Com carinho
Eu não sei necessariamente o que quero dizer. Na verdade, tenho planos exatos de como encerrar o que quero te falar, mas não sei como farei essa construção.
Mas, acredito eu, eu preciso te falar alguma coisa.
Sei que faz muito tempo que não falamos muita coisa. Dessa vez, acho que não é necessariamente um ponto negativo — não sinto que estamos falhando com a comunicação, sinto que não precisamos tanto dela, eu sinto você aqui e não me parece que não é recíproco. Parece que estamos vivendo normalmente: com problemas normais, que resolvemos com conversas normais, em momentos normais. As coisas realmente melhoraram um pouco.
E eu não posso deixar de dizer que sinto um pouco de medo disso mudar, mas acho que é esperado. Também é algo normal.
Acho que é, no mínimo justo, que possamos simplesmente ficar aqui, na mesa. Acho que nos esforçamos muito para costurar buracos tão grandes, e em lugares tão perigosos, em nossos pequenos corpos fabricados com linhas tão finas. Fizemos tantos buracos novos, cortamos tantas cordas, tivemos tanto que usar forças além do que parecia possível… E agora estamos aqui. Sabe? Fico feliz de estarmos aqui.
Eu acho que, olhando de longe, sinto falta de fazermos tanta coisa juntos. Ainda não me acostumei com a ideia de convivermos junto, apenas, sem precisar fazer tanto alarde para chamar atenção um do outro a respeito do que está ocorrendo — estou mais feliz, mas é tudo muito novo, é muito estranho. Relacionamentos são estranhos, não são? Em especial o nosso.
Lembro de cada fase que passamos e não posso deixar de sentir falta de cada uma delas. A fase em que estávamos na mesma mesa e não nos enxergávamos; em que nos esfaqueamos; em que percebi o quanto tinha te machucado e tentei começar a sentir suas feridas; em que tentei costurar suas feridas; em que desisti e voltamos a nos destruir; a fase de paz armada; a fase em que você destruiu minhas cordas, comecei a cair e em último momento tentou me ajudar a recuperá-las; a fase de seu cansaço quanto a me segurar, e sua destruição escondida para eu não perceber… Entende? Construímos uma história juntos, foram anos turbulentos tentando nos alcançar, e tudo isso só enxergando um ao outro.
E não é o fim, mas parece, porque parece que eu consegui um curativo para tudo aquilo que parecia mais grave pra você, e vice-versa. Eu sei que muita coisa pode acontecer, eu… só sinto sua falta. E espero que isso passe, me sinto mal por isso.
Você acha que eu devia me sentir mal? Você acha que eu devia sentir falta? Você sente minha falta? Eu acho que posso ouvir as respostas, eu acho que entendi o seu abraço. Acho que estamos realmente, aos poucos, amadurecendo.
Quero que saiba que nunca mais precisa esconder novas aberturas de mim, e estou comprometida a nunca mais esconder as minhas de você. Eu sei quem você é, e você sabe quem eu sou. Não precisa ter medo, eu sou apenas Lisbeth, e estou aqui com você.