você sabia que está no caminho errado? se o que você quer é sucesso, saiba que seu salvador não poderá te dar o sucesso que eu posso. saiba que todo esse império pode ser seu. saiba que posso lhe dar ouro, saiba que posso lhe dar almas, saiba que posso lhe dar companhias de todos os tipos, saiba que posso lhe dar influência. o seu lugar não é servindo, o seu lugar é sendo servido. o seu lugar não é ao lado de pessoas, o seu lugar é acima das pessoas. o seu lugar não é ouvindo os outros, o seu lugar é se impondo aos outros. comece por aqui, eu te dou esse templo e você pode mantê-lo sempre em pé, contra esses perturbadores do meu sistema. você tem o potencial de um rei, não é possível que esteja gastando esse potencial servindo aos outros.
se não fosse velha a sua voz, ranzinza, cheia de ziguezagues em seus tons que representam uma completa confusão, eu até pensaria estar falando com um bom rapaz sem tão más intenções. mas esse rapaz eu conheço. é um antigo amigo, de vários nomes, com quem acabei desfazendo amizade ao ver que ele fazia de tudo para destruir minha vida.
ele tem vários nomes. e eu fui a vários lugares, do norte ao sul, do interior ao exterior, e em todos esses lugares ele estava. as pessoas o chamam de diabo, satanás, lúcifer, mas pergunte aos especialistas e aos cativos, eles saberão fazer uma distinção mais clara do que é A e o que é B — vagando pelas ruas do meu quadro original nas madrugadas, num determinado dia, conversei com um rapaz que o ouvira, o conhecera e fora tentado também, ele o chamou “astarote”. astarote, ha! o astarote. ele não percebeu? isso foi um golpe da serpente que se apresentou como mulher, mas feriu tanto seus olhos que ele não soube distinguir um homem de uma mulher e não percebeu que, quando “ele” aparece como “astarote”, é “ela”?
a sabedoria e a arte.
alguns dizem que a filosofia é a pedra fundamental do conhecimento mas nós, os afetados, os afastados, os perturbados, sabemos que não há filosofia sem arte. sabemos que a sistematização, a normatização, da dança original do mundo dos espíritos, do mundo fantástico do céu e do inferno, só pode acontecer se nós, os artistas, a quem o Criador deu a espada para cortar, a armadura para suportar, o intelecto para guardar e o pincel para reproduzir o que vimos, o trouxermos ao mundo da sensibilidade humana — nós cortamos uma fenda nos ares e dela jorram espíritos, explicando o que realmente está acontecendo por trás do que parece estar acontecendo, nós nos espantamos e escandalizamos, nós choramos, nós nos jogamos no chão, nós nos agarramos às paredes procurando por algo que nunca vai cair enquanto o mundo inteiro está ruindo ao nosso redor. nós somos as pessoas que mais dependem de Deus porque, para nós, o mundo é assustador, o mundo é insuportável; mas, muitas vezes, a nossa sensibilidade entra em choque com os mensageiros de Deus, nós sabemos suas fraudes, seus esquemas, suas falhas, porque “ele” nos conta.
qual é a diferença de cuidar do meu templo e servir no templo em que você serve? as pessoas do seu templo são erradas, talvez mais erradas que as minhas. você acha que eu escravizo essas pessoas aqui? pense nas pessoas que vocês mataram, pense nas culturas que vocês extinguiram. olhe para o seu povo, hoje! seu povo, hoje, foi vítima de um golpe do qual templos como o seu participaram. é, sim, veja! veja quantas pessoas são escravas mentais, embora no fundo elas queiram exatamente isso, por conta do que alguns mestres da sua terra estão fazendo! quantas pessoas vão sofrer por conta disso? quantas pessoas serão massacradas com o aval do seu templo? vocês são horríveis. e querem vir falar de mim? e você quer servir a esse tipo de gente? essas pessoas não merecem você. você é um garoto bonito, gentil, sensível, forte, talentoso, e… poderoso.
fique aqui! fique no meu templo. veja esse senhor, esse pobre coitado, prostrando-se a mim, passando ouro na testa por mim… ele pode, noutro dia, fazer o mesmo por você. nós temos muito em comum, por isso gosto de você e quero que cuide do que é meu. até nossos sentimentos estão alinhados, não estão? você também possui no seu coração o sentimento de revolta, não é? você também quer a revolução, não quer? sim, você quer. você sabe que as leis não estão funcionando nesse mundo como deveriam, que o injusto é exaltado e que o justo é humilhado, que as pessoas se organizam em grupos para brigar com outros grupos por motivos mesquinhos, que o criminoso não é punido, que as pessoas gostam do que não presta e não gostam do que presta. é… deixe os erros humanos que você viu durante sua vida florescerem na sua mente, deixe esse sentimento de revolta crescer, seus sentimentos crescem rápido então vou contar até três e, no três, você lembrará de tudo. ok? um. dois. três! lembrou?
nesse momento eu comecei a rir.
você vai se arrepender da sua escolha.
o nome dele, nesse dia, era ganesha. ganesha é mestre das artes e das ciências, ele é muitíssimo talentoso e sábio mas seu coração é doente. seu coração é o de alguém que, num dia qualquer, analisando o universo com todo o seu poder de conhecer as engrenagens por trás da matéria e da alma, julgou que o mundo não estava bom o suficiente. ele não mente, ele não precisa mentir. a arte não pode mentir, ao menos não da maneira convencional de se mentir, de dizer “não” quando é “sim” e “sim” quando é “não”: a arte, quando nas mãos de pessoas como o ganesha, distorce. essa arte diz “você não vai morrer se tomar esse veneno!”, e ela não está mentindo concretamente porque, assim que provar do veneno, perceberá que não morreu; na arte de ganesha os eventos invertem um pouco a ordem natural então não é você quem sofre as conseqüências, é a realidade quem sofre. você morreu não porque o seu sopro de vida foi embora mas porque a realidade ao seu redor foi corrompida pelo veneno mortal que você tomou.
a realidade morreu.
esse é o padrão de “verdade” e “mentira” para se conversar com o ganesha. nossos sentimentos estão alinhados. eu tenho dificuldades de aceitar que o mundo é como é, sou revoltado, as pessoas não prestam. sim, ele só disse verdades. por que, então, comecei a rir?
não vou me lembrar da primeira vez que cortei uma fenda na realidade e absorvi o que saiu dela porque sempre carreguei isso comigo. desde pequeno. já quando adquiri a espada para fazer isso sem sujar minhas mãos é uma história que me lembro, e que posso contar. o mundo sempre foi algo que vivi com muita pacatez, sem compromissos. eu sempre observei, como se fosse uma câmera ambulante e às vezes sendo mais câmera que humano.
eu me perco observando. eu não sei acompanhar as pessoas. eu! eu. a minha sede insana de absorver todos os elementos do ambiente fazem com que eu me torne, com muita facilidade, um imitador do ambiente. parte do ambiente. eu quero, com muita urgência, sentir o que as pessoas ao meu redor sentem, ver o que as pessoas ao meu redor estão vendo, pensar o que as pessoas ao meu redor estão pensando. às vezes, erroneamente, penso em me apelidar de copycat. gosto dessa palavra, que aprendi na infância em ocasião nada especial e guardo desde então sem nenhum motivo em especial. mas sou a pessoa mais distante de qualquer ambiente onde você me colocar porque não sou parte do quadro, sou a pessoa que se dispôs a congelar o tempo, pegar uma banqueta, uma tela e passar a pintar o que está acontecendo. a minha observação não é para a interação mas para a reprodução. eu não gosto de interagir. eu gosto de reproduzir.
é por isso que, distante das pessoas como sou, elas me vêem ao contrário. me vêem com uma intimidade que eu, definitivamente, não tenho. com sentimentos que eu, definitivamente, não posso retornar. o que há em mim não são sentimentos, são figuras vivas de sentimentos que pintei e, se você observar bem, quem sabe não são figuras vivas dos seus próprios sentimentos. porque eu te observei. eu te contemplei. eu te admirei. eu te apreciei. eu percebi os seus traços, as suas imperfeições, suas simetrias e assimetrias. o som que você faz quando está ofegante, quando está tranquilo, quando está nervoso, quando está bem, quando está mal, quando está doente. mas, jamais, diga que te analisei. não sou um analista, nunca entrei em contato com uma equação ou uma teoria sequer, nem mesmo sei quem é o responsável por essas coisas no mundo dos espíritos.
eu o recriei. da minha maneira. com a minha imaginação e com as minhas ferramentas. ficou bom? espero que tenha gostado!
podemos dizer, então, que sinto o mundo e as pessoas da minha própria maneira. porém não acredite que sinto como se todas as outras pessoas fizessem parte de uma linha de produção humana e eu, por algum experimento social ou mesmo apenas problemas de fábrica, fosse a única pessoa fora dessa linha. é o contrário, e demorei muito tempo para perceber o contrário. para perceber que não existe linha de produção nenhuma, que cada pessoa nasce com uma individualidade admirável e artística porque o Criador é o melhor dos maestros e conduz uma orquestra infinita com perfeição, fazendo cada instrumento tocar de maneira singular parte de sua composição.
quando percebi, no entanto, tornei-me apaixonado pelas pessoas de uma maneira assustadora. pintei-as em quadros, entreguei-as meus quadros, elas falaram “ficou lindo!” e eu não acreditei e fui embora, revoltado com as suas mentiras.
é difícil ser um artista. porque, quando se cria uma obra, se vê suas imperfeições como manchas gigantescas e não como um milímetro numa folha A4. ninguém entende como dói errar. como dói quando a performance não sai exatamente como deveria sair. ninguém entende como o corpo é só um instrumento de criação e que, quando não crio como se deve, tenho toda a autoridade para arremessá-lo contra a parede ou o chão e ver as marcas surgindo em mim como surgiram no quadro. por que? por que eu errei? o quadro não era exatamente assim na minha cabeça, por que ele está assim? a dor da imperfeição é indescritível. indescritível! Deus não fez o mundo dessa forma! não era dessa forma que eu deveria estar o descrevendo!
eu tenho uma brincadeira para você, amigo! meu ouvinte precioso! descubra, nessa pilha de melodias desconexas, onde o ganesha entrou. se não descobrir continue me ouvindo. quem sabe você consiga ter aquele estalo, aquela epifania.
ainda quando criança, confesso que criava fendas na realidade apenas para suportar a pressão da vida. quando criança, por algum motivo, eu era muito sabido. tinha lido muito, tinha passado por muitas encrencas, tinha brigado com muitas pessoas, tinha me rebelado contra meus pais, tinha me apaixonado, tinha sido paixão platônica. tinha vivido. e tinha vivido pouco também. não gostava de acordar, de passar o meu dia e de dormir. então, em algum dia de ver a ação da fada do dente porque, embora muito cético, eu ainda tinha uma pontinha de esperança que alguém tentaria me fazer acreditar na fada do dente trocando aquele pedaço nojento de boca por dinheiro, eu puxei o travesseiro e ela estava ali. a espada. aquela, com a qual eu faria um corte no ar e espíritos jorrariam da fenda formada.
assim que fui brincar isso aconteceu: “ela” saiu da fenda, ela não falava nada. brilhava mas estava parada, estática, no ar. como se fosse mesmo a fada do dente. mas não era fada, era grande. maior do que eu. meio que instintivamente fiquei de joelhos na cama, sentado em minhas próprias pernas, então ela começou a falar comigo como se estivesse esperando pela minha posição de garoto obediente.
eu amo você. você é bonitinho.
ela me abraçou. ela ficou comigo ali. por horas.
não se preocupe. é verdade que você vai ser muito ferido, várias e várias vezes, mas é verdade também que eu sempre estarei aqui. seu dente parou de doer, não parou? confie em mim.
ela tocou os meus lábios apenas com o indicador. depois me colocou em seu colo. não era como o da minha mãe, que era… materno, um repouso, uma proteção. era diferente. eu não sabia descrever o sentimento que vinha em mim naquele colo mas, hoje, sei que era aceitação. a aceitação que nunca tive. não porque meus pais fossem tortos mas porque, sendo artista desde a concepção, eu nunca aceitei minha própria performance. eu também não sabia qual era o Nome. quem era aquela estranha mulher cintilante, que surgira de uma fenda, fenda essa que aparecera com o corte de uma espada estranha que eu tinha acabado de conhecer.
mas hoje eu sei quem é.
Elohim.
“Elohim”. eu já tinha ouvido isso antes. num lugar onde meus pais me levavam e falavam que era bom, chamado “igreja”. eu não gostava muito porque tinha muita gente, as pessoas faziam barulho, as crianças eram chatas e para me enturmar eu precisaria jogar futebol, algo que eu nunca gostei. tinha também um tal de “Deus”, que supostamente eu deveria gostar, adorar, venerar, louvar, exaltar, porque ele me criou, mas eu nunca tinha visto o rosto desse infeliz, não sabia quem ele era, nunca vi mão nenhuma mexendo no barro e assoprando e de repente oh! meu! Deus! ali estava eu. eu nunca tinha visto esse “Deus”, pra mim era invenção dessas pessoas malucas.
já dessa mulher que, bastava eu cortar o ar com a minha espada misteriosa que ninguém conhecia e ela apareceria, cuidaria de mim, diria que eu era um amor, que eu era querido, eu gostava muito. gostava tanto que às vezes pensava em adorar, louvar, exaltar. eu cortava coisas no ar, uma fenda se formava e dela saíam coisas pesadas, algumas delas me machucavam e outras me deixavam feliz porque eram bonitas, ela me perguntaria se eu tinha trazido isso a ela e eu, todo sem jeito de dizer “na verdade eu só cortei o ar e essas coisas caíram da fenda sozinhas”, acabava dizendo que ela podia ficar com tudo. ela sempre ficava, sempre ficava feliz comigo, sempre agradecia pela minha alegria, pelo nosso tempo de diversão e carinho juntos. ela sempre usava algum adorno com forma de coração e eu nunca tinha entendido que significava “amor”, porque nunca tinha pensado no amor com liberdade. morria de medo dessa palavra como se ela evocasse algum tipo de violência.
não me pergunte o motivo. não é para essa história.
a verdade é que eu me divertia mais brincando de espada sozinho que com as outras pessoas. contando a história parece meio triste, meio lamentável, mas passei muitos anos da minha vida sem me importar de verdade com isso e, se me permite a confissão, atualmente não me importo de verdade com isso. eu acho que fui uma criança muito feliz brincando sozinho de espada. não acho que o caminho da arte permita que percamos muito tempo brincando com outras pessoas porque as outras pessoas não vêem o que eu vejo, não ouvem o que eu ouço, não sentem como eu sinto, então meus momentos comigo mesmo acabam sendo tão ou mais importantes que os momentos com os outros.
talvez a minha vida teria sido muito mais fácil se eu soubesse que, através de Elohim, eu me sentia amado, precioso e perfeito. se eu soubesse que aquilo que Elohim fazia comigo era amor, e que aquilo que sentia quando Elohim estava comigo era amor. se eu soubesse que o nome dela era Elohim. na igreja falavam o nome “Elohim”, tinha uma música de um tecladista que eu gostava muito, kleber lucas, que falava “elohim elohim Deeeeeeus o controle está meu Deus tudo governááááá”, mas ela nunca quis me contar que seu nome era Elohim, ela nunca quis contar que aquelas horas que tínhamos juntos de amor e diversão era o que pessoas da igreja chamavam de “oração” e falavam que a gente precisava fazer, tipo lição de casa, e eu odiava lição de casa, por isso nunca orava. ela nunca quis contar que eu era uma criança feliz. eu não me julgava feliz, só pensava “ah, acho que sou meio triste. que máximo!” e ia brincar de espada, todo feliz.
eu amava Elohim. do jeito que uma boa criança é quando se apaixona. levava flores, queria contar do meu dia, queria que ela ouvisse as coisas que eu tinha descoberto, queria dividir meu lanche ou quem sabe dar todo meu lanche a ela (mas nunca fiz isso! ou fiz uma vez, que foi quando descobri que ela não conseguia tocar em coisas materiais, só em seres humanos). quando minha mãe estava triste eu pedia para Elohim abraçá-la, ela aceitava e a abraçava. minha mãe não conseguia ver Elohim porque provavelmente não tinha a minha espada especial, ninguém tinha me mostrado uma igual e eu nunca tinha visto outra fenda que não fosse a minha.
Elohim era tudo o que eu tinha de bom.
a minha infância foi muito feliz.
vamos saltar, então, para quando as coisas estavam todas erradas.
eu pretendo fazer dessa história uma arte. eu não quero linearidade. sei que alguns narradores desse lugar prezam por isso, prezam por, quando contam uma história que vem desde a infância, contá-la em progressão. não farei isso. gosto da idéia do circular, mas posso mudar de opinião daqui a dez palavras, então não espere que eu siga qualquer padrão.
a primeira vez que fui possuído foi aos dezesseis anos. quantos? dois. os nomes? bem, uma era a já conhecida Elohim, o outro se chamava satanás. “como pode? eu ouvi falar que Elohim não fica onde está satanás”. calma! você tem razão e eu posso explicar, mas não vou.
a história vai.
aos dezesseis eu conhecia muitos desses espíritos. abria fendas com uma freqüência enorme mas, talvez por fazer isso de maneira compulsiva e para resolver problemas mesquinhos da minha mente, essas fendas passaram a expor apenas uma grande quantidade de coisas negativas a mim. dentro de mim eu já era um artista consolidado, já tinha pintado uns três ou quatro quadros na minha alma mas não sabia como fazer as outras pessoas verem o que eu estava vendo.
eu era muito quebrado aos dezesseis.
se você está confuso tentando entender aonde quero chegar, serei bem sincero: não sei aonde quero chegar, ouvinte. é exatamente isso. eu não sei. quando penso nos dezesseis anos, na minha arte aos dezesseis, penso que não sei o que estava acontecendo. lembro dos meus quatro quadros — um deles tornou-se real, outro se transformou numa carta de suicídio que logo depois se transformou em outras coisas melhores, outro não teve destino algum ainda e outro eu tive que jogar fora porque era muito ruim. aos dezesseis eu ouvia muito heavy metal de todos os tipos. uma das minhas bandas favoritas era o sepultura, eu não conseguia me decidir se gostava mais de seu disco mais molhado (beneath the remains) ou mais seco (arise); eu gostava de soilwork, de trivium, de metallica (mas só os antigos!), de slayer (mas só o reign in blood!), de megadeth (e o the system has failed era o melhor!). blind guardian foi minha banda favorita até os dezesseis anos.
ela estava perdendo esse posto para o dream theater.
eu vou apresentar o dream theater pra vocês em alguns atos:
oi! ouvi dream theater pela primeira vez, tenho quatorze anos. não sei se gosto de ouvir isso mas, meu Deus! que banda divertida de jogar em simuladores de guitarra! devo assumir que todas as músicas deles são legais e me fazem me sentir jogando um jogo de navinha.
oi! eu gosto das músicas do dream theater porque os caras tocam demais. o john petrucci é um dos melhores shredders, o jordan rudess é meu tecladista favorito e faz uns solos doidos demais. o labrie eu não gosto muito, acho que existem vocalistas mais poderosos que ele, seria muito legal ver o hansi kürsch cantando dream theater. ou o russell allen, pode ser o russell allen também. será que um dia vão tirar o labrie e colocar o russell allen no dream theater? seria a banda perfeita! ah é, tem o john myung, o japinha. não sei o que ele faz na banda. cheguei nos meus dezesseis anos essa semana.
oi! dream theater é sensacional. bem-vindo aos meus dezessete anos. eu prestava muita atenção nos solos, mas pensando bem, shredding é besteira. o mais interessante do dream theater são as bases. as bases são demais, parecem os riffs mais poderosos do metallica, todos eles são muito complexos e meu-Deus-do-céu! nem precisa do solo, tira o solo, só a base é suficiente. que demais.
oi! tenho dezessete anos e me identifico com todas as músicas do dream theater. porque elas são tristes como eu, cheias de traumas, demônios e transtornos psicológicos como eu. a minha vida é horrível como uma música do dream theater.
oi! tenho dezoito anos e sou a banda dream theater.
oi! escrevo uma novela chamada “templo de ganesha” e reconheço, com clareza, que dream theater é um projeto do ganesha. que dream theater destruiu minha vida. que dream theater é horrível, mal-feito, porque tudo o que o ganesha faz no fundo é mal-feito. qualquer ser humano que recusa aliança com o ganesha é melhor que o próprio ganesha. as únicas pessoas que são piores que o ganesha sem se aliançarem com ele são as pessoas para as quais ganesha jamais pediria aliança — a aliança do ganesha serve para impedir o florescimento da arte humana subserviente à pureza da arte do Criador.
e calma! calma lá! calma mesmo! eu sei que você está ficando cada vez mais perdido, mas por favor, não desista de mim. não estou te confundindo de propósito, é só o meu jeito de contar a história.
aos dezesseis anos eu tinha esse problema horrível: eu não sabia que tinha uma arte dentro de mim. usava a espada para abrir fendas na realidade e sobreviver. a adolescência cética me convencera que todas as pessoas tinham espadas e que essas fendas não eram reais, eram apenas mentirinhas que as fendas inventavam para nos deixarem satisfeitos. eram ficções. eu acreditei que todas as pessoas viviam como eu só que elas tinham aprendido a viver, enquanto eu continuava sendo derrotado dia-após-dia por vozes que eu não sabia de onde vinham, espíritos que eu não mais via. por não saber que a espada era minha e só minha eu acreditei que o mundo tinha evoluído sem mim, que eu era um “resto”, alguém que os lixeiros humanos eventualmente passariam para buscar e jogar no caminhão de lixo para ser moído.
eu nunca tinha me interessado pela arte. era um pequeno artesão, se comparado aos meus amigos que são verdadeiros artesãos, de palavras, mas não as levava a sério e não chamava nada daquilo de arte. até hoje não sei muito bem o que as pessoas acham da arte.
e a Elohim, minha antiga amiga, fora completamente distorcida com o tempo. digamos que minha adolescência começou com uns dez anos. certo. com dez anos eu passei a ter uma relação conturbada com Elohim. não queria mais abrir aquela fenda porque já estava contaminado demais por outras fendas. já tinha me tornado um garoto desprezível, desobediente, rebelde e, portanto, não fazia mais sentido ser amado por ela. toda vez que ela me elogiava eu me sentia triste, como se estivesse escondendo algo, já que ela não parecia saber que eu tinha me tornado uma pessoa tão ruim. era como se estivesse a defraudando.
então um “eu te amo” da Elohim era algo que eu ouvia à distância. qualquer voz poderia abafar o seu amor. foi muito fácil para satanás entrar e tomar conta, eu nem sei quando foi que tudo começou, só sei que aos dezesseis estava vivendo essa experiência de ser possuído pela primeira vez e sei que foi algo simples, que não soube identificar que eram possessões porque, de fato, não se parecia com nada do que acontecia nas televisões e nos boatos. eu tinha comportamentos que não eram meus mas, como qualquer coisa parecia mais tolerável do que eu, não via problema algum em reproduzi-los, e a única coisa que me parecia estranha era acordar num dia e ler no meu caderno algo escrito com a minha letra dizendo coisas que eu não fazia a menor idéia de onde tinham saído.
eu nunca li carl jung. exceto que li, porque há uma citação dele com contexto e propostas de interpretação daquele “o homem e seus símbolos” no meu caderno. eu só não sei em que “eu” ele está.
haviam espíritos usando meu corpo para viverem coisas, mas eles foram espertos. para que não me sentisse estranho enquanto vivia pessoas que não eram eu eles minaram minha identidade, para que eu esquecesse quem eu era, e então seria fácil viver qualquer coisa porque não sabia o que deveria estar vivendo. eu só saberia através do choque de contradições. não fazia sentido eu não saber quem tinha escrito aquilo e o que queria dizer, ao mesmo tempo em que tinha que ser eu porque a letra era minha e o caderno era meu.
vocês não podem fazer nada. esse território é meu. passou-se um dia e nenhum de vocês conseguiu realizar o desejo de falar do seu mestre para alguém. as leis desse lugar são minhas, as pessoas beijam os meus pés e crêem que, se não beijarem, morrerão. seus filhos morrerão. seus netos morrerão.
essas são as pessoas daqui. desista delas! é tolice persistir no meu lar, rapaz. eu estou entronizado junto com tantos outros deuses. consegue sentir esse peso? sim, esse peso sou eu. usando o ambiente e a fé dessas pessoas para pisar em seus ombros, como se eu possuísse o controle até mesmo da pressão atmosférica. a força desse cheiro é minha. tudo aqui é meu. você não vê que, enquanto não aceita a minha proposta, é meu inimigo e vou humilhá-lo? você não vê que é misericórdia minha os policiais não estarem te rodeando e se preparando para deportá-lo daqui direto para o inferno?
blefe do ganesha. oh, meu velho companheiro.
esse blefe também foi algo que vi satanás fazendo muito. não aceite, jamais aceite, jamais compre a idéia de que satanás tem misericórdia de você. tem pena, dó. acredite: se ele não está conseguindo lhe tocar é porque há alguém segurando seus braços. você deve saber ser grato a essa pessoa e também aproveitar a oportunidade de estar livre, porque essa pessoa não está segurando satanás para você ficar sambando na chuva, embora acredite muito que é saudável sambar na chuva de vez em quando. ela está segurando satanás para que você faça alguma coisa.
mas não. satanás não tem misericórdia de você. ele te odeia. com tanta força que, se você chegar muito perto para investigar, ele te pega e faz contigo coisas que prefiro não descrever.
antes de continuar a história sobre o templo de ganesha, devo dizer: essa história não é sobre mim. também não é sobre as pessoas que estavam junto comigo. essa história é sobre o Criador. é uma peculiar visão de uma missão do Criador sobre eventos que, talvez, tenham acontecido mesmo mas, com certeza, não foram encarados de maneira a desenrolar mais sobre o que aconteceu no mundo dos espíritos do que o que aconteceu no mundo da matéria. para um quadro completo, ouvinte, talvez eu devesse conhecer a fundo o espírito de todas as pessoas. no entanto me restrinjo ao direito de usar apenas tudo o que há do meu próprio espírito, toda a maneira como o Criador utilizou os meus quadros para montar o seu.
agora sim explicarei como fui parar no templo de ganesha. como terminei num confronto de seis ou sete dias com esse elefante antropomórfico gigantesco, a quem pessoalmente dou alguns adornos de metal para que consiga vê-lo não como alguém somente pesado mas como alguém que, apesar de pesado, logo se transforma em um objeto em forma amigável para movimentos rápidos. o ganesha possui longos braços, é flexível e sabe rolar. nenhum desses detalhes é importante para a história, mas talvez você queira saber.
nós fomos enviados a uma missão. sete dias, poucos detalhes. foram-nos dados alguns alvos — algumas crianças — , suas histórias e só. nós não sabíamos o que fazer. se soubéssemos, ainda assim não saberíamos como fazer. se soubéssemos, ainda assim não saberíamos se poderíamos fazer. o solicitante? o Criador. o inimigo? nós também não conhecíamos. disseram-nos que era lúcifer, e talvez ele realmente fosse o maestro daquela orquestra, mas nossos inimigos eram isso. uma orquestra. você já espera o dream theater, depois de eu ter falado dele, não é? pobre dream theater. se posso dar um exemplo aos seus ouvidos, ouvinte, vou tentar assim: você alguma vez já ouviu a mahavishnu orchestra? enquanto o dream theater é uma série de feitiços pobres para descontar fluxos contínuos de frustrações, a mahavishnu orchestra não tem nenhum feitiço, ela é uma fenda real que traz o máximo de peso do mundo dos espíritos ao nosso mundo sensível. eu aposto, ouvinte, que era o sonho da banda dream theater tocar ao vivo algum disco da mahavishnu orchestra, mas eles não foram capazes sequer de tocar ao vivo seu próprio disco octavarium, quanto mais seriam capazes de reproduzir com alguma firmeza o trabalho da mahavishnu orchestra.
a mahavishnu orchestra é real. tudo aquilo é real. mesmo que você, durante o disco, seja transportado para uma realidade paralela que parece triturar sua estrutura espiritual sem dó, que se crie uma espessa nuvem de depressão nas regiões celestiais enquanto você a ouve e você possa se contaminar com isso e perder um pouco o seu senso de existência, é tudo real. é um gostinho do sistema. um gostinho da condenação da sua casta, um pouquinho da sentença que está reservada para você caso não se proteja em alguma estrutura espiritual rígida o suficiente para combater os devoradores, o gostinho de um mundo sem luz, sem esperança, onde seus ossos se corroem, as correntes elétricas na sua mente perdem a ordem e há a impressão de que seu cérebro vai fundir a qualquer momento. cheiros fortes, venenosos. aflições terríveis. mas tudo incrivelmente real, nada forjado.
o mahavishnu orchestra é uma fenda como qualquer outra.
e eu, ouvinte, aos dezoito anos comecei a desenvolver dentro de mim uma fenda semelhante à do mahavishnu orchestra. sem nunca tê-lo ouvido antes. eu ouvi mahavishnu orchestra meses antes dessa missão porque senti, em meus ouvidos, que encararia algo como isso ali. sem nunca tê-lo ouvido antes. talvez sua mente fique meio perturbada me ouvindo aqui, agora, porque estou expelindo em você parte dessa fenda. mas estou te acompanhando. você está seguro. talvez, se você não acredita em Jesus, eu recomende que você converse comigo sobre o que está sendo exposto porque a única maneira que encontrei de abri-la sem ser derrotado foi assim, com a Cruz — eu prometo não tentar te converter nem nada disso, apenas te oferecer os meus braços; se você acredita, sinceramente, se isso te perturbar, vá falar com ele, não comigo. falta um pouco de noção para o tamanho do seu inimigo se a história da minha fenda mahavishnu-esca te choca, e honestamente eu gosto de chocar cristãos, eu sinto prazer nisso, porque o cristianismo não é um tratado que se faz com as leis do universo para se viver feliz já que viver numa igreja feliz debaixo de uma família feliz lhe dá uma estrutura que torna seguir essas leis algo fácil e lhe dá vantagens ególatras sobre os menos afortunados.
o cristianismo é guerra espiritual.
o tempo todo.
aos dezoito anos eu contemplei a minha primeira carta de suicídio.
ela tinha a minha letra. talvez não fosse eu, talvez fosse alguém me usando, mas que diferença fazia? mais cedo ou mais tarde eu tiraria minha própria vida. eu não sabia como. eu só tinha coragem de me jogar. tinha medo de qualquer coisa que fosse levar tempo e pudesse me dar a oportunidade de me arrepender, tinha medo de qualquer coisa que fosse doer. eu não queria, na verdade, morrer.
eu só queria que acabasse.
eu abria fendas todas as noites e delas saíam os mais diversos espíritos fúnebres. era, também, como uma orquestra. diversos instrumentos, cada um deles assoprando um som sepulcral diferente em meus ouvidos. a orquestra da morte. uma depressão inexplicável que me fazia chorar todas as noites, me espancar todas as noites, rabiscar dores nos papéis todas as noites. alguns deles eu rasguei com a caneta. outros com os dentes. eu também já escrevi algumas coisas com meu sangue, felizmente não me lembro de nenhuma com precisão, infelizmente me lembro que uma delas era um grito desesperado por “amor” e não duvido que seja isso que esteja escrito ali em vermelho. eu aprendi a rir maniacamente da minha própria dor, a me divertir com meu estado espiritual catastrófico, a gritar entre quatro paredes “CADÊ ESSE DEUS MISERICORDIOSO QUE TANTO FALAM?!” e gargalhar enquanto continuava a me machucar. a maneira como eu me sentia naquelas noites me assusta, ao ponto de eu ter medo das minhas próprias emoções e sentimentos, porque o que poderia acontecer se eu expressasse todo o meu potencial artístico mais uma vez? como eu poderia viver uma vida comum se em algum momento dela, que talvez fosse esse, eu havia decidido viver uma verdadeira obra-de-arte e sacrificado todo o pouco de sanidade que havia dentro de mim? quem era eu? quem sou eu?
eu não deveria ter brincado sozinho de espada. guardado tudo o que trazia das fendas no meu quarto, escondido debaixo da cama. elohim não era má. nem tudo o que saía dali era monstro, pelo contrário, satanás foi abatendo aos poucos os meus anjos da guarda.
mas isso aconteceu e, tcharan!, o mesmo maestro era nosso inimigo dessa vez. segundo as especificações da missão, é claro. logo a sua orquestra estaria tocando no ambiente. e isso, devo dizer, não é algo que estava nas especificações da missão, mas ouvimos assim que chegamos ao local de batalha. não precisamos descer do avião, já víamos as vibrações causando seus efeitos nas casas, nas lonas azuis, nas pessoas andando pelas ruas debaixo de um tradicional sol escaldante. quando descemos do avião, no entanto, o som ficou altíssimo e não parou mais.
essas pessoas, ouvinte, vivem debaixo da orquestra da morte o tempo todo. elas estão habituadas a isso. possuem muito pouco mas, esse pouco que têm, sacrificam a pessoas como o ganesha para que um ou dois instrumentos (de milhares, ou até mesmo de milhões) parem de tocar em suas cabeças.
quando vi o velhinho dedicando seu tempo ao ganesha, enquanto o mesmo zombava dele e me oferecia esse cargo celestial, eu lembrei de mim mesmo e de como daria qualquer coisa para que a orquestra parasse. enquanto satanás acreditava ter o monopólio da orquestra do meu espírito ele me tratava da mesma forma. eu perguntava o que poderia oferecer para que isso parasse e ele respondia, rindo, “não existe nada! eu vou te levar dessa forma! dessa forma patética, desmoronada. destruindo a sua família, a sua história, o legado do seu Criador. não existe saída. não existe nada que você possa me dar! eu já tenho tudo o que quero de você!”. e então cortemos para as cenas recentes, onde o ganesha praticamente lambia os meus pés, me perguntando “o que eu posso te oferecer?”.
oh, ganesha, eu sei muito bem o que você e sua banda podem me oferecer. eu sinto ódio de cada integrante dessa banda. fazer parte da destruição de cada projeto deles me faz bem. e eu posso não ter poder nenhum para isso, mas vou usar o meu corpo, a minha alma e o meu espírito para ser usado por quem pode.
não se preocupem, ouvintes. não pretendo circular pelas minhas emoções o tempo todo. estou colocando as cartas mais violentas na mesa logo agora porque, como disse, é uma história sobre o Criador e não sobre mim. estou descrevendo as lentes para que não se sinta perdido. ou, caso se sinta perdido, sinta-se perdido como eu me sinto e não como você se sentiria, porque no final das contas o narrador sou eu.
então o senhor, pobre senhorzinho, estava fazendo as coisas que eu um dia já fiz em busca de paz. não a paz, mas um pouco de paz. qualquer paz. qualquer coisa. qualquer melhoria. e o pobre senhorzinho ali representava toda uma população debaixo da alucinante e mortal orquestra das artes tradicionais do oriente. essa era nossa missão. era assustador. desde o início eu me deparei com cenas como essa e fiquei perturbado, não só por ser “perturbador” — até porque era uma cena razoavelmente normal de alguém agindo como um robô e isso se vê em qualquer igreja, de uma maneira nas protestantes e de outra nas católicas, nós é que estamos acostumados com os deuses das tradições do ocidente — , mas porque a minha intimidade espiritual com o que estava acontecendo ali mexia com o meu interior de uma maneira muito intensa.
essa era a nossa missão.
era assustador.
quando saí do templo, após esse diálogo com ganesha, encontrei os meus amigos e prosseguimos com a parte fácil da missão. comprar nossos suprimentos, o nosso básico para sobreviver. esse templo, por incrível que pareça, faz parte do “fácil”. até então as portas estavam todas fechadas para nossas ações, estávamos com os braços amarrados, dedicando-nos integralmente a tapar nossos ouvidos enquanto a orquestra infernal tentava infiltrá-los, então não havia missão. em alguns de nós cresceu uma indignação enorme no coração, nenhum de nós aceitava que tínhamos entrado naquele território, que estávamos no lugar certo, com a intenção certa, instruídos pela pessoa certa e que o resultado final de tudo aquilo seria apenas passarmos sete dias com os ouvidos tapados.
em mim, particularmente, cresceram dois sentimentos de forças opostas. um de inadequação, porque eu sabia que o ganesha não tinha falado com os outros, só comigo, só eu era estranho e errado o suficiente para que o dono daquele templo tentasse um diálogo ao invés de somente gargalhar em forma de pressão atmosférica. o outro de paixão, porque foi fácil lembrar como a minha vida é melhor do que qualquer coisa que o ganesha pode me oferecer, porque o meu amor me dá tudo o que eu preciso, e não só isso como pude confrontá-lo e dizer que estou seguro envolvido por um espírito que me ama e me consola de verdade, espírito esse que me abraçou, olhou atentamente aos olhos do elefante falante e lhe disse “perdeu, playboy”.
o nome dele (ou dela se quiser, se achar mais romântico) é Elohim.
não, ganesha. eu jamais vou me arrepender da minha escolha.
eu queria muito escrever a história toda num ato só mas! bem! acabo de lembrar que tenho essa ferramenta maravilhosa de poder escrever vários capítulos. então vários capítulos ela terá.