Série: o fluxo

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21 de junho de 2013

The Farthest Land [Kow Otani]
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Músicas não são como mundos – músicas são mundos. Cada vez sou mais certo disso, cada dia me afogo um pouco mais nas águas do ser que compõe, da sua exposição, percebo que por trás de cada nota há um tanto de introspecção.
Não acho justo abordar uma trilha sonora completa de um jogo como Shadow of the Colossus, mas não deixarei passar em vão como uma única música é capaz de simbolizar tanta coisa. Não creio ser ingenuidade de minha parte afirmar que The Farthest Land é um resumo de três minutos de Shadow of the Colossus – talvez não de toda a ação e adrenalina que o jogo fornece, nem da já famosa reviravolta, mas a música tem como conteúdo não só a atmosfera, como o “mundo” do jogo.
Não é muito difícil perceber numa descompromissada audição que há uma certa intenção por trás – a canção é solitária, desértica, é fácil imaginar um cenário talvez parecido com o que está de fato no jogo, é fácil acreditar no poder atmosférico dela. É fácil porque é uma música bem-interpretada, “bem-feita” num geral, é impossível não ter segurança no trabalho de Kow Otani. É uma ótima música, grande parte concorda.

Eu queria, no entanto, que mais gente enxergasse essa música não só como a atmosfera do jogo como o “universo” do jogo. Não só a imaginação de como é o lugar, não só relembrar dos bons momentos do jogo, não só observar sua estrutura técnica perfeita, mas como The Farthest Land é tão magnífica, autoexplicativa, tão cheia de vida por si só, que mesmo sem que houvesse um “Shadow of the Colossus” ela seria autônoma o suficiente para fazer com que nos sentíssemos um pequeno grão num vasto mundo deserto, procurando sacrificar algo que talvez nem mesmo devessemos, em prol de algo que acreditamos que vai justificar ou fortalecer nossa existência. Não seria impossível, mas não creio ser conveniente, justificar trecho a trecho da música como ela conduz – ou tenta conduzir – quem ouve a uma série de caminhos, inserindo-o num contexto atmosférico e trabalhando por meio das principais melodias a desertificação, a luta e o questionamento; prefiro apenas deixar a mensagem aqui.
E até confessar (num momento que não incorporo como crítico, mas pessoal) que nunca esquecerei um momento da minha vida que pareceu eterno por conta da exploração que essa música me fez, enquanto eu andava sem saber ao certo o que esperar em direção a um hospital de câncer, no centro de uma cidade enorme mas completamente vazia. Acho que nem mesmo me passou pela cabeça qualquer memória de Shadow of the Colossus. Mas olhando para trás tenho a certeza de que, naquele momento, eu era um Wander.

The Farthest Land é, como toda música, um mundo. E eu amo, de verdade, como o fantástico e solitário mundo de Shadow of the Colossus todo foi tão bem incorporado em pouco mais de três minutos – não, eu não só respeito; não, eu também não só admiro; eu realmente amo.

 

Você leu um capítulo da série o fluxo

escrito por nubobot42 narrado por elliot