Mais um texto enquanto não sai a Church Of Imagination! Dessa vez, não sei se postaria esse na própria Church. Mas acho que me deu vontade de escrever.
A verdade é que, sozinho, pra mim, foi impossível chegar nessa definição: “seita olavista”. Pelo simples fato de que eu não achava que era isso e não tive como ver, ou acreditar, que era isso. Essa seita é de São Paulo e eu nunca estive nela, interagindo com pessoas dela, pessoalmente – teve um único evento envolvendo apenas música, comigo, um amigo meu e uma das pessoas de lá, na qual eu apresentei algumas músicas minhas, fui avaliado, achei interessante na época e depois fui embora, e esse evento aconteceu há mais de seis anos. Então, de certa forma, eu tenho um entendimento peculiar disso tudo, uma visão que julgo um pouco empobrecida dela, mas tenho. Eu tenho alguma coisa.
Acho que muitas pessoas têm muito mais do que eu. Mas a pergunta que me fizeram, e que me deixou a martelando na cabeça no último dia foi: “Por que o silêncio? Por que ninguém fala nada? Por que cada um que sai vai embora, toca sua vida como se nada tivesse acontecido? É isso que estamos fadados a fazer? Fingir que nada aconteceu conosco, seguir sua vida, enquanto continua acontecendo com outros? Enquanto novas pessoas continuam sendo aliciadas?”. Não fui eu que fiz essa pergunta, foram pessoas que viveram isso melhor do que eu que as fizeram pra mim, e que talvez sejam melhores do que eu mas não é isso que importa no momento. A verdade é que, até então, a minha resposta para isso era: sim, viver fingindo que não conheço essas pessoas nem virtualmente, até mesmo consumir da sua arte como se fossem pessoas estranhas, porque pra mim era algo pessoal entre eu e eles, que acho que percebi melhor que não sei como lidar. Agora, a minha resposta é que não sei o que fazer. Eu era incapaz de acreditar em muitas informações que me contavam pelo fato de ser esse “faz parte mas não faz parte”, de ter essa distância, era como se eu tivesse várias peças de quebra-cabeça soltas por aí e não tivesse como montar um quadro. Talvez, se eu estivesse mais perto, eu seria só mais um que perceberia logo e se afastaria mais e mais rápido, e seria sentenciado como qualquer outro. Ou talvez eu estaria nisso até hoje. E, querendo me afastar completamente, eu não queria montar esse quebra-cabeças, não queria me informar mais sobre a coisa que “fiz parte mas não fiz parte”, eu só queria fingir que nada aconteceu. Trazer isso pras entrelinhas da minha vida, como quando arrumei encrenca na igreja por denunciar a direita indiretamente falando dessas pessoas, nunca mais me envolver com nada de direita, continuar construindo minha vida e fazendo minhas ações sociais de cada dia, mas não encarar isso de frente, não descobrir de fato o que é, não descobrir o tamanho, só fingir que foi embora.
Só que não foi embora.
Só não é mais comigo.
Ou é comigo. Talvez ainda seja comigo.
Mas eu sinto que não é comigo.
Está um pouco confuso, não está? Eu juro que não arrumei essa maneira de escrever dentro da seita, eu escrevo assim mesmo. Sou confuso, sinto muita coisa ao mesmo tempo e não tenho muita intenção de organizar, só de jogar as palavras. Não tem “método” por trás, essas palavras não são pensadas para despertar sentimentos estranhos, interesses estranhos, sei lá o que mais, eu só sou dramático mesmo. É assim que vivo. E vivo muito bem sendo assim.
Bem, eu pentelhava pessoas desse lugar desde muito tempo, porque eram pessoas que compartilhavam músicas que eu sempre gostava de conhecer. Um pouco, fruto da minha própria arrogância. Eu gosto de música, gosto muito de música. Eu sou músico. A música fez parte do conjunto de coisas inexplicáveis que me salvaram do suicídio, e desde aquele ano perturbadíssimo da minha vida eu faço música, melhorando lentamente a cada ano por conta da falta de tempo, já que eu preciso ao menos pagar minhas contas desde os 18 anos. Eu tenho uma veia meio rock progressivo, jazz fusion, etc., que me faz gostar bastante de muitas músicas que eles gostam, o que inevitavelmente te leva a algumas fases da vida de criar critérios para justificar que essas músicas são as melhores e as outras, conforme cada vez mais distantes dessas, são as piores. Tive essa fase com o heavy metal também, não é nada muito novo na verdade, mas acho que você recobra os sentidos mais rápido com músicas que todo mundo despreza (fora os próprios metaleiros) do que com músicas que de fato pouca gente ouve e, quando ouve, acaba admirando, sem contar que é carregado de um discurso artístico de vanguarda. Desde o início, era isso que me ligava a esse povo.
O Olavo de Carvalho, a direita, quando vieram, para mim foram adereços. Eu acho que só descobri* que era a figura central do negócio, e continua sendo, nesses últimos dias. Aliás, o certo é só entendi, acreditei, concordei. Porque tudo foi alertado antes, eu sabia de tudo. Até alertado sobre “aliciamento de menores” eu fui antes, bem antes, ali em meados de 2014-15 pra falar a verdade. Mas ao mesmo tempo é estranho, porque é como se eu não soubesse de nada.
Eu acho que as pessoas devem estar cansadas de ouvir eu falando que não me tornei “olavista” por causa deles, e nem sei mesmo até que ponto eu posso me dizer olavista, porque eu particularmente já estou cansado de falar. Só que é necessário porque, sem isso, é impossível entender parte da minha distância dessa situação. Isso nem sequer testemunha ao meu favor, só diz o quanto eu já tinha um fascismo a despertar há muito mais tempo. Eu tenho a minha própria vida em Londrina, e até pouco tempo atrás era uma vida exclusivamente evangélica (ou de conflito com evangélicos), com apenas faculdade e trabalho além disso. 2014 foi o ano em que decidi que definitivamente acreditava em Deus e que voltaria a frequentar a igreja, uma decisão central na minha vida: eu nasci e cresci na igreja evangélica profundamente doutrinado pela ideologia conservadora do fundamentalismo evangélico, sofri episódios de racismo, discriminação de classe e bullying e isso me colocou em rota de colisão com essa ideologia, e então minha vida se tornou acorrentada a essa ideologia, eu sempre voltava nela não importava o quão longe tentasse correr.
Assim, em 2014, eu também tive que me assumir conservador, porque veio no pacote. Não um olavista, o Olavo (e esse povo também) detesta o protestantismo com todas as forças, mas um fundamentalista evangélico. Acontece que as duas ideologias deram trégua de suas mágoas e se uniram no Brasil protofascista de 2015-18 então, quando os “músicos” começaram a perseguir esquerdista na internet e disseminar sua ideologia, foi natural eu me envolver e querer saber mais disso, e eu tenho esse costume de “ouvir a discografia” então posso garantir que não tem nada do Olavo de Carvalho que eu não tenha lido e ouvido até o ano de 2015 – mas, veja só, a proporção do que a obra do Olavo “me ensinou” não é maior do que o que ela “validou” do meu próprio fundamentalismo. Sem saber disso, sem entender muito bem o que significa isso, fica impossível entender o que foi viver esse momento pra mim. Eu precisava muito validar as tensões do meu eu-justiceiro-social com o meu eu-fundamentalista, e o Olavo conseguiu fazer isso transformando a esquerda e as minorias nos verdadeiros representantes da injustiça. Eu não sou rico, não sou branco, não teria como fechar a conta da direita sem deixá-la me dizer quem era o verdadeiro responsável pelas opressões que eu sofri na vida. Paralelamente a isso eu servia marmita nas ruas para os mendigos e passava horas conversando com eles, cheguei a dormir num colchão de rodoviária uma vez, e reclamava dentro da igreja sobre a falta de pessoas para nos ajudarem, a falta de projetos sociais e como é ridículo não aceitar pessoas em situação de rua nos cultos quando eles fediam. É tudo muito confuso porque eu estava preso no fundamentalismo evangélico, a única maneira de ser evangélico que eu conheci a vida toda, até entrar na faculdade de Teologia em 2019 e descobrir que não era obrigado a ser fundamentalista (no fundo comecei ela porque sabia que descobriria isso), o que custou a minha cabeça na igreja mas me tornou uma pessoa muito mais feliz e livre.
Enfim, era essa a tensão do momento. Por isso não posso dizer que entendo quem foi aliciado, tirado de um lugar, e colocado em outro totalmente diferente. Teve gente que abandonou emprego por causa disso, brigou com a família, com namorada, perdeu tudo & foi morar de aluguel. Eu... segui minha vida normalmente, isso tudo ocorreu enquanto eu trabalhava, sofria por mulher e terminava a faculdade, e eu continuei trabalhando cada vez mais, sofrendo por mulher cada vez mais e estudando cada vez mais. Eu não larguei nada, posso ter sido muito “de direita” mas sempre existiu em mim a consciência de que eu era pobre, isso me faria passar fome e meu negócio era programar. E, pra ser sincero, eu sempre aconselhava pessoas nessa linha, nunca fui adepto desses projetos de vida mirabolantes que só funcionam pra herdeiro, embora tivesse a sensibilidade de não machucar os sonhos de ser artista de ninguém porque também era meu sonho e eu sabia como doía. Provavelmente dói até neles, que estão aí há anos, com uma pancada de instrumentos e aparelhos à disposição, e nunca deram muito certo. Mas eu acho o som bacaninha, não vou mentir não.
Esse é, ou era, o problema entre eu e quem perdeu muito. Eu só pude viver de sinais, e sou terrível com sinais porque tenho uma confiança pífia na minha percepção, se quiser provas lembre-se que levei 26 anos pra ter o meu primeiro namoro. Quem perdeu muito viveu de algo muito mais concreto.
Talvez eu devesse ter levado mais a sério aquele negócio de existirem dois grupos de Facebook, o grupo “das crianças” e o “dos adultos”, onde existia um rapaz do Piauí que se impunha como líder e tentava tocar um canal chamado “Papinho Conserva” e botar todos nós pra falar lá (e nós falávamos, eu gostava, embora não escondesse em nada que era mais crente que olavista), existiam outros garotos até mais novos do que eu (eu já tinha 22) e a gente discutia muitos assuntos, mas mais zoava do que se levava a sério, e eu não era um desses garotos que só zoava porque tinha uma ideologia mais-ou-menos consistente, embora também não fosse sério como o rapaz do Piauí. Só agora, pensando nisso, reparei que esse rapaz do Piauí sabia muito melhor o que estava acontecendo do que eu, só que ele não conseguiu nada e foi descartado. Ah, às vezes vinha um do canal “dos adultos” falar literalmente de seleção, que promoveria os melhores. Eu achava que era piada, ninguém tava me pagando salário, nunca imaginaria que isso era sério. Pensando bem, isso era muito sério. Talvez explique porque, por tantos anos, eu não quis pensar bem.
Um dos meninos, por um tempo, começou a ter uns papos neonazistas, logo depois de uma viagem de “adultos” na cidade dele e um encontro pessoal, ele tomou uma dura no Twitter quando deu vazão pública a isso e nós acabamos o expulsando, mas acho que ele melhorou. Não sei o que aconteceu, não tenho como definir nada, mas é estranho, não é?
Acho que nesse chat rolaram coisas muito tenebrosas, não só os discursos ideológicos em si, mas a misoginia, as piadas racistas, muitas coisas que eu engoli e até participei embora não consiga lembrar quando e quais foram meus limites.
Mas, além disso, eu também participava do grupo de WhatsApp de um pessoal de direita que acabou conseguindo alguma coisa no governo Bolsonaro (se você é da internet: sim, é dele mesmo, o próprio), eram bem mais adultos, não falavam tanto de ideologia mas falavam sobre comer travesti, prostituta, etc.
Daí, então, a minha grande confusão foi essa. Em algum momento rolou a tensão inevitável entre a seita e esse pessoal (e alguns outros), que foi quando a única pessoa que eu confiava de fato (um evangélico) decidiu jogar na minha cara como eu era ingênuo, imbecil, burro, e um monte de coisa. Isso me machucou bastante, mas não é o mais importante. O mais importante é como isso me fez acreditar que aquilo de “olavismo”, de “direitismo”, era coisa do outro grupo, não da seita. Quando houve o realinhamento ideológico da seita eu não pensei que fosse coisa de seita, ajudou muito pra eu não acreditar o fato de que quem avisava isso era o pessoal “do lado de lá”, eu pensei que fosse o mesmo que estava acontecendo comigo.
E o que aconteceu? Bem, aquilo ali foi a traição da direita pra mim, eu fiquei deserdado de ideologia política e isso bagunçou todo aquele esquema perfeito que eu tinha montado pra justificar o fato de ser fundamentalista evangélico. Descobri uma seita olavista dentro da minha própria igreja e fui lá, curti, satisfez minha carência de encontrar alguma coisa desse universo da internet dentro do meu, mas depois comecei a ver que era algo bem decadente. Era triste, eu era um gênio naquele lugar porque sabia ler inglês, porque de vez em quando eu lia um jornal lá de Israel. Depois também fui mandado embora de uma empresa assim que terminei seu sistema para me trocarem por alguém por metade do meu salário e fui muito bem lembrado que a ideologia da direita, do bom patrão, não serve pra mim, que sou trabalhador. Eu fui ficando órfão de ideologia política, porque não tinha como ser de esquerda, mas a direita foi se tornando cada vez mais distante e incompatível.
E meu relacionamento com as pessoas da internet foram todos se afastando. Lentamente esses grupos foram morrendo. Na briga também tiveram os do grupo que ficaram “do outro lado” e cortaram relações, ou passaram a ter relações meio tensas com a gente.
Eu passei a ser atormentado por esse pessoal “de direita”, espalharam um monte de coisa de mim por aí e eu descobri que muitas pessoas que eu sequer conheci me odiavam. Tínhamos tendência de nos provocarmos mutuamente e aí nas brigas eu via um monte de like de gente que eu nem conhecia. Pessoas que eu admirava, no que a internet permite admirar, tinham tomado o lado deles. Foi nesse momento que minha paranóia ficou insuportável e eu passei a achar que todo mundo na internet estava rindo de mim, algo que eu já passei presencialmente nos bullyings da vida, e aí eu decidi que não ficaria mais na internet. Claro, essas pessoas me faziam acreditar cada vez mais que a seita era uma invenção, e isso se amplificou um pouco quando viajei pra São Paulo e saí com alguns dos meninos (éramos amigos, mais do que “colegas de seita”), fui num lugar católico e parecia tudo ótimo, e depois viajei para o Rio de Janeiro e saí com outros meninos e gente grande e também parecia tudo OK, e por fim um ano depois fui no apartamento de um deles mostrar a minha música e era quase um estúdio e nada mais que isso. Existiam eventos estranhos na internet, mas nenhum deles se revelou a mim presencialmente e, assim como a minha vida entre essas pessoas “inimigas” era só um conglomerado de mentiras, imaginei que a vida dessas pessoas da seita também eram.
A partir de 2018 eu estava, então, oficialmente, desligado desse povo por qualquer coisa que não fosse o Twitter. Ainda assim, acho que preciso assumir pra mim mesmo antes de pra qualquer outra pessoa: o Twitter é bastante coisa. Eu quis que não fosse, porque o Twitter me machucou demais, então eu topei comigo mesmo que não levaria a sério absolutamente nada que acontecesse lá. Também não sinto nenhum remorso de ter feito isso porque, desde a eleição de 2018, eu passei a sofrer perseguição política dentro da igreja porque a seita olavista de lá estendeu seus tentáculos entre as lideranças religiosas do templo – não foi só essa seita, a Damares Alves foi pregar duas ou três vezes lá, o terreno já estava fértil fazia tempo. Eu passei quatro anos e meio sofrendo pressão para cada interação com a igreja: sofri pressão por desmontar uma aula olavista no seminário, sofri pressão e ameaças por colocar avatar de Fernando Haddad no Facebook e depois quando o Bolsonaro ganhou colocaram panos quentes em tudo como se tivesse sido tudo uma disputa sadia, sofri pressão e humilhação pra namorar a minha esposa, fui cortado de grupos sociais de maneira velada ou aberta, sofri pressão e MUITA humilhação pra casar com a minha esposa. Eu não sei se conseguiria lidar com essa situação no Twitter tendo que passar por tudo isso fora dele.
Mas, não é porque tentei lidar com isso de outras formas, que não lembro de tudo o que passei no Twitter. Eu fui humilhado publicamente pelo Cláudio mais de uma vez, embora só a primeira tenha me ofendido um pouco porque, a partir daí, eu passei só a pentelhar e tratar com deboche – a primeira ele teve um pouco de consideração, ou pena, para deletar, porque ele estava falando de mim para o Fred Hollaender, com o qual eu fiquei revoltadíssimo a ponto de surtar quando escreveu um texto falando super arrependido que caiu no conto do vigário: veja, eu não liguei pra ele estar arrependido ou não, liguei pro fato dele ter feito parte de um grupo que destruiu a minha cabeça e não deu a mínima pra isso, não deu a mínima pra mim, mas hoje acho que consigo entender melhor o lado dele. Nessa aí eu já marquei porque, bem, eu continuava paranóico com a internet, eu já pensei “se ele me desconsidera desse jeito aqui, imagina o que não faz quando eu não estou vendo?”, virou a minha norma para o Twitter.
Da segunda pra frente, foram provocações minhas. Eu não sabia muito bem o que fazer, eu não conseguia simplesmente fingir que nada aconteceu (embora, na minha cabeça, fosse exatamente isso que eu estava fazendo), mas não queria sair jogando coisas no ventilador que se tornariam excelentes narrativas para todos – porque não bastassem eles controlarem o discurso dentro da seita, eles também têm muito mais controle do discurso FORA da seita do que quem sai, ou “sai”, o que seria meu caso. Teve a vez que ele pediu para eu parar de curtir os twits dele porque eu não entendia nada do que ele escrevia, que foi um twit que eu dei like, num caso de ironiazinha imbecil. Tiveram as vezes que ele falou mal de mim como “crentelho” e apresentava um conhecimento ridículo de protestantismo, e uma série de vezes eu inventei histórias estereotipadas de crentes e atribuía a mim, e ele e mais um monte de gente (da seita ou não) compravam e achavam que ser crente era aquilo ali. Todas essas respostas minhas eram maneiras de parecer “espertão” mas, pensando agora, tudo isso é ridículo. Ficava tentando me desligar passivamente dessa coisa e não dava, porque estava desenvolvendo uma relação ridícula de tratar como brincadeira algo que era absurdamente sério, e hoje vejo que tratar esse tipo de coisa como brincadeira é como fazer parte dela também. É um pouco a lógica de tratar racismo como brincadeira na tentativa de zoar o racista mas, porra, você é o preto, você é o oprimido da situação, não é pra brincar. E também te submete a diversos papelões, como a vez que o SOS Jorginho veio me falar da minha relação com o dito-cujo como se eu não soubesse daquilo, mas aí não adianta mais nada porque por meio do arrivismo eu criei uma narrativa pra mim que pode ser usada por quem quiser do jeito que bem entender.
O mais engraçado é que isso não significa tanta coisa assim pra mim. Não quer dizer que não significa nada, mas não significa tanto. Tudo isso é muito mais sério do que um joguinho que inventei na internet por burrice e orgulho e que não tinha como ganhar. Alguns amigos vieram me falar sobre como eu sou mal-falado no meio deles e a verdade é que isso não me causa tantos sentimentos ruins, se deveria causar eu não sei, porque eu cresci na Zona Norte de Londrina e sou preto, filho de bóia fria, fato que me causou diversas humilhações entre os elitistas da minha própria cidade seja na igreja ou nos trabalhos (e alguns moradores de Porto Alegre quando viajei pra lá). Eu não consigo não ver a humilhação deles como mais do mesmo, pra mim é só reflexo de um elitismo decadente, podre, fraco da cabeça, que faz as pessoas tomarem as decisões mais idiotas possíveis em nome de “entrar pra história”, que faz as pessoas acreditarem que arte é catalogar lugares burgueses e lugares onde burgueses vão para terem contato alienígena com “o povo”, então isso não me ofende. Também não me ofende saber que eles discutem minhas músicas e tentam colocar seus adjetivos insignificantes nelas, na verdade isso me faz me sentir muito bem, porque eu não tinha auto-estima artística o suficiente para acreditar que minhas músicas poderiam ser “algo”, foram eles que me incentivaram a fazer um álbum “para me provar” e o álbum, ao meu ver, não saiu algo que fosse digno de nota e debate mas, já que eles acabaram me provando que é, que continuem no aguardo do próximo. Eu conheço os músicos da minha própria cidade agora, as bandas de rock progressivo e jazz fusion, os rappers, o pessoal do hard rock, do MPB, estou aprendendo como fazer o meu esquema, e não precisei comprometer meu trabalho nem uma vida tranquila com a pessoa que amo pra isso. Eu amo as pessoas que se doeram por mim, não pensem que não amo, não pensem que desprezo ou que menosprezo, mas eu também preciso lidar e seguir em frente, eu achei que estava lidando e seguindo em frente mas, assim que descobri que não estava, aqui estou eu escrevendo e tentando lidar.
Mas isso não é sobre mim.
Podemos estar falando de pessoas que sofreram humilhação como eu, mas entraram nisso de maneira paralela? Podemos. Mas o que é mais necessário pra mim é falar das pessoas que foram, de fato, aliciadas. É necessário falar que isso é uma seita olavista, porque todo mundo que viu isso de longe, como eu, precisa saber que é uma seita olavista e não pessoas discutindo arte e música. Porque precisa ficar claro pra todo mundo, e talvez já estivesse claro pra todo mundo menos pra mim e eu sinto muito por isso, que esse pessoal ensinou pra uma galera coisas perturbadas que eles nunca teriam aprendido de outra maneira e que destruíram as mentes, as relações sociais e o futuro deles. E que fez o descarte cruel de muitas delas, não só eu. Eu lembro bastante bem do descarte do Julio. Eu lembro das pessoas de Curitiba que foram achincalhadas por motivos que podem parecer justos mas foram, no máximo, briga de facção grande contra facção pequena. Eu sei dos garotos que foram tratados feito lixo por não se adequarem ao esquema com xingamentos nada “esquerdistas”, como o Fernando que foi tratado com uma homofobia nojenta digna de avô coroné fascista, e se você ver bem o meu tratamento como “favelado” é coisa de racista avô coroné também. E imagino que deva ter uma leva de garotos no fio da navalha para sofrerem o mesmo lá dentro, e mais uma leva de garotos para entrarem e se tornarem vítimas desse circo macabro, de preferência ricos e com alto potencial para alpinismo social, porque pobres eles já perceberam que não dá muito certo, que o custo-benefício é muito baixo.
Não sei falar sobre isso com tanta propriedade, porque o que tenho são alguns desabafos e tweets. Eu estou, afinal de contas, numa cidade do interior, e não tive um encontro virtual com ninguém acho que desde 2018. Não sei como mais pessoas poderiam falar, afinal de contas, tudo o que falamos pode ser revertido em narrativa, sem contar que pode não ser nada fácil sofrer humilhações públicas de uma galera que foi treinada pra isso. Sem contar muitas coisas.
Também não sei o que fazer com você que está me lendo e está para entrar numa coisa dessa, ou que está aí dentro e acha que está aprendendo a fazer uma arte acima da média, incompreensível aos medíocres, está aprendendo filosofias incompreensíveis aos medíocres. Não sei nem como raios isso está funcionando agora, não sabia como era na época e menos ainda sei agora. Eu só entendo de música. E grandes bosta ler Maurice Merleau-Ponty, isso aí minha esposa lê pra dar aula aqui em Londrina, no interior do Paraná, o mundo todo conhece o que esse povo conhece. Gosto de cinema, mas nunca suportei parente cinéfilo de São Paulo que vem na minha terra citar quinze diretores famosos e achar que está domesticando caipira com isso, da última vez que isso rolou eu desviei a conversa pra assistência social em cidades com políticas de extermínio a pessoas em situação de rua só pra cabeça da pessoa sair da elite paulistana e descer pro chão do Brasil, porque a elite paulistana é a coisa mais descolada de qualquer realidade que existe e parece uma grande piada vê-los falar de qualquer assunto. Seja lá o que você está pensando em ter aí, se for honesto, você não vai conseguir. Se você não sabe que está no meio de “algo”, fique sabendo, você está. E se eu te insultei por você ser da elite paulistana, não era esse tipo de comportamento que você queria deixar de ter? Então aí está sua oportunidade.
O que eu sei é que continuo querendo estar longe disso, mas acho que estarei mais longe se não fingir que não aconteceu algo que aconteceu, e aconteceu muito. E aconteceu, sim, comigo. Pode não ter acontecido da mesma maneira que foi com outras pessoas, e eu confesso que queria mais que as pessoas soubessem disso, porque tocam no assunto comigo como se eu fosse essas outras pessoas, mas não sou, eu sou essa aqui – eu queria que, se fosse para minha história ser conhecida, que ela seja conhecida assim, do jeito que é, do jeito que eu vi, o que eu vi e não vi, porque é horrível essa sensação das pessoas se aproximando de mim como um coitado humilhado massacrado perturbado doente sendo que isso, pra mim, foi mesmo só um acidente de percurso, que causou algumas feridas mas eu só tentei silenciá-las até agora, onde me vi num momento propício para abri-las. Eu queria que entendessem que pra mim é só. Que lembrassem que eu não participei do fatídico evento de Curitiba, não fui em festa de terraço, não fui gravar nada com ninguém, não concorri a vaga de subsíndico do prédio do Olavo, não fazia ideia desses esquemas e aliás nem teria como fazer porque do lugar de onde venho esse tipo de organização funciona completamente diferente, e queria que lembrassem disso não para me inocentar, mas para que considerassem a minha perspectiva, para que entendessem que não compreendo a dor de quem estava lá, mas quem estava lá também não compreende a minha dor como pessoa distante, de quem “viu mas não viu”, de quem “sofreu mas não sofreu”, de quem teve sua imagem completamente distorcida e manipulada conforme os interesses da seita (que, lembrando, praticamente sequer me conheceram pessoalmente), sabia disso, e não podia e aliás ainda não pode fazer nada a respeito. Porque também não é uma dor fácil de lidar: ela não dói tanto, mas é como um fantasma disforme que pode se tornar o monstro que suas piores crises de auto-estima quiserem nos dias ruins e minar qualquer diálogo com pessoas de internet, porque você nunca sabe o que elas acham que sabe de você. Eu queria ser mais apoiado nessa dor, e também queria apoiar mais o tipo de dor que faz com que compartilhar músicas e elogiá-las seja impensável porque, no final das contas, as mesmas pessoas causaram as duas.
Ah, e não precisa achar estranho eu estar abrindo meus sentimentos dessa forma. Eu gosto de abrir e espetacularizar meus sentimentos. É por isso que eu me tornei músico. Entretanto, a diferença minha para um manipulador de seita é que eu não peço a sua alma em troca de aprender a fazer música, eu simplesmente dou a minha alma. De graça. Porque eu acho que o mundo fica mais bonito assim.