Não muito tempo depois, tivemos nossa primeira conversa civilizada depois de mais de um ano. Cem por cento civilizada.
Foi tudo tão rápido e repentino que não consigo nem explicar a ordem dos fatos, não consigo explicar ao ouvinte quando é que combinamos de sair pela primeira vez, quando foi que começamos a ficar conversando a sós na igreja sobre quaisquer assuntos, importantes ou não, sobre gostos, sobre futuro, sobre namoro, sobre... tudo.
Digamos assim que essa aula foi no final de março, a primeira conversa foi no meio de abril, e já estávamos saindo juntos em grupos de amigos sem medo de parecer estar “tendo alguma coisa” no meio de maio.
Essa história está toda com ela. Não vi nada disso acontecer.
Aparentemente ela tinha muita raiva acumulada de mim por motivos que até hoje não consigo entender muito bem, e aí ouviu alguma pregação sobre perdão e me perdoou e, quando me perdoou, imediatamente “liberou espaço no seu coração” pra gostar de mim.
Deve ter sido uma baita aventura, mas peçam a Noite Na Terra Bonita e entenderão, porque eu não consigo entender. Sim, conversamos depois a respeito. Sim, continuo sem conseguir entender.
Quando tudo parecia estar certo, já estávamos nos permitindo sentir coisas um pelo outro, descubro que há o seguinte obstáculo: ela conversou com um pastor sobre mim e falou de todas as nossas divergências e o pastor aconselhou-a a procurar alguém que fosse melhor, talvez não com essas palavras, mas é o que significou. Porque eu ouvia música secular, porque votava em partidos de esquerda.
Isso mesmo.
O ódio que senti quando fiquei sabendo disso foi incalculável mas, mais odioso ainda, era saber que isso poderia mudar o rumo da primeira história onde eu consegui: consegui dizer pra menina que considerava namorá-la e casar com ela, ela (depois de um ano ou dois) concordou e disse que sentia o mesmo, consegui seguir todos os protocolos sociais da igreja sobre “ser o homem que insiste até que a mulher diga sim” (puta merda).
Isso era o mais odioso.
Sei que estava apaixonado por ela e o sentimento estava se provando recíproco e separar isso por motivos tão mesquinhos é odioso, mas o tom de ingratidão de fazer isso era o que mais doía. Dei noites de segunda a sexta para aquela igreja, dei sábados inteiros, domingos inteiros.
Fui eu quem aceitou ser auxiliar da igreja? Foi, mas aceitei. Não servi levianamente só porque tinha segundas intenções, servi de coração, preparei aulas de coração, respondi dúvidas de alunos de coração.
E agora meu caráter era reprovável porque não tinha votado em Jair Bolsonaro, porque eu “era de esquerda”, seja lá o que raios signifique isso pra uma igreja.
A música secular eu até afrouxaria e entenderia por ser uma questão de critério de liderança, e ela até então queria ser líder na igreja, mas prefiro não afrouxar porque não sou tão idiota. Era uma queda de braço usando as minhas próprias carências e usando a fé de uma menina pra isso.
A “música secular” sempre foi uma queda de braço entre eu e algumas pessoas da igreja porque, assumo, quando voltei pra igreja sem as minhas habilidades sociais e sem noção desse “poder” que fui adquirindo, acabei expondo pessoas aos meus questionamentos sobre as doutrinas de maneira deliberada e confundindo a cabeça delas.
Digo isso falando pros padrões do que a igreja esperava de mim porque, hoje em dia, como disse, eu desprezo essa estrutura. Se soubesse que esse controle da exposição cultural dos evangélicos resultaria numa adesão a um movimento neofascista eu teria me organizado politicamente e cooptado uma série de jovens a se rebelarem contra isso mas, sinceramente, ainda bem que não fiz, não seria efetivo e eu teria sido expulso bem rápido, além do mais... como disse ali em cima, a igreja tem isso, mas a igreja é mais do que isso.
Nem mesmo uma igreja com um pastor sênior corrupto deixará de ser igreja, e isso é um exemplo e não uma acusação ao pastor sênior da minha já que, deixo claro, não o conheço. O que quero dizer é que não me arrependo mais porque tirar dos evangélicos o acesso a cultura levou o movimento evangélico a uma ruína de onde ele não vai sair, até porque ainda nem sequer aceitou que está lá.
Voltando: convenceram-na de discursos como “se você é tão importante pra ele, ele vai largar tudo pra ficar com você”, o que é uma grande idiotice.
Primeiro que ninguém abandona traços importantes da personalidade pra estar com alguém sem ser um completo imbecil obsessivo, que diz “eu te amo” pra uma mulher porque a viu duas vezes e achou gostosa, e segundo que... ninguém que abandona traços importantes da personalidade pra estar com alguém é capaz de ter um relacionamento saudável. Aprendi isso lidando com a Miss Bondade.
Ela parecia estar acreditando piamente que tudo aquilo era uma questão de batalha espiritual e de demonstração do quanto gostava dela de verdade. Se eu gostasse muito, largaria esses meus quase-pecados e viveria aquela santidade plena de pessoas da igreja, porque eu era tão impurinho! tão erradinho! E ela acreditava. E doeu muito.
Vi um filme passar na minha cabeça quando isso aconteceu.
Lembrei de todas as pessoas por quem tive sentimentos e até houve reciprocidade mas acabei me fechando porque elas não eram cristãs.
Em alguns momentos da minha vida não era por mim, afinal fui ateu por muitos anos, eram meus pais que não deixavam porque estavam muito envolvidos com a igreja e tinham essa visão.
Depois, quando voltei, eu mesmo fiz isso. Deixei gente implorando pelo meu amor, e eu tinha esse amor pra dar, era o que mais queria fazer, só porque um líder religioso me disse que isso faria mal pra mim e prejudicaria minha caminhada como cristão.
Doeu em mim e na outra pessoa, isso eu enxergava. O que não enxergava, e nessa situação onde o jogo virou passei a enxergar muito bem, é que eu estava julgando essa pessoa como “inferior a mim”, impondo condições absurdas para que ela “chegasse ao meu nível” e finalmente pudéssemos estar juntos porque, para um cristão fundamentalista como eu era, “não ser cristão” não é apenas não partilhar da mesma religião: é ser imoral e não ter qualidades humanas básicas como amor, fidelidade, afeto, caráter, sinceridade, paciência, entre outros.
Como se essas características tivessem alguma relação com seguir um conjunto de doutrinas estúpidas e imitar pessoas cheias de defeitos só porque elas têm um status na igreja.
Eu estava no banco dos réus agora e era horrível mas, mais que horrível, era ridículo: não conseguia acreditar no quão fácil era para um evangélico colocar um alvo em alguém e fazer com que pessoas acreditassem que essa pessoa é ruim.
Por isso não me surpreende muito a maneira como evangélicos acreditam no caráter de alguns homens e na falta de caráter de outros como se fosse hipnose, o fundamentalismo os sujeita a isso, os sujeita a acreditar do fundo do coração em besteiras que foram inventadas ontem.
Essas questões completamente imbecis arruinavam a Garota Japonesa por dentro. Para ela também era difícil, ela também gostava de mim.
Além do mais, a Garota Japonesa também ouvia música secular, só que ela fazia como todos os jovens da igreja fazem: em segredo, tentando não deixar pistas de que ouve (na verdade isso faz dela especial pois maioria dos jovens da igreja esquecem o histórico do Spotify ligado, inclusive boa parte dos pastores).
Nós brigamos uma vez por causa disso no meio desse turbilhão de problemas gerados por sentimentos de poder de líder religioso: uma vez ela me mandou uma música romântica de uma de suas bandas favoritas, só que a banda era secular. Joguei isso na cara dela e ela tentou me convencer que não sabia que a banda era secular porque não sabia ler inglês, foi tudo muito ridículo pra mim.
Ficou claro que o que queriam era que eu cedesse, que chegasse como cachorrinho pedindo perdão por erros que não cometi, e aí tudo se resolveria na mais santa paz.
E era tão ridículo, meu Deus, como era ridículo. Conversávamos muito, de repente nos acertávamos e concordávamos com tudo. Aí, quando ela falava com alguém, voltava com outra opinião completamente diferente da que tinha me falado e cheia de questões que eu já tinha respondido. Era instantâneo.
Me assustou um pouco, pra falar a verdade.
O poder da religião me assustou muito nesses dias. Eu diria que me traumatizou pra sempre. Nunca mais vi o cristianismo evangélico da mesma forma depois do que aconteceu.
Nunca mais tive a inocência de acreditar num pastor, de seguir uma doutrina primeiro e entendê-la depois. Até então eu era capaz de ter certo pensamento crítico ouvindo pregações, mas sempre acreditava que “havia algo de Deus” na pessoa que estava falando, que “Deus colocou a pessoa naquele lugar”. Podem achar ridículo da minha parte mas, em 2018, não consegui chamar nenhum pastor de manipulador por ter induzido todo mundo a votar no Bolsonaro, embora isso tenha me corroído por dentro e tenha me feito protestar – eu achava, em algum momento, que algo divino aconteceria e justificaria aquela mobilização da igreja. Foi só ao ver toda a estrutura articulada contra mim que aceitei que, talvez, essas pessoas não estivessem representando deus algum, apenas seus próprios interesses.
Esse foi o momento da minha vida em que a chave virou e passei a ver líderes religiosos como esses homens que estão no topo do jogo de poder e precisam da sua submissão. Tudo ali era poder. Em especial a maneira como a Garota Japonesa ficava apavorada ao ser confrontada e vinha com a cabeça toda reprogramada.
Fiquei tão assustado e paranóico vendo essas verdadeiras maluquices acontecendo na minha frente, dia após dia, que comecei a ficar com medo dessa pessoa gritar com ela, agredi-la, coisas do tipo, embora acredite hoje, com a minha cabeça mais calma, que isso de agredir já foi um delírio meu.
No meio disso tudo, no Dia dos Namorados, saímos só nós dois pela primeira vez. Fomos a um shopping, aquele onde nos encontramos para eu dar carona. Não lembro o que comemos e se tomamos sorvete.
O que lembro é que, saindo do shopping e indo para um parque de diversões ao lado, seguramos as mãos pela primeira vez. Não consigo me lembrar quem deitou no colo de quem pela primeira vez e chorou, chorou bastante, porque ambos fizemos isso, só não no mesmo dia.
Nós conversamos enquanto a levava pra casa. Fomos percebendo como era bom conversar, como era bom ter uma companhia, compartilhar sentimentos com alguém, choramos mais um pouco, lembramos que um dia fizemos aquele caminho brigando depois do churrasco.
E, no dia seguinte, como era de se esperar, todo o inferno voltou. É importante lembrar que todos nessa situação achavam que tinham razão. A Garota Japonesa sempre estava certa, a questão é que todo dia a opinião dela mudava, então todo dia ela tinha razão com uma opinião totalmente contrária à do dia anterior.
Eu sempre estava errado, mas não mudava minha opinião sobre nada então não tem como dizer que estávamos iguais.
Além de tudo isso, estava passando por períodos difíceis no trabalho, era entrega de projeto então estava sem muita hora pra sair e com muito estresse acumulado. Minha mãe estava para passar por uma cirurgia e eu nem conseguia entender muito bem qual o caráter da cirurgia, de tão cheio de problemas fora de casa que estava.
Em um desses dias, um amigo muito precioso que fiz na Índia morreu e eu, com baixas condições mentais, quebrei completamente. Quebrei e precisava dela.
Marcamos de conversar e ela já estava pronta para brigar comigo, como nos velhos tempos, mas eu a abracei, comecei a chorar e joguei tudo pra cima dela. Ela só ficou comigo.
Ela disse que eu estava a endoidando. Confesso que foi muito oportuna essa situação e ter contado com ela porque sabia que, se ela se lembrasse que gosta de mim, ela escaparia desse jogo de truco que estavam fazendo valendo a cabeça dela.
Mas também acordei e pensei: não, eu não quero mais. Não aguento mais isso. E, como era esperado para os protocolos dos poderosos, cheguei na sala do líder, pedi perdão como um cachorrinho por erros que não cometi, envolvendo nisso erros que cometi também – eu confessei que tinha muita raiva da igreja por erros que cometeram comigo lá atrás e descontava isso na minha insistência com o assunto da música secular, o que, vou confessar aqui, é verdade. É verdade sim.
A música secular me amou muito mais do que eles, eu ia pra igreja quando era criança pra sofrer, enquanto compor e produzir música tirou de mim parte desse sofrimento. Também era pessoal demais pra mim quando me pediam pra largar. Mas eu não estava errado em ouvir, não estava errado em quase nada.
De qualquer forma, fui embora de lá e ficamos esperando o ônibus dela. Falei que tinha sido uma boa conversa, que pararia de ouvir música secular, falei um monte de coisa. Pra ser sincero, estava com a cabeça tão confusa que talvez isso fosse acontecer mesmo, talvez eu tivesse me convencido de que faria isso.
Acho que narrar essa história hoje com esse ponto-de-vista esclarecido acaba não deixando claro que eu tinha algumas lacunas no meu entendimento que só foram sendo preenchidas depois: por muitos anos acreditei que “ouvir música secular alterava o mundo espiritual ao meu redor”, e também estava começando a processar o absurdo que era o exercício do poder dentro da igreja; eu era um cara fundamentalista mesmo que o meu limite fosse a política, acreditava em doutrina de batalha espiritual, acreditava na literalidade da Bíblia, minha cabeça foi aberta a tudo o que o fundamentalismo religioso poderia oferecer e, nesse momento, estava se fechando, mas ainda não tinha se fechado completamente. E se Deus realmente tirasse de mim a vontade de ouvir música secular? E se as “escamas dos meus olhos caíssem” e eu entendesse conceitos completamente alienígenas, tudo fizesse sentido e aí eu viveria feliz pra sempre sem música secular? Sendo conservador? Na minha cabeça, essas possibilidades ainda existiam.
Ela ficou espantada com isso e falou que eu não precisava parar de ouvir, que o que fosse necessário acontecer aconteceria. Que ela não queria me despersonalizar, não queria que eu fosse alguém que não era, que ela gostava de mim pelo que tinha conhecido de mim.
Isso foi muito assustador, muito emocionante.
Mas não sabia se confiava naquelas palavras, amanhã tudo poderia mudar. Estava vivendo um relacionamento abusivo, embora o abusador fosse uma terceira pessoa.
Se você está lendo esse texto com exposições de relacionamento e de personalidades que podem ser até vergonhosas, quero que saibam que há autorização da Garota Japonesa pra isso.
Estamos todos sujeitos a viver isso porque temos fé. Não há conceito de filosofia, psicologia, sociologia que nos salve das bobagens que fazemos quando nossa fé é explorada.
Não duvide de mim, não foi difícil conseguir chamar a Garota Japonesa pra vir aqui em casa, ler meu texto com muita realidade e um pouco de ficção e dizer “pode postar”: ela não precisa vir aqui em casa. Ela mora aqui.
Somos casados há mais de um ano.