Em termos, Yasutaka Nakata é um artista que nunca vai nos fornecer músicas as quais daríamos cinco estrelas de cara — existe uma assombrosa barreira criada entre aquilo que é “artístico”, “alto nível”, e o que é feito para ser “extremamente popular”, o que é considerado simplesmente “pop”.
Não é um julgamento todo errado, até existe sustentação coerente para o mesmo algumas vezes, mas é sustentação baseada completamente no modelo ocidental de fazer música popular e, o pior, no modelo ocidental de ouvir música popular. Não sei ao certo se deviam existir modelos, não se padroniza audição, é interessante que se saiba sentir aquilo que está acontecendo aos seus ouvidos; infelizmente, não se sabe sentir o oriente, a não ser quando o mesmo atinge seu ponto mais fraco — aí não só se entende como se cria obsessão pela abordagem completamente diferente, mais violenta em maior parte dos aspectos.
Gosto de generalizar pelo oriente todo porque os efeitos que vejo no J-pop são os efeitos que também vejo no K-pop, embora os mecanismos sejam tão diferentes.
A abordagem de Nakata e seus quadros é violenta. Bastante violenta. É fora do padrão encontrado em sua própria cena, que já é uma das mais ricas nesse planeta há algumas décadas.
Algo visível nesse disco, mas também em praticamente qualquer coisa já lançada pelo mesmo, é o número de acontecimentos em uma mesma música. O número de fatos e pontos de vista num mesmo instante, amplificado pela virtuosidade japonesa de composição, é absurdo. Isso se reflete em todas as suas produções atuais: seja em novos discos do capsule (ou CAPSULE, como se chamará oficialmente daqui a alguns dias), seja em discos da Kyary Pamyu Pamyu, seja — especialmente — em discos de Perfume. É impossível assimilar tudo o que ocorre em qualquer música de LEVEL3 ouvindo uma vez só, duas, três, ou sabe-se-lá quantas vezes são necessárias.
O poder de Nakata está baseado em converter “suas meninas” em incontáveis linhas instrumentais e letras que, embora não densas, ou mesmo não algo que as pessoas considerariam “inteligente”, são capazes de manter a perfeição de sua mensagem no instrumento mais importante — as cordas vocais das mesmas. Yasutaka Nakata, creio eu, é a experiência mais fascinante de interpretação de pessoas em músicas que existe no mundo; ele é o mais próximo musicalmente que temos de sentar, pedir para uma pessoa ficar parada em sua frente, e pintar um quadro baseado na mesma.
E é tão difícil entender que ele realmente está fazendo isso que, às vezes, não basta interpretar uma vez a mesma obra (se possível, em Perfume, no mínimo três vezes: uma para cada integrante), nem basta interpretar a mesma obra — em fato, é interessante otimizar sua visão sobre o mesmo ouvindo interpretações de outras pessoas de parte dele, porque em todas encontramos ligações do que ele acredita ser igual em suas “modelos”, e do que acredita ser diferente (em fato, ele já desenvolveu músicas em incontáveis estilos). É interessante também enxergar as músicas em performances — embora elas sejam muito bem sustentadas por si só, o palco facilita a obtenção de rastros saborosos em vários trechos.
Também existem composições muito boas por si só, arranjos complexos e todos esses blablablas, mas honestamente, não é o que deve chamar atenção na interpretação em si. No entanto, óbvio, não é injusto dar atenção quando quiser — primeiro que nada que é bom deve ser privado dos ouvidos, segundo que não escondo que um dos meus ideais é fazer uma composição “parecida” com qualquer grupo desse rapaz no que se trata de sua execução.
Dadas todas essas informações sobre a metodologia Yasutaka Nakata de composição, vou ao que descreve as impressões que tive com o disco em si: elas nunca estiveram tão lindas, e com o coração tão cheio de tantas coisas, quanto em LEVEL3. Talvez seja injusto julgar pessoas, mas estou apaixonado, e para essa minha paixão tão complexada dou cinco estrelas.