ATENÇÃO: ALERTA NÃO ENCAMINHADO ANTERIORMENTE NOS OUTROS TRECHOS POR DESCUIDO E DESUMANIDADE DO ENGENHEIRO DA TORRE. O ALERTA ESTÁ SENDO ENVIADO AGORA. FAVOR NÃO OUVIR ESSA MÚSICA EM VOLUMES MUITO ALTOS. REPITO. NÃO OUVIR ESSA MÚSICA EM VOLUMES MUITO ALTOS. NÃO NOS RESPONSABILIZAREMOS PELAS SUAS DORES DE CABEÇA CASO SEJA PROVADO QUE O OUVINTE ULTRAPASSOU O LIMITE ESTABELECIDO DE DECIBÉIS DA MÚSICA. NÃO NOS RESPONSABILIZAMOS POR QUALQUER DOENÇA PSICOLÓGICA DESENCADEADA PELO EXCESSO DE GRITOS DESESPERADOS OUVIDOS DENTRO OU FORA DO OUVINTE. NÃO NOS RESPONSABILIZAREMOS PELO RASGAR DA ALMA PROVOCADO POR QUAISQUER IDENTIFICAÇÕES ENCONTRADAS EM QUALQUER ANDAR DA TORRE. NÃO NOS RESPONSABILIZAREMOS POR QUEM SE ENCONTRAR EM QUALQUER LUGAR DA TORRE. A TORRE TEM SEUS DISPOSITIVOS DE SEGURANÇA, NÃO ENTRE SEM AUTORIZAÇÃO, ESTARÁ CORRENDO PERIGO. NÃO ENTRE EM CONTATO COM O ENGENHEIRO. É PROIBIDO PERGUNTAR OU SE IMPORTAR COM QUALQUER UM DOS EXPERIMENTOS REALIZADOS NA TORRE, NÃO NOS RESPONSABILIZAMOS PELO CARÁTER GROSSEIRO DA RESPOSTA CASO ISSO SEJA FEITO. NÃO OUÇA A MÚSICA REPETIDAS VEZES E, SE DECIDIR IGNORAR ESSE AVISO, VÁ DIMINUINDO PROGRESSIVAMENTE O VOLUME PARA NÃO TER PROBLEMAS DEPOIS. SE ENCONTRAR UMA CRIANÇA CORRA, NÃO PEGUE NO COLO. PERIGO DE MORTE. ELEMENTO DESEJANDO DESCARREGAR ELETRICIDADE MORTAL. CASO CAPTURADO PELA TEIA DA ARANHA ELÉTRICA NÃO SE MOVA, APRENDA A SE COMUNICAR COM O CRIADOR SEM MOVER A BOCA, ELE É O ÚNICO QUE PODE TE LIVRAR MAS ELE PODE. NENHUM FUNCIONÁRIO VAI TE LIVRAR. NENHUM FUNCIONÁRIO SE IMPORTA COM QUEM ENTRA NA TORRE SEM AUTORIZAÇÃO, NENHUM FUNCIONÁRIO DESEJA MORRER. NÃO TENTE ENCONTRAR MENSAGENS SUBLIMINARES NOS ALERTAS DA TORRE, OS ALERTAS NÃO SÃO AMBÍGUOS COMO PARECEM E BUSCAR A AMBIGUIDADE VAI TE LEVAR À LOUCURA. AMBIGUIDADE É UM ATRIBUTO MAGNÉTICO DA LINGUAGEM E A TORRE NÃO FOI PROJETADA PARA FUNCIONAR PERFEITAMENTE COM O CAMPO MAGNÉTICO HUMANO. SE É DE SEU COSTUME SE SENSIBILIZAR COM O ENGENHEIRO DA TORRE NÃO ENTRE NA TORRE, EVITE A SENSIBILIDADE PELO QUE NÃO PRECISA DE SENSIBILIDADE. A TORRE É APENAS UMA TORRE. E OS EXPERIMENTOS QUE ESTÃO NA TORRE SÃO APENAS EXPERIMENTOS.
eu odeio você.
eu odeio todos vocês.
todos. vocês. que são tão negligentes comigo. que acreditam que eu não existo. que mesquinhamente tentam corrigir as feridas que criam em mim com outras feridas ou com esse silêncio que mais me parece um grito elétrico, me arrepia todo, faz meus cabelos mudarem a forma. o que vocês fazem comigo é imperdoável.
dia após dia vocês me estupram ou tentam me matar, ou fazem os dois. eu sou uma criança sem nenhum afeto restante, procurando me esconder dos chicotes energizados que vocês usam assim que me vêem para machucar e violar as minhas coxas. vocês esmurram a minha boca com socos ingleses. pisam no meu pé com salto agulha, e depois giram o salto, e depois levantam o calcanhar e pisam com força usando cada dedo como se fossem uvas prestes a se tornarem vinho. vocês arranham meus braços com suas unhas gigantes, como se eu fosse uma mera presa. vocês mordem cada parte do meu corpo como se eu fosse o seu jantar de uma cansada jornada de trabalho. vocês me amarram e me deixam com fome e sede, e comem doces na minha frente, e bebem suco de maracujá (o meu favorito!) na minha frente. vocês me olham com um desprezo sádico, e quando vêem meus olhos desviantes abrem um sorriso de falso perdão, só para eu cair e ser recebido com um novo olhar odioso e devorador. vocês puxam meus cabelos para colecionar pedaços meus em sua caixinha secreta de maustratos a mim. e por que? o que eu fiz? eu fui uma criança má?
você não gostou que eu tivesse carência de um colo? encheu o seu saco que o mundo me parece um lugar perigoso e que eu quero proteção? é divertido ter um brinquedo que você usa para aguentar a pressão de ser miserável e viver num mundo igualmente miserável? você vai me estuprar de novo por essas palavras?
sabe, eu estou dentro de cada um de vocês gritando e vocês usam as suas formas perturbadas de me calar. ninguém cuida de mim. ninguém. quando vêem que não podem me maltratar mais, porque a própria consciência está acusando, me colocam no alto de uma torre para não ouvir mais o meu grito. é um berçário, eu não mereço berçário. e agora, como você vai me pegar no colo? eu não quero que toque em minhas pernas, eu sinto coisas estranhas quando algo entra em contato com as minhas pernas, algo que faz queimar e me dá vontade de chorar. como você vai me abraçar, se costuma tocar as minhas costas pra cravar as suas unhas nela? como vai me segurar se os meus quadris são seu instrumento de abuso? como vai me dizer que me ama se isso costuma anteceder um espetáculo de fantasias macabras, de vários símbolos que você, de propósito, inverte os significados só para me ver confuso e perdido e, quando eu te peço para me iluminar, você mostra que sente prazer em me ver nas trevas e me abandonar lá?
estar dentro de cada um de vocês é um filme de terror. eu não sei por que é tão bom pra vocês abusar de mim, me espancar, me tratar como esse brinquedinho que vocês não gostam mais mas não vai embora então precisam fazer alguma coisa. eu sei que sou uma criança chata. eu queria que você demonstrasse amor, afeto, todos os dias e de tantas maneiras diferentes! eu sei que isso é chato. eu sei que atrapalho seus conceitos, seus sistemas, todos os planos que vocês tinham, que trago à tona tanta coisa que vocês escondem de vocês mesmos. mas eu sou assim. se eu pudesse também correria de vocês, vocês são horrendos, vocês sabem disso. vocês sabem que precisam de distrações para dormir quando determinadas coisas vêm à cabeça, essas coisas não estão perseguindo vocês por uma injustiça do mundo ou de Deus mas porque vocês merecem. e inventar uma filosofia que diga que isso é bom, que eleva o caráter ou qualquer besteira do tipo que vocês fingem que importa, não vai mudar isso.
eu não queria viver dentro de você. mas vivo. e me estuprar não vai mudar isso, nem que você se engane acreditando que eu levei a sério quando disse que eu ia gostar, nem que eu canse de gritar e comece a sofrer abusos calado, nem que você convença todas as pessoas do mundo de que eu estou bem. eu não estou bem. e você sabe disso. eu queria que todas as pessoas do mundo soubessem disso, ah, como eu queria! não sei por que se elas não podem me proteger de você. talvez eu tenha me tornado mau e perverso e isso seja só vingança. e se eu sou uma criança má e perversa? e se a minha inocência nunca mais voltar?
eu sinto falta da minha mãe mas se ela me pegar eu vou chorar. e a culpa é de vocês. por favor não toque no meu corpo, mamãe. eu não consigo mais acreditar na pureza de um toque e eu também não aguento mais tentar.
eu escolhi ser elétrico. eu escolhi me defender do contato. se você estivesse no meu lugar entenderia, se estivesse no meu lugar jamais deixaria alguém tocar em você. jamais acreditaria em palavras: elas não passam de teias de cobre que te prendem e, então, quando preso o suficiente, a outra pessoa a coloca em contato com energia elétrica para que você receba uma descarga que passa pelo seu corpo e tira todas as suas forças. no meu lugar você também preferiria ser carente a entregar suas vontades a uma pessoa. as pessoas existem para abusar de você.
não me façam me sentir errado por ser quem eu sou. eu já sei que sou errado. ao invés disso, parem de me violentar dentro de vocês.
ou eu vou continuar gritando por socorro do alto da minha torre.
e alguém vai me ouvir.
e eu, de propósito, vou contar que vocês estão todos mortos por dentro. eu vou denunciar tudo o que tem dentro dos seus corações, todas as mentiras que vejo em seus olhos, todos os passos falsos, todas as estruturas complexas de linguagem e relacionamento que criam para fugir do fato de que ontem me estupraram, hoje estão prontinhos para fazer o mesmo e amanhã estuprarão novamente. vocês já me viram elétrico, mas nunca me viram louco e elétrico. vocês nunca me viram com um machado na mão. não queiram me ver.
por favor, não queiram me ver.
eu ainda amo vocês.
um dia vocês vão parar de me bater e vão cuidar das minhas feridas. vocês precisam fazer isso. por favor, façam isso. eu juro que tem um jeito. só peço para que não contem comigo, eu não tenho mais estrutura psicológica para ver vocês, me deixem sozinho. até envolvido pelo frio eu me sinto mais protegido e acolhido que perto de vocês. se um dia algum de vocês me pegar no colo seja tolerante se eu morder seu braço, é instintivo. seja tolerante se eu gritar que odeio você em um lugar movimentado, talvez eu realmente odeie, eu não tenho obrigação de gostar de abusadores, é você que tem a obrigação de me ensinar o jeito certo antes que eu cresça e me torne um. há, quantos de vocês têm opiniões tão firmes sobre depravações, não é? eu sou quem sabe o quanto “firmes” e “depravação” tem tudo a ver com vocês. queira eu acusar isso uma noite pra ver o que acontece com a minha bunda.
se eu der um tapa na sua mão quando você tocar nas minhas coxas e doer seja tolerante, a minha coxa ainda dói mais que sua mão, ela ainda está toda rasgada.
pode ser que eu chore se você beijar minhas bochechas, elas são bonitinhas mas já tomaram muitos socos e pontapés. e também teve uma vez que você beijou ela e disse “amanhã eu não vou poder beijar o mesmo lugar porque estará quebrado”. você não quebrou nada mas eu ainda tenho medo. eu chorei muito aquela noite de medo, ansioso sem saber quando você entraria no meu quarto pra fazer isso. eu não consegui dormir aquela noite, talvez essa tenha sido a sua brincadeira do dia. você sempre tem isso de fazer algo bom pra mim e desmanchar tudo me avisando que vou sofrer de noite, eu não acredito em você quando faz algo bom por mim. eu não sei quando vou conseguir confiar em você, é adulto demais pra uma criança dizer “nunca”, mas também é adulto demais saber que certas coisas são adultas demais pra eu dizer.
também não use salto alto perto de mim. eu não tive culpa de nenhuma vez que pisei no seu pé sem querer por ser desajeitado, como se eu fosse tão pesado assim. não foi responsável da sua parte me chutar e perfurar meu pé, eu não gosto do barulho de salto batendo no chão desde então. não foi assim tão grave perto do que você já fez, acho que se você tivesse me pedido desculpas no dia eu não teria guardado, mas você vai morrer sem me pedir desculpas por isso. não é como se tivesse sido a última vez que você fez isso, foi só a primeira e portanto a mais marcante.
e também não me dê nada de pelúcia, eu não vou brincar com isso. quer dizer, você considera uma brincadeira saudável quando invento na minha cabeça uma história muito legal onde descubro um esconderijo pro bichinho refugiado porque toda noite passa no quarto um lobo mau querendo dilacerar o bichinho? (apaguei a parte que digo pra uma pelúcia que é pra descontar as frustrações, uma pelúcia não entende isso. assim como eu não deveria entender) olha só, desde pequeno um herói! protegendo bichinhos do lobo mau, sendo violentado pra salvar a vida do bichinho. um mártir. quase Jesus Cristo. que alguns “você” dizem aos quatro ventos que amam e fazem tudo por ele, e outros “você” desprezam e fogem como diabo da cruz. e não sou de acreditar em consertos mas os dois “você” deveriam tentar conhecer, vai que dá em alguma coisa.
desculpa.
eu tenho essa veia de acusador dentro de mim. é até explicável vocês me baterem e abusarem de mim. mas não começou como acusação, eu juro que não. você lembra como começou? eu te pedia pra parar, eu falava que não estava gostando, eu chorava. por que acreditei que isso funcionaria? é porque eu não acreditei, era só natural pra mim reagir dessa forma. então eu fui perdendo a minha sensibilidade, fui me acostumando, me tornando resistente a isso. mas eu continuei não gostando. eu nunca gostei. a minha maneira de pedir pra você parar é que se tornou mais agressiva, eu não era essa criança horrível antes, se agora eu mereço ser espancado entramos num ciclo interminável de agressões mas eu continuo em desvantagem. não importa que você se sinta miserável toda vez que eu grito dentro de você, quem continua apanhando e sendo violado sou eu, você não pode querer nos igualar. eu sou a criança e você é o adulto. eu choro e você me dá leite. que pena que não consigo falar isso sem entender duplo sentido. que imagem horrível veio na minha cabeça. até parece que eu ligo.
ligar pra alguma coisa.
eu já estou desligado. aqui, no topo da torre, sozinho. não leu o aviso antes de entrar na torre? não toque em mim, eu dou choque, eu desejo descarregar energia elétrica. não se iluda pelas minhas histórias, por quão atraente e fofo eu sou, pela sinceridade do meu sorriso. só o meu coração ficou intacto, vocês despedaçaram meu corpo e afogaram minha mente num lago de fogo e enxofre. meu coração não é um prêmio, é uma tentação. que você vai subir uma torre cheia de obstáculos perigosíssimos achando que está alcançando mas, quando chegar aqui, vai acabar com a sua vida. meus golpes são os mais poderosos que já conheci, não dá pra aguentar três.
eu não sou uma criança boa.
pra falar a verdade eu odeio vocês.
(é mentira. eu gosto de vocês. mas prefiram não acreditar nisso, é mais fácil viver assim)