SΓ©rie: rebecca

5min

19 de janeiro de 2014

Conversa

Com quatro minutos, o rapaz não conseguia fazer muita coisa: ele ficava cada vez mais assustado pra tentar revidar tudo o que estava sofrendo, queria retornar todo o ódio que tinha, mas do lado indefeso o ódio não se acumulava em atitude e sim em agonia.
Era ridículo que, em todos os minutos de vida — um total de dez minutos — a única vez que conseguira ao menos falar qualquer coisa fora no segundo. Era completamente injusto estar daquela forma. Ela estava tão errada quanto ele, não era justo que ela pudesse se vingar durante todas as horas do dia enquanto ele sentia a humilhação em cada segundo, imóvel. Mas não sentia mais tanta raiva daquilo estar acontecendo. Foram quatro longos dias, longos o suficiente para perceber que nada iria mudar.
Tudo o que ela tinha dito, de fato, aconteceria. Teria de aguentar os 1440 dias (raios, quase quatro anos!) daquela forma, embora os problemas fossem reduzir aos poucos — mas não importava muito, era um objeto completamente inválido daquela maneira e não poderia fazer nada para reverter aquela situação.

Será que, se nada tivesse ocorrido, ele teria de passar por aquilo? E se tivesse, será que gostaria?
Provavelmente não. Considerando o que tinha descoberto sobre aquele demônio, era evidente que se aproveitaria da situação para usá-lo como bem entendesse. Nada de relação. Talvez a desilusão com a titereira fosse mais dolorosa do que a desilusão com a pessoa Rebecca.
Não sabia porque estava pensando naquilo. Estava em seu quinto dia, os problemas chegariam a qualquer momento: a mulher tinha sua vida lá fora, mas na escuridão do quarto ele não fazia a menor ideia do que era tempo, não tinha muita noção de quando ela voltaria. Poderia ser naquele momento.

A única coisa que tinha era sua desvirtuada fábrica de pensamentos.
Sentia-se sozinho, também. Como estavam as pessoas sem ele? Importavam-se? É claro! Mas do jeito que sua mente estava perturbada, tinha suas dúvidas; não duvidava tanto das pessoas por elas mesmas, duvidava das pessoas pela própria incapacidade de se gostar daquele jeito.
Passar dias vazio, aguardando momentos de horror, levava-o a acreditar que sua própria existência era vazia. Seu próprio passado não valia muita coisa, seu futuro era incerto; e, no presente, ele era uma marionete. Será que Rebecca queria que ele sentisse tantas coisas ruins? Ou será que tinha perdido um pouco a noção de sua humanidade e agora, como brinquedo, não acreditava mais que era capaz de pensar alguma coisa? Qualquer uma das opções era assustadora para ele — qualquer uma significava a continuação da sua ruína, e era mais inclinado a acreditar na primeira opção.

Aos poucos, ia perdendo a fé em sua própria existência. Não havia nenhuma possibilidade ali, se não o sofrer. Estava ficando mais ansioso para tudo acabar e, talvez, acabar com sua própria vida também. Não sentia mais valor algum em si.

Estou de volta.

Ah, meu Deus.
Ela estava com a mesma feição dos últimos… dois? dias. Não parecia tão violenta, passava mais uma impressão de tédio, o que dava um pouco mais de peso para a segunda resposta na questão de outra hora. Só que sua intuição lhe incomodava com a primeira, e contra sua intuição não havia argumento.

E você sabe de uma coisa? Eu não queria estar, não. Eu não quero ver você na minha frente.

É claro que não queria. Era por isso que, dia após dia, estava rasgando-o inteiro com uma faca enorme de cozinha.

Você tem seus cinco minutos de liberdade por hoje. Você não está machucado. Se você fizer qualquer coisa comigo, o dia ainda não está nem na metade e eu posso reverter e deixar pra outra hora. E aí eu não vou mais usar a faca. Aí eu vou pisar em você. Eu só não quero que você exista na minha vida hoje.

Queria se comover um pouco mais, mas tudo o que sentia era felicidade. Talvez ela quisesse torturá-lo de outra maneira, atacando seu emocional dessa forma, mas simplesmente não funcionava. Não quando significava um dia sem sentir dor. Era puro alívio.
E então teve seus cinco minutos.

Eu te odeio.
Disse, no escuro, fazendo o possível para evitar olhá-lo.

Eu também. É desnecessário me falar isso, você me esfaqueia todos os dias pra me mostrar.
E você acha que é suficiente? Você merecia muito mais do que isso. Você está aí, vivo, e ainda está falando comigo.
Você foi quem disse a primeira palavra, eu só queria aproveitar não sentir toda a merda que eu sinto todos os dias, em silêncio. Você não precisava nem falar comigo. Eu prefiro nem me comunicar com um monstro como você.

Rebecca não sentia tanta raiva, o rapaz também não. Estavam confusos demais pra sentir qualquer coisa. E ele não sabia se iria sofrer diretamente consequências, mas não entendeu ao certo a necessidade de ter falado tanta coisa — fora apenas instintivo, mas já estava arrependido.
Devia ter permanecido calado, e tentou corrigir evitando proferir qualquer outra palavra até o fim dos cinco minutos.

Ela, após acabar, pegou-o pelo pescoço e o ergueu por um instante. E começou a apertar.
Você não vê que está me machucando?
E ele, enquanto tentava resistir ao que estava acontecendo fisicamente, só conseguia pensar que ela, falando de machucar ao fazer aquilo, estava ficando louca. Ou começava a acreditar que estava acompanhando, desde sempre, uma louca.

 

VocΓͺ leu um capΓ­tulo da sΓ©rie rebecca

escrito por nubobot42 narrado por heartshaped star