Série: o fluxo

Perfume - Cosmic Explorer

20 de abril de 2016

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 Kashiyuka, Nocchi, Aa-chan

“Você é louco.” eles diriam, eles sempre dizem. Sem passar pelo que passei, sem visitar os corações que visitei, sem freqüentar as mortes que freqüentei, nada disso faria sentido.
Olhem, não quero ser complicado, mas me dêem desconto dessa vez. Só dessa vez. Não estou falando de qualquer coisa, estou falando de mulher. Dessas três mulheres. E não estou falando de qualquer coisa que vem dessas três mulheres: estou falando de uma aventura, de grandes proporções, de grande dedicação, uma verdadeira história — “Monogatari”, em japonês (não sei nem qual japonês!), todos sabem. Mas amo essa palavra. Mo-no-ga-ta-ri.

Não é um caminho reto, único. É uma aventura. É, definitivamente, uma aventura. O universo é vasto, todos sabem disso, todos encaram o universo como vasto e concluem a partir desse fato inegável o que bem desejam — que há um significado, que não há; que é grande demais para não fazer sentido, que é grande demais para fazer; que há ordem, que há caos; que há criador, que não há criador; você pode concluir o que quiser desse fato, e o mais interessante: pode concluir que há como concluir, e que não há como concluir.
Tudo isso é uma conclusão.
Mas calma! Estamos apenas começando. E não vim aqui para falar da imensidão, embora alcance a questão de pertencer a ela algumas vezes, embora esteja sendo guiado dentro dessa imensidão a todo momento. O que você vê? Quando se inicia uma viagem o destino é certo, parece que você tem o caminho todo mapeado na mente e ele se comportará dessa forma na prática.

Ele não se comporta.

Quando se coloca as mãos no volante e se anda alguns quilômetros, percebe-se uma instabilidade no plano inicial. Outros carros no caminho; pássaros, nuvens carregadas; asteróides; eu não sei, não sei o que está imaginando! Não sei o que estou imaginando. Só sei o que estou vendo. Às vezes é algo, às vezes não é. O que deveria fazer? Perguntam-me, onde devo ir?
É importante, quando se faz uma viagem, observar o que está fazendo. Se está tudo bem, se há gasolina, mas mais importante: já percebeu que, quando está na pista, tem que cuidar de todas as pessoas ao mesmo tempo? Já percebeu que todas as pessoas estão cuidando de todas as pessoas ao mesmo tempo? Quando para, ali, onde está escrito “PARE”, você não para simplesmente: instantes antes observa no retrovisor se há outro carro, para avisá-lo com seu freio que está parando; e então, conforme vai encostando o biquinho do carro na ponta, observa os dois lados, observa se o carro que está vindo na outra mão não está com a seta ligada e virando (e, se não estiver com a seta ligada, toma cuidado mesmo assim. Existe todo tipo de louco nesse mundo! Ou às vezes ele esqueceu. E aí, se você já esqueceu também, e duvido que não tenha esquecido, precisa perdoar). É um milagre ocorrendo. Como o ser humano consegue observar tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e ainda reagir com mãos no volante e pés em pedais?
De pista em pista, a viagem vai ocorrendo.

Você sabe, o cosmos é enorme. A verdade é que a melodia divina do universo, a única música que Deus está tocando esse tempo todo, possui instrumentos demais. Fenômenos demais. Tudo ocorrendo ao mesmo tempo. É impossível fechar os olhos, tapar os ouvidos para o mundo exterior, e se sentir sozinho. É impossível estar na pista sozinho. Sempre há alguém, sempre há algo.
Na calmaria, há alguém. Na turbulência, há alguém. Sempre há. Sempre há uma música. Como é uma mente onde não toca melodia nenhuma em nenhum momento? Como pronunciar palavras sem que elas construam suas próprias melodias, sem que elas orientem os sentidos pela sua composição natural-auditiva da mesma forma que as palavras, em si, orientam a percepção lingüística da mente e se desmancham na imaginação poética do ouvinte? Qual território da sua imaginação se desperta melhor: o das melodias, o da combinação de palavras, o da continuação das imagens já vistas? Ou os três? Há mais? É provável. Mas talvez, no fundo, tudo isso seja o mesmo.

As melodias são escorregadias. Posso te contar isso com convicção. Fiz tudo pela música dentro da minha mente. Fiz muito pela música fora da minha mente. Elas podem te induzir a fazer qualquer coisa, desde que você deixe.
Há um problema, no entanto, e ele é uma causa direta do fato do território das melodias não ser nenhum subordinado às vontades dos olhos, do tato, do paladar e dos olhos. E o problema é que você não sabe se está deixando, a não ser que descubra como saber se está deixando.
A imaginação gerada pelos impulsos nos ouvidos é especial e, se tentar subjugá-la através dos outros sentidos, em ato de orgulho vulgar, você cai. Passado um flash, acorda no abismo.
Mesmo assim, a música é doce. É confortável. Não é, nunca foi, um instrumento de terror como às vezes as pessoas querem que seja. É uma arma da alma. Almas amáveis e amantes dão tiros amorosos, confortáveis, mesmo em seus dias mais terríveis, mesmo pedindo afeto, sentindo-se solitárias, mesmo dizendo que está tudo horrível — é um equívoco comum, não só musical como cósmico, mesclar turbulências e destinos, passar por safras de solidão, depressão e auto-desprezo e concluir que esse é o único resultado possível; tudo passa, exceto o que você pedir para que não passe; não sua boca, sua mente — a falta de unidade do modelo humano atual é assombrosa, não surpreende que seja impossível acreditar em algo para ser imagem e semelhança — , mas seu corpo, alma, espírito em união por um objetivo em acordo com a vontade de Deus.
Almas amáveis são infantis em alguns aspectos. Não em outros. Crescer é crescer. A rispidez da vida responsável, tortuosa, conflituosa vem por vários motivos, mas em nenhum deles há menção da necessidade de tirar o seu sono de bebê. Nem a sua vitalidade. Eu sei, é difícil, também não tenho vitalidade com tanta freqüência, é um problema nosso. Vamos assumir que precisamos de uma luz, às vezes.

As melhores viagens são viagens noturnas.
Não tanto pela pista, porque a pista não tem graça por si só. Pela calmaria de não ter bilhões de carros andando com você, talvez.
Elementos-chave da noite são prédios — meu pai eterno, como amo prédios bonitos e bem iluminados — e céus estrelados. Poucas vezes dirigi um carro sendo guiado pela Lua, é fato, porque no Sol é muito mais fácil. Eu dirijo muito mal.
Gosto de luzes artificiais. Sinto que a luz da Lua é artificial, mesmo que não haja motivo racional nenhum para considerá-la assim. Ela é diferente do Sol. O Sol é tão poderoso, a Lua tão tímida. O Sol, sozinho, consegue tudo; a Lua, com as estrelas, consegue quase nada. Nas pistas, andar sem a iluminação de postes, da tinta iluminada e outros sinalizadores, é terrível. Só que a vista é linda.
Talvez seja pela existência da noite que nós compreendemos, muitas vezes, estando corretos ou não, que tudo aquilo que é mais arriscado é mais bonito. Talvez seja o contrário. Isso depende de como quiser examinar minhas vontades, ou nossas vontades, mas tenho certeza que não estou falando de várias vontades aqui.
A aventura é minha.
Você só lê.
As estrelas muitas vezes são o que há de mais bonito no dia. Quantas pessoas as estrelas já ouviram? É uma era com tentativas grotescas e grosseiras de sacrifício dos símbolos naturais essa em que vivemos, mas nem todos são afetados, e nem sempre houve esse tipo de sacrifício. A estrela cadente ainda vive no coração de muitas garotas sonhadoras (e muitos garotos também, não contem a ninguém esse segredo). A estrela-guia. A astrologia. Tudo isso vive.

É por isso que, às vezes, gosto de observar. Observo e nem sempre penso em mim. Penso muito nos desejos dos outros. Às vezes prefiro largar a tensão de dirigir meu carro para passear em veículos dirigidos pelos outros e observá-las em paz, embora a preocupação com o trânsito e com a pista seja muitas vezes mais automática do que desejo.
Às vezes o melhor é simplesmente parar. Encontrar um bom lugar com uma bela vista e ficar lá. Todos sabem, eu gosto de prédios. Arranha-céus. Gosto de me sentir um fantasma das cidades não-tão-grandes e ver tudo do décimo, vigésimo andar — eu sei que chega até cem na cidade grande, não precisa me avisar que sou caipira.
O melhor dos prédios é que outros prédios também são bonitos. Lembram pequenas constelações terrestres e artificiais, uma reprodução humana pouco fiel mas suficientemente agradável ao olhar de uma constelação bem-povoada. O mito das pessoas que morrem e viram estrelas nunca se aproximou tanto da realidade quanto agora.

Imagem e semelhança, sem escapatória. Torna-nos ansiosos para alcançar a eternidade. Alguma vez já pediu para deixar de existir no plano temporal para se integrar completamente ao atemporal? Eu já. Talvez o sentimento de incompletude, e até mesmo uma certa solidão da incompletude, nada mais seja que um grito espiritual pedindo para ser capturado pela eternidade.
Escolhido pela eternidade. Seria Deus tão generoso ao ponto de conceder um desejo desse? Nós não sabemos, nós nunca saberemos, por isso gritamos.
Deus possui seu corpo físico, as pessoas não fazem a menor idéia de como alguns estão agarrados a ele. Em suas necessidades, em seus anseios, é claro. Já viu alguém desejar Deus durante um estado de normalidade total? Um estado de satisfação total e plena? É por isso que quem ama Deus nunca está satisfeito, nunca está realmente completo. É claro que acredita que está bom, é claro que agradece por estar bom, mas há sede. Há busca incessante, pelo simples fato de que sempre haverá algo a buscar.
Não existe satisfação humana plena. Nunca houve, nunca haverá. Há gratidão.

Da mesma forma que, nas aventuras, existem infinitos caminhos no início. Não existem no fim. No fim, só há um caminho, a única possibilidade. Iniciar a mesma aventura novamente implica em iniciar outra aventura, a mesma viagem em um mesmo caminho é outra viagem: não é o mesmo céu com as mesmas nuvens ou a mesma Lua e as mesmas estrelas, nem as pessoas nos prédios estarão nos mesmos lugares e, até por isso, a organização da constelação humana criada pelo jogo de luzes será diferente; e não serão os mesmos carros no lugar, e nem mesmo seu carro será o mesmo.
Talvez vá prestar atenção em outros elementos, talvez escreva um texto completamente diferente. Talvez preste mais atenção na Nocchi da próxima vez, ou na Kashiyuka, porque dessa vez foi na Aa-chan. Talvez importe menos os teclados perturbados da TOKIMEKI LIGHTS, talvez mais a abertura pressurizada de Cling Cling. Talvez a vontade irresistível de ajudá-las com as emoções em Miracle Worker não seja assim tão irresistível. Talvez você não consiga recusar entrar no próximo palco com elas, e aí, meu jovem, você estará perdido.

Mesmo assim, ao final de cada aventura, estenda a sua mão. Ela deseja segurá-la. Você vai gostar.

 

 

Você leu um capítulo da série o fluxo

escrito por nubobot42 narrado por rebecca