Acho que um dos tipos mais interessantes de garotas que existe é a garota com quem você passa uma noite trocando perguntas e respostas idiotas.
Conheci essa não faz muito tempo. Três, quatro anos, talvez. Sinto como se conhecesse desde sempre, mas isso porque conversamos tanto, e a respeito de temas tão abrangentes — mas internos — que tenho a impressão de que a vejo desde os tempos em que se vestia engraçado com o intuito de parecer uma mulher madura.
Numa das noites ela me mostrou suas fotos se vestindo engraçado. Não entendo como aquilo, na cabeça dela, parecia uma mulher adulta e não uma espécie de alienígena humanóide de jogo futurista. Acho que, quanto mais as pessoas se importam com a maturidade — gostando, odiando; evitando, buscando — mais distantes elas ficam da maturidade. Talvez aquele vestido meio colado com um sapato de salto, ambos cor-de-pele (eu não sou bom com cores), transmitissem a vontade de parecer madura como uma oposição genuína ao “ser” de fato.
Mas isso é o passado.
Eu gosto muito dela.
Ela gosta muito de mim.
Somos ótimos amigos, verdadeiros parceiros, para muitas coisas esdrúxulas que acabamos sentindo vontade de fazer. E não muito mais que isso. Nunca tentamos ir além disso, nunca tentaremos, é um pacto. Talvez quando eu começar um relacionamento de fato ela desapareça pra sempre da minha vida. Nunca sei do que namorada sente ciúmes. Nunca perguntei pra uma se ela sente ciúmes de parceiras de coisas esdrúxulas. Nunca soube, também, se namorada vira parceira de coisas esdrúxulas. Se meus pais são hoje, além de todo o resto, acho que se tornam.
Você sabe? Coisas imbecis, que até mesmo nos tornam seres humanos mais baixos. Já teve a amiga de rir das mulheres que andam errado ao usar salto alto? E que, importante, também não sabe andar, aí “dá a patinha” pra você ajudá-la a se equilibrar durante o caminho pra festa ou mesmo retornando pra casa? A de reclamar quando a maquiagem das outras as torna semelhantes a um coveiro, enquanto a mesma também usa uma maquiagem bizarra que a faz parecer uma montagem no Photoshop ambulante? Acho extremamente importante esse tipo de amizade. Acho importante, às vezes, ser a pessoa que finge que se importa com detalhes que as outras pessoas fingem não se importar; e acho importante ter em companhia alguém que faça o mesmo.
Até hoje nunca fizemos ninguém chorar com isso, não acho que os outros realmente se sintam mais do que constrangidos da mesma forma que se sentiriam se não houvesse ninguém, mas se um dia alguém chorar nós saímos correndo e passamos a pegar mais leve nas próximas.
Talvez queiramos, como pecadores, compensar a nossa distância espiritual. Muitas vezes nos questionamos, sozinhos e entre nós, como podemos ter tanta proximidade — e, às vezes, atração — e não sermos feitos um pro outro. Muitos não sentem isso, dentro de seu próprio e correto ceticismo: eu sinto. Há uma ruptura de identidade enorme, espiritual de fato, em mim quando estou com alguém que não devia estar, mesmo em maior parte das vezes não sabendo a razão. Quando fecho os olhos e me imagino com ela, com seu cabelo em maior parte das vezes curtinho, rosto sempre produzido, lábios grandes, corpo variando entre uma magreza comum e o esquelético, mais alta que eu e ainda gostando de usar o salto que não é mais cor-de-pele, eu sinto que está tudo errado.
Ela é linda. Ela combina tanto comigo. Mas está tudo errado.
Eu já disse que não quando ela disse sim, e ela também já disse que não quando eu disse sim.
Às vezes eu não me conformo. Como podemos subir o maior prédio da cidade, passar horas conversando sobre absolutamente nada, nosso assunto favorito, e estar tudo errado? Como pode estar errado ela tomar o cuidado de sentar sempre do lado certo pra fumaça do cigarro não acertar a minha cara? Como pode estar errado pegar ônibus junto e ela me proteger do número de pessoas maior do que minha cabeça, na época de jovem perturbado, podia assimilar? Como pode estar errado ouvir ela chorando, meio bêbada, contando do desastre que se tornou a sua vida após ela almejar tanto a maturidade, fazendo tanto pra isso, envolvendo-se com tantas pessoas de maneira errada e até perturbadora, sabendo que com poucas palavras minhas tudo fica bem? Como pode estar errado se juntar, acertar com o estilingue a pipa do moleque mais folgado do bairro e sair correndo rindo?
Acontece que está.
E no fundo eu sei que está. No fundo eu sei a resposta para todas essas perguntas, mas as escondo dentro do meu próprio coração. Não sei a razão. Não deveria fazer isso. Nossos sentimentos são assim.
Talvez ela seja a pessoa que devo esquecer.
Talvez eu não devesse mais chegar perguntando o que estou fazendo da minha vida. Não devesse chamar pra observar o céu estrelado das noites da cidade não-tão-grande-assim. Não devesse falar “conta até 8” quando ela fica muito nervosa com alguém e decide resolver a situação na mão, porque ela sempre me agradece. E eu não gosto quando ela me agradece.
Talvez eu devesse reclamar que ela segura meus braços quando eu gesticulo demais, porque não me importo que ela não gosta que eu gesticulo demais; mas é mentira, é que acho fofo demais quando ela segura meus braços, e odeio quando ela faz algo que eu acho fofo. Talvez devessemos combinar de um de nós parar de amar sorvete. E devessemos parar de rir dos outros andando errado, porque não é legal, porque ela também anda errado, e porque eu odeio me sentir o namorado dela enquanto ela se apóia em mim pra não cair com aquelas Mary Janes que só ela tem. E são lindas.
Eu não quero que ela vá embora.
Eu não quero que nada disso vá embora.
Ela me diz pra eu nunca deixá-la ir, mas acho que preciso fechar esses portões.
Acho que vivemos, juntos, um verdadeiro mundo só nosso, sem ter o direito de ter um mundo só nosso porque nunca nos unimos de fato e nem vamos nos unir. É por isso que sinto que está tudo errado.
É isso que minha alma me alerta tanto.
Ela me alerta que nós gostamos do céu, mas não do mesmo céu. Do sorvete, mas não do mesmo sorvete. De rir das mesmas coisas, mas não são as mesmas coisas. Nós podemos curar nossas enfermidades porque, embora elas tenham o mesmo nome, elas não são a mesma enfermidade. Nós construímos nossa amizade falando linguagens diferentes e, enquanto não quebrarmos todas as ilusões, vamos sofrer.
Isso dói.
Disso tudo só tenho certeza que ela amadureceu. Eu, nem tanto. Tenho certeza de que ela é uma mulher respeitável, ainda mais em comparação com os tempos do salto cor-de-pele ou com os tempos em que ela usava umas perucas engraçadas e umas roupas pretas, que hoje chamamos de “gótico” pra tirar sarro. Essa época eu peguei.
É, ela é uma baita mulher. Tenho que agradecer por ter feito parte disso.
Algum dia, quem sabe, ela agradecerá por ter feito parte da minha vida também. Hoje ainda não sei se agradece. Se a visse caindo de salto, eu riria.