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vi. ato 6. o poder da influência (Loiríssima) (parte 1)

25 de março de 2023

luzes. câmera.

Além de todos esses sentimentos mágicos, eu era uma pessoa normal. Como todas as pessoas que possuem sentimentos fantásticos mas são normais, não é?

O ouvinte deve ter percebido que estou sempre falando de eventos da igreja e o fato é que eu vivia acampado em igreja nessa época. É como disse no começo da história: estava no “auge” então fazia por onde, servia no máximo de ministérios que conseguia encaixar na minha agenda: saía para conversar com pessoas em situação de rua na segunda depois do seminário, com pessoas nas UPAs na terça depois do seminário, ia para as reuniões de oração nas quartas e depois ao seminário, aparecia na igreja mais cedo na quinta antes do seminário e, na sexta, quando não tinha seminário, só para não perder o costume, aparecia na igreja também.

No sábado, servia no culto de idosos quando tinha, depois ia para o meu grupinho de jovens, depois culto de jovens. No domingo, culto de domingo, porque estava um pouco cansado e não poderia servir no culto de crianças, mas também tentei.

Às vezes só ficava lá um tempo escrevendo, às vezes conversava com quem encontrasse, às vezes ficava conversando com o porteiro.

O fato é que as chances de me encontrar na igreja em horário não-comercial eram altíssimas, e é por isso que esse tempo foi meu “auge”. Não estava buscando esse auge, a igreja realmente era o lugar que eu mais gostava de estar. Era ótimo pra escrever e eu precisava muito escrever, alguém precisava receber todas as ansiedades que eu estava me esforçando para evitar e esse alguém eram meus cadernos.

Achava um espacinho dentro da igreja pra entrar nesse meu mundo mágico com no máximo meu Deus e chorava lá dentro, me divertia, me espantava e tudo mais.

Tudo isso pra explicar que, sim, todas as histórias que virão estão dentro da igreja. E quero que saibam, já com antecedência, que me arrependo disso.

Me dá uma coisa ruim saber que passei anos tendo amizades apenas dentro da igreja e sentindo que estava certo nisso. Que achava que essas pessoas eram as mais confiáveis, que guardariam meus segredos, que teriam compaixão com meus defeitos e que reconheceriam as minhas qualidades por valores “infantis” como amizade, amor, admiração.

Não estou dizendo que ninguém presta na igreja mas que é horrível “estar no auge”, que existe um sistema de poder horroroso lá que devora pessoas sem interesse nisso, que pessoas têm sonhos molhados com receberem um título de “pastor” e pautam seus interesses dentro do templo assim.

Elas se sentem pessoas especiais por serem “amigas do pastor”, por receberem “oi” de pastor, por serem reconhecidas como pessoas retas, pessoas sem pecados, pessoas extraordinárias, pessoas que servem muito.

Não vou negar que de fato são bons sentimentos. É legal sentir que está cercado de amigos, que é admirado e amado, que é respeitado.

É muito mais fácil lidar com a vida tendo essa confiança. Ela se torna mais segura, ainda que essa segurança no fundo seja falsa e dependa dessa aprovação das pessoas “que estão no mesmo caminho”. Parece que sua vida está com um norte simplesmente porque pessoas, que podem sequer saber quem você é de verdade, te aprovam. É bem perigoso.

Nunca fui respeitado em lugar algum como uma “pessoa descolada”. Na faculdade eu era considerado um gênio, mas o gênio é uma pessoa exótica, não popular. As pessoas não querem te conhecer, a não ser que precisem de ajuda com suas atividades.

Quando você é uma pessoa descolada, pessoas que você nunca viu chegam e dizem “é você que é o famoso tanananan”, torna-se muito fácil criar novos relacionamentos porque as pessoas já são receptivas contigo antes mesmo de te conhecerem. De repente está acontecendo uma festa e, primeiro, você sabe que está acontecendo uma festa, segundo, é só aparecer, muita gente vai achar ótimo e você não vai sofrer pra se enturmar.

Essa era a parte que eu gostava. A da facilidade para se conectar com pessoas. A aprovação delas já é algo que nunca me convenceu, nunca tive auto-estima pra isso.

O que nunca fez parte de mim é um negócio chamado “poder”. O tal do “sistema de poder”. Também nunca tive auto-estima o suficiente para me achar superior a ninguém.

Uma vez me disseram que eu era especial por ter me tornado assistente de um dos pastores mais importantes da igreja (“pastores mais importantes da igreja” o erro já começou aí, não é?), o que vamos narrar ali pra frente. Eu boiei, não entendi por que eu seria especial sendo que era literalmente só estudar uma matéria e ajudar.

Principalmente, e isso é muito importante, não entendi por que aquele pastor era especial já que nunca vi pastores como pessoas excepcionais, melhores, mais puras, intelectuais e santas que outras. Pelo contrário, vendo-os mais de perto como seminarista, aprendi que eles são pessoas bastante frágeis, cheias de defeitos como eu, apenas estão lá porque é o que elas sabem fazer.

Estou numa empresa programando porque é o que sei fazer.

Aliás, estou na mesma igreja desde que nasci, muitos pastores de hoje cresceram comigo e vi alguns deles fazendo bobagens, vi outros sendo babacas, porque é o que crianças e adolescentes fazem e são, então nunca exigi que eles fossem santos.

Além disso, minha família por parte de pai é crente desde o bisavô, tenho pastores e líderes religiosos na minha própria família, alguns bons, outros bem canalhas e hipócritas.

Pastor nunca foi nada excepcional pra mim, sempre os respeitei muito, admirei muito pelos seus próprios méritos, mas nunca senti uma “presença sobrenatural” só porque uma pessoa com posição na igreja chegou perto de mim. A mesma presença sobrenatural que habita o coração dele habita o meu.

Antes de entender isso o cristianismo soava tão ridículo pra mim que eu era ateu.

Mas as pessoas de igreja sentem essa “presença”, essa coisa diferente no pastor e portanto, é claro, querem isso para elas.

A igreja é um contexto de poder, é importante perceber isso. Existem pessoas que simplesmente gostam de controlar a vida de outras pessoas, embora essas pessoas não gostem dessa palavra. Elas preferem “cuidar”.

A igreja é um lugar composto em maior parte por pessoas doentes que precisam de uma luz na vida, todo “novo convertido” está disposto a se convencer de qualquer coisa que demonstre trazer cura para suas feridas de todos os tipos, mas especialmente as emocionais. A igreja oferece isso com muita facilidade.

Veja bem: você vive uma vida triste e desequilibrada, cheia de problemas, então de repente chega num ambiente onde as pessoas parecem estar todas vivendo bem, em equilíbrio, harmoniosas, e tem a impressão de que essas pessoas sabem viver e você não.

Então você recebe um manual de como viver corretamente e esse manual traz explicações que abordam várias questões básicas da existência humana e as contas, a princípio, parecem todas fechar. Sem contar que: eles estão “vivendo bem”, o manual não pode estar errado.

Em seguida, você é bombardeado com espetáculos que miram explicar de maneira simplista suas emoções com uma sopa de conceitos das abordagens mais impositivas da psicologia, e também as questões de fé comuns porque, afinal, todo brasileiro tem alguma fé, seja ela evangélica, seja aquele catolicismo frágil da avó que não conseguiu convencer os pais a levarem-no a sério, seja algo meio sem-religião mas todo supersticioso feito com raspas do tacho das religiões de matriz africana, ou quem sabe de fato alguma religião de matriz africana, ou espiritismo, ou tudo isso ao mesmo tempo.

Muitas pessoas adquirem um relacionamento sectário com a igreja.

Não tenho coragem de afirmar que igrejas evangélicas são seitas, não me peçam isso, por favor. Não vou impedir que ninguém o faça, mas eu não faço, porque me parece mais complexo que as seitas que existem por aí.

Pra começo de conversa: sou cristão, acredito em Jesus Cristo, em céu, em salvação, então por mais que a porcentagem de doutrinas que desacredite na história do cristianismo possa chegar a até 99% e eu não esteja nem minimamente interessado em convencer alguém do 1% que eu acredito, eu acredito. Acredito que algo é real. Acredito que, até nas igrejas, algo é real.

Acredito, também, que deve existir uma maneira das igrejas não serem esse jogo de poder espiritual doentio, acredito que muitas pessoas que lideram não fazem parte disso e até acredito que pastores não façam parte disso. Não gosto de acusar ninguém.

Sei que estou falando coisas que carimbariam na minha testa algo tipo “HEREGE”, “DISSIDENTE”, “MENTIROSO”, “MANIPULADOR”, “DIABÓLICO” mas, honestamente, o pastor que fizer isso, o líder que fizer isso, estará passando recibo. Qualquer pastor honesto sabe que possui vidas em suas mãos, algumas delas capazes de fazer absolutamente tudo o que pedirem, sabe o peso disso, e muitos deles gostariam de se desvencilhar desse peso.

Um TCC de um colega meu na Teologia trouxe dados demonstrando que pastores são uma das classes que mais cometem suicídio. Só alguém que gosta da sua tirania ousaria dizer que estou atacando a igreja e não demonstrando um problema estrutural gravíssimo que prejudica qualquer pessoa honesta.

O fato é esse. Cada vez que você vê as coisas acontecendo na sua frente de um jeito, mas prefere acreditar no pastor dizendo que as coisas não acontecem assim, você está tendo um comportamento de membro de seita.

Um pastor não é melhor pai que você para seus filhos, melhor marido que você para sua esposa, melhor responsável que você pelas suas próprias decisões e, aliás, ele não vai responder por nenhuma das decisões idiotas que você tomar em nome dele. Só vai ficar falando “Deus vai honrar” pra tirar o cu da reta. Palavrão, foi mal, talvez seu pastor vá me desqualificar porque usei um.

Não deu estudo pro seu filho porque pastor falou pra ficar pagando viagem missionária e agora seu filho vive de bico? Problema seu. Largou emprego pra fazer missão e, agora que a missão terminou, não consegue mais voltar pro mercado? Problema seu.

As pessoas têm um talento enorme para não se responsabilizarem por conselhos idiotas dados de maneira passivo-agressiva e descompromissada no púlpito. Ninguém pede desculpa, nunca vi acontecer.

Talvez Deus nunca honre sua decisão idiota baseada na palavra do pastor porque não era pra você fazer, porque pastor não é Deus, pastor não tem resposta, pastor só tem autoridade pra te incentivar a estudar mais a Bíblia e orar mais. De resto, ou ele te dá um conselho como amigo (e amigos não dão conselhos com passivo-agressividade e técnicas documentadas ou não de manipulação), ou te dá uma ordem como um bom pau no cu. Palavrão de novo, que heresia!

Agora imagine uma instituição composta de muitas pessoas assim.

As pessoas se sentem incentivadas a gerarem reflexos de si conforme vão “melhorando”, porque “humildade” não é um valor ensinado como mais do que uma palavra vazia.

Parece que as pessoas dentro da igreja são as únicas pessoas saudáveis no mundo, elas se convencem muito rapidamente de que se tornaram melhores do que as pessoas fora dela e, embora descubram com menos de um ano que continuam as pessoas frágeis de sempre, esquecem de perceber que continuam não sendo melhores do que os outros lá fora.

Passam por inúmeras decepções consigo mesmas e essas decepções servem para que elas se tornem cada vez mais dependentes de suas lideranças espirituais, mas nunca mais humildes com relação ao mundo ao seu redor.

Se os pais não são cristãos, talvez eles não sejam bons conselheiros, mas você deve ao menos fingir que os ouve porque eles conhecem o seu “velho homem” e tá na Bíblia que precisa honrar os pais.

Se os amigos não são cristãos, definitivamente, eles não são bons conselheiros, substitua-os por amigos cristãos, que possam te falar que a solução para os seus problemas é a doutrina bíblica do momento, isso é urgente e imperativo.

Se sua namorada não é cristã jogue-a fora, afinal só cristãos acreditam em compromisso, ela provavelmente não acredita.

Se sua esposa não é, aí complicou, porque na Bíblia diz que não pode divorciar. Bem, você sabe que, se o cônjuge não-cristão quer se divorciar, não é responsabilidade sua, né? O que significa que as mulheres cristãs se tornam ultra-dependentes da igreja, orando dia após dia para a conversão dos maridos, fazendo de tudo por isso e se tornando vulneráveis nas mãos dos piores homens não-cristãos. Já os homens cristãos... não sei o que acontece, eles infernizam tanto a vida da esposa que a esposa não aguenta e se divorcia? Sei lá, estou dando um palpite. É que não costumo ver muito. Nada impede, né?

Assim você fica cada vez mais vulnerável a essa rede de pessoas que possuem uma maneira de viver, de pensar, de se relacionar, mas também vai se tornando cada vez mais um agente predador de novas vítimas, tornando-se cada vez mais radical.

De repente te dão um cargo mesmo com toda sua fragilidade e você não entende muito bem mas vê nisso uma forma de ser validado, mas ao mesmo tempo é uma responsabilidade, são “vidas” para você “cuidar”, então você precisa de mais e mais conselhos de pessoas que estão “acima” de você para que possa “cuidar” dos que estão “abaixo”.

Quanto mais você faz o que te mandam, mais você é aprovado. Quanto mais as pessoas abaixo de você fazem o que você manda, mais você é aprovado. Deu pra entender?

E, o mais engraçado, você pode simplesmente não viver nada disso. Pode simplesmente viver sua vida na igreja como uma pessoa normal. Como uma pessoa que acredita naquilo, mas não participa dessa coisa esquisita.

Você não vai ter uma série de benefícios mas acredito que, se não participa, é porque esses benefícios não são relevantes ou não valem a pena. Isso se aplica a todo mundo. Existem os pastores que não participam disso e os que participam, os líderes que não participam e os que participam, ovelhas que não participam e as que participam.

Mas, prepare-se, se você está tendo algum destaque na igreja, essa estrutura vai se mover para te trazer pra dentro ou te expulsar de lá.

Foi o que aconteceu comigo.

Dizendo assim, pareço um santo que não se envolveu em nada disso por ter um caráter elevado e blablabla, mas a verdade é que não participei de nada disso por motivos bem pouco nobres: sempre tive muito ódio.

Sempre me senti desprezado pelas pessoas naquela igreja, tinha no mínimo uma história de decepção com cada uma daquelas pessoas que cresceram comigo porque, você deve lembrar disso e eu cheguei a mencionar nesse capítulo, eu sofri bullying lá.

Só vieram me pedir perdão quando quebrei o pacto de silêncio que me forçaram a fazer e contei ao meu pai que não queria fazer parte dos eventos da igreja porque os meninos me humilhavam lá, isso virou uma bola de neve, e aí aconteceu o pedido de perdão forçado, um pedido fajuto com uma cara de “você vai pagar por isso”.

Meus amigos na igreja sempre foram pessoas mais velhas e aqueles meninos da “periferia da igreja”, aqueles que os descolados não gostam e tentam fazer os outros não gostarem também.

Essas pessoas descoladas sempre foram alvo do meu desprezo e essas pessoas descoladas são aquelas que assumem cargos de liderança quando crescem. Os meus amigos são aqueles que saem da igreja e, às vezes, infelizmente, perdem sua fé.

Eu perdi também, não foi minha culpa que a recuperei, só aconteceu.

Nunca acreditei que essas pessoas gostassem de mim. E nisso, assumo, errei um pouco, porque alguns gostaram de mim. Não estou dizendo como alguém cheio de razão, tive razão em muita coisa sim, mas preciso ser sincero e reconhecer que fui assombrado por esses sentimentos o tempo todo e eles me fizeram desconfiar de pessoas que não mereciam.

Não estou dizendo que não tenho amigos na igreja, nem sequer saí dela, tenho as pessoas que amo, que confio, que me ajudaram a construir meu casamento, a minha casa. Que me amam.

Estou dizendo que muitas pessoas ficaram presas nos meus espinhos e isso é uma pena.

Mas, então, isso me impediu de participar.

Talvez, se eu tivesse sido o garoto descolado na infância, teria participado como todo mundo. Mas fui esse garoto desprezado, maltratado, que ouvia que não era homem de verdade, que só atrapalhava, era desastrado, chorava, que brincava com as meninas porque os meninos não queriam lidar com alguém tão sensível. Então eu não quis participar.

Já foi suficiente ter aula com pessoas que nem imaginavam mas eram alvos de dez anos de desejos guardados meus de esfregar suas caras no asfalto.

Não queria ensinar ninguém a ser “homem de verdade”, não falaria que hoje em dia tudo é bullying, que a gente não pode mais brincar, não pode mais falar nada, porque pra mim não pode mesmo, porque eu teria sofrido muito menos se eles tivessem tido o mínimo de sensibilidade e maturidade de se importar comigo e, toda vez que eles pregam isso ao invés de reconhecerem que fizeram sim umas merdas enormes e seria bom se as próximas gerações não as repetissem, eles enfiam uma nova estaca no meu coração.

É por isso, e só por isso, que não quis participar. Nenhum sentimento muito lindo e elevado, apenas amargura. Quem se importa? Porque eu não me importo.

Você leu um capítulo da série noite na pequena londres ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados

Você leu um capítulo da série a identidade

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escrito por nubobot42 narrado por heartshaped star