Oi,
Boa noite.
Na verdade eu sei que não adianta te cumprimentar porque faz muito tempo que você não existe mais. Pra ser mais específico, faz um ano que você não existe mais, que você desapareceu da minha vida pra sempre. E não serei injusto ou desonesto escrevendo algo pra você que é mentira: minha vida melhorou muito sem você.
Você tinha razão quando me dizia que as coisas seriam assim; talvez eu esteja me sentindo cruel ao fazer essa afirmação por pura tolice minha, na verdade eu acredito que você respiraria aliviada ao ouvir isso de mim, “é, eu não estava errada”. É, Lisbeth, você não estava errada. Eu não devia me sentir errado por só afirmar algo que você sempre afirmou, e em maior parte do tempo não me sinto.
Viver se tornou muito mais fácil: como era pra ter sido desde o começo, desde antes de te conhecer. Só que eu não pude deixar.
Eu não sabia por que não podia deixar, mas você sabia, você sempre soube de tudo, sempre teve razão. Você sempre teve mais razão que eu. E, sabe, eu me sentia inseguro ao seu lado por isso: tive que me acostumar a viver sabendo que estava sendo uma peça frágil num jogo de tabuleiro, sabia que você brincaria com as minhas emoções, que no meio dos dias calmos você inventaria algum problema pra transformá-los num inferno, sabia que você destruiria todas as pessoas que tentassem se relacionar comigo; viver com você foi um inferno, odiei isso por muito tempo.
Quando você foi embora, descobri que nunca deixei de odiar. Mas eu te amava. Pra falar a verdade, eu ainda te amo. Você é linda. Pode não ser a pessoa mais bonita que eu já conheci, aliás, pode ser que seja uma das piores pessoas que já conheci, mas te conheci a fundo, conheci a sua personalidade de cabo a rabo, conheci suas angústias, seus medos. Eu entendi a razão de ser tão importante, pra você, me proteger das outras pessoas, e até me proteger de eu mesmo. Não era correto, foi a causa de muita coisa errada, eu nem sei como sobrevivi, não quero isso nunca mais pra mim, mas… depois de um tempo eu passei a te entender. Depois de um tempo eu deixei de ficar irritado com você me protegendo dos outros, porque muitas vezes você estava certa. Depois de um tempo eu também passei a querer te proteger dos outros e de você mesma, principalmente de você mesma. Como você se machucava.
Meu Deus.
Como você se machucava.
Eu lembro de ter lido todas as suas cartas pra mim e não ter entendido nada. Algumas eu nem sabia se realmente eram pra mim. Agora é fácil, mas ainda tem muito conteúdo que eu poderia passar dias discutindo comigo mesmo pra saber o que é. Você gostava de conversar, eu não. Eu ainda não sei direito conversar com alguns amigos meus que, na verdade, eram simples amigos meus e, pra você, eram as maiores fortalezas com quem você passava horas e horas e horas falando sobre nós dois. Sobre como estava tudo errado, sobre como você tentaria acabar com nós dois se desse tudo errado, e também sobre como você me achava incrível. Há, olha só! Me achar incrível. Eu estava encarcerado no seu xadrez emocional, querendo sair a qualquer custo, e você… me achava incrível.
Como eu poderia saber, nessa situação, que você não estava fazendo isso porque era louca e queria me dominar completamente, e sim porque… me achava incrível? Como? Acho que você não se importava com isso.
No fundo, você foi a melhor pessoa que eu já conheci.
Você nunca exigiu que eu dissesse um “muito obrigado”, nunca exigiu que eu entendesse o que você estava fazendo, e muito menos exigiu que eu gostasse de você por estar fazendo o que estava. Ainda assim, sempre que eu demonstrava querer sua companhia — eu sou muito ruim em demonstrar isso, me perdoe — , você era a pessoa mais feliz do mundo. Eu podia ver pelo seu sorriso, e também porque você sempre comprava um sorvete e me levava no lago pra gente observar os prédios em construção sendo refletidos na água (aquele bairro ficou enorme, sabia? E não para de crescer; meus pais viveram muitas histórias engraçadas lá depois que você foi embora). Sempre que você tentava me cobrir de noite você estava me pedindo, como podia, pra que eu a cobrisse. Você acreditava, do fundo do seu coração, que eu a odiava por acreditar que você estava me destruindo; e algumas vezes você estava mesmo, mas não poderia estar se eu não tivesse deixado. Era só eu fazer você sentir que era amada que se tornava a pessoa mais dócil e confortável que eu já conheci, você não era realmente uma grande esportista das emoções humanas, era só uma pessoa com um grande fardo e uma grande necessidade (que nunca poderia ser revelada) de receber carinho. O meu carinho, pra ser mais específico.
Eu aprendi a reconhecer quando você estava me destruindo, o que foi uma fase, e também aprendi a te dar um abraço e dizer “ei, calma, vai ficar tudo bem” quando isso acontecia, o que foi outra fase já muito mais avançada. Eu aprendi muito sobre você. E aprendi muito sobre eu mesmo.
Eu descobri muito do meu próprio universo com você.
Eu queria tanto, mas TANTO, que NINGUÉM soubesse sobre o que eu gostava, o que eu sabia e o que eu sonhava, que eu não fazia a menor idéia de que na verdade eu queria que as pessoas soubessem. Nem todas, é claro, e nem sobre tudo, mas sobre algo. Foi até chocante pra algumas pessoas quando eu expus um pouquinho do que eu tinha construído até então, mas no fundo, as melhores pessoas sabiam que aquele castelinho sempre esteve ali.
Lembra o quão ridículo foi quando você quis me expor a força pra todo mundo? Eu realmente odiei. Aquele foi um tempo onde eu só fiz o que tinha de mais ridículo e absurdo. Mas, bem, se eu não fizesse aquilo daquele jeito ontem, talvez hoje eu não fizesse o que eu faço e não tivesse nenhuma expectativa de fazer, amanhã, algo muito melhor do que o que eu faço hoje.
E não estou nem falando do que escrevo ou componho — uma dessas partes ainda não avançou muito, a outra eu também acho que não (ainda não aprendi a ter opiniões positivas sobre eu mesmo, mas veja só, eu sei o caminho das pedras! Não esqueci que você me disse que eu preciso conquistar ao menos um pouco de auto-estima, e eu até visto blazer no inverno e calça jeans agora), mas algumas pessoas gostam e eu também. Estou falando da minha vida como um todo, mesmo. Aprendi até a trocar olhares, sabia? Tenho fôlego pra passar muito mais tempo com muitas pessoas. Você tinha razão.
O tempo todo.
Mesmo do seu jeito todo torto, como esperado de uma pessoa como você, você estava com a razão. E mais, mesmo do seu jeito doentio, você queria meu bem. Todo tempo. Você foi perseverante. Você errou, e se preocupou desesperadamente em corrigir seu erro pra não me prejudicar, tão desesperadamente que várias vezes acabou quase morrendo. Quem faz isso por outra pessoa? Não existe argumento, nem o fato de você não ter outra opção. Você não fazia por obrigação, fazia do fundo do coração. Não era um desejo meu de querer ver as coisas assim, eu podia sentir, eu podia confirmar pelo seu tom de voz que você me queria bem. E que estava cansada. E que precisava logo ir embora.
Mas eu não queria que você fosse embora.
Quando você foi, mesmo com tantas coisas novas para fazer, eu tive meu momento de deserto. Eu pensei “e agora?”. É verdade, eu tinha Deus, eu tinha feito as pazes com o Espírito. Mas era tudo diferente. Não era mais a sua voz me dizendo “boa noite, faz duas horas que não te deixo dormir, mas agora vou deixar”, e não tinha mais graça andar com a blusa cobrindo só o braço que você queria quentinho, e você não gritava mais SORVETE É A PROVA MAIS ÓBVIA DE QUE DEUS EXISTE quando tomava. Não que sorvete não seja a prova mais óbvia de que Deus existe. Ele é.
Era tudo… melhor. Só que era diferente. É difícil se acostumar quando as coisas mudam, mesmo que seja pra melhor. Eu li a sua carta todos os dias pra me convencer de que você queria realmente aquilo, e você queria, graças a Deus. Eu li as suas cartas procurando você. Ainda esses dias eu procurei você mais uma vez. Acredita?
Mas você não está mais aqui. Você está no melhor lugar onde poderia estar.
Eu te amo, Lisbeth.
Você fez o seu melhor. Talvez o seu melhor não tenha sido muito bom, mas foi o suficiente pra me trazer de volta tudo o que eu tinha perdido.
Você foi, no pouco tempo, que mais pareceu a própria eternidade no inferno, meu único anjo.
Muito obrigado.