Série: o fluxo

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17 de novembro de 2012

The Laws of Scourge [Sarcófago]
Black metal
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Digamos que o disco não traz uma sonoridade black, mas mais puxada para o “techdeath”, mas digamos que eu esteja pouco me importando: o que creio ser interessante nesse disco, que obviamente é um dos primeiros a partilhar desse princípio sonoro do que foi a melhor parte do death metal noventista, é que ele não tem como mensagem o death metal. Ele é, fundamentalmente, um disco de black metal como todos os outros que a banda tinha feito até esse momento.
Mas explicar do que é um disco é, em termos, desnecessário. É para isso que o classifico lá em cima. Gostaria apenas de compartilhar uma simples ideia de porque black metal em seu primeiro “corpo” (ele teve vários) é bom, como música.

The Laws of Scourge é um disco trabalhado, da mais baixa camada até a mais alta, para cultuar o ódio. Não porque ódio é um sentimento bom, porque é impossível de se classificar uma emoção como “boa” ou “ruim” num parâmetro do que o ser deve ter e não deve ter: o ser, inevitavelmente, tem todas. Na música no geral, os anos oitenta deixaram de explorar uma diversidade de itens a ponto de explorar outros com muito mais força – músicas dos setenta, incomodem “anti-saudosistas” – linha de pensamento que nem sei porque existe, tal como o próprio saudosismo inexplicado, mas ainda pior – ou não, tinham muito mais propriedade esculpindo o ser humano como um humano todo. A música tinha a sua felicidade, o seu amor, o seu ódio, e muito mais.
Deixo claro que isso não se perdeu nos anos oitenta, só deixou de ser foco, a partir de uma ruptura que ocorreu nos próprios anos setenta. E não sei a que ponto isso é pior, acredito eu que não fosse necessário, mas sou só um opinador inútil como qualquer outro.
E então, para um contra-ataque a tudo o que estava sendo esquecido, nasceu esse tipo de mentalidade do black metal. Específica do black e, posso estar errado, mas acredito ser específica do black dos anos oitenta – a Noruega, que atualmente creem ser “o grande ninho do black”, não é tão ninho assim dos primeiros, sendo o black metal inicial construção colaborativa da Inglaterra, Estados Unidos, Suécia e (pasmem) Brasil.

O que se vê em The Laws of Scourge é justamente o que se espera de um bom disco de black metal: foco do ser humano no ódio, todas as naturezas do ser humano enquanto odeia, e todo o misticismo do ser enquanto odeia. E a forma poderosa em performance pela qual ele se expressa é meramente um meio, divertido de se analisar, mas apenas um burro-de-carga para o que o Sarcófago realmente queria passar.
O ódio no black metal, ao contrário do que se entende normalmente (e às vezes do que os próprios performistas acreditam ser), não serve simplesmente para semear sentimentos ruins em outros enquanto o próprio artista libera. Serve para identificação. Embora seja difícil de ouvir o som extremo das bandas, e eu entendo que é, e eu entendo que haja aversão ao que ouve, é um som que está em todos – e algo que muitos procuram alguém que entenda, compartilhe, sirva de apoio, mas não conseguem encontrar. O ódio é forte, e muitas vezes extremo e violento, muitas vezes religioso (o que faz a marca do agnosticismo, em um viés do desequilíbrio do ser quanto ao que acredita, tão presente no movimento) – não é sempre que se pode resumir o ódio à vida numa Pitseleh do Elliott Smith, às vezes ele vem como Prelude to a Suicide do Sarcófago. Às vezes não é um artista que passa tristeza com serenidade que pode entender seu ódio mórbido, às vezes é Celtic Frost e sua Necromantical Screams.
E é pra isso que o black metal dos anos oitenta serve. Não necessariamente para queimar igrejas ou fazer corpse paint, ou pra ser um estilo de vida – é no mínimo lamentável alguém que tem como estilo de vida cultuar ódio e o maligno, quem faz parte do black e se esforça pra ser uma pessoa “má” automaticamente não o compreendeu, e é o que mais ocorre -, mas pra mostrar algo que o ser humano tenta esquecer e nunca vai, porque sempre vai estar lá, sempre precisando de cuidado.

Se esse disco é perfeito simplesmente por saber operar o conceito? Não. Ainda é um quatro estrelas, com algumas falhas bobas e outras notáveis, alguns trechos que não precisavam existir ou mesmo um certo sentimento de cansaço mais para o fim já que é o trabalha de maneira não tão flexível para quarenta minutos. Mas, assim ocorreu com Lisbeth Scott que falhou em fazer um disco perfeito mas de se aplaudir pelo que tentou alcançar, assim ocorre com Sarcófago e The Laws of Scourge.

(é triste demais ver como os fãs de black metal são bobos mas infelizmente a realidade é essa, a música é tudo isso mesmo)

 

Você leu um capítulo da série o fluxo

escrito por nubobot42 narrado por peter dangerous