Série: alguns devocionais

O controle que não tenho

21 de fevereiro de 2015

É curioso como somos mestres do conhecimento até percebermos que o conhecimento, em fato, não é algo que todos os espíritos almejam. Ser confrontado com uma realidade que nos desarma de todo nosso conhecimento é o maior dos presentes de Deus, pelo simples fato de nos desarmar do nosso conhecimento — isso é muito importante, porque sem isso, tendemos a ter certeza de palavras que nosso coração acredita, imagens que nossos olhos veem. Creio eu que imagens são enganosas e palavras demasiadamente ambíguas e não-críveis; limites físicos afetam nossa clareza, e palavras necessitam do teste do caráter e do confronto com o real.
Quanto às imagens, posso estar errado. É uma desconfiança que carrego pessoalmente. Se nenhum de nós vê o mundo com todas as cores que ele possibilita, eu ainda menos. Imagens não são algo preto-e-branco coloridas depois como um livro infantil, imagens são junções de cores, na mais pura variedade e harmonia divina; sendo assim, a minha percepção visual corriqueiramente é idêntica a de todos os outros, mas a minha apreciação profunda dos arredores — algo que costumo realizar vez ou outra na vida, com bastante afinco — tem uma diferenciação severa. (P.S.: daltonismo)

O som e o sentir, no entanto, são mais frágeis. Embora o som também seja vítima de nossas limitações físicas, o som instiga um mistério espiritual maior. Cremos muito no que vemos, mas costumamos substituir o som por palavras. Não “ouvi”, “ouvi falar”. É interessante como a harmonia sonora da natureza é algo distante, algo que não costumamos desejar muito. Uma vez “ouvi falar” — perdoem-me pelo uso da expressão — de um pastor que Deus se comunicava muito através da natureza, que ele amava estar em florestas isoladas para se comunicar com o Altíssimo pelo retorno agradável que ocorria ali. Isso me parece até esperado. A criação é originalmente harmoniosa, mas não podemos ouvi-la falar, e sim simplesmente ouvi-la.
Não podemos ler sobre o som para compreendê-lo. Precisamos ouvi-lo, em fato, como ele é. Mesmo uma partitura não é uma leitura de som como é, conseguimos compreender algo pois trazemos um som existente em nossa mente que se apossa daquelas características apontadas na linguagem. Conseguimos, então, que nossa mente forme os próprios sons. Mas ainda são sons. Não são palavras. Não são linguagens de comunicação entre seres vivos. É a nossa única linguagem de comunicação com a natureza — é o que nos liga à própria, e também o que faz as linguagens de comunicação entre seres funcionar, já que é a natureza quem faz a ligação entre nós, pessoas.

Mas o que quero retratar é o sentir.
O sentir é o que mais nos submete à condição de seres humanos. É a maior arma de Deus para desconstruir o nosso processo pecaminoso de divinização: o nosso processo de acreditar que estamos acima das leis naturais, ou eventualmente acreditar que nós criamos as leis naturais, ou por fim acreditar que não há leis naturais. O sentir é o que nos coloca no nosso lugar.
Quando acreditamos que estamos isentos de aflição, um devaneio muito comum entre adolescentes, ele é o lembrete natural de que estamos aflitos. De que estamos no mundo natural, sentimos necessidades naturais, e não há nada a se fazer para mudar isso.
Quando estamos entorpecidos pelo coletivo e incapazes de nos comunicar com nossa própria intimidade, é o sentir que nos traz de volta a esse lugar. Uma necessidade humana. É o sentir que traz o cansaço, o desgaste, físico e emocional.
E também, quando estamos entorpecidos pela própria intimidade, pelo próprio ego, incapazes de nos comunicar com a criação, é o sentir que nos traz outra necessidade humana. A solidão se apossa de nós, a saudade das pessoas, das coisas, uma tristeza, um certo ódio de nós mesmos — algo simples: é impossível que nos idolatremos, conhecemos demasiadamente nossas imperfeições para nos colocarmos acima de todas as coisas sem que, eventualmente, adquiramos um repudio de nós mesmos e do universo como um todo.

Tudo isso, e várias outras leis naturais de Deus para a criação que ele viu que era boa, estão escritas no nosso sentir. O nosso “sentir” é a métrica, e não a palavra, não o raciocínio, nem mesmo a comunicação entre nós humanos — nem mesmo a história que queremos escrever. É o “sentir” que devemos observar, é dele que devemos cuidar.
Andei observando que Deus cuida mais dos nossos sentimentos em intimidade que em instruções — é nessa área que Ele entra e realiza seu trabalho divino, sobrenatural. As instruções, oras, cuidam dos nossos atos. Não há instrução do que fazer enquanto está com o coração dominado por uma mulher, por exemplo, porque nesse momento já estamos submissos à nossa condição de seres humanos; há, no entanto, várias instruções lembrando e alertando que você só tem o controle quando está em pleno equilíbrio e não se aproxima mais do que devia. Existem, sim, várias pessoas dizendo várias coisas; existe o seu ego dizendo que você é forte, tem muito controle, que é racional. Existe, também, o momento onde você está passando por alguma turbulência, está quebrado, e ela se aproxima bastante de você para te ajudar. E aí, bem, se ela não tiver um posicionamento estritamente contrário, não preciso falar o que mais existe.
O fato é que, então, observamos o conjunto do “antes” do fato e do “depois”. As pessoas disseram várias coisas, trouxeram uma infinidade de teorias; você pensou que era forte, acreditou no seu controle, em sua racionalidade. No entanto, o seu “sentir” sobrescreveu todas essas realidades existentes apenas na mente do homem-divino, porque você é apenas um homem.

Observe, nisso, que não podemos subestimar os sentimentos como arma de Deus, mas também não podemos sobrestimá-los a ponto de nos tornarmos escravos dele.
Tudo o que há de errado em nosso coração tem um motivo, talvez não para nós que vemos tão pouco, mas sim para Deus.
No tempo e lugar onde somos educados por nomes que nos ensinam a rejeitar as leis naturais, torna-se normal ser incapaz de ver que estamos no estado de homem-divino, que queremos estar acima de nossos erros, ou eventualmente acreditar que nós definimos o que é certo ou errado, ou por fim acreditar que não há certo ou errado. Então, como uma reação natural, não conseguimos enxergar quais são as correntes que arrastamos. Não fazemos a menor ideia de qual lei natural está relacionada com a amargura dos nossos corações, aliás, nosso coração está amargurado porque ninguém faz nada, aliás, quer saber, tenho plena certeza de que é normal para o ser humano viver amargurado, sufocado e torturado todas as noites pelas suas próprias emoções. Eu vivo isso, tantas pessoas vivem isso, quem não vive isso só pode estar mentindo para “fazer pose”.
Deus, no entanto, está sempre ciente de nossos fardos. Ele não precisa fazer esforço nenhum: você pode depender da sua memória para saber sobre seus sentimentos, pode correr o risco de nem lembrar mais quando e como começou, mas para Deus seu sentimento é uma linha contínua que se inicia na violação de uma de suas leis naturais e se estende até o presente momento. É muito simples. É por isso que, quando há rendição, coração humilhado e pronto para o arrependimento, é tão fácil revelar tudo isso; sempre esteve ali, impresso no seu ser.

Algo estabelecido por Deus sobre as suas leis é que, se o coração do ser humano escravo de sentimentos gerados pela violação delas consegue chegar ao início da linha contínua — aquela que Deus vê e revela ao que pede — e se arrepender sinceramente dele, corrigindo algumas de suas consequências se for necessário, essa linha deixa de existir. Pois é do desejo do Criador que sua criação não seja escrava das consequências de suas leis, mas sim que compreenda o princípio da autoridade, para que consiga segui-las com amor e ter uma vida de paz.
Não perfeita, mas de paz.
E então observamos que desconhecer o propósito de Deus para a nossa capacidade de “sentir” é um problema muito sério.
Quando eu tive o grande impacto de ter minha vida sondada por Ele pela primeira vez, um número absurdo de leis naturais violadas foram revertidas em minha vida, e isso é impressionante e magnífico. O mais importante, porém, veio depois: eventualmente voltamos a passar por adversidades e até mesmo a errar e, com isso, voltamos a ter sentimentos ruins; cabe a nós, no entanto, apenas reconhecê-los imediatamente, nos arrependermos (sinceramente, sempre bom lembrar), corrigi-los e pagar as suas consequências (como é da lei).
O “sentir”, nesse processo todo, não é grande coisa. O “sentir” não nos traz salvação, nem nos condena. O “sentir” é apenas o despertar para a realidade. É apenas aquilo que Deus imprimiu em nós para dizer não o que achamos que é, mas o que, de fato, é.

(peço perdão pelo vocabulário frágil e pelos possíveis erros de primeira viagem. Em primeiro lugar, são sete horas da manhã e eu ainda não dormi. Em segundo, meu vocabulário é ruim mesmo. Em terceiro, reiterando, eu ainda não dormi)

 

Você leu um capítulo da série alguns devocionais

escrito por nubobot42 narrado por gamaliel