Eu nunca poderia esperar que alguém conseguiria trazer algum tipo de felicidade, alguma voz de esperança, para algo que foi retratado na história como desastre inescrupuloso. O que não é errado, “logicamente”, talvez. Mas creio que há um desafio maior na música, um desafio (não único desafio, mas importante) de trazer às pessoas uma conversa sincera com o Espírito, de trazer revelações de paz em meio a conflitos tortuosos que não somos capazes de compreender e nosso senso humano pode não ser capaz de interpretar sem dor profunda.
Um desafio que está muito além das intenções do “músico”, um desafio que torna o músico mero instrumento de Deus e a abundância de seu Espírito Santo. Não sei se devo repetir o discurso, já está se tornando comum — graças a Deus — na internet e sempre foi comum, embora confuso e talvez superprotetivo, nas igrejas. O que sentir necessário conversar, conversarei; o que não sentir, não conversarei.
A história da música nos traz conversas interessantes com esse espírito e trilha caminhos interessantes, que se entrelaçam muito mais do que podemos esperar, e muito menos do que forçamos a ser. Queremos encontrar ligações “técnicas” nas coisas, queremos criar árvores genealógicas de acordo com critérios nossos, mas ando percebendo que a árvore genealógica real está muito mais em aparições esporádicas do mesmo espírito em regiões que talvez não possamos prever. É assim, por exemplo, que Beatles se mantém vivo até hoje e não sei até quando permanecerá vivo, mas coloco minhas fichas na eternidade.
Quando se ouve algo, é necessário estar com a própria alma preparada para receber o que se deve receber. Embora seja um consenso um tanto bem construído que a música é mais uma daquelas coisas que “não se leva a sério”, essa é uma das áreas onde mais se corrompe uma pessoa.
Toda música, aceite o ouvinte ou não, aceite seu dono ou não, contém uma alma. Um espírito despreparado pode ser devastado pela canção que ouve, porque a música nunca é “nada” — uma música “vazia” não é “nada”, é a reprodução do vazio, ela desenvolve no ouvinte o seu próprio vazio; um espírito despreparado pode ser impactado, também, por canções onde o próprio espírito de Deus está presente, embora isso muitas vezes signifique uma incompatibilidade que o leva a não identificar absolutamente nada, ou até mesmo à repulsa. Como isso se reproduz? De diversas maneiras, inúmeras, as quais não me proponho a conversar a respeito aqui.
Toda essa conversa, na verdade, é para voltar à Menina de Hiroshima. Temos, no Brasil, o privilégio de, mesmo sendo um país afastado da espiritualidade e (fracassado) silenciador da voz divina, termos exemplos próprios onde Deus se infiltrou nos corações de pessoas para transmitir seus recados.
E é interessante pois as armas divinas às vezes aparecem de maneiras completamente inesperadas, mas às vezes não. Nunca foi segredo ao mais atento a flauta como um dos mais potentes transmissores dos dons do Espírito. A flauta é um instrumento tão antigo que suas “especificações técnicas” estão impressas até na própria Bíblia. No Brasil, temos uma abundância em flautas nos tempos de Tom Jobim que chega a nos confundir, mas foi essa a forma que Deus quis.
Temos uma abundância em diversos instrumentos, nem todos naturalmente bons. Essa abundância se faz presente nessa canção que, tratando-se de natureza, parece ser uma combinação muito simples. Tudo nessa canção é simples.
Porém, ela é a primeira canção que se dispõe a trazer as boas novas sobre algo tão assustador. Eu não entendo Hiroshima, não sei se um dia entenderei, não sei se me interessará um dia entender — não exerço nenhuma das faculdades capazes de me trazer essa necessidade hoje, mas não sabemos o que nos é reservado. Tentando traçar uma linha entre aquele momento e hoje, e retirando todo interesse político que for possível dessa linha, só sabemos que há um potencial no mundo criado por Deus de erradicar uma parte da população em instantes.
Isso é o que nos foi deixado com esse acontecimento, naturalmente falando.
Quanto a isso, vi nessa canção — em cada trecho de flauta, em seu doce xilofone, nos abraços proporcionados pelo violão (em especial no encerramento) e na voz de Nara que quase nunca foram tão vivas e suaves — um recado de conforto. Como eu disse no início, não esperava alguém trazendo conforto sobre o atentado de Hiroshima, primeiro porque temos como padrão o gosto da impotência da Rosa de Hiroshima de Vinícius de Moraes, segundo porque a existência do atentado está muito distante de nós. Ninguém se importa mais com isso, piadas são feitas com imagens na internet a respeito desse assunto quando aparece a oportunidade.
Ele passou. Foi embora. Nunca conversei com um japonês nativo a respeito. O que me resta é questionar se em Londrina, minha cidade, colônia japonesa, um rapaz japonês que conheci, com um único braço e três dedos em sua mão (sendo o dedão dois dedos colados), que sofre para pegar a linha 505 Expresso Vivi Xavier porque ninguém o cede um lugar, é uma consequência da tragédia.
Mas naquela época não tinha passado. O mundo ainda devia estar muito assustado, muito mais do que agora, a respeito de tamanho potencial. Um recado divino reconfortante sobre tudo isso ficou, então, cravado na história de maneira sutil. Na discografia de uma mulher que não teve muito sucesso se comparada às suas colegas de cena, composta por um rapaz cheio do espírito que o usou como condutor diversas vezes, mas nem mesmo foi colocado num dos pódios da “história da música no Brasil”.
Só que creio que o recado impresso nessa música nunca foi esquecido, nem por Deus nem por nós — para os homens, a paz permaneceu nessas notas, o anseio pela calma acerca da devastação bélica continuou sendo satisfeito; para Deus, esse espírito foi conservado, lapidado, transportado de coração a coração, até chegar nas próximas gerações japonesas. Como eu disse, a história trilha caminhos interessantes. Hoje nem nós, brasileiros, conservamos o espírito de músicas como Menina de Hiroshima como os japoneses fazem: o Brasil trilhou seu próprio caminho tortuoso como bem entendeu, o Japão reteve esse espírito e o conservou com carinho em cenas musicais como as primeiras eras dos videogames e algumas cenas que acabaram se anexando ao shibuya-kei. E aí, para explicar isso, apenas com outro texto.
E é por isso que temos nosso espírito tão facilmente conectado a essas músicas. Nelas estão a revelação da vida radiante, a vida radioativa, da Menina de Hiroshima. Só que não foi aos japoneses que Deus revelou isso — por algum motivo que só ele sabe, ele revelou isso a nós, brasileiros.