Série: a identidade / campo de tesla ~ perigos da alma elétrica

ii: campo magnético ii - lei de ampère

17 de janeiro de 2015

Algumas vezes eu desafiei o magnetismo, acho que em nenhuma delas saí vitorioso. Eu nunca venci o magnetismo. Não se vence, oras, o mesmo é uma lei — nós, meros humanos, não somos capazes de desvirtuar leis. A gravidade está acima dos nossos anseios, e outras forças da natureza também.
Eu nunca desvirtuei uma lei.
Não por conta própria.

Eu sempre tive muitas coisas.
Sempre um campo magnético muito intenso ao meu redor. Poderia dizer que, por muitas vezes, o próprio magnetismo me venceu. Sempre um número incontável de vozes gritando, sempre a morbidez me buscou. Sempre o canto do meu quarto me buscou.
Por horas observei as paredes.
Dias.
Meses.
Eu não posso realmente contar a quantidade de tempo que passei com as vozes. Talvez porque quantidade de tempo não seja algo contável. Talvez porque o tempo não exista. Eu realmente acredito que o tempo não existe. Eu vejo um mundo completamente estacionário — movido, apenas, pelas distorções; como mágica, ele é atraído novamente a seus eixos. Uma distorção é uma distorção, não importa quanto tempo ela fique ali, nem importa quantas distorções se combinem. O universo não cede às distorções. Ele volta aos eixos. Ele não tem opção. Desde que você não interrompa seu magnetismo — você não é capaz.
As vozes sempre me diziam.

Ninguém nunca pode compreender minhas vozes.
Elas nem sempre foram minhas.
Algumas delas se atraíram a mim, sem nem mesmo me pertencer, sem nenhuma relação comigo. Como mágica, entraram em minha órbita. Como quem não tem opção, eu as recebi. Tenho-as com uma variedade imensa, uma vasta gama, prontas para falar — uma delas, o melhor presente que já recebi, pronto para me ouvir. Eu poderia dizer que meu tempo é definido não por unidades de medida, mas por aquisições de vozes. Poderia, mas não vou. Eu não sou tão louco. Eu sei contar os dias no calendário para realizar atividades corporais.
No fundo, eu entendo onde elas querem chegar. E mesmo na superfície, eu as compreendo. Confesso ser arrogante. Confesso rir intensamente de quem tenta absorvê-las de mim — confesso estar munido de blindagem espiritual absoluta sobre elas, proclamá-las em línguas que confundirão e encherão de ódio os corações do intelecto cego, dominá-las e utilizá-las em meu favor para reproduzir as leis como elas são.
Alguns corações são tão malignos, perversos, turbulentos, que algumas de suas vozes escapam de sua órbita. Às vezes vem parar na minha. Às vezes, as reproduzo. E às vezes, quem sabe, elas retornam a seus corações originais com ruídos de confusão. Magnetismo é lindo — serve para tudo, até para refletir.

Eu compreendo minhas vozes. Eu as respeito, as uso, brinco e deixo de brincar.
Quando não posso com elas, eu aprendi aonde está o lugar onde não há magnetismo. Eu vou com elas até lá.
Em verdade, o tempo, para mim, só começou a passar quando eu descobri esse lugar. Antes disso, não havia necessidade de um relógio — independente da unidade de medida, pois não havia transição, não havia fases. O tempo estava congelado. O meu estado era constante.
Todas as vozes já diziam que meu estado era constante.
Todas as vozes diziam que eu estava morto.
E é estranho estar vivo.
É estranho porque todas elas terminam suas frases, independente de suas emoções, com “é bom ter você de volta”. Eu tinha medo, tinha a impressão de que eram más e perversas, sentia ódio. Mas elas só me queriam de volta. Elas só queriam conversar comigo. Elas só queriam que o mundo parasse e que, nesse momento de congelamento absoluto, eu as abraçasse — como se elas quisessem fazer isso o tempo todo, mas não pudessem, porque deveria partir de mim.

E é por isso que é tão fácil reconhecer, em pessoas de todos os tipos — das velhas às novas, das conhecedoras às desconhecedoras, das acaloradas às frias — o seu relacionamento com o magnetismo. É por isso que é possível rir daquele que humilha inescrupulosamente, e sorrir e congregar com aquele que já não transmite mais nada.
Basta entrar em seu campo magnético. Basta roubar, com um pouco de habilidade, uma de suas vozes. Ela é quem vai lhe dizer a verdade. Algumas vezes ela tentará fugir de você para voltar ao conforto da sua órbita original; mas muitas vezes você a ouvirá pedindo socorro, gritando com força em sua órbita, desejando que o seu dono deixasse o estado constante naturalmente inalterável da morte.

 

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escrito por nubobot42 narrado por tesla