Strapping Young Lad — Heavy as a Really Heavy Thing
Industrial metal
Devin Townsend não gosta de Heavy as a Really Heavy Thing. Devin Townsend é o compositor do disco, além de ter trabalhado em maior parte de seus instrumentos para gravação. Devin Townsend provavelmente detesta Heavy as a Really Heavy Thing.
Na época que esse álbum saiu, seu diferencial era ser “a coisa mais perturbada que você ouvirá em muito tempo”, e maioria das pessoas preferiam chamá-lo de “apenas barulho”. A Roadrunner negou contrato com Devin pelo seu som ser “apenas barulho”. Eles estavam certos — há muito barulho.
Tenho que dizer, no entanto, que há um bom tempo eu venho prestando atenção, inclusive, em “barulho”. Venho descobrindo algo muito interessante em barulho. Primeiro, é uma palavra deveras engraçada. Segundo, barulho é impactante, expressa muita coisa — as pessoas se incomodam com barulho pelo simples fato de assim ser.
Eu não sei se estou discutindo questões do que chamam de “noise music”, “drone”, etc. porque acho que não ouvi essas coisas e não sei como são. Se algo se aplica aqui, dediquem-se a encontrar e dissecar por vocês mesmos, estou falando de Heavy as a Really Heavy Thing.
Heavy as a Really Heavy Thing é um disco dissociativo, desde o início dissociativo. O disco começa com um pesadíssimo “barulho” e, logo em seguida, um pouquinho de metal extremo organizado — lá pra segunda metade da primeira música ouvimos o vocal limpo de Townsend pela primeira vez, e ele é intenso, bonito, alcança notas interessantes, mas simboliza em prática o próprio Devin tentando sair do inferno que é a música que construiu.
A primeira música se chama S.Y.L., e a “estrutura” dela é interessante porque traz exatamente a síntese de Strapping Young Lad durante todos esses anos, com uma precisão absurda pra uma música de quase vinte anos.
E, evidentemente, o que me faz prestar atenção nesse álbum é sua dissociatividade. É um disco que deixa claro, em todos os momentos, que Devin está unica e exclusivamente brigando consigo mesmo. É o que é interessante em demasia na música desde que acabaram os anos setenta: a mudança de alvo, dos espíritos divinos da natureza (sendo simplista) do rock progressivo, ao espírito perturbado humano.
O disco é uma constante briga entre barulho, gritos e vocais limpos e desesperados do Townsend. E ele não foge das atmosferas de pânico e medo, sempre está entre esses dois. Em músicas de medo — a sensação de que algo horrível está pra acontecer —, instrumental um pouco mais coeso e um desafio mais amigável entre vocais; em músicas de pânico, instrumental acelerado pouco dependente de sequências lógicas, e uma guerra admirável entre vocais; e então temos alguns casos extremos aonde o barulho consome toda e qualquer sonoridade.
E peço desculpas que não saiba expressar realmente o que acontece de uma maneira um pouco mais direta, sem baboseiras de estrutura das músicas do álbum, talvez porque não haja muito como. Mas, em suma, o que queria dizer é que Heavy as a Really Heavy Thing é uma construção musical linda sobre uma madrugada perturbada por transtornos mentais violentos.
Já a Devin Townsend, é um disco horrível sobre madrugadas perturbadas por transtornos mentais violentos. Já a quem o socorreu após a gravação de Happy Camper, já que o mesmo desmaiou, é só algo que ele não devia tentar nunca mais fazer em sua vida.