Peace Sells, But Who’s Buying [Megadeth]
Thrash metal
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Já imagino que, caso alguém leia essa nota, irá formar um sorriso humorístico do rosto e questionar-se porque raios alguém com bom senso musical faria nota de algum álbum de Megadeth e, mais, daria quatro estrelas. Ocorre muito no mundo de hoje a divisão de “fanáticos por metal” e “odiadores de metal”, não tanto quando tratamos de bandas desconhecidas pro público popular como o Mercyful Fate ou o Death Angel (bandas as quais foram trabalhadas já no site), mas quando falamos de bandas conhecidas por todos como Megadeth, Metallica ou Iron Maiden.
Há a impressão de que, pelo fato de que grande parte do público das bandas de “metal mainstream” agirem como completos dementes – e pelo fato de que grande parte das pessoas que tentam agir hoje aos 20/30 anos como cult, indie rocker, classic rocker e tudo mais, já passou um dia pelas mãos do metal e muito provavelmente já foi fanática do gênero -, a música em si também é demente, se veste de preto e sai por aí à procura de morcegos.
O que, no ponto do morcego, não está assim tão errado.
As obras de thrash metal oitentistas das bandas mainstream remetem a um passado, sim, cheio de ódio e vários outros fatores que, claramente, não encaixam na maior parte dos ouvintes atualmente. A Bay Area, sonoricamente, foi uma faculdade de músicas que expressavam raiva, e Megadeth mesmo não sendo muito semelhante estruturalmente aos seus colegas ainda sintetizava esses elementos melhor que quase todos eles. Dave Mustaine nunca foi levado a sério mas, se os dois primeiros discos são sentimentos honestos, o que parecem ser, o homem tinha um respeitável número de frustrações e foi capaz de encaixá-las em faixas muito bem-elaboradas em sua estrutura.
É fato que, sim, o que mais me admira na música é essa capacidade de que, muitas vezes, músicas que captam sentimentos ruins funcionam melhor que músicas que captam os bons. Não sei se há relação com sadismo, e espero que não tenha; mas é interessante quando membros colocam nas suas canções suas experiências ruins e, anos depois, simplesmente desistem de tocá-las porque não é algo que o músico deseja lembrar. É admirável e, especialmente, humano. Algo muito difícil de se ver, não só hoje em dia, mas desde sempre na música.
Com isso, não quero dizer que Peace Sells é uma obra divina, mas apenas gosto de ressaltar o valor que tem como obra sincera (e, como toda sinceridade, momentânea; embora sua influência sonórica seja atemporal).
Até porque, convenhamos, uma obra divina não teria nos vocais Dave Mustaine.