Série: noite na pequena londres ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados / noite na pequena londres ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados vi / a identidade

vi. ato 9. dias de luta: luzes

30 de março de 2023

Bem, meu seminário tinha terminado, não fazia menor ideia de como continuar em contato com a Garota Japonesa além da internet.

Chamá-la pra sair? Deveria. Mas, com aquele clima desgastante entre a gente, não era tão fácil juntar forças. Acho que foi meio assustador também entrar nessa situação mais uma vez de cabeça, desistir dos outros, evitar o interesse.

Não era solitário porque eu não cortei amizade, as outras pessoas só... não me interessavam, não podiam me interessar, porque afinal de contas eu estava decidido. Ou talvez não estivesse tão decidido, mas minhas atitudes demonstravam que eu estava, não queria mais voltar atrás.

Eis que minha amiga resolve me convidar para um churrasco, “evangelístico” diz ela. Era com um pessoal de esquerda, de cursos de ciências humanas na UEL.

Não lembro qual foi a sequência de acontecimentos por trás, se eu pedi ou se ela mesma já fez isso sozinha, mas a Garota Japonesa iria também. Então é claro que eu iria.

Para ser sincero não sou daquelas pessoas que vão para churrasco evangelizar, não era essa minha intenção, mas acho que não era a intenção dessa minha amiga também: ela realmente gostava da galera de humanas e eu realmente gostava da Garota Japonesa, então era negócio fechado.

A Garota Japonesa, risos, levou a sério. Estava achando que era um evento evangelístico mesmo. Talvez fosse, sei lá. Depende do ponto de vista.

Fato é que fui buscá-la em algum shopping para que fôssemos a esse churrasco, que era de uma região até então não muito conhecida por mim: a Zona Leste. Sendo justo: não aquela Zona Leste. Conhecia a Zona Leste ali do outro lado da rodovia e o Jardim Ideal, o resto não era totalmente desconhecido mas ainda não era um lugar fácil de me localizar.

Chegamos no churrasco e... era um churrasco comum. Com pessoas comuns. Não eram tão diferentes das pessoas que conhecia na internet, com opiniões que lia e até compartilhava na internet, fiquei numa boa ali.

Minha amiga também, aliás, ela era como aquelas pessoas, só não tinha descoberto muito bem ainda. Eu já tinha, por isso ela era minha amiga ao ponto de confiar minhas opiniões mesmo sendo da igreja.

Já a Garota Japonesa... constantemente ficávamos preocupados com ela estar achando aquilo um cenário de horror e, pra falar a verdade, ela parecia mesmo estar achando algumas coisas muito estranhas, mas pra mim soava um pouco hipócrita porque ela era formada em Psicologia. Não era possível que nunca tivesse visto uma festinha de faculdade de humanas.

Acho que, no fundo, tínhamos birra mútua um com o outro. Não era ela que sempre brigava comigo, nós realmente estávamos lotados de motivos pra brigar.

Via nela uma crente hipócrita, inflexível, que se achava melhor que todo mundo fora da igreja. Pra falar a verdade, tinha mais tendência a proteger as pessoas do churrasco dela do que ela das pessoas do churrasco.

Teve uma hora em que ela ficou visivelmente irritada comigo porque pessoas começaram a falar mal da igreja e entrei na roda e falei também, ela foi a única tentando defender, sem tentar deixar na cara que era muito crente.

A verdade é que eu estava com mais raiva da igreja do que aquelas pessoas.

Era 2019, absolutamente todos os estudantes de humanas estavam revoltados com a igreja evangélica brasileira por ter elegido Jair Bolsonaro. Só que eu estava ainda mais revoltado porque sabia que a igreja estava se jogando num lugar de onde não levantaria nunca mais, tinha protestado contra isso lá dentro, arrumado briga lá dentro, sido humilhado lá dentro. Só estava vendo as pessoas falando exatamente o que disse que elas falariam, e isso me deixava ainda mais puto.

Lá no final do churrasco, quando estávamos já a caminho de casa, tivemos uma discussão feia sobre isso. Ela ficou tão brava comigo que pediu para sair do carro porque era melhor ir de ônibus a ouvir meus insultos, mas estava se formando um tempão de chuva, então a convenci a me deixar levá-la, prometendo que ficaríamos em silêncio até lá ou falaríamos de algo que não tivesse relação com esse assunto.

Tentei só me explicar melhor também, porque tinha sim minhas opiniões sobre ela, mas já tinha 26 anos de idade, sabia que meu julgamento sobre as pessoas ficam em segundo plano diante do que elas são.

E fomos até a casa dela. Quase no final da cidade, numa das baixadas mais inclinadas que já vi na vida, uma casa que estava toda cheia de reboco. Parecia um esconderijo legal.

Continuamos como estávamos desde o Natal: em clima tenso, brigando bastante. Tudo o que acontecia entre nós não virava assunto porque brigávamos.

Não muito tempo depois ela disse pra mim que sabia do meu interesse por ela e pararia de falar comigo porque não achava justo ficar me enrolando. Foi inevitável pra mim fazer um drama porque ela não “estava me enrolado”, ela “já tinha me enrolado”, aquela decisão da Loiríssima ainda doía. Ainda trombava com a Pequena Militante em alguns rolês e eventualmente a levava pra casa por ela morar perto, então botávamos assuntos em dia, reclamávamos da política, entre outros, e várias vezes na minha mente se passava a possibilidade de abandonar tudo e passar a insistir com ela.

Mas eu aceitaria, juro que aceitaria. Só que ela ficou dias falando comigo pra falar que iria parar de falar comigo, aí enchi o saco e não levei a sério.

De qualquer forma, não conseguia ver mais situação onde ficaríamos juntos. Fisicamente, mesmo. Acho que cheguei a ir na cidade dela, num rolê do grupo de amigos dela, mas justo nesse dia ela não estava. Então não insisti porque não deixaria meus amigos mais chegados de lado todo final de semana só pra ficar com ela, mesmo que a essa altura muitos dos nossos amigos já fossem “em comum”.

A oportunidade surgiu quando um pastor do seminário veio me perguntar se eu queria ser auxiliar em uma matéria dele. Lembra? Mencionei essa história mais cedo. A princípio me recusei porque estava num trabalho difícil, iniciando uma pós e mais a graduação em Teologia. Ele pediu para pensar melhor, então pensei melhor: era uma matéria do segundo ano, o que significava que eu estaria na mesma sala que a Garota Japonesa e eventualmente até daria aula pra ela.

Pensei comigo mesmo: “não vou fazer isso, vou?”.Pensei de novo: “vou”.

Veja, levei muito a sério todas as aulas, não foi uma brincadeirinha pra mim. Duas aulas seriam ministradas por mim, nas outras eu só colaboraria, tiraria dúvidas, passaria para as pessoas os conteúdos das provas e tal. Essas colaborações foram muito bem feitas, não vou negar.

Sou uma pessoa até que bem responsável.

Já as aulas... eu me saí bem, não é esse o problema, só o processo foi doloroso. Ainda era uma pessoa cheia de dificuldades sociais, a ansiedade para preparar uma aula decente e apresentá-la foi até o talo. Ainda mais enquanto tentava lidar com a pós e a faculdade e todo o resto. Foi um período bem intenso da minha vida, cheio de coisa acontecendo, mas vamos nos ater aos fatos relevantes do momento.

É claro que eu perturbava ela às vezes puxando assunto e sempre ficávamos nessa coisa esquisita de conversar, ou não conversar, brigar e desbrigar. Era tudo muito estranho.

Já não tinha muito mais ansiedade com relação a isso porque estava até acostumado, outros problemas muito mais complicados estavam passando pela minha cabeça.

Quando dei a minha primeira aula, foi inevitável prestar atenção nela às vezes e me tranquilizar um pouco assim, ainda que ela estivesse brava comigo como sempre esteve. Ficou mais irritada ainda quando pedi para ela orar encerrando a aula, o que, sinceramente, me fez rir. Minha amiga, aquela do churrasco, que também era minha aluna esse ano, também riu.

Depois da aula perguntei a ela se tinha sido boa, alegando que ela era a pessoa mais próxima de mim e que poderia responder com certa sinceridade. O mais engraçado de tudo é que eu me senti mentindo, dando em cima dela mas, pensando bem, ela era a pessoa mais próxima de mim.

Já tínhamos discutido tanto e passado por tantos sentimentos controversos que nosso relacionamento cresceu bastante, tomou um lugar enorme nos nossos corações. Mas bem, eu era eu, ela era ela, não tinha como saber nada além do que eu mesmo sentia.

Ela me criticou, como sempre, acho que de maneira um pouco exagerada também. Dessa vez, porém, eu precisava de algo concreto, realmente precisava melhorar minha aula, então pedi para que ela explicasse detalhadamente o que havia de errado e não me lembro se ela soube ou não. Acho que soube sim, porque ela era já tinha dado palestras.

Diferente de como aconteceu com muitas pessoas, essa história minha com a Garota Japonesa não escapou para quase ninguém. Quase ninguém sabia que eu estava interessado nela.

Poderiam suspeitar, como todo ser humano pode, mas não sairia de mim nenhuma informação além de um “ué, ela é legal”, e isso se me perguntassem especificamente sobre ela. Me perguntavam se eu estava “mirando em alguém”, respondia “tô de boa”.

Não queria que me atrapalhassem, saber que estavam espalhando coisas sobre mim e que poderiam chegar nela me deixava muito mal e ansioso, então era mais fácil eu ter ao menos essa segurança.

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escrito por nubobot42 narrado por heartshaped star