Série: o fluxo

Músicas asiáticas

29 de dezembro de 2015

Nós temos tempo para gastar

Cada pessoa tem sua torre.

Algumas são bem altas, outras são menores. Umas não tem nem três andares. Mas todos possuem. Ninguém quer ficar no chão, perceba. Ninguém está sujeito ao chão. Acham que tem lama, talvez? Pode sujar o sapato, pode sujar os pés, ou até mesmo alcançar as pernas.
Todo mundo tem medo de se sujar.

Você já observou as pessoas diretamente do alto de sua torre? Já assistiu elas se debruçando sobre seus próprios problemas, suas próprias misérias, como se fosse o dono do mundo? É tudo tão simples. Quando estamos no alto da torre nós sabemos todas as causas e todas as consequências, e é bonito, as pessoas fazem movimentos muito bonitos no chão, elas formam desenhos de certa forma agradáveis com seus passos. Do alto da torre somos sábios.
Do alto da torre não sabemos de nada.
No alto da torre nós também nos sujamos. Nós simplesmente não nos importamos. Que tipo de música ouvimos por lá? Certamente não tem a ver com a música que ouviríamos na lama. O alto da torre é o nosso aconchego, onde colocamos o nosso som mais querido — o jazz que, quando tínhamos uma idade mais bruta e biruta, chamávamos de nomes feios porque “esse negócio de música sofisticada é coisa de gente metida”; mas, de repente, como num golpe de alguma arte marcial muito bonita, nosso coração decidiu aceitar e trocar as batidas-por-minuto perigosas das guitarras distorcidas do metal pelo saxofone e o côro de mulheres bem vestidas e maravilhosas — e vamos observar o movimento no térreo, seguros, balançando as pernas ao ar livre, acenando, sorrindo para o que há de bom e fazendo caras tristes, mas não tão tristes assim, para o que há de ruim.
Nós merecemos viver no alto da torre? Há quem diga que sim, há quem diga que não; há quem faça de tudo pra viver e há quem evite ao máximo; há quem acredite estar no alto mesmo estando no chão, há quem acredite estar firme no chão mas está no alto. Todas essas opções se entrelaçam, não é fácil identificar quem é o quê. Mesmo estando lá no alto. Estamos realmente lá no alto? Nós podemos enxergar a altura de torres maiores que a nossa? E quando a torre é gigantesca e passamos a não ver mais desenhos formados por pessoas se movendo no chão, e sim desenhos formados por torres menores construídas e demolidas? Desenhos são desenhos.

Do alto da torre, nós simplesmente não nos importamos.
Ouvindo jazz e observando desenhos no chão fica difícil se importar com os pontos que se locomovem. Não ouse me dizer que não. Talvez, se tiver uma torre pequena, você consiga ver alguns borrões um pouco mais nítidos. Nada que dê realmente para dizer que está cara-a-cara, sentindo o mover, fazendo parte da equação de forças daquele lugar; para alguns, a satisfação de ver borrões um pouco mais nítidos basta para uma boa estadia em sua torre, mesmo que isso signifique sacrificar um campo de visão muito mais amplo em andares superiores.
Quem se importa? Nunca foi importante ter uma torre alta. A importância sempre esteve em construir a melhor torre que você, e não as pessoas num geral, pode construir. Ou ao menos é o que acredito. É suficiente, e se não for, é melhor se preparar para o sofrimento eterno. Não há como julgar que uma torre mais alta é a melhor torre, embora seja instintivamente melhor; instintivamente, vamos todos morrer. O próprio mundo precisa de torres de alturas, larguras, distância entre os andares, diferentes. Podemos nós, meros construtores, saber o que deseja o Senhor das Torres para nós e nossa torre?
Por que eu digo isso? Eu quero falar da sensação de estar do alto de uma torre. E, bem, isso faz parte. Faz parte porque, vendo outras torres, é possível observar as pessoas se torturando sobre elas, insatisfeitas, querendo ver mais ou querendo mais espaço. Nós todos somos assim. Sempre há um atributo da torre faltante.
As pessoas estão matando e morrendo por ele.
Do alto da minha torre, eu não me importo.

Às vezes penso o quão cruéis somos. Ou eu sou. Não sei, várias pessoas são, mas não posso assumir que são todas, né? Você é assim também? Eu simplesmente não sei.
Observar uns aos outros como se fossem novelas não é algo lá muito recente. Não, não tem a ver com a internet, com as redes sociais. Formamos as redes sociais para estender uma vontade que tínhamos e satisfazíamos já a muito tempo. Tem a ver conosco. Eu e você. Eu, por estar escrevendo sobre torres; você, por estar interessado no que estou escrevendo sobre torres.
O fato é que é isso que somos. Não muito mais que isso. Noveleiros do universo: da natureza, das idéias, dos nossos próprios sentimentos e dos sentimentos dos outros. Enfim, espectadores desse desenho que se forma todos os dias, sedentos por poder prever como ele se formará amanhã, celebrando com euforia — talvez por mera imaturidade — quando ele se forma exatamente da maneira que imaginamos nas nossas cabeças, frustrando-se por não poder reger essa orquestra humana como imaginamos que ela deveria ser regida (agradeça a Deus todas as noites por isso, por favor, agradeça). É errado? É correto? É bom? É ruim? Não me interessa muito, pra falar a verdade.
E não, eu não tenho interesse em ir muito além disso.

Do alto da minha torre, eu acredito que vocês estão bem. Vocês acreditam que eu estou bem? Quantos de vocês estão em torres mais altas que a minha? Muitos, é provável. Tenho uma torre relativamente alta, mas não sou bom construtor. Tenho muita preguiça.
Gosto de ouvir música. Música asiática, de preferência; se não for asiática, gosto muito de música americana, daquelas músicas de família tradicional dos anos 40 e 50, e também gosto muito do Steely Dan.
A vista da torre é muito bonita ouvindo Steely Dan.
Eu moro em Londrina, uma cidade que era pra ser uma plantação gigantesca de café, mas Deus não quis e enviou uma geada que destruiu tudo. Como conseqüência, a cidade se tornou um comércio gigantesco, lotada de prédios altíssimos, tudo isso dentro de um campo.
Quando você sobe em um prédio em Londrina e observa o horizonte, a sua visão tem uma camada inicial de prédios, e então uma camada de casinhas, e então muito campo. Por algum motivo, gosto muito de ver esse sorvete napolitano da urbanização ouvindo Steely Dan, principalmente nove horas da noite (no horário de verão) quando o céu está começando a se rechear de estrelas.

Do alto de um prédio, a cidade é muito bonita.
Eu sei que alguém, nesse momento, está sendo assaltado e perdendo todos os seus pertences, bem naquele subúrbio ali. Pow! Pow! Pow! Pow! Quatro tiros? A vítima deve ter morrido. Também sei que tem uma manada de estudantes ouvindo uma infinidade de besteiras de seus professores, naquela universidade ali. Também sei que estou doente, com freqüentes dores de cabeça, e não vai adiantar ir naquele hospital ali porque ele está lotado. Também sei que, nesse momento, alguém está demitindo alguém naquela outra empresa ali por algum motivo bastante injusto. Também sei que estão lavando dinheiro ali naquela outra empresa. Também sei que, ali na Câmara dos Vereadores, ali ó, bem naquele lugar que estou apontando, estão todos se sujando para votar um projeto que normalmente não seria votado.
Do alto da torre, eu sei tudo. Ou será que eu sei?
É tão imperfeito, não é? O que é bonito nisso tudo? Nós podemos simplesmente vomitar todos os dias e todas as noites do alto da torre pensando nisso. E atingir várias pessoas com nosso vômito. Às vezes é o que a gente quer, mesmo.
Em contrapartida, olha ali naquela casa, naquela casinha, é, a que estou apontando. Tem dois irmãos pequenos brincando de futebol de botão ali. Olha naquela sorveteria, o rapaz acabou de se declarar para a garota que ele ama, e pelo sorriso dos dois algo deu certo. E aquela luta que está ocorrendo ali no dojô? Presta atenção, olha o golpe que o senhorzinho vai aplicar no rapaz, se não é algo sensacional. Viu só? Agora aquela constelação no céu. E a pizza chegando pros amigos que combinaram de jogar algo juntos. Olha, ali! O rapaz comendo lanche com um morador de rua, não sei do que eles estão conversando, mas estão há mais de meia hora ali no meio-fio e não param de falar.
Ficou mais fácil observar o que há de bonito? Sempre tem algo de bonito. Quando se está no alto da torre, você pode observar os desenhos como quiser. Pode dar importância à disposição das cores como bem entender. Às vezes existem ambigüidades, observando do décimo andar parece uma faca daquelas de bandido, mas do sexto você percebe que é só um facão pra cortar uma deliciosa picanha. Do alto, esperamos pelo pior com facilidade, mas nem tudo é tão ruim assim. O pior existe, está por todo canto — tatatatatatatatata!!! Está tendo um tiroteio naquele bairro ali — , mas se construirmos pensando no pior o nosso espírito acaba optando por desistir.

Eu, bem, como disse, tenho muita preguiça.
Então se alguém me pergunta qual é a razão de eu construir a minha torre, já que tenho tanta preguiça, respondo de imediato que é porque tenho muito interesse em descobrir a quantos metros do chão Steely Dan perde a graça.
Como eu sei que Steely Dan não perde a graça nunca, continuo construindo sem saber o fim. Se perder eu descubro uma nova desculpa, provavelmente alguma música asiática.
Até eu conseguir explicar Deus.

Acho que, antes disso, serei atingido na cabeça por um tiro de Sniper Rifle.

Você leu um capítulo da série o fluxo

escrito por nubobot42 narrado por heartshaped star