afinidade comigo nesse assunto. Como sempre, mulheres. Sempre as mulheres.
Viajamos para a missão em clima de polarização: era segundo turno, Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad.
As pessoas foram percebendo na viagem que eu tinha problemas com a convivência social. Eu me perdia de todo mundo com facilidade. Isso aconteceu com uma frequência enorme ao ponto de algumas pessoas se irritarem comigo. Também ficava meio chapado depois de tantas horas da noite e começava a falar coisas aleatórias e não faço ideia se isso era divertido ou constrangedor.
Não posso dizer que era o centro das atenções, mas era de fato a figura mais peculiar e esquisita daquela viagem, e também soava infantil muitas vezes porque uma pessoa que tem dificuldades em conviver com outras pessoas e fala as bobagens e piadas que vem na cabeça soa assim, meio criança. Foram obrigados a conviver comigo e perceberam isso.
Se foi ruim? Se foi bom? Não faço ideia. Eles é que digam, caso eu não tenha me tornado um assunto proibido ou ressentido no meio deles. Tomara que não, espero que se lembrem de mim como essa pessoa meio idiota que sorri bastante e tem bom coração, não como a pessoa amargurada e explosiva que demonstrei ser anos depois, porque sou mais a primeira. A segunda só surge pra me defender das ameaças, reais ou não.
Precisei pregar uma vez lá em inglês, talvez fosse a pessoa mais habilitada pra isso, porque joguei muito videogame e meu inglês é bom. Brincadeira. As pessoas próximas de mim tiveram que ouvir minha alta ansiedade antes da pregação, meus minisurtos, enfim.
Eu me importava bastante com as pessoas, principalmente as pessoas mais frágeis, em seus momentos mais frágeis. Deve ser estranho para as pessoas me vendo fazendo tantas bobagens básicas e, de repente, tendo uma maturidade emocional grande para lidar com seus dramas, e era isso o que acontecia um pouco. Como todo grupo, havia conflitos, e eu estava no meio de tudo tentando equilibrar as coisas.
Conforme a missão passava, ficava mais difícil não prestar bastante atenção na Pequena Militante. Quando saiu o resultado da eleição a maioria das pessoas ficaram lá, comemorando a vitória do ex-presidente, enquanto nós dois lamentávamos porque sabíamos o que viria para pessoas como nós e, aliás, ela muito mais do que eu.
Continuamos, enquanto meus sentimentos cresciam e se tornavam mais confusos.
Apesar de estarmos meio planeta de distância, o maior obstáculo para esses sentimentos era, justamente, a Garota Japonesa. Eu não estava mais falando com ela pela internet, não tinha meu teclado por perto pra tocar minha música, a chama ia bem lentamente se apagando no meu coração, mas não conseguia não pensar nisso. Ridículo, eu sei, e tinha prometido que não me convenceria de que deveria insistir em alguém específico, mas... só não consegui me desligar a esse ponto. Só aconteceu.
Ah, a voz da Pequena Militante é linda. Ela deveria ser voz principal de algum grupo da igreja... ou fora da igreja, quem sabe, porque na igreja sabemos bem o motivo pelo qual ela, talvez, não possa ser. Não sei se alguém da igreja sabe que ela é a melhor cantora de lá, mas eu sei.
Uma vez me perguntaram, depois que fiz mais uma das minhas milhares de gentilezas a ela, se eu não deveria me aproximar mais, se não deveria tentar um relacionamento. Foi uma pergunta que mexeu muito comigo, mas todas essas questões explodiram dentro de mim e tudo o que pude fazer foi falar “Não. É melhor não”.
Em certo momento, após a mais emblemática tragédia pessoal da viagem – o perrengue mais chique do planeta, eu me perdi no Vaticano –, ficaram bravos e aliviados ao mesmo tempo comigo. Não lembro que tipo de comentários fizeram sobre mim, só lembro da Pequena Militante encerrando a discussão com “não, ele sabe muito bem cuidar dos outros, o que ele não sabe é cuidar de si mesmo”, que me atingiu em cheio porque foi uma das observações mais precisas que alguém fez sobre mim. Por mais que ela aparentasse estar dizendo com um pouco de raiva como a de todos os outros, tive a impressão de que alguém me compreendia, compreendia um traço de personalidade, uma sufocante inabilidade social. Fiquei o resto daquela noite com a voz dela ecoando essas palavras na minha mente.
Quando tudo isso terminou voltei pra casa bastante dividido.
Tinha me acostumado a conversar relativamente bastante com a Pequena Militante então tentei continuar por internet mas não deu muito certo. Fiquei ansioso, perdi a paciência rápido porque não queria duas Garotas Japonesas na minha vida e deixei quieto.
Bem, faz parte. Calma que eu explico.