Série: deep freeze ~ abaixo-de-zero por ansiedade / a identidade

deep freeze ~ abaixo-de-zero por ansiedade i

19 de setembro de 2019

eu não sei quem sou

 

não me peça para me olhar no espelho.

eu preciso ensaiar para dar aula, ou para uma palestra. eu nunca ensaiei para um minutinho de aula, muito menos para um minutinho de palestra. talvez, e só talvez, eu tenha ensaiado para tocar em um show de rock’n’roll, mas jamais pensando em treinar minhas expressões faciais. eu sempre fui um garoto de improvisos. um garoto de improvisos.

um garoto de improvisos.

o jazz é um gênero musical criado por negros para fazer não-sei-o-que, enquanto não-sei-o-que acontecia em algum momento da história que não me lembro qual é. eu me lembro qual é. eu sei o que estava acontecendo. eu sei o que os negros estavam fazendo. ao menos pesquisei a respeito. porém não vou falar porque não lembro, ou pode ser que eu me lembre, mas não sei com qual precisão consigo me lembrar, e pode ser que erre uma informação ou duas, e aí a mídia vai dizer que estou mentindo descaradamente para validar meu discurso embora não haja discurso nem mídia. há olhos. sei que os olhos estão aí, em algum lugar. eu não sou louco. sei que alguém está olhando e alguém vai me cobrar por isso, sei que vou pagar, não quero errar. não posso errar. é por isso que sou um garoto de improvisos.

um garoto de improvisos.

ainda que o encarceramento da minha alma seja diário e que, amarrado a uma barragem emocional prestes a explodir e destruir uma cidade inteira de pessoas que se dispuseram a morar nas minhas regiões internas, tenho medos constantes que ocasionalmente se concretizam e quase sempre me deixam só, sofrendo as desordens de uma mente confusa e sentimentos mortais que me fazem destruir partes aleatórias do meu corpo as quais já até mesmo me acostumei a destruir e sentir dor e hoje sinto que, se uma ditadura me prendesse e me torturasse, talvez seria apenas mais do mesmo, e estou exagerando e mentindo como sempre faço em minha mente, sabendo que uma tortura não se compara às partes do corpo que rasgo e deixo sangrar por medo do que não vai acontecer, embora eu acredite que a minha fé negativa acabe dando vida a monstros e demônios que jamais poderiam existir. quantas vírgulas! eu sou um péssimo escritor. existir é uma lástima. a minha vida é um erro.

fácil julgar a automutilação não estando presente na mente de alguém que tem medo que as paredes caiam pra frente, que tem medo que todos em algum momento puxem as cortinas da vida e digam “que pegadinha patética!”, tem medo de postes explodirem e olha para os dois lados e para o céu e para o chão antes de atravessar a rua embora a mesma rua tenha apenas uma mão, e seja deserta de máquinas modernas por ser a do bairro de periferia onde não circulam carros mas crianças com pipa. fácil viver sem medo de ser preso por suas opiniões às vezes pesadas às vezes ridículas, de ser pego de porrada na rua por seu visual patético ou por suas roupas coloridas, ou simplesmente carregando o peso de um passado de violências e violentações. fácil não esperar de sua amada uma facada ou um estupro, ainda que esteja provado o amor por A+B, e que já estejam escritos a você os votos do vosso casamento e já estejam enxugadas as lágrimas de joelhos de alguém que já confessou abertamente que um dos seus piores medos é perdê-lo. fácil não se enxergar como um mero parque de diversões às pessoas, uma necessidade mórbida de sorrir, de entreter, de não deixar o silêncio dos outros se comunicarem contigo como se o silêncio fosse assim um atentado terrorista às torres gêmeas do espírito.

meus limites corporais são corroídos. eu não sei agir, talvez nem reagir. tenho medo das pessoas adultas que percebem que meu corpo é como o de uma criança, ainda sensível a tudo, ainda indefeso de tudo. e que talvez nunca deixe de ser assim. medo e ódio das meninas que um dia perceberam que meus arrepios assustados com o toque físico e os flertes denunciavam fragilidades e, ao invés de darem razão às vozes do amor amigo, deram razão às vozes da curiosidade. eu me senti violado diversas vezes numa sociedade onde não há voz para o homem violado, não há voz para o menino violado, não há voz para o menino que “não queria”. não há voz para o menino que desenvolve a sensibilidade como arma branca. eu ouvi “aproveite a sua experiência” e precisei me jogar numa cama e chorar por horas ao perceber que as minhas dores possuem esse nome na sociedade patriarcal: “experiência”.

tudo o que já se passou pela minha cabeça me traz uma enorme vontade de morrer. muitas vezes pergunto a Deus quanto tempo falta para eu ser levado, na esperança do dia em que minha mente parará de fabricar imagens autodestrutivas. envolvendo as pessoas que amo ou não.

a minha dor é carregada por mim e por mais ninguém. mais ninguém está interessado, mais ninguém acredita, mais ninguém entende. e ainda que entender não seja necessário, há dias em que a total incompreensão cansa. pessoas querem me fazer acreditar que possuo super-poderes mas o que possuo é uma dor atrativa, o perfume da pessoa fragilizada que atrai pessoas aproveitadoras, ou sedutoras, ou simplesmente tristes e que precisam de identificação ou mesmo de ver alguém pior. eu não acredito em quem me chama de bonito ainda que, muitas vezes, eu me sinta bonito, mas também não acredito quando eu mesmo me chamo de bonito.

medo e ódio.

às vezes eu gostaria que as pessoas simplesmente parassem de me pedir para ser feliz. a minha felicidade tem meu próprio ritmo e meu próprio gosto. não tenho nenhum desejo e tenho até asco de quem vive falando de uma vida feliz, inclusive quando se trata de religião. eu cansei das promessas falsas da religião e também cansei das promessas falsas das pessoas que dizem que “não se trata religião, se trata de X” porque, bem, essas promessas são falsas. é possível me acalmar, mas há uma linha muito tênue entre me acalmar e me violar, e não confio nas pessoas para isso.

eu estou cansado de me decepcionar com a felicidade. estou cansado de me decepcionar com pessoas me dizendo “não desista da felicidade”. estou cansado de tapar os ouvidos para pessoas apontando meus erros e trazendo suas soluções mágicas para eles, e para cada uma das minhas feridas, e desenhando sorrisos no meu rosto incomodadas com o fato de que eles não permanecem. estou cansado de pessoas trazendo receitas mágicas para a identidade, A Identidade, ah! identidade. cansado de pessoas que colam em sua testa uma identidade e fecham os olhos para os infinitos confrontos da vida, as vezes em que a vida diz “você não sabe quem você é” e a pessoa (eu) responde da boca pra fora “eu sou Y” mas não, ela não sabe se é, ela não sabe nem quem é Y e nem quem ela é também. cansado. cansado. cansado desse tormento de acreditar que só eu me perco nas turbinas da desgraça, só eu tive meu tapete puxado, só eu não me recordo o que é a vida antes de alguém transformar o universo em uma grande ameaça física e emocional, uma casa gigante onde fui colocado e ocasionalmente mãos surgem das janelas tentando me dilacerar por prazer. está tudo bem. está tudo bem. eu não estou bem. mas está tudo bem. tudo bem.

tudo bem.

eu sou um garoto de improvisos.

improvisos porque não me importo em traçar planos, perdendo-os no conhecimento da quantidade massiva de falhas possíveis, prováveis e improváveis. improvisos porque, se eu começar a pensar, não faço. se eu começar a pensar em te ver pensarei em todas as maneiras de me proteger do seu abraço, das suas palavras, dos seus olhos, porque em algum lugar do meu coração está escrito — e são enormes e horrorosos riscos em meio à carne — “as pessoas são todas maiores que você. todas gigantescas. todas com tudo para te destruir sem que hajam possibilidades de defesa, pelos motivos mais ridículos possíveis. olhares são intimidadores, palavras são teias de mentiras ardilosas, o toque é como a lenta destruição do seu corpo. todo toque dói. todo toque dói. todo toque dói. todo toque dói”. e então, quando penso, sou convidado a gritar. quando não fora de mim, dentro de mim. gritar. gritar. gritar! gritar! gritar! e então passo horas gritando sozinho, projetando em minha mente as mais assustadoras cenas de violência, e a existência dói. por isso não penso em ver ninguém.

também não penso no quanto desejo que meus pedidos de socorro sejam lidos por pessoas que me amam mas, por algum motivo, acreditam que a minha vida interior não diz respeito a elas. um mundo onde vidas interiores não importam. onde não se visitam castelos, nem ruas, nem casas, nem mesmo passam perto. mas também fico pensando que a leitura só seria incompreendida e ridicularizada, como sempre acontece, e aí paro de pensar nisso também. quantas pessoas me chamam de difícil, de complexo, enquanto eu grito — por dentro — que não há nada de difícil e fechado em mim, é só me ler, é só me ouvir, é só parar de falar e de me introduzir em fluxos comunicativos onde não sou um agente e sim apenas reagente, onde não posso ser eu mas uma adaptação de um eu que consegue o mínimo de pertencimento para não ser isolado. é só me ouvir. me ouvir um pouquinho. tenho algumas coisas pra falar entretanto já não mais quero: a experiência da fala para mim traz a sensação de luta, de empurrar uma pedra um pouco maior e mais pesada que eu tentando impedir que ela me empurre, já que nunca fui ouvido, sempre fui um contraponto que as pessoas um pouquinho mais generosas chamam de “mal necessário” e as menos generosas simplesmente querem destruir para que existam em paz, ou cooptar com o sedutor discurso de “envolva-se. é melhor. você terá paz”.

eu nunca terei paz.

eu nunca tive paz. eu nunca terei paz.

existe algo dentro de mim que não para de chorar, uma dor que pede dia e noite descanso. descanso eterno. eu cansei de existir. algumas vezes me consolo com “tudo bem. faltam apenas mais alguns cinquenta anos”. a minha religião é a religião do descanso. eu não preciso de um deus para me dar o que quero, até porque qualquer um com o mínimo de consciência social já deve ter percebido que alguém que está na internet não precisa de nada; eu não preciso de um deus para me dar estabilidade porque esse deus só pode ser uma mentira deslavada, a vida é um choque infinito e infinitesimal de tensões e a distância dessa percepção é diretamente proporcional aos privilégios que essa pessoa teve; também não preciso de um deus para me dar identidade porque já a tenho, eu já nasci, já existo e honestamente tem horas que só quero que isso acabe. a minha mente foi saqueada de pensar em uma boa realidade.

a minha religião é a religião do descanso. tudo o que preciso de um Deus é que ele tenha um colo, braços para me segurar e mãos para colocá-las na minha cabeça e acalmar todas as vozes. o resto é fácil, o resto eu já sei fazer, ou alguém sabe fazer, ou a ciência já descobriu como fazer. já me desligar, por um momentinho que seja, totalmente de toda a minha dor, de todos os meus pensamentos e ações autodestrutivos, para isso posso dizer que preciso de um Deus.

o alívio para a dor da minha existência eu procurei em todos os lugares. em todos os livros, todos os templos, todas as pessoas, todos os discursos. em todas as culturas.

para esse alívio, posso dizer que preciso de Deus.

 

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escrito por nubobot42 narrado por nomiya