Série: noite na pequena londres ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados / noite na pequena londres ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados vi / a identidade

vi. ato 11. dias de luta: ação

1 de abril de 2023

Como disse, estava no meio de um relacionamento abusivo. Acho que nunca expus pra mim mesmo que essa era a definição correta do relacionamento: “abusivo”.

Repito, não por causa dela. Ela é a melhor pessoa dessa história toda.

Por terceiros.

Até que casássemos, todo dia pensei na possibilidade dela me largar porque líderes a chamaram pra algum canto pra inventar qualquer história e fazê-la acreditar que eu estava a levando para o inferno.

É triste pensar nisso porque, como disse (ou não), estou há um ano casado, e o namoro pra mim foi algo muito pesado nesse sentido.

Fui cada vez mais me acostumando com a ideia de que não precisava confiar nas pessoas da igreja para me ensinarem doutrina cristã, me ensinarem “o certo e o errado” conceitualmente falando, porque era uma pessoa fazendo faculdade de Teologia e construindo minha própria linha teológica.

Minha vida de oração também nunca foi algo que considerava aquém das outras pessoas.

Além disso, estava aprendendo a respeitar o fato de que eu era um trabalhador desde os dezoito anos em áreas que acabam com a mente e tomam quase todo seu tempo, então não dava tempo de fazer aqueles rituais de burguês, minha oração tinha que ser livre. Estava tranquilo quanto a tudo isso, mas sobre a Garota Japonesa, eu só podia desconfiar.

Ou confiar.

Ainda antes de namorarmos, a minha mãe, velha de igreja, sabendo como as coisas funcionavam muito melhor do que eu e cansada de ver o que estavam fazendo comigo, um dia foi diretamente até a igreja falar com a Garota Japonesa e a família dela e já emendou uma oração e tudo mais que tinha direito.

Nós começamos a “orar”, um período que funciona de duas formas: 1. vocês não estão namorando mas precisam dizer aos outros que “está acontecendo alguma coisa”; 2. vocês estão ficando. Eu e ela só sabíamos fazer a 1, então era a 1. Foi um período de tortura por essas inseguranças, mas muitas coisas interessantes aconteceram.

Tive que ir na casa dos pais dela ter “uma conversa séria” sobre a filha deles não ser pra ficar de enrolação, era pra namorar já na intenção do casamento. Certo dia ela foi conhecer meus pais em casa e não teve nada disso, foi só uma pizza e algumas conversas. Mas o rito é o mesmo: meus pais preferem dizer as coisas observando.

A ideia era que ficassemos “orando” por três meses, mas com um mês cansei daquilo e já falei que queria pedir ela em namoro. Imaginei que seria do jeitinho mais caipira possível, mesmo. Tentamos fazer isso num domingo, numa pizzaria, mas não deu certo. Tentaram fazer com que fosse na outra semana mas, na segunda-feira, comprei o anel de namoro, combinei com ela e fui na casa dela “pedir a mão dela em namoro para o pai dela”.

Quando cheguei lá ela achou tudo isso ridículo e ela mesma explicou tudo, afinal, acima de tudo, ela é a Garota Japonesa, uma garota por quem eu me apaixonaria. Só sobrou pra mim colocar os anéis nos dedos.

Bem, estávamos namorando. Com esse fantasma da igreja em cima de mim, mas estávamos.

Então, depois disso tudo, encontramos um canto e fomos nos beijar pela primeira vez. Eu nunca tinha beijado então o que viesse seria novidade. E, talvez o que eu vá dizer aqui seja o momento mais importante dessa história toda. Isso mesmo, de toda a Noite Na Pequena Londres:

Foi um beijo horrível, porque já beijamos umas milhares de vezes e sabemos o que são bons beijos, mas foi um beijo muito especial pra mim. Não fui eu quem a beijou, ela me beijou. Na verdade, bolou uma estratégia para que eu conseguisse beijá-la.

Ainda estava com muito medo de me tornar aquele monstro pecador insaciável que sempre me fez ter medo de me relacionar com mulheres, estava com medo de acontecer algo mágico horrível naquela noite dentro de mim e eu abusar dela mas, conforme fui a beijando, só tinha a parte boa.

A parte ruim não era uma transformação em lobisomem, era não prestar atenção e morder a língua, ou o lábio, ou ficar chupando a língua tão forte que machucaria, ou errar a boca e lamber parte do rosto dela. A parte ruim era meio nojentinha, não um crime.

É por isso que odeio tanto a doutrina da pureza, que entendi quando Joshua Harris se arrependeu de tudo o que escreveu, embora fosse apenas publicidade para seus novos livros com novos conceitos. Esse beijo “horrível” iniciou em mim um processo de descontrução que está acontecendo até hoje. Tudo é certo na minha mente, mas meu corpo ainda está aprendendo.

Tenho um ano de casado e até hoje existe algo no meu corpo que diz “SINTA VERGONHA” quando quero transar porque, embora eu tenha me tornado mais um dos milhares de advogados contra a doutrina de pureza, contra essa demonização seletiva do sexo, foi assim que ouvi a vida toda então continua sendo um desafio para mim entender diferente.

Quando digo “demonização seletiva” é porque, sim, o que é dito é que sexo só é pecado antes do casamento, mas isso é totalmente anti-natural. “Casamento” é uma palavra inventada, você não consegue explicar isso a um corpo: eu passei vinte e sete anos da minha vida negando sexo por pessoas que desejei muito, por pessoas que até me chamaram pra transar, e além disso passei um ano e pouco negando sexo para minha própria namorada afinal de contas “era pecado” (mentira: só lembre-se que eu me sentia constantemente com medo de perdê-la caso pisasse fora da linha e aí vai entender o motivo, nem pecado eu acho que é, pra mim sexo é uma questão de respeito e juízo e não certo ou errado), não é tão fácil agora explicar para o meu corpo que está tudo bem.

Sei que boa parte das pessoas dentro da igreja não levam isso a sério mas eu levei, levo regras bem a sério. Questiono muito as regras porque, a partir do momento em que aceito uma regra, aceito pra valer.

Sexualidade foi o maior peso que carreguei na minha vida, foi o que mais me fez chorar, o que mais me fez gritar em oração “por que eu sou tão errado?”, o que mais fez da minha vida um inferno.

Odeio muito ter vivido como vivi por vinte e sete anos e, talvez, se não tivesse começado a escrever uma saga sobre isso, eu não teria encontrado a saída.

Numa psicoterapia, talvez. Mas se eu fosse num terapeuta cristão, como somos instruídos a fazer dentro da igreja, talvez ele só fosse terminar de me afundar.

Sou contra a sexualidade cristã. Se existe um limiar de “sexualidade cristã saudável” eu não sei mas entendi que, se quiser criar um mínimo de saúde sexual pra mim, preciso me afastar disso, então não quero saber. “Sexualidade cristã” é controle do corpo e da alma, controle das emoções, controle de como você deve se sentir consigo mesmo. É melhor viver qualquer outra sexualidade.

Leia as histórias, observe quantas vezes eu disse que me senti horrível por coisas que eram boas. Pense nas pessoas que amei e como sofri por elas, como tentei protegê-las de mim, por ver em mim um monstro que não existia.

Pense nas pessoas que machuquei tentando afastar de mim. Pense em... pense em muita coisa, porque eu penso em muita coisa e ainda não consegui me perdoar em tudo.

Pense na vida amargurada que vivi, só de tragédias e corações partidos. O quanto não poder me relacionar com quem eu amava contribuiu para minhas próprias crises suicidas, e o quanto a sujeira que eu acreditava estar dentro de mim também o fez, sendo que essa sujeira não passava de desejo, algo bom, que as pessoas trocam e são felizes.

A verdade é que me arrependo de todas as decisões que tomei no passado ao mesmo tempo em que vivo esse dilema de que, no final das contas, encontrei a minha chance. Encontrei uma pessoa que amo e que está comigo.

Não acho que “foi Deus honrando minha decisão” porque essa é uma mentalidade de crente nojenta, convertendo responsabilidade por decisões péssimas em crédito numa cosmologia que valida seus erros, se você fez as coisas como eu você não foi “paciente”, você foi um arrombado. Deus não quer que pessoas se machuquem para saciar sua fantasia fundamentalista de relacionamento cristão. Deus não quer que pessoas se dêem mal para que você se dê bem.

Não acho também que “era pra ser”, como se meus relacionamentos passados fossem todos dar errado porque o que era pra dar certo era esse. Talvez eu fosse me dar bem já no primeiro. Talvez fosse viver alguns problemas sérios em um, terminar, me recuperar, entrar em outro e dar certo. Talvez estivesse tentando até hoje. É arbitrário.

O que tenho certeza é que “ficar sem se relacionar” não é uma opção mais segura.

Muita gente olha minha vida de longe e pensa “tá vendo ó ele fez as coisas no tempo certo”, esquecendo que a solidão fez grande parte das minhas automutilações, dissociações e pensamentos suicidas (e madrugadas na BR ensaiando me jogar na frente de um caminhão), esquecendo que fiquei dias sem comer pela Moça da Carta de Amor, esquecendo o quanto sofri pela Miss Bondade e como doeu toda aquela situação nojenta, todas as dúvidas e ansiedades que encarei.

Não posso dizer que não poderia ter passado por algo pior que isso, mas também não posso dizer que é a melhor opção, porque talvez não seja.

Não me desculpo porque não tem como, essa culpa é minha, não é “plano de Deus” nem nada disso. Eu errei, fui ensinado de maneira errada, vejo pessoas sendo ensinadas de maneira errada a todo tempo, e é errado e ponto final.

Não tenho controle sobre isso, mas gostaria muito de não ver meus filhos achando que pessoas cristãs são as melhores para namorar porque não são, são pessoas complicadíssimas.

Metade dos problemas que tivemos no relacionamento, tivemos porque crescemos na igreja. Nós dois. Não ela. Hoje sei que ela não é mais fundamentalista, eu sou mais: a nossa diferença é que ela confia mais nas pessoas e portanto confiou em líder religioso com comportamento sectário tentando nos separar.

E não adianta dizer que só cristãos acreditam em casamento eterno porque a taxa de divórcios dentro da igreja é a mesma fora dela. Não tem benefícios. Seria muito mais fácil se o crente assumisse que ele não é melhor que os outros em nada, principalmente nas coisas em que acha que é melhor.

Sem contar o maldito abuso. Essa assombração que me acompanhou por anos de que perderia minha namorada para uma doutrina religiosa definida por quem acordou de lua comigo. Noivei assombrado por esse abuso, demos entrada em um apartamento enquanto eu estava assombrado por esse abuso.

De fato, tentaram o abuso uma vez.

Chegou o dia em que vieram “me expor” para minha noiva, talvez esperando que ela não soubesse quem eu era. Talvez achando que ela ainda fosse parte daquela estrutura de poder. Claro, como submissa. Talvez esperando que ela fosse “descobrir a verdade” e me largar.

Ela era minha noiva. Nós tínhamos noivado, falado com nossas famílias. A festa de casamento estava paga, o apartamento já estava entrando nas prestações do financiamento.

Ainda assim, tentaram.

Assim que perceberam que ela sabia exatamente com quem estava, deram um jeito de silenciá-la e continuaram a me humilhar um pouquinho. Depois daquilo, vieram tentar falar com ela mais um pouco. Quem sabe dava pra mudar alguma coisa, né? Quem sabe.

Ela era minha noiva. A pessoa que eu esperei vinte-e-sete anos pra amar.

Com quem conversei um ano sem parar, brigando, tocando música pra sarar as feridas da ansiedade, das rejeições que não existiam mas minha cabeça criava.

E a minha noiva ficou do meu lado.

Aí acho que entendi que era amado. Pela segunda vez. A primeira foi em uma situação exclusivamente nossa.

Pensei que talvez persuadiriam os pais dela mas, a essa altura, já me consolava saber que poderíamos perder apoio, mas nunca perderíamos um ao outro. Mas nós não perdemos nada. Não conseguiram nos tirar nada.

O que aconteceu aí é o que já devem esperar: da mesma maneira que o conceito da liderança religiosa despencou vertiginosamente pra mim quando estávamos para começar o namoro, isso aconteceu para ela dessa vez. Não ficaram satisfeitos com o fato de ela ter decidido por nós, então passaram a tratá-la com desprezo da mesma forma que já me tratavam.

É uma coisa que eu não entendo nas pessoas poderosas: isso não chega a ser uma burrice? Por que precisa ter esse momento de dar as caras e querer impor suas cartas na mesa? A estrutura não permaneceria muito mais inabalada se tudo continuasse nas sombras? Por que o sol? É mesmo tão necessário querer ver a submissão nos olhos de outra pessoa? Que sentimento bosta, hein? Deve ser difícil ir longe com isso.

E então, no dia 21 de novembro de 2021, nós casamos. Em casa, porque era pandemia. Meio ano depois fizemos nossa festa.

É assim que se encerra a história da noite na pequena londres, é assim que se encerra esse capítulo. Mas, talvez, não seja assim que se encerra a noite na pequena londres. Talvez, esse não seja o último capítulo.

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escrito por nubobot42 narrado por heartshaped star