Série: instituto de física ~ tempo é uma mentira do capitalismo / a identidade

instituto de física ~ tempo é uma mentira do capitalismo i

10 de setembro de 2018

de ratos em uma engrenagem a camundongos em uma engrenagem

 

eu tinha dezoito anos quando, pela primeira vez, descobri que era um robô. eu era apaixonado pela robótica, eu era apaixonado pela física, eu era apaixonado pelo cálculo. eu era apaixonado pelo computador. eu me tornei um computador.

aos dezesseis anos entrei na universidade e, desde então, você pode dizer que sou integrante de um grupo seleto de pessoas que entraram em contato com o “ensino superior”. eu iniciei um curso onde fazíamos muitas contas, conheci pessoas brilhantes como isaac newton, gottfried wilhelm leibniz, pierre-simon laplace, johannes kepler, entre outros. eu escrevi integrais e derivadas nas paredes do meu quarto, eu desenhei no meu próprio corpo algumas equações pelas quais eu era apaixonado. eu era apaixonado por equações. eu sou apaixonado por equações. talvez, se esquecermos o fato de que há dois anos ou até três não entro em contato com um cálculo, eu seja apaixonado por aquelas contas de fenômenos de transporte que esqueci o nome, mas o único intuito era ser difícil, extremamente difícil, e reprovar muitos alunos da minha sala. pra ter noção, eu não lembro mesmo o nome, mas foram duas pessoas que fizeram e não uma só e não estamos falando da equação de bernoulli. eu achava bernoulli “filler”, “precisa chegar essa outra equação que é bem mais legal”, mas no meu curso só cheguei ao bernoulli.

eu estudei o livro. eu cheguei até a outra equação. joguei no google, é navier-stokes. eu gostava desse nome em primeiro lugar porque me lembrava strokes mas já não ouço mais strokes e não uso mais navier-stokes. nunca usei, aliás. no máximo as semelhantes equações de maxwell, mas o meu amigo engenheiro já escreveu sobre maxwell e essa história não é sobre navier-stokes. meu amigo engenheiro é bastante concreto, embora você não consiga entender muito bem suas histórias porque, sendo ele da área de eletromagnetismo, ele costuma brincar com distorções em suas palavras.

eu, meu leitor, meu ouvinte, meu querido, sou totalmente abstrato. sou a abstração em pessoa. sou a abstração em desenhos e palavras. não sou lá muito romântico, como donos de estrelas cadentes. nem muito explosivo, como donos de minas. mas sou exatamente o que você precisa ouvir nesse exato momento porque sinto, no meu coração que faz um tic tac totalmente descompassado, por eu querer que seja descompassado, que você precisa de alguém como eu agora. eu não acredito no tempo. não nasci no capitalismo. não conheço as indústrias, não conheço o “labor”, mal conheço meus próprios braços. aonde eu vivo é natural que brinquemos com e estudemos espíritos, porque nós tiramos “espírito” do vocabulário convencional, nós fizemos os espíritos se tornarem essa coisa mística que assusta os religiosos e nós também fizemos os espíritos fundarem uma religião, mas que é o espírito se não tudo o que o tempo não pode apagar? que é o espírito se não o que, por si só, é morte porém adquire forma e, por fim, vida, dentro das pessoas?

quando acordei no mundo capitalista o que mais me assustou foi perceber que as pessoas estão tomadas pelo espírito do tempo. elas tentam colocar suas vidas em seus dez dedos. mas aí não dá. então elas tentam fazer isso com seus dez dedos seis vezes. ainda assim não dá, não fica muito bom. então elas tentam fazer isso tudo sessenta vezes. parece que não é satisfatório ainda. então elas fazem todo esse processo vinte e quatro vezes. ok, parece mais ou menos. então elas fazem tudo isso trinta vezes. ótimo, bacana. então… elas fazem isso tudo doze vezes. e então já não há mais o que fazer. não que isso seja assim a maioooooooooooor novidade do mundo, a grande sacada do sistema, porque desde que descobriram a rotação da terra tudo isso é muito normal, mas ninguém jamais cogitou girar a vida em torno disso.

e quando entreguei o meu corpo, a minha alma e o meu espírito a um relógio, em primeiro lugar, eu percebi que já tinha entregado meu corpo, minha alma e meu espírito a um relógio antes, só que parcialmente. nesse momento, aos dezoito anos de idade, a minha vida se tornou um culto ao relógio. não existiam outros espíritos além do tempo. todos os outros espíritos se tornaram rituais de sacrifício ao deus-tempo, e eu já não mais conversava com o espírito da lógica porque precisava absorver dele o necessário bem rapidamente para satisfazer o tempo, e eu já não mais conversava com o espírito da revelação, e eu já não mais conversava com espírito algum. porque não dava tempo. e se eu precisasse da lógica, eu a procuraria em lugares fáceis para que eles me ensinassem, da lógica, apenas o que eu precisava para aquela noite. para aquele dia. para aquele mês. para aquele ano.

o que aconteceu com o mundo? o que aconteceu com as pessoas? o que aconteceu comigo?

 


se fizermos uma investigação pelo mundo antes dos meus dezoito anos, e também antes dos meus dez, descobriremos que eu vivia uma realidade. descobriremos que tudo era muito fácil porque a realidade é bem fácil, ela pode ser e é infinita, pode ser e é algo que nunca vamos compreender, que sempre vai nos deslumbrar, que sempre vai nos deixar boquiabertos e percebendo como não entendemos absolutamente nada sobre nada logo depois de sentirmos em nossos corações com tanta convicção, mas tanta convicção, que nosso coração se passa por fé, que entendemos absolutamente tudo. a realidade é intocável mas, ainda assim, era tão fácil de se viver! durante o capitalismo a minha sensação era de que eu estava sempre em contato com a realidade mas nunca a vivendo, era sempre algo que eu via, de longe, da janela do meu ônibus ou do carro de alguém ou até mesmo do meu próprio carro. e então o relógio me chamava. ele fazia tic-tac, num compasso perfeito, como um jazz japonês.

ah! eu estava tão distante da itália. tão distante de milão. eu, no máximo, conhecia genoa. mas genoa também era muito compassadinha, diria que muito insossa só que tinha sim um gosto, um açúcar estranho, desnecessário, artificial, que tocava as minhas emoções de uma maneira que eu conseguia controlar, me fazia lacrimejar psicoticamente como se estivesse programada para isso, como se eu estivesse apelando às cebolas para colocar para fora tudo aquilo que estava me perturbando por dentro. genoa era quase tão ruim quanto o jazz japonês.

era fácil existir quando eu era pequeno. eu estava mais próximo do espírito de Deus, não porque era uma pessoa de muita fé, até porque o meu tempo foi um tempo de muita ciência, de muitos mistérios desvendados, de muitos fenômenos místicos que a igreja principalmente a católica adorava exibir como prova irrefutável da impossibilidade de se compreender qualquer coisa que acontece no mundo exceto se você fosse clérigo. os protestantes não eram tão chatos, hoje eles são muito chatos. totalmente capitalistas. ridículo. é culpa daquele joão calvino, ele vivia falando de juros, era muito legal mas eu sempre avisei que as pessoas não entenderiam muito bem que ele estava descrevendo sistemas monetários como eu mesmo amava descrever sistemas mecânicos, eu sempre avisei que fazer ciência com o bolso do povo não prestava. os protestantes eram homens de ciência. blablabla eu sou abstrato e me perco dentro de mim mesmo blablabla. é que Deus nunca se opôs à minha mania estranha de fazer experimentos em objetos e às vezes, mil perdões, em pessoas, e Deus não era assim uma voz misteriosa que arrepiava os pêlos imaginários dos meus braços, ele era só um amigo… abstrato… que eu tinha que me contava como montar os quebra-cabeças que eu desmontara, e os brinquedos que eu desmontara e por aí vai.

viver era natural. eu não precisava declarar amor à minha vida porque já declarava isso em minhas ações. talvez isso, da minha maneira anti-estoica, seja meu jeito infantil de ser um homem de muita fé. “anti-estoico” foi completamente capitalista, eu nunca estudei o estoicismo, peço perdão. é que as palavras são tão legais, né! essas definições informais que trazemos por termos amigos que os leram na wikipédia, que é um telefone mais-ou-menos-sem-fio de uma definição que uma pessoa que várias pessoas gostam deu sobre esse termo e, pra piorar, nós fazemos um telefone-sem-fio com nossos amigos. eu acho que a palavra “estoico” já não significa mais nada. eu acho que usar a palavra “capitalismo” no meu texto, de certa forma, deve despertar sentimentos muito estranhos nas pessoas que estão me lendo porque elas, de sua forma capitalista, estão interpretando o meu termo como elas querem, como o contexto delas determina, como a situação emocional delas diz. e se, por exemplo, elas amam um conceito de capitalismo que eu não sei de onde vem mas sei que existe porque já vi muitas pessoas o amando, elas devem interpretar meu texto como um texto de algo que elas acreditam que se opõe ao capitalismo, porque eu odeio o capitalismo e o que ele representa pra mim nesse exato momento.

mas estamos falando do mesmo capitalismo? a palavra “capitalismo” ainda significa alguma coisa? ou será que não significa mais nada?

e quando as pessoas, escravas do espírito do tempo, vêm até mim, elas vêm com uma certeza que eu não tenho e prefiro não ter. efusividade não é uma sentença concreta, isso é um absurdo. “se há em você tão poucas verdades, de que você serve?”. e quantas verdades existem nas pessoas? quantas verdades existem em você? embora não chamemos mais o meio de produção de “indústria” mas de “tecnologia” e seu detentor de “proprietário” mas de “CEO”, ainda assim o que vemos são indústrias. e o conhecimento, hoje, é industrial. pessoas de todos os níveis possuem conhecimento industrial, irreal, adquirido na necessidade de correr contra o tempo para satisfazer alguma necessidade pessoal.

se, de repente, precisamos que a inquisição seja pior do que o holocausto para que condenemos a igreja porque gostaríamos de sua destruição, também é verdade que de repente precisamos que friedrich nietzsche ou immanuel kant ou rené descartes tenha destruído Deus porque gostaríamos muito que a morte de Deus fosse um problema de monstros externos da razão e não dos nossos monstros internos do completo desinteresse em Deus. mas nós não sabemos nada sobre a inquisição, nós não sabemos nada sobre friedrich nietzsche, nós não sabemos nada sobre immanuel kant, nós não sabemos nada sobre rené descartes. nós não sabemos.

nós não sabemos.

o conhecimento industrial é um fruto do capitalismo. do meu capitalismo. o capitalismo que não foi criado como produto imaginário a ser vendido para pessoas que querem dizer que ganhar dinheiro é legal, não ser obrigado a distribuir sua renda é legal, e se buscarmos um pouco mais a fundo encontraremos outros que fazem vários desenhinhos na lousa sobre crédito, juros, papel, números, porcentagens, inflação e o caramba. eu, oh céus, sou esse pequeno rapaz do instituto de física. e o capitalismo, para mim, significa o que aconteceu quando pessoas resolveram usar as ferramentas que eu e uns amigos meus, como meu velho colega james watt, fizemos. ele significa mais coisas. ele é um assunto sério. ele é um fenômeno e fenômenos, bem, eles estão por aí, nós não apoiamos, nós não nos opomos, nós os observamos. ou é o que diz a ciência.

mas voltemos: o conhecimento industrial é um fruto do meu capitalismo. é o que faz com que pessoas despertem de seus necrotérios mentais com discursos prontos, que elas juram serem inéditos porque nunca viram alguém além delas os dizerem, e cuspam em nós. é o que faz com que você tenha uma certeza sobre o que conheceu hoje. a atmosfera do desespero criada pelo deus-tempo faz com que nós conheçamos algo e, ao invés de observarmos esse algo, contemplarmos esse algo, desmontarmos e remontarmos esse algo, entremos em uma sintonia forçada com esse algo para que possamos usá-lo o mais rápido possível. preciso de uma opinião sobre tal assunto para debater com tal pessoa! preciso de uma opinião formada rápido porque as eleições já estão chegando! preciso de uma visão sobre esse assunto porque as pessoas estão me pedindo! preciso do máximo de referências possível sobre mecânica newtoniana, mas jamais ler a principia, porque preciso concluir meu trabalho de faculdade! preciso! preciso! preciso! preciso!!! pobres assuntos, eles já não possuem admiradores? contempladores? estudiosos? por que abrimos tanto nossas bocas? por que precisamos tanto abrir nossas bocas? quem disse que o que temos a dizer é tão importante? quem disse que não podemos negar nossa influência, quem disse que não temos a opção de dizer “não conheço muito bem a respeito”, mesmo que sintamos na superfície do coração que conhecemos? ou você já não é mais capaz de discernir o espírito que conhece do assunto que triturou para oferecer em sacrifício ao saudoso deus-tempo? conhecimento industrial. fabricado com fragmentos de realidade, utilizando dos aparelhos “hi-tech” do mercado de confecção de disposição de palavras convincentes, de interpretação de fatos convincentes à luz das definições e discursos manufaturados.

nós não somos nem a favor nem contra o capitalismo, nós nem sabemos o que é isso, antes do dezoito detestávamos estar naquele lugar estranho chamado “sala de aula” e ver alguém falando palavras complicadas e não fazemos a menor idéia, hoje, de quem raios inventou essa palavra, o que quis descrever ao inventar essa palavra, nós não sabemos quem levou essa palavra adiante, nós não sabemos quem estava envolvido na confecção dessa palavra ou de assuntos semelhantes à essa palavra. nós não somos nem a favor nem contra o comunismo, nós não lemos karl marx, nós não lemos bakunin, nós acreditamos fervorosamente no que pessoas nos dizem sobre lenin, stalin e misturamos tudo ainda que, mesmo que tudo fosse de fato misturado, nós não saibamos nada sobre lenin nem stalin. nós não somos contra o “desconstrucionismo” porque nós não fazemos a menor idéia do que disse jacques derrida. nós não sabemos de planos super maléficos de destruição de não sei que pela escola de não sei que lá porque não, o vídeo no youtube do seu canal esclarecedor não é o mesmo que ler herbert marcuse, nem georg lukács, nem max horkheimer. nós não somos conservadores, nós não sabemos de onde isso vem, nós não sabemos se gostamos de julius evola, nos iludimos por qualquer apologeta pelo simples fato de que ele consegue intimidar ateus (o que é um monstro assustador para todos nós, que nunca vimos monstros e nunca fomos capazes de nos olharmos no espelho e percebermos que também somos monstros) e de repente nos pegamos querendo trazer noções burguesas inglesas de g. k. chesterton e c. s. lewis para uma cidade com dez habitantes, nós não sabemos por que aborto é um assunto, nós não sabemos por que arma é um assunto, nós não sabemos nada. nós não sabemos nada.

nós não sabemos nada.

e não bastasse padecer por falta de conhecimento. nós padecemos alegando conhecimento… mas quem disse que temos conhecimento? temos pressa.

nós somos vítimas do discurso manufaturado. nós entregamos nosso espírito, nossa alma e nosso corpo ao discurso manufaturado do deus-tempo, porque queremos abrir a nossa boca para ontem, porque não aceitamos que um único assunto precisa de anos de estudo para ser comentado com o mínimo de propriedade, porque queremos que o senso comum represente algum tipo de valor verdadeiro. mas o senso comum não possui nenhum valor real, apenas valor político, o valor que não passa da massinha de modelar que trabalhamos como queremos com um pouco de retórica. o senso comum é inimigo da ciência. o senso comum é inimigo da verdade. o senso comum é inimigo de Deus.

o senso comum crucificou Jesus.

eu, trabalhador do instituto de física, não sou inimigo de Deus. e, se passo dos limites, é porque dá no saco viver lavando as mãos enquanto as religiões crucificam seus Messias em nome do próprio Messias. e ainda jogam a culpa em mim.


viver era natural. eu vivia com poucas pessoas. eu, meus pais, meus tios e primos, alguns poucos amiguinhos. eu gostava de ciência. quando entrei na faculdade aos dezesseis, por um instante, deixei de ser capitalista, porque eu gostava de ciência, porque não bastava resolver equações difíceis para satisfazer um professor maníaco, eu queria todos aqueles nomes que citei ali em cima e mais alguns outros.

mas, aos dezoito, o capitalismo me capturou e me enjaulou de vez. e então o meu isaac newton interior se manifestava em tom de revolta, ele era um giz mágico que resolvia equações em tempo recorde no quadro negro e depois se jogava no chão para eu pisar, cheio de ódio. e o capitalismo me espancou, dos dezoito aos vinte-e-dois, quando o próprio capitalismo cansou da minha dedicação simpática — já que eu nunca fui uma pessoa capaz de ser escravizada, sempre fui o tipo de pessoa que servia como um escravo, porém por amor — , me chutou para fora da rodinha e disse “não te queremos mais”. eu é que nunca os quis, só os prestei um favor do qual me arrependo amargamente.

viver, hoje, é natural. porque eu posso dizer “não sei” e “não me importo” para coisas que as pessoas acreditam, do fundo do coração delas, que sei e que me importo. porque meu relógio tem o compasso que eu quero. infelizmente aprendendo a adaptá-lo ao não-atraso para não incomodar as pessoas que amo mas, se atrasado, também sem medo da repreensão do meu antigo deus-tempo. eu toco meu teclado e meu saxofone como e quando bem entendo, eu escrevo sobre o relojoeiro de isaac newton sem o desdém do jovem que acabou de descobrir que o discurso do método é refutável, como se a palavra “refutável” não fosse nojenta já em sua concepção, e eu tenho certeza que esses cientistas realmente inteligentes vão me ajudar a construir a minha mirabolante teoria sobre as camadas da formação dos elementos do universo.

eu estou brincando. leibniz já fez isso. e a inquisição nem o pegou, embora tenha tentado. e não venha me dizer que não tentou, está em uma das cartas que ele escreveu ou pro antoine arnauld ou pro malebranche.

desculpa. eu sou muito abstrato e chato. outros personagens desse mundo odeiam isso, alguns dirão que estou apenas exaltando meu próprio ego com assuntos chatos mas, olha só, tudo existe por um motivo. abstraia e entenderá.

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escrito por nubobot42 narrado por leibniz