às vezes, quando as pessoas me perguntam se sinto falta da minha infância, respondo que não. não é verdade que tive uma infância horrível, também não é verdade que sempre gostaria de responder que não sinto falta nenhuma da infância.
só não sei responder de outra forma.
as pessoas me perguntam sobre isso com aquele tom estranho de quem teve vários amigos e se divertiu com eles, descobriu um vasto universo com eles, como se suas vidas girassem em torno disso. dos seus amiguinhos. das pessoas que fizeram parte de suas vidas. é ingrato dizer que não tive amigos na infância, é mentiroso também, mas não consigo olhar para aquele período onde criei um enorme e solitário universo interior, desesperado pela sua externalização como-ele-é e não como-as-pessoas-gostariam-de-vê-lo, e pensar “uau, que fase incrível”.
não era uma fase incrível.
não gostava da relação que tinha com, talvez, oitenta-por-cento das pessoas na minha infância. não gosto de saber que tive de me esconder atrás de um papel social que, aparentemente, as pessoas amavam, e muitas vezes gosto de crer que elas fingiam que amavam como fingi que amei, mas não é verdade, as pessoas gostaram mesmo disso.
a arte é solitária. é um universo de isolação, um universo de se sentir estranho a cada três frases ditas. talvez, em primeira instância, a arte traga uma percepção mais realista da vida, porque eu não via crianças carregando o peso das questões existenciais que eu carregava, não as via se sentindo ridículas fazendo coisas que eram obviamente ridículas, não as via questionando se suas amizades eram ou deveriam mesmo ser suas amizades, não as via se questionando se eram adequadas para suas amizades, seus pais, seus parentes. me machuca, de certa forma, quando alguém coloca a infância como um tempo de “inocência”, porque meus medos mais terríveis ocorreram na infância. eu tinha medo de morrer, tinha medo de meus pais morrerem, tinha medo de ser seqüestrado, tinha medo de machucar as pessoas, tinha medo de ser machucado pelas pessoas — eu literalmente fantasiava pessoas explodindo de ódio e causando catástrofes que me atingiriam em cheio. a minha imaginação sobre o medo era muito rica. e, em certo ponto da minha vida, a minha imaginação sobre o medo foi algo que vivi só.
eu e meus caderninhos. meus desenhos. minhas distopias, minhas tragédias romântico-existenciais onde o indivíduo se apaixonava pela vida só para ela, essa destruidora de corações, dona dos céus estrelados, puxar seu tapete em algum momento, tirar todo seu sentido e deixá-lo à espera da morte. meus personagens geralmente morriam de desgosto, ou matavam por desgosto. meus heróis gostavam da vida tanto quanto meus vilões, ou talvez até menos, porque os vilões se divertiam. eu sentia ódio profundo e assassino desde uma idade muito insignificante.
o sentimento de rejeição social nos torna apáticos à sociedade, às pessoas, e um pouco maldosos com elas. quando vemos alguém descobrindo sua insignificância, sua miserabilidade, nos sentimos alegres. de uma maneira sarcástica, como se realmente gostássemos de ver pessoas perdidas em sua inédita falta de sentido, mas de uma maneira sincera também. finalmente, a coletividade. uma coletividade mórbida, fracassada, triste, angustiante, mas uma coletividade. não estou sozinho na minha dor, não sou o único a chorar e sofrer, poderíamos até mesmo ser amigos.
não, não poderíamos.
bem-vindos ao templo de ganesha. e, embora nosso templo seja sobre esse elefante peralta, dedicaremos um tempo a falar de outro amiguinho chamado shiva.
era mentira quando disse que os outros capítulos dessa história seriam sobre o Criador e não sobre mim. acho que menti sobre isso porque estava muito exaltado, acreditando mesmo na possibilidade de escrever sobre o Criador sem escrever sobre a criatura, acreditando aliás em muitas coisas que, enquanto ensaiava contar essa história a vocês, acabei deixando de acreditar.
essa história é sobre mim. absolutamente sobre mim. sobre o que há dentro de mim, o que acho que há dentro de mim e o que gostaria que houvesse dentro de mim. e, aceite você ou não, esse é o melhor que você pode fazer como artista. é ridículo tentar assumir, na arte, o papel de Criador, porque a maior das ilusões que o homem já teve é que é capaz de criar. o homem foi feito para descobrir o que está coberto. é por isso que a arte é, de certa forma, sobre a realidade, e ainda que tentemos facilitar todo o processo dizendo que nós reproduzimos o comportamento de um Criador ao trazer para a existência o que era inexistente nós não reproduzimos esse comportamento, e todos os mundos novos que descobrimos e trazemos da cobertura à descobertura já estavam, de alguma forma, ali. é horripilante tentar viver em termos de “realidade”, só que esse desconforto é causado por esses animais parasitas que vivem um espetáculo de mentiras mórbidas e chamam isso de “realidade”, viver “mundos de fantasias” é a única maneira realista de viver a vida. nós somos, mais que um corpo realizando trabalhos e tradições, o conjunto de possibilidades de amor mútuo, de graça e deslumbre.
nós somos as nossas próprias doenças. nós somos, também, a cura para nossas próprias doenças. nós podemos ser tudo. e nós fomos criados para isso, para sermos tudo. “tudo”, ainda assim, é uma limitação. quem sabe! quem! sabe! poderíamos ser mais que “tudo”? no entanto não, não podemos, só podemos ser “tudo”. e ainda existem pessoas que preferem ser menos que “tudo”. não é engraçado?
da minha grande fascinação pela vida plena e ilimitada vem também minha grande morbidez. minha profunda tristeza. minha conformidade com as mais terríveis tragédias e minha amplificação dos meus mais terríveis episódios de auto-destruição. porque poucos conhecem a minha euforia ao apreciar o que é magnífico, o que é claramente uma pepita de ouro do coração humano, mas poucos sabem o que é me ver de joelhos diante da minha óbvia insignificância.
a minha terrível insignificância.
é mais fácil se perceber insignificante quando se é como eu. como estava dizendo, um pouco mais lá atrás, conheci a irrelevância muito cedo. a solidão, a isolação. conheci a dor de brincar sozinho com coisas que queria, muito, que houvessem pessoas para brincar. a dor de me expressar numa linguagem que as outras pessoas obviamente não entendiam. a dor de querer o que não existia por perto. conheci a dor de me sentir inadequado em maior parte dos lugares onde estava. eu era a criança que as pessoas gostavam de usar como piada, porque eu não sabia que não deveria levar a sério, e também não tinha forças para não levar a sério. tudo me machucava com uma profundidade surpreendente e eu tinha muita vergonha de expressar isso aos outros, meu pai sempre me disse “se esses moleques baterem em você conte pra mim que eles vão ver só uma coisa” mas o ponto disso tudo nunca foi querer ver os moleques que batiam, ou tentavam bater, em mim, sofrendo vingança nas mãos de um Grande Homem Valente, o meu ponto é que eu queria parar de ser tão ridículo, mas tão ridículo, que era o alvo número um das chacotas.
queria ser menos ridículo. queria ser adequado. queria ser diferente.
não. na verdade eu não queria nada disso. ou até queria, até me faria bem ser menos ridículo e adequado, mas trocaria tudo isso pelo sentimento de ser compreendido.
queria ser compreendido. não só queria como desejava ardentemente, era o que havia de mais profundo no meu coração: o desejo de ser compreendido.
e sabe o que é pior? quanto mais você busca a compreensão para coisas incompreensíveis mais estuda, se fascina, descobre, então a sua mente vai se tornando ainda mais esquisita e você ainda mais distante da tão almejada compreensão. o sentimento de incompreensão é uma grande fantasia, em alguns dias, e uma grande realidade, em outros dias, e é uma realidade que, quanto mais nos afoga, mais nos sufoca, mais nos faz confundir fantasias de incompreensão com realidades de incompreensão. o sentimento de incompreensão se torna, ele mesmo, incompreendido por nós. cria vida própria, nos faz acreditar em coisas que na verdade não deveríamos acreditar, nos faz exagerar problemas que na verdade são pequenos. nos torna revoltados com coisas cada vez mais banais, ainda que tudo isso tenha começado em algo genuíno, em uma dor real, realíssima, que praticamente é física.
nos torna revoltados.
shiva é uma amiguinha que apareceu durante meus sentimentos de revolta com a sociedade por ela não comportar uma pessoa como eu. ainda que, é claro, a criança raivosa que eu era não pudesse entender que, não é que a sociedade não tinha espaço pra mim, é que a arte e meu universo interior, introspectivo, me fazia me conectar com sociedades que não estavam assim tão próximas de mim. as conexões de mim comigo mesmo representavam muito. só é impossível explicar a uma criança que, se ela estivesse em outro lugar, haveria possibilidade de se sentir normal, integrado, aceito. como assim, outro lugar? como assim, outra sociedade? como assim, fora do meu apartamento? da minha rua? da minha igreja? da casa da minha avó? do rio? da cachoeira? a arte existia dentro de mim porque, ainda pequeno, eu representava um conflito ambulante entre diversas culturas. entre um feudalismo tardio de terras férteis, os traumas internos de uma sociedade cuja agricultura foi devastada pela própria natureza, a sede insaciável e também sem nenhuma possibilidade de esperança pelas riquezas do capitalismo, a arquitetura da malícia, dentre tantas coisas. eu era parte de tanta coisa! eu era como se fosse nada. uma contradição insuportável, uma união de universos vastos indialogáveis, e tudo o que me restou foi me enterrar em mim mesmo.
não conseguia saber como corresponder às expectativas dos meus universos distintos. shiva, então, diria “destrua”. e eu não gostaria de apresentar shiva como uma pessoa má, porque honestamente não entendo o coração dessa pessoa. shiva se apresentou a mim como uma moça dócil mas nada frágil, fria ao ponto de diminuir a temperatura quando ficávamos muito perto um do outro. não consigo defini-la muito bem porque o templo, no final das contas, é de ganesha, e o assunto que domino melhor é ganesha, tudo gira em torno dos nossos conflitos fervorosos. mas é incompleto se eu não falar de shiva. o quadro fica impossível de compreender. se não desenhá-la em algum cantinho, talvez nada faça sentido.
shiva me dizia “destrua”. shiva, às vezes, me dizia “coloque algo no lugar”.
e, por muitas noites, conversamos sobre destruição. não era um assunto que me fascinava a priori, nunca pensei que “destruição” fosse um assunto a se conversar, e shiva não era uma moça que se importava muito com a minha reação. ela não tinha urgência em nada do que fazia. ainda quando eu era criança ela assoprava em meus ouvidos “você quer destruir, não quer?” e eu não entendia. “destruir”? o que significava isso? “sim! bons meninos constróem, mas os melhores meninos destróem”. uma vez, ela pegou um rádio e colocou na minha frente.
- uma das caixas de som está falhando.
- e agora?
- destrua.
ela colocou uma chave-de-fenda em uma de minhas mãos e a guiou até um parafuso do rádio, e então girei. algo mudou no rádio. ele parecia mais “solto”, se eu mexia em um cantinho ele parecia se desequilibrar, mas não caía. o rádio permanecia intacto, aparentemente.
destrua.
não preciso dizer o que aconteceu quando meu pai chegou.
posso dizer que nunca mais destruí um rádio, mas aquilo foi divertido. ou talvez não tivesse sido divertido a princípio, simplesmente não entendi o que estava fazendo, mas shiva me perguntou “divertido, não foi?”. não sabia responder. realmente havia algo de interessantíssimo em ver que existia conteúdo dentro do rádio, que havia esse truque estranho onde algo tão duro, tão rígido, tornaria-se mole e maleável, instável, até perder toda sua forma e também seu funcionamento. havia algo de interessante em destruir. ou talvez não houvesse. é só que a maneira como shiva olhava atentamente para minhas mãos enquanto eu girava a chave-de-fenda, e então atentamente aos meus olhos, e então sorria, e então perguntava, fazia com que a minha opinião mudasse, ou ao menos se estremecesse e eu não soubesse dizer se era mesmo tão ruim assim.
shiva não estava se importando com o rádio. ela estava me treinando para algo um pouco mais conectado ao meu coração.
pensar em shiva é algo estranho, a fenda que a trazia era um pouco diferente da fenda de Elohim. para que Elohim aparecesse eu precisava pegar a espada e cortar o ar, propositadamente, criando essa fenda. já shiva não possuía essa necessidade. em primeiro lugar, Elohim era algo completamente alienígena que não parecia entender ou depender do que se passava dentro de mim para interagir comigo, eu só tinha o poder de criar a fenda, o resto era espontâneo. com shiva era diferente. a fenda que trazia shiva também carregava uma parte de mim, como se eu descarregasse energia física para trazê-la, e isso fazia com que sua fenda não fosse uma intenção direta mas uma conseqüência de eu precisar descarregar essa energia. tirar esse peso.
e antes que venha com a sua imaginação ocidental, possivelmente religiosa, repito: shiva não era má. não digo isso porque ela era gentil e essa gentileza me seduzia, ou me fazia perder “sentidos morais” ou quaisquer coisas do tipo. shiva gosta da destruição. e é muito caótico compreender o que isso significa sem recorrer às nossas noções de mundo onde existe “bem e mal”, “certo e errado”, “herói e vilão”. o que tenho a dizer mostra mais como isso é caótico do que a defende porque fui a pessoa que não a compreendeu, às vezes ainda não a compreendo, e quanto mais as pessoas a conhecem mais elas se perdem porque suas conversas, seus assuntos de interesse, tentam corações maus e tornam nebulosa a visão de pessoas que não possuem a capacidade cognitiva de se defender da sua sede ganeshica por afirmação e reafirmação. shiva é sobre destruir e sobre reconstruir. shiva pode levar pessoas que a adoram a viver uma vida de repetições vãs, sem propósito, porque torna a destruição e a reconstrução um fim em si mesmo.
temos um deus no ocidente chamado “shiva”, ainda que não o chamemos de deus porque odiamos assumir nosso politeísmo milenar, tanto na sede de salvar um cristianismo falido e agonizante onde temos como Deus tudo menos Cristo, quanto na sede de superarmos Deus. esse deus não é tão conhecido pelos adoradores de regras de templos, mas é muito conhecido pelos superadores de templos. seu nome é “dialética”.
shiva não é má, mas também não é boa. shiva só existe. e é o que tenho a dizer por enquanto em sua defesa porque preciso continuar a história.
em certo ponto da minha vida já tinha ficado bem claro que eu não tinha espaço na sociedade como uma pessoa de destaque, que o meu lugar era fechado no meu quarto onde ninguém me veria, fazendo o que eu, e só eu, me importava. desisti de contar piadas porque ninguém ria, desisti de tentar falar porque ninguém me ouvia (a minha voz é baixa e pouquíssimo imponente). também não parecia ter relação com o que as pessoas estavam falando. mais de uma vez, para “entrosar”, fiz comentários sobre algo que todo mundo se interessava menos eu, e esses comentários eram errados e indicavam com a mais absoluta clareza que eu não fazia parte daquilo; esses eram os momentos que as pessoas riam de mim, e o problema era esse: elas estavam rindo literalmente de mim, da minha existência. desisti de chamar amigos em casa porque simplesmente não sabia o que fazer com pessoas em casa desde que balança-caixão e gangorra deixaram de ser brincadeiras, me questiono até onde essas pessoas eram minhas amigas de fato porque ninguém conhecia minha casa, ninguém conhecia o que de fato eu gostava, as pessoas só conheciam o que eu fingia gostar para não me sentir tão deslocado.
uma vez chegaram filhos de amigos dos meus pais, um casalzinho, que talvez fossem meus amigos também, e eu estava tão! empolgado! por ter descoberto o que se tornaria o jogo da minha vida! e quando fui mostrar a eles ninguém quis, ninguém nem entendeu como jogava. então eu, como sempre, deixei de jogar e fui fazer o que as crianças normalmente gostavam. ordens da minha mãe: “vai brincar com as crianças, interagir. é falta de educação você ficar sozinho quando elas estão aqui”.
foi mais ou menos por aí que meus pais me inscreveram num lugar que era uma mistura de escola dominical com escola de futsal. um lugar que criou minha primeira grande cisão com Elohim, um lugar que estreitou meus laços com shiva. antes mesmo de ganesha. ganesha veio num tempo onde eu já precisava de algo para me apegar quando Elohim deixou de ser uma imagem clara para mim, já shiva já estava ali, naquele tempo onde ainda não fazia muita diferença na minha vida ser um resto de sociedade porque, embora tivesse essa consciência, eu ainda não tinha despertado para o que isso significava.
nunca desejei tanto não estar em um lugar quanto ali. naquele lugar onde eu era exposto em praça pública, como um bobo-da-côrte, sem poder fugir. não fiz nenhum novo amigo naquele lugar, só retive os antigos, com quem ocasionalmente falava do ódio que sentia quando era impossível guardar pra mim. era como uma chama me consumindo por dentro. não sentia a dor como um soco ou como um corte, sentia como queimaduras que me faziam agonizar, me derretiam, desfiguravam, consumiam. marcavam meu corpo todo. me tornavam fraco, frágil e desmontável como a caixinha de som, mas não tinha ninguém me desparafusando, o fogo ia derretendo as ligações lentamente sem que ninguém precisasse fazer mais nada.
já não era mais só gostoso estar no meu quarto, era um alívio. ali eu tinha proteção, não estava sendo humilhado por simplesmente existir. ali eu tinha paz.
- você está sendo destruído, não é?
- destruído?
- é! você está sendo desmontado. você consegue me mostrar todas as suas partes, garoto?
- sim! meus braços estão aqui, minhas pernas, meus pés… minhas mãos também. eu até estou ficando melhor no futsal, quem sabe eu fique mais forte também. está tudo aqui. não tem nada destruído.
- e as suas manhãs de domingo, não estão destruídas?
nessa hora coloquei minha mão sobre o queixo e comecei a pensar. não queria responder, não queria olhar também em seus olhos. olhei para o chão do meu quarto, feito de tacos de madeira, e fixei meu olhar em uma das brechas.
- …estão.
- e o que você acha de você mesmo, meu menininho? você se acha bom? você se acha valioso? você se acha talentoso? inteligente? capaz? você gosta de ser você mesmo?
shiva gentilmente me levou até o espelho do banheiro.
- você se acha bonito?
não pude responder shiva porque comecei a chorar bem alto. não tinha ninguém em casa então ninguém me acudiu.
essa era minha resposta e shiva me fez entender o que ela estava querendo dizer.
eu estava sendo destruído.
não me lembro se fui eu quem insistiu ou se foram meus pais, mas fui a um acampamento com esses meninos estranhos, de hábitos estranhos porém aceitáveis aos olhos da maioria. parece ridículo eu ter insistido para fazer isso: é que depois me veio uma vontade de lutar contra meus próprios instintos, lutar contra meu ódio corrosivo e meu sofrimento interno cada vez mais crescente e dominante, dizer que estava tudo bem. mesmo porque as pessoas não sabiam lidar muito bem com isso, elas só sabiam me incentivar e me dizer mentiras como “você está indo bem, está progredindo” ou dizer que tudo isso era normal e eu não deveria me importar. ninguém me deu a oportunidade de aceitar que não estava nada bem, que eu estava sendo morto por dentro.
mas eu fui. e, numa das noites, fomos obrigados a virar a madrugada acordados, com brincadeiras ridículas para quem não conseguisse permanecer e dormisse. estava frio. então, em algum momento ali, numa corrida eu, com sono, tropecei e caí no asfalto batendo o joelho e raspando-o logo em seguida. foi uma das piores dores que senti na vida mas, talvez, e só talvez, tenha doído tanto porque um incêndio de ódio e vergonha se iniciou dentro de mim e não parou mais. algum dos homens mais velhos me pediu para “ser homem e levantar porque não tinha acontecido nada” e eu guardei seu rosto porque, na minha imaginação, foi prazeroso fantasiar uma cena onde eu o amarraria em algum lugar, jogaria álcool em seu corpo todo e o queimaria vivo. o ódio foi tão forte, tão intenso, que a mim só restou abraçá-lo. jurei que essa seria a última vez que esse sentimento ficaria guardado pra mim, ainda que eu não tivesse a força e os meios para fazer os outros sentirem-no fisicamente. eu poderia gerar ódio. eu geraria ódio.
também jurei que nunca mais “seria homem”. que lutaria contra a idéia de me encaixar em um estereótipo de homem.
ocorreram ainda mais brincadeiras de mau gosto comigo até o final daquele acampamento e, ainda que elas também tenham me marcado ao ponto de eu lembrar de todas elas, elas foram só mais do mesmo. terminei uma trajetória rumo a me tornar uma pessoa extremamente sensível porque uma chama de ódio se acendeu no meu coração e não se apagou mais, desde então toda lenha que jogaram na fogueira do meu coração foi devorada por ele, eu não deixaria nada escapar, marcaria cada uma das pessoas que alimentavam meu ódio mesmo que minimamente. carbonizaria seus corpos na minha mente, provocaria elas até que seus sentimentos ruins tomassem conta e as fizessem se sentir da mesma forma que eu. buscaria seus pontos fracos para atacá-los assim que me sentisse atacado. as pessoas tiveram a oportunidade de me conhecer até ali, de me incluir na sociedade até ali, porque a partir dali eu resistiria a qualquer forma de inclusão.
eu já não queria mais fazer parte da sociedade. eu só queria vê-la em chamas.
- então você quer destruir as coisas, meu menininho?
- não, eu não quero. eu só quero viver em paz. eu só quero que ninguém chegue perto, que ninguém me convide pra nada, que ninguém tente demonstrar que se importa comigo, que…
- é suficiente?
- hã?
- o que você fez de errado para que as pessoas te destruíssem?
- eu sou ruim no futsal, atrapalho o time deles. aposto que, se eles jogassem sem mim, eles ganhariam. é por isso que eles me odeiam.
- mas e as outras pessoas? você também tem inimigos na escola, não é? aqueles valentões que roubam seu lanche e batem em você não são seus inimigos também? e quantas pessoas gostam do que você gosta? quantos amiguinhos você conseguiu pra jogar videogame contigo, ou assistir o que você assiste, ou ler o que você lê? quem está com você aqui, no seu quarto?
- shiva, por que você quer me ver triste? — os meus olhos lacrimejaram ali — você me odeia também?
- eu não posso odiar você.
- só porque, se eu fechar esse negocinho aqui, você vai embora?
- não. até porque você não pode fechar “esse negocinho aí”, você não sabe como fecha, você não sabe nem mesmo como abre. eu não posso odiar você porque, há anos, falo a você sobre a “destruição”, mas ainda não comecei a falar sobre “reconstrução”.
- o rádio não voltou a funcionar! eu nunca vou voltar a funcionar.
- o seu pai consertou o rádio.
- o meu pai não pode me consertar, ele também não gosta de mim. ninguém gosta de mim, eu já entendi isso. como meu pai vai me consertar se ele não gosta de mim?
- seu pai não pode te consertar.
- e quem pode?
nessa hora a fenda se fechou. sozinha, como ela mesma tinha dito que aconteceria. não sabia abrir a fenda de shiva, também não sabia fechar. e ela também não parecia disposta a aparecer novamente tão cedo.
Elohim, nesse tempo, se tornou uma espécie de fuga da realidade pra mim. o amor dela me consolava de uma realidade distorcida, destruída. algo que passei a fazer, no entanto, foi nunca estar perto de Elohim e de um espelho ao mesmo tempo. queria me imaginar uma pessoa que não era para estar com ela, talvez ela não percebesse que eu era quem era, se eu ficasse bem quietinho ela nunca perceberia e nunca me acharia inadequado. eu tinha nomes imaginários pra mim mesmo e os usava para conviver com Elohim ao invés de usar o real, e com o tempo fui me sentindo incomodado com nossos silêncios porque ela insistia em usar apenas palavras e gestos amorosos comigo, como se não percebesse que havia algo de errado, como se minha máscara estivesse funcionando bem demais.
eu não conseguia viver enganando algo tão puro e bonito como Elohim.
- por que você gasta tanto tempo comigo?
- porque eu te amo.
- você me ama porque não sabe quem eu sou. não sabe como eu sou fora daqui. você já deve até ter esquecido meu nome verdadeiro. eu acho que você, na verdade, nem me conhece.
- você logo vai querer se despedir de mim, né?
- despedir?
- é. ir embora. dizer adeus. dizer que todo nosso tempo foi precioso mas você precisa ir embora, que não consegue mais ficar junto comigo, não consegue mais acreditar em mim. que você precisa estar sozinho.
- eu não sei.
- faça o que fizer: você sabe que, na verdade, poucas pessoas te conhecem, e sou eu quem melhor te conhece. sou eu quem conhece não só seu nome verdadeiro como todos os seus nomes. eu te conheço muito bem, é por isso que amo você.
- eu odeio viver, Elohim. não sei mais se quero existir. tem fogo dentro de mim, está ardendo, eu estou despedaçando. e sei que você vai me odiar por quem vou me tornar, e que posso acabar te expulsando do meu quarto, nunca mais criando suas fendas, mas…
ela só sorria. não me incomodava o fato dela estar sorrindo, porque não parecia um sorriso de quem estava feliz ou mesmo indiferente. ela se comunicava comigo com o sorriso dela, queria imprimir seu sorriso em mim, queria transmitir esses sentimentos bons imutáveis que só uma pessoa como ela poderia sentir naqueles momentos. doía, no entanto. entrava em contato com a minha fogueira e parecia intensificá-la, como se ela ficasse mais forte para resistir aos sentimentos intrusos.
- estarei sempre aqui, tá? se um dia você sentir falta, medo, fome, solidão, ou qualquer coisa… me chama, por favor. você sabe o meu nome.
- não consigo acreditar em você.
- sempre acreditarei em você.
ódio e isolação.
esses eram os sentimentos predominantes de um recém-adolescente. sem Elohim, sem shiva, completamente só. nessa época conheci algumas sociedades alternativas onde, usando nomes diferentes, eu poderia fazer parte e me sentir menos só. achei até mesmo algumas sociedades alternativas onde as pessoas gostavam de algumas mesmas coisas que eu, onde discutiríamos assuntos que jamais me imaginei discutindo com outros seres humanos. todos nós compartilhávamos dessa euforia de termos, finalmente, encontrado pessoas “como nós”. mas eu, inflamado como estava, não conseguia entender muito bem que encontrei pessoas “como eu” porque gostavam das mesmas coisas que eu, acabei entendendo que todas essas pessoas eram tão destruídas e amarguradas quanto eu e criando vínculos muito mais fortes do que deveriam ser.
existia algo de muito errado comigo na minha criação de vínculos, no entanto. sendo eu essa floresta de ódio em chamas, as pessoas que tentavam chegar ao meu coração acabavam sendo queimadas. quando elas tocavam em determinadas partes da minha vida eu as atacava violentamente até que alguém me parasse. quando ficavam irritadas comigo e brigavam eu não conseguia entender que era apenas um sentimento momentâneo que logo iria embora, acreditava com muita força que tinha acabado de conquistar um novo inimigo, até porque a lenha jogada na fogueira do meu coração não seria algo que “iria embora”, seria algo que eu consumiria e me manteria aceso eternamente. eu me acostumei a ser amigo de pessoas que tinham masmorras secretas na minha alma porque, se não fosse assim, como eu seria amigo de alguém?
não tive nenhum relacionamento na adolescência porque, embora dissesse que era “regra da igreja” eu sabia que não tinha nada a ver com isso. não dava a mínima para a igreja, era só que doía tanto sentir uma ambigüidade feminina que, assim que ela aparecia, eu carbonizava a pessoa no meu coração e nunca mais olhava para a cara dela. “já entendi, é piada, não é? como no futsal, que eu caí, machuquei o joelho e riram de mim. como quando eu falava as idiotices para me enturmar e todos riam de mim. oh sim, entendi, tudo bem, sem problemas, já deu para se divertir bastante comigo mas que tal nunca mais conversarmos?”
tentei ser misógino por uns meses, daqueles “mascu”, que odeiam mulher e acham que ela só serve para reproduzir. até briguei com algumas amigas por conta disso, as mais amorosas talvez tivessem chorado bastante mas não desistiram de mim porque sabiam que eu era assim, desse jeito mesmo, que meu coração ardendo em chamas me fazia dizer as coisas mais horríveis possíveis mas logo eu “voltaria ao normal”. felizmente acabei brigando com todos os misóginos que conheci e consumindo essa ideologia criminosa no meu próprio fogo.
meus vínculos eram perigosos, meus amigos sabiam disso. eu era uma pessoa instável, que brigaria por questões idiotas, me importaria com questões idiotas. em toda mesa de bar eu era a pessoa mais propensa a acender uma discussão que levaria algum imbecil sem auto-controle a perder a linha e iniciar uma briga, chutar a mesa, as cadeiras, e secretamente eu ria disso. eu ria da minha capacidade de inflamar as comunidades, da minha capacidade de colocar pessoas contra as outras e contra elas mesmas. eu tinha vínculo com a imagem da floresta em chamas, me identificava com a floresta em chamas. quando as pessoas estavam se destruindo era como se me visse nelas, eu vi o pior que havia na humanidade de cada um que passou pelo meu caminho. e meus amigos! como era gostoso! o ponto certo para devorar seres humanos é quando eles estão com ódio.
eu era uma máquina de guerra e ódio, sempre pronta para um combate, sempre pronto para insultar e receber insultos, já que insultos não me parariam e sim me alimentariam e me dariam forças para continuar o massacre.
foi divertido pra mim.
estaria mentindo se dissesse que isso me fez sofrer, porque não me fez. não acreditem nessa conversa fiada de “justiça”. era um alívio para uma vida que já tinha lágrimas diárias de sofrimento. ainda que eu apanhasse, a dor não era pior do que a agonia das chamas. uma vez um colega da minha turma, no ensino médio, me enforcou, e eu só pude rir falando “a sua mãe, que é zeladora dessa escola, vai saber disso. e ela vai ficar furiosa contigo”.
outra vez um professor de educação física, que me obrigava a fazer suas aulas e me dava broncas por não ter interesse, recebeu uma redação inspiradíssima e muito cheia de argumentos sobre como a educação física deveria ser extirpada da grade curricular por não ter valor intelectual nenhum e reprimir alunos que não conseguiam desempenhar bem. não estava sendo sincero mas sei que atingi em cheio seu coração porque o mesmo a leu em voz alta para os alunos, em tom de revolta, num dia onde eu não estava presente, e nunca mais me viu da mesma forma.
eu tinha uma relação complexa com os meus professores. eles, por serem adultos exercendo uma profissão tão empática, às vezes se dispunham a montar o quebra-cabeças da minha alma. e eu, mesmo completamente desfigurado e agindo em prol das minhas próprias chamas, ainda tinha um coração, percebia suas intenções, sentia afeição, mas não conseguia expressar. esse mesmo professor de educação física me tratou com um respeito enorme no ano seguinte, reescreveu toda a sua personalidade autoritária e se esforçou muito para me incluir, me ensinar, me dizer “está vendo? você não é ruim, só precisa treinar”.
algo que eu não entendia ainda é que shiva é uma pessoa fria, ela não conseguia aparecer naquele meu forno emocional e me ensinar alguma coisa. com muito esforço, certo dia, diante de alguma situação como essa onde o cenário de ódio mortal foi revertido em lições e amor, ela apareceu rapidamente e me deixou um bilhete.
reconstrua. não deixe as chamas te engolirem. elas não estão acalmando só porque você as descarrega, só estão te cauterizando. um dia elas te consumirão por completo. seja um bom garoto, reconstrua.
a minha agonia emocional era mortal, no mesmo dia acabei me machucando fisicamente para tentar aliviar as chamas.
o fato é que transicionei por vários anos ao contar tudo isso, indo e voltando, e a história não deve estar fazendo sentido cronológico algum. confesso que não tenho muito interesse em fazer sentido cronológico porque o templo de ganesha é algo circular, você vai, você volta. você se perde, você entra numa sala achando que vai progredir e então, surpresa! está na sala anterior.
ganesha apareceu mais ou menos por aí, no meio desse caos todo. em algum desses anos. confesso que não abandonei Elohim apenas pelas chamas, embora isso fosse perfeitamente possível, só demoraria mais.
em algum dos meus anos de recém-adolescente eu tive um grande amigo. um Grande Amigo. era um rapaz que compartilhava um pouco da minha jornada de vida: sentia-se excluído pelas mesmas pessoas, na mesma escola e na mesma igreja, gostava das mesmas coisas que eu ou ao menos tínhamos uma quantidade incrível de gostos em comum. nós matávamos aula para jogar pokémon, para jogar guitar hero, para jogar kingdom hearts (que eventualmente eu inventei que odiava só para inflamar pessoas sem necessidade alguma), matávamos aula para ouvir pink floyd, linkin park, metallica, ac/dc e raul seixas (também inventei que odiava pink floyd, enquanto adotei oficialmente o raul seixas porque era das poucas coisas que eu podia cantar as letras e me sentir diferente nos meus ambientes de rap e funk nacional. hoje detesto raul seixas e amo pink floyd. os outros são assunto para outras histórias), entre outros.
guitar hero, pink floyd, linkin park, metallica, ac/dc, raul seixas. essa fórmula mágica, junto com os meus outros videogames, invocou ganesha: o elefantinho mágico.
- vejo aqui uma cria de sucesso de shiva! a que devo sua ilustre presença, jovem?
- shiva cria? achei que ela só destruísse.
- e você, o que diz? ela te destruiu?
- não. ela só me mostrou o quão desgraçado eu sou, ela não tem culpa disso.
- não diga “desgraçado”! você tem muita graça, rapaz. o que o levou ao caminho da destruição?
- eu… não sei. só aconteceu.
- quantos anos você tem? vinte e três?
- não… treze.
- uau! você tem um cheiro muito adulto. uma fisionomia adulta, uma maneira de falar adulta, palavras adultas. isso é muito interessante e também muito precioso. qual é seu nome?
- meu nome é lyra.
- uau, que nome! o que você gosta de tocar, lyra? baixo? guitarra? violão? bateria?
- eu não sei tocar nada, eu só sei pintar. pintar quadros em preto-e-branco, não sei usar cores.
- é? interessante! interessante! você quer ser reconhecido, garoto? você precisa de espaço na sociedade? o que você quer?
- eu quero paz. eu quero ficar quieto no meu cantinho.
- aaaaaaaaaaaaaaaaaah, conta outra! um artista como você, cheio de talento e intelectualidade, cheio de individualidade, um prato cheio para o cosmos, me dizendo que quer ficar quietinho no seu canto?! que não quer ser falado por todos pelas suas obras?! que não quer tocar um incrível solo de guitarra num palco e abrir a boca de todos os espectadores?! quem você quer enganar? meu nome é ganesha e eu sou seu fã, e seu diretor-de-arte. dedique-se a me conhecer, garoto, a conhecer o conhecimento, a conhecer a arte. você já nasceu com esse dom incrível de abrir e fechar fendas, você pode me chamar a qualquer momento e aqui estarei eu, ganesha! conhecimento! arte! antropologia! debates! não deixe sua chama apagar, garoto. incendeie tudo. mas de nada adianta queimar a floresta dos corações humanos se ninguém saber quem foi você.
eu não consegui responder ganesha. não consegui, simplesmente me pareceu fantástico demais, ao ponto de eu não conseguir levar muito a sério todo esse discurso eufórico. eu achei que, olhando-o com meu olhar de desprezo de sempre, ele se afastaria. eu não sabia quem era ganesha.
- deixe-me adivinhar… você não está interessado, não é? está me achando um palhaço, está me achando fora-da-realidade, dentro de você há um cinismo flamejante, não é? eu conheço suas entranhas, garoto. sei seus passos, sei seus sentimentos, sei seus pensamentos. é, eu já estive aí. no seu lugarzinho. me sentindo abandonado por toda a sociedade por não conseguir me encaixar, por outros não entenderem que eu precisava de algo superior, algo transcendente, algo inteligente. a solução é o intelecto, garoto. eu vou te recomendar um livro bom. já ouviu falar de ayn rand, a revolta de atlas? não, esse livro não é dos melhores, mas vai servir para te atiçar. eu conheço seus gostos! você é um adolescente diferente, cheio de questões, ayn rand é um prato cheio pra você! e quando menos perceber, terá conhecimento para humilhar todos aqueles que te humilharam, porque um dia o futebol deles não será mais tão importante assim mas o seu conhecimento será. é o mundo justo! você não mais sofrerá, e aqueles que pisaram em você serão pisoteados. oh, como eu amo a justiça!
- eu só quero meu espaço. — mentira, o discurso tinha me interessado em sua totalidade. nenhum adolescente ouve uma proposta de ser melhor do que aqueles que o feriu e se contenta em dizer que gostaria de ser, apenas, igual. é mentira. e, se hoje vejo como o discurso é ridículo, vejo também como é normal que seja encantador a qualquer adolescente — se eu pudesse fazer parte da sociedade já estaria ótimo.
- você tem medo de pedir algo mais. vontade você tem, mas tem medo. acha que pode ser rejeitado com poder em mãos, mas isso é impossível. quando tiver poder, todos se curvarão a você. no reino das afrontas, ninguém ousará te contrariar. no reino dos afetos, todas as pessoas desejarão estar contigo pelo seu status. você sabe disso, garoto, você é inteligente, sei que conhece os sentimentos mais vis pois já consigo vê-los te debilitando diariamente. você será autoridade. você, que sempre foi usado pelas autoridades como bode expiatório, como ovelha sacrificada para entretenimento de lobos, saberá o que é dar instruções a uma alcatéia e vê-los todos seguindo a sua direção.
- eu tenho mesmo muito medo, ganesha. o que você ganha em troca por tudo isso?
- a sua alma.
- não. nem a pau. — eu tinha meus resquícios de supersticioso — esquece. sem chance. sem isso de alma.
- então, sejamos apenas amigos. pode ser? amigos.
minha superstição não chegava ao ponto de eu não aceitar amizade de pessoas que, instantes atrás, tinham pedido minha alma. coisa de adolescente. eu, sem esboçar um sorriso sequer, apertei a sua tromba e fechei sua fenda. sobre ela, aparentemente, eu tinha algum controle.
não era como Elohim, que aparecia quando eu dissesse “sim” e desaparecia quando dissesse “não”, mas era fácil. o segredo era ligar um jogo de videogame, ou pegar um livro pra ler, ou assistir alguma coisa, ou, e aqui temos a maneira onde a fenda se moldava em sua forma mais plena e trazia um ganesha mais confortável, ouvir algum disco de música.
isso não era algo do ganesha. por uma necessidade de me tapear, algo que ele fez com muita maestria, ele tocou no assunto do livro da ayn rand. eu não me interessava por ayn rand nem por nada de filosofia, só o básico para me declarar ateu. eu gostava de música. o problema é que, se alguém que eu suspeitava ser um demônio me recomendasse músicas, certamente traria à tona aquela conversa fiada de que música que não é de igreja é do demônio e me afastaria de tudo isso (quem sabe não seria bom aos demônios? quer algo mais demoníaco que gente “de igreja”? mas ganesha não é satanás, ganesha é ganesha). existem alguns elementos de satanismo em proibir música, é claro, mas era interessante para ganesha que eu fosse completamente cético com relação à música, que tratasse o “gosto” como se não significasse absolutamente nada e ouvisse o que desse na telha pelos motivos mais mesquinhos possíveis.
comecei, nessa época, uma jornada de devoração compulsiva de músicas. embora tentasse variar entre vários estilos, por causa desse medo religioso que é imputado a qualquer criança pentecostal para que ela “não ouça música secular”, o meu interesse era sempre em heavy metal e afins e era lá que eu queria estar. me sentia um pouco menos “impuro” quando ouvia músicas que alguém me falava que eram “cristãs”, ainda que não fizessem diferença prática nenhuma pra mim. esse foi meu último lado supersticioso, a minha superstição suprema, porque a música é o que há de mais místico no universo e, ao menos aparentemente, você pode dar a elas o significado que quiser. você pode ouvir e acreditar em besteiras como “transformação de atmosfera”, acreditar que demônios estão entrando na sua mente, acreditar que seus sentimentos estão mudando, acreditar em tanta! coisa! e era ali que estavam os freios do meu ateísmo militante, era ali que residiam as minhas dúvidas, “será que está acontecendo algo? será que estou sendo influenciado por elas? será que? será?”.
ouvia, então, músicas “análogas” às seculares. dogwood, porque queria ouvir nofx. impellitteri, porque queria ouvir racer x. shadow gallery, porque queria ouvir dream theater (shadow gallery é tão cristão quanto o próprio dream theater). deliverance, porque queria ouvir anthrax. the crucified, porque queria ouvir stormtroopers of death. living sacrifice, porque queria ouvir slayer. barren cross, porque queria ouvir iron maiden. e era assim: tal coisa, porque queria ouvir outra coisa. talvez, ouvinte, você esteja achando tudo isso extremamente ridículo, mas isso era uma bagunça muito séria que havia na minha mente. não fazia sentido nenhum o “rótulo” cristão pra mim, não tinha diferença prática, eu não estava nem um pouco interessado nas letras do living sacrifice assim como não estava interessado nas letras do slayer, só queria pancadaria nos meus ouvidos. só queria guitarra acelerada, blast beat, vocais rasgados ou guturais, só queria absorver estruturas musicais complexas porque era isso que entendia como “musicalidade” na minha adolescência. quanto mais difícil a música fosse no guitar hero, melhor ela era. está perdoado ser flavio morgenstern quando se tem quinze anos, não está?
é óbvio que essa farsa durou pouquíssimo tempo e logo eu mandei tudo aos ares e passei a ouvir todas as músicas que gostaria, carregando o peso de “estar em pecado”. o pecado horrendo de ouvir música secular, o terror terminal implantado em minha mente. preferia carregar esse pecado terrível a não ouvir, porque o meu mundo interior era muito mais valioso do que uma santidade que eu não entendia, não acreditava e nessa altura do campeonato me parecia escravidão criada por pessoas que viviam suas vidas tranquilamente enquanto eu carregava as marcas que elas deixaram em mim e permanecia no cantinho do desprezo onde elas me colocaram e disseram “fique aí. é aonde ficam estranhos, incapazes e sensíveis como você”. o meu mundo interior era tudo o que eu tinha, não trocaria isso para ficar perto das pessoas que mais odiava, e eu não tinha muito medo do inferno porque chamava a minha vida de “inferno” e estava me forçando a acreditar que depois da morte sobraria um eterno “nada” aonde eu poderia ao menos descansar.
esse peso, no entanto, não foi fácil de suportar. era um julgamento interior dentro de mim, vozes que me diziam “você está fazendo o que não deveria”. isso destruiu muito da minha sanidade, ainda que eu tentasse, de todas as formas, afirmar meu ateísmo. as vozes que diziam que eu era um “badboy” por estar ouvindo rock’n’roll, que diziam que eu estava ouvindo a música do diabo, a música do mal, dos promíscuos, dos beberrões, dos drogados; ainda que eu não fosse promíscuo, e que não bebesse, e que não usasse drogas. eventualmente faria tudo isso porque estava ouvindo “a música do diabo”, era só questão de tempo para que me tornasse o maior mau caráter do mundo, como são todas as pessoas que se envolvem com o rock’n’roll.
ganesha sabia jogar com esse sentimento, ele brincava de morde-e-assopra comigo. dias de “não se preocupe, você é melhor que todos eles”, dias de “você não merece ninguém por perto”. dias de “a arte é um dos meios mais belos da expressão humana”, dias de “a arte está fazendo de você uma pessoa completamente insana”. enquanto eu estava em seu mundo ficava em suas mãos, e não é nada fácil estar nas mãos de um completo mentecapto como ganesha. ele é insaciável. ele é insano, doido varrido. mas, sendo um pouco mais realista e menos rancoroso, ele sabe tudo o que faz: por trás de sua imensa aparente criatividade há uma racionalização doentia e calculada de cada passo seu, não há arte pura em ganesha, há arte instrumentalizada, há arte direcionada, mas nesse tempo eu estava muito longe de descobrir qualquer uma das fraquezas de seu método. uma pessoa que busca na música estruturas complexas é um alvo fácil do ganesha, o desejo pela estrutura complexa vem de um coração impositivo, de um coração que não consegue ver na arte o-que-ela-é e acaba tentando submetê-la aos seus próprios padrões mesquinhos, e quanto mais o seu padrão tende a algo sofisticado e complexo mais o seu coração se inclina para um desejo de “corrigir” o universo. de acreditar que existe o melhor e existe o pior, o bom e o ruim, o belo e o feio, e pior ainda, acreditar que isso não está escondido nas profundezas dos corações humanos e sim em superfícies metódicas, com aparência de eternidade, que porém exige eliminações da descoberta de novos mistérios para que esses novos mistérios não façam as pessoas perceberem que esses métodos não são a profunda eternidade, apenas a superfície.
corrigir o universo.
é esse o cerne da “brincadeira” do ganesha.
a cultivação do sentimento de que o mundo está errado e você pode, e deve, corrigi-lo. de que você está “do lado correto” da história, da religião, da moral, e que é simplesmente justo que aja inclinado a destruir essas pessoas, a princípio humilhando-as da maneira que estiver ao seu alcance mas, com o tempo, passando a realizar mesmo a eliminação. ganesha é o tipo de pessoa que, se julgar necessário, seqüestra a alma e a paz de pessoas que ele enquadra em seu complexo sistema de idéias de “certo” e “errado”. isso, claro, é o princípio porque, dado poder o suficiente, ganesha passa a massacrar as pessoas “do lado errado” por puro prazer. ele as observa, revoltadas com a sua própria impotência diante da humilhação, e as humilha novamente.
soa muito como se ganesha gostasse de poder, mas isso também não é verdade. ganesha gosta de afirmação, mas a afirmação em suas mãos é tão literal que nós percebemos que “afirmação” não é exatamente o sentimento que imaginávamos. ele não gosta de ouvir que está certo, de ouvir elogios, de apoio, como é o que costumamos pensar ao entrar no assunto da “afirmação”. ele gosta que a realidade que está em sua mente se prove real fora de sua mente também, quer afirmar em todos os seus poros como é o universo, como deve ser o universo, quer impôr a realidade dos seus quadros dentro da realidade convencional. por isso é tão mais fácil a ele fisgar pessoas como eu, pessoas que nunca conseguiram se afirmar, que tiveram seus gostos rejeitados, sua maneira de pensar rejeitada, seus sentimentos rejeitados, sua presença rejeitada. pessoas que carregam consigo o sentimento de que a sociedade inteira as rejeitou, não só a menininha bonita, nem só uma rodinha de pessoas específica. pessoas que sentem que a cama de seu quarto é o único lugar onde ela é aceita.
a afirmação, então, se torna um tipo de vingança. chamar as pessoas de burras era extremamente prazeroso pra mim. não, não era ostentar uma intelectualidade que me dava prazer, eu não me sentia lá muito inteligente, era humilhar a incapacidade de outra pessoa que me deixava bem. era desmontar o raciocínio alheio, mesmo que eu não tivesse nenhuma solução, e ver essa pessoa perder seu chão; importante: “e ver essa pessoa perder seu chão”, porque não há nada de errado em apontar falhas sem trazer soluções, saber a verdade por si só muitas vezes já é importante, é fazer isso pelo prazer da caos que não está certo. era provar que alguém estava errado, ainda que no fundo até acreditasse que ele estava certo, só porque eu não gostava da pessoa. o prazer que eu sentia ao desequilibrar os outros era um belíssimo anestésico para a agonia que sentia em existir.
a grande discrepância entre eu e ganesha, nesse ponto, é que eu estava consumido pelas chamas e ele não. ele exigia que eu passasse para a próxima fase, “anda, você o desequilibrou em público, afirme-se! conquiste a platéia! construa seu exército! crie um novo mundo!”, e nessa hora eu ia embora. ele sabia que estava disputando com os efeitos de uma obra incompleta de shiva. eu não era capaz de me interessar por conquistar pessoas porque as odiava tanto quanto odiava a pessoa que estava massacrando: intrometidas! fofoqueiras! interessadas na miséria alheia! como o ser humano me enoja! eu tinha ódio incondicional, odiaria todos que se aproximassem fizessem-me o bem ou o mal.
e isso, também, era mentira. no fundinho havia um interesse em mim em situações como essa, mas ele era um pouquinho mais ingênuo que a conquista de um exército ideológico. eu queria amigos. queria pessoas para compartilhar meu amor por videogame, minhas histórias e fantasias, meus sentimentos. queria me sentir menos só, me sentir parte de algo. me inseri em diversos contextos sociais para desintegrá-los em incêndios assim que percebi, com uma tristeza profunda que sempre se convertia numa violenta e descontrolada fogueira de ódio, que não fazia parte daquilo.
nunca fui parte de nada, nunca pertenci a lugar algum. sempre fui desconectado das pessoas ao ponto de não fazer esforço algum para manter nada nem ninguém em minha vida, já criei e dissolvi vínculos com pessoas tão diferentes e contraditórias que adquiri uma capacidade de banalizar qualquer coisa, qualquer pessoa, tirar qualquer um da minha vida sem sentir muita dor. é só jogar na fogueira, as chamas fazem o resto do trabalho. queria saber como é “fazer parte”, queria muito, embora já não tivesse forças para lutar por isso ou mesmo para sentir grande vontade disso, só silenciei as minhas vozes colocando-as no fogo.
aos dezoito anos terminei meu primeiro quadro.
não entendi o que senti ao terminar. era forte, muito poderoso. não conseguia parar de olhar para a tela pintada, que me tomou dias e noites, totalmente fissurado, sem conseguir piscar direito.
não muitos dias antes disso finalmente expus todos os meus sentimentos a um amigo próximo, durante uma longa noite de dream theater. sentimentos de dor profunda, vomitados, que o surpreendeu e fez com que o mesmo tivesse uma reviravolta na maneira de me enxergar. não sabia e nunca tinha pensado nisso mas ninguém consegue ver a minha alma em estado de consumo perpétuo: quando você é o “homem do lança-chamas” isso é tudo o que as pessoas conseguem ver e saber a seu respeito, que você é um homem implacável com um lança-chamas. eles, assim como você mesmo, se esquecem que você é humano. poucos se dão ao trabalho de lembrar que adolf hitler era um ser humano, cheio de sentimentos, desejos, tormentos, medos, eles preferem acreditar nos livros e em desculpas convincentes cheias de ódio velado que o chamam de “psicopata”, de “máquina”; isso não é saudável, negar a humanidade de qualquer um é o primeiro passo para se tornar o próximo implacável homem do lança-chamas.
não que eu fosse adolf hitler, e isso tudo deve ter deixado godwin muito triste e frustrado, só estou falando de desumanização. a maneira como eu parecia não precisar de ninguém, por ter me acostumado a nunca pedir por ninguém, escondeu das pessoas os motivos de eu nunca pedir por ninguém: não deixa de ser uma forma de orgulho, só não é um orgulho fundamentado em “eu faço melhor”, é fundamentado em não se sentir conectado o suficiente com a sociedade para pedir favor a membros dela. o “eu faço melhor” a gente inventa depois. nos tornamos bons em tudo o que dá, para o resto manipulamos as outras pessoas para que elas façam por nós sem que peçamos, pedir dói.
pedir inclusão dói.
também tem algumas coisas que ninguém pode fazer por nós, e nós também não sabemos fazer, e parecem tão básicas e necessárias para uma vivência normal mas nos acostumamos a viver sem.
então, voltando ao quadro, eu o amei. não conseguia sentir ódio por ele, ainda que estivesse imperfeito, ainda que estivesse claramente imperfeito. na verdade era o contrário: via nele inúmeras qualidades que outras pessoas não viam, ou pareciam não ver, porque essas qualidades estavam em seu processo criativo e eu, bem, conheci todo seu processo criativo. conhecer aquele quadro intimamente me levou ao amor, as suas imperfeições eram graciosas, suas falhas inspiradoras e tão humanas, tudo fazia tanto sentido!
minhas chamas, por um instante, se calaram. não consegui entender que estavam diretamente relacionados o meu tempo de contemplação com o silêncio das chamas, mas hoje entendo melhor esse momento. as chamas estavam no quadro, não estavam mais em mim.
o quadro era sobre a minha distância e saudade de Elohim. havia ela numa ponta e eu em outra, ela com o rosto virado pra mim e eu andando na direção oposta. não abri sua fenda naquele dia nem em outro dia próximo, apenas revisitava o quadro algumas vezes e, durante esse tempo, não prestava atenção em mais nada, mais ninguém. nada me interessava. todos os dias ganesha vinha me atormentar e até conseguia falar algo, só que eu estava fito em minha própria obra, viciado tentando aproveitar minha própria paz temporária.
cada dia isso funcionava menos, como uma droga perdendo seu efeito. quando os efeitos acabaram de vez, fiquei pior que antes. finalmente, de fato, suicida. não mais ou menos suicida, não mais ou menos agressivo: agressivo de fato. odioso.
durante essa época uma pessoa que tentou se aproximar de mim profundamente e, embora tudo o que eu tenha feito tenha sido alternar entre queimá-la um pouco e dizer “não é melhor você se afastar? sabe que nada de bom vai acontecer por aqui”, ela tentou ao máximo. essa coisa de gente abraçar o porco-espinho mesmo sendo perfurada por ele, bem clichêzão, que na verdade é pouquíssimo saudável. ela era uma pessoa bastante resistente ao fogo. depois de certo ponto começou a dizer que não queimava mais, que estava tudo bem, só que eu não conseguia acreditar muito bem nisso e por esse motivo decidi me afastar definitivamente dela.
não vale a pena comentar em detalhes tudo o que aconteceu mas penso que isso foi crucial para entender como as pessoas são um pouco mais estranhas e sacrificiais do que eu imaginava. pra entender, também, que nem todo mundo me odiava, porque não tinha possibilidade daquilo ser uma brincadeira de mau gosto. eu só estava no mundo, era só mais uma pessoa, com coisas boas e ruins como a minha própria pintura. e talvez, só talvez, quem sabe talvez, meus amigos me amassem de verdade.
talvez eu tivesse a minha própria sociedade, distante daquela que me excluiu. com pessoas que me conheciam, me admiravam, se interessavam no mesmo que eu, que tinham até interesses românticos em mim. talvez.
depois de alguns meses de uma relação bipolar com a morte, pintei um segundo quadro. ficou um pouco pior que o primeiro, ao ponto de eu não ter mostrado a quase ninguém e tê-lo perdido em algum momento da minha vida, mas dessa vez o que me acalmava não era ficar contemplando a tela e sim cada dia pintar a mesma coisa em telas distintas. perceber como sempre mudava dependendo de como eu estava. toda vez que eu pintava essa tela eu terminava chorando, chorando sem parar por horas, em alto e bom som.
ganesha não conseguia falar comigo. shiva também não. Elohim? já éramos desconhecidos, ou eu era um desconhecido a ela.
estava completamente sozinho. não haviam vozes, não haviam fendas, não haviam pessoas. não haviam nem chamas.
ganesha, vendo que estava perdendo alguns privilégios, decidiu ser mais rígido em seus métodos. a minha irresponsividade o irritava muito, o meu estado de destruição interior não era algo que ele conseguia lidar. ainda que ele soe diabólico, ele me queria vivo. um lyra morto não seria poderoso, justo (vingativo), famoso, intelectual, artístico e tudo mais: todas essas coisas que ele estava me usando para fazer por ele, ser por ele.
é por isso que uma fenda se abriu para dar continuidade a um trabalho que ele não poderia fazer. a fenda da pessoa realmente má, do mal absoluto. sim, aquele que, ao contrário do ganesha e da shiva, e talvez até de Elohim, todos nós conhecemos. satanás.
o aspecto físico de satanás era o meu. explicando melhor, ele era como eu me imaginava. o que eu via no espelho. ele sentaria encostando suas costas nas minhas, na cama, olhando para um lado da parede enquanto eu olhava o outro. e ficaria lá. por horas e horas, sem falar absolutamente nada, enquanto eu também não falava absolutamente nada. nós não olhávamos um para o outro, não sabia o que ele sentia, só posso dizer que eu não tinha nenhuma vontade de olhar para aquele rosto.
isso aconteceu por alguns dias até que o mesmo decidiu se abrir.
- não é engraçado?
não consegui responder nada. um silêncio de mais alguns minutos continuou imperando por ali.
- nós dois temos a mesma história de vida. nós dois estamos condenados. eu não sei nem por que você quer se matar, acha que vai melhorar depois que morrer?
- deixar de existir me traria paz, talvez. — respondi, dessa vez de prontidão.
- que palhaçada! a inexistência é o maior dos tormentos. você só vai deixar as suas chances de melhorar de lado, eternizar esses momentos de auto-destruição. não existe esperança pra você, não existe esperança pra mim. você é sofrimento como eu sou. você é dor, como eu sou. você promove a dor, como eu promovo. e realmente, a única distância entre nós é a morte, e se você quiser posso até te ajudar a acelerar esse processo mas a mim já é prazeroso saber que, vivo ou morto, você não tem esperança. talvez compense se eternizar já agora, mesmo, talvez não. tanto faz.
- você é quem estou pensando mesmo, né?
- oh, sim. satanás. aquele que “não diria seu próprio nome” porque é melhor enganar os outros, aquele que “é furioso”, aquele que… tantas coisas, sabe? e eu estou aqui, sempre aqui, tranqüilo, calmo. quantas pessoas são como você? sem esperança, apenas aguardando a morte, carregando suas culpas e sentenças. eu não tive trabalho nenhum, talvez tenha impedido umas cartinhas da shiva explicando algumas coisas de chegar até você, talvez tenha falado algumas mentiras sobre você ao ganesha para deixá-lo enfeitiçado pelo garoto que, oh! que preciosidade da intelectualidade e da arte!. você está a poucos quilômetros de distância genealógica de escravos africanos e de indígenas, garoto, não existe espaço pra você em nenhum desses lugares. seu destino, se você se safar de morrer nos próximos dias, é ser eterno escravo de uma empresa, com uma família de crianças ranhentas e uma mulher dondoca que não entende nada do que você fala, isso se não for a solidão eterna. o ganesha, por causa de alguém que juro que não sei quem foi, não entendeu isso ainda. eu não fiz quase nada. e agora você está aqui, junto comigo, me ouvindo, sabendo que não tem nada a se fazer. como disse, quantas pessoas são como você? ainda que eu não possa ficar feliz, por não saber muito bem o que é a felicidade, e não possa ter paz, por não saber muito bem o que é a paz, posso dizer que diariamente as pessoas alimentam as minhas chamas sem que eu faça muita coisa e isso me dá muita tranqüilidade.
- você fala bastante.
- se você pudesse tramar a morte de cada uma das pessoas que te feriu e pudesse vê-las agonizando em sua frente, também descreveria com detalhes como fez para matá-las. é divertido, garoto. é o que sobra dessa vida dolorosa: a vingança.
- e o que eu fiz a você?
- e quem disse que isso é sobre você?
acabei me acostumando com a presença de satanás por ali, pegando até mesmo alguns trejeitos, até mesmo um pouco da maneira de falar. talvez porque ele tinha sua parcela de razão em dizer que não estávamos tão distantes, ele só precisou me dar alguns empurrõezinhos. certa vez alguém me confrontou no meu próprio quarto e teve que conversar com ele, e não comigo, e me recordo dessa experiência não ter sido muito agradável.
- você precisa fazer isso que estou te falando! precisa!
- você não entendeu, meu senhor. — fui dizendo, com a voz visivelmente alterada, com o olhar de ódio mais profundo que já fiz em minha vida — vocês todos o perderam. ele é meu, a vida dele é minha agora, eu vou acabar com essa vida.
- não é verdade, a vida dele pertence a Deus! — a pessoa em questão era religiosa, evangélica, e acabou exercendo um exorcismo em mim. fazendo uma oração, esse tipo de coisa. ele foi embora, agressivo e com medo ao mesmo tempo, enquanto eu fiquei ali. e passei a noite ali. sozinho, de cabeça encostada na parede, olhando para o chão com desprezo e ódio, babando.
quem era eu? já não importava mais. já não me importava com mais nada. deixei de prestar atenção que as chamas existiam, deixei de ter interesse em qualquer coisa, apenas viveria de maneira totalmente automática até que a morte quisesse me buscar, ou que eu quisesse buscar a morte.
não muito tempo depois fui vendo tudo o que satanás tinha falado chegando ainda mais perto de se concretizar. fui percebendo meu tempo cada vez mais escasso e, com isso, a impossibilidade total de pintar quadros. não só pintar quadros como fazer qualquer coisa que realmente gostava. fui percebendo que meus amigos estavam desgastados de tanto lidar comigo e a minha personalidade suicida. também não gostava muito de estar perto de alguém e saber que minha presença estava “dando trabalho”, achava que era melhor ficar no meu cantinho.
amadureci um pouco nesse tempo, por conta de ter conhecido meus quadros e as pessoas que “lutariam por mim”, mas esse amadurecimento estava sendo bombardeado pela noção de que eu “pesava”. de que meus conflitos internos afetavam as outras pessoas, que ficavam impotentes me vendo sofrer, alguns com sentimentos de raiva porque “nada disso fazia sentido e eu tinha que levantar, reagir, melhorar, lutar pela vida”, outros com empatia, outros não acreditando muito bem que o que acontecia era real. muito não era, mesmo. procurava maneiras de descrever o que estava acontecendo e era influenciado por satanás a procurar sempre as piores, acabava exagerando um pouco ao passar informações às pessoas, era muito triste.
vivi um mês de adaptação a não ter tempo livre nenhum, apenas um pouco do sábado e o domingo. um belíssimo troféu da sociedade capitalista, ainda que o capitalismo não fosse um assunto interessante pra mim até eu conhecer vishnu (não que dê tempo de falar de vishnu agora, nesse capítulo. não quero me estender demais). consegui me adaptar, sem nenhuma alegria, foi apenas um sofrimento que me acostumei a viver — como tantos outros sofrimentos, mais lenha para minhas chamas, que já não importavam mais. não sentia mais dor nem quando cometia violência contra mim mesmo, era só indiferente. até queria um pouco que pessoas observassem que meu rosto estava roxo, que meus braços estavam roxos, mas não queria o suficiente para avisá-los. era como uma prisão, até emocional, porque não tinha mais força nem vontade de chorar como fazia meses atrás.
- vê? sem esperança nenhuma.
- eu achei que a minha vida estivesse horrível o suficiente antes, mas ela conseguiu piorar bastante.
- que triste! uma pena, realmente… mas vamos ao que interessa. então essa é a hora onde você vai me pedir um empurrãozinho para sair desse mundo pra sempre?
- já tentei de várias formas e nunca consegui. quero que seja rápido e indolor. você é capaz de me prometer isso?
- rápido e indolor? eu posso te prometer, mas você não tem medo de eu mentir?
- você tem medo que eu tire minha própria vida? quer criar empecilhos pra mim?
- essa agonia que você está sentindo agora me satisfaz tanto quanto me satisfaria ver você tirando sua própria vida. mas tá, posso te ajudar a criar coragem, você só precisa me emprestar a sua vida por um dia.
esse foi o dia mais horrível da minha vida.
objetivamente, sem dúvidas.
se querem saber, esse é o dia onde considero que estava, de fato, possesso por uma fenda. poderia ter dúvidas sobre o dia onde ocorreu o exorcismo mas, sobre esse dia, não tenho dúvidas, foi um dia de possessão. foi um dia onde ir até um ponto-de-ônibus me fez pensar diversas possibilidades de morte, inclusive ensaiar me jogar na frente do próprio ônibus. onde caminhar na rua e ver veículos grandes me despertava algo inexplicável, agoniante, que representava ouvir uma quantidade insuportável de vozes me dizendo “debaixo de um desses é bom, você não acha?”. onde não conseguia estar em lugares altos sem sentir tontura, ainda que não fossem altos o suficiente para trazer a morte.
o que mais atravessava meu coração com uma lança, entretanto, era ouvir “por que não manda mensagem para os seus amigos? tenha o privilégio de ver como eles não se importam. ninguém se importa. você não vai fazer falta alguma”. isso se repetiu na minha mente milhares de vezes durante o dia, milhares. me desgastou emocionalmente ao ponto de, sete horas da noite, eu ter perdido a capacidade de me comunicar com as pessoas. a minha voz não saía quando ia falar com as pessoas da faculdade, assisti a aula da maneira mais desatenciosa possível porque só conseguia ouvir essa voz repetidamente dentro de mim, “todas as pessoas aqui não se importam. são tantas pessoas e a vida delas vai continuar, normalmente, depois que você morrer. será que vira notícia? será que vão levar em consideração que você estudava aqui? mas, também, pode ser que nem te reconheçam, ninguém aqui te conhece muito bem. por um dia, dois dias, pode ser que faça alguma diferença, depois passa”. repetidas vezes. uma noite inteira ouvindo isso sem parar. não percebi, mas as chamas dentro de mim nunca estiveram tão poderosas, estavam consumindo definitivamente alguns poucos laços que ainda tinha com a realidade e com os meus próprios sentimentos, destruindo a minha existência antecipadamente para que já chegasse só com meu corpo a sacrificar.
dor.
muita dor.
não-pertencimento definitivo. não só não pertencer à sociedade, não pertencer à realidade. não fazer mais parte da realidade. não fazer mais parte de mim mesmo. o sentimento de despertencimento, que sempre me assombrou, ainda que tivesse se tornado cada vez mais poderoso, nunca tinha fugido da sociedade. finalmente ele fugiu, finalmente atingiu um novo nível.
deixar de existir.
quando chegamos à última hora do dia, fui ao lugar onde ocorreria o sacrifício. só nós dois. eu e satanás. nós sentamos ali no meio-fio e ficamos observando o movimento. eu tinha a esperança de alguém aparecer, ou mesmo me mandar uma mensagem, qualquer coisa. cada vez que essa esperança vinha na minha mente ele percebia e reagia com um sorriso, “não se preocupe, garoto. esse sofrimento das esperanças vãs vai acabar”.
abriu-se uma fenda nos céus e dela saiu quem eu menos esperava. quem nunca vi saindo de uma fenda aberta espontaneamente: Elohim. apareceu grudando em mim, pegando na minha mão e começando a correr, pra bem longe, até eu sair dali e parar numa avenida com um ponto-de-ônibus. ainda que fosse bem tarde um ônibus apareceu e, não muito tempo depois, estava na minha casa onde, sem cumprimentar ninguém, me atirei na minha cama e comecei a chorar.
ela estava do meu lado. ainda que eu não estivesse com muita capacidade de pensar, dedicava o pouco que tinha a pensar que ela estava sentindo vergonha de mim, nojo de mim, qualquer coisa desse tipo. então ela me deu o abraço mais profundo que já senti na minha vida e começou a chorar, mais alto e forte que eu.
ficamos uns dez minutos assim, uns cinco até eu parar e outros cinco até ela parar. ou posso estar mentindo os números, é gostoso fingir precisão em coisas que obviamente não medi.
- eu não consigo ficar quieta, eu amo você! amo você demais pra ficar quieta. sei que não posso decidir nada por você, mas não me peça pra ficar quieta, não me peça pra não fazer nada. me deixa cuidar de você.
- eu tenho que cuidar de mim mesmo, Elohim. — disse, quase começando a chorar de novo.
- e está dando certo?
chorei um pouco mais, foi inevitável. ela já parecia estar com seus sentimentos limpos e, então, só me acolheu. passamos mais alguns minutos assim.
- não quero queimar você. desde que as chamas começaram eu falei isso. você era a minha fenda mais importante, a minha favorita, era horrível demais estar perto de você carregando isso.
- você se tornou um jovenzinho cheio de palavras… é tão bonito! parece que você sabe tudo agora.
- eu me sinto um repositório de dores. sei que não aconteceu nada muito absurdo comigo, que não perdi milhões de reais, que não perdi nenhum familiar muito próximo de mim, que as pressões da vida não são tão grandes. mas a dor é muito grande. me sinto a pessoa mais fraca do mundo porque estou pensando em tirar minha própria vida por motivos não tão concretos, mas…
- shhhhhhh… ninguém sabe o que se passa dentro de você. nem você sabe o que se passa dentro de você. você foi acumulando dores, brigando, resistindo, tudo isso sozinho. mas nós vamos resolver isso, eu vou cuidar de você. tá bom?
não tive como responder outra coisa. não estava em condições.
- tá.
para exemplificar o quão destruído eu estava por dentro, ainda naquela noite Elohim achou uma das minhas feridas e se aproximou. tocou-a, com uma mão. permaneceu por dois segundos. no terceiro, foi inevitável pra mim gritar e desferir um soco em seu rosto.
- vê? nem você sabe o que se passa dentro de você. — ela respondeu, como se não tivesse acontecido nada — nós vamos resolver isso, eu vou cuidar de você. vou te ensinar o amor. não era pra doer mas vai, porque você não está num estado nada bom. eventualmente sua alma vai parar de me ver como ameaça e você vai parar de reagir com violência mas, até lá, vai ser assim. não se preocupe comigo, eu estaria mentindo se te dissesse que não dói mas fui criada pra isso. fui criada pra sentir dor no seu lugar. só eu fui, mais ninguém.
essas foram as noites mais tristes da minha vida. não mais dolorosas, porque eu não conseguia mais me machucar. nem as mais cheias de ódio. nem as mais quentes.
as mais tristes.
com a ajuda de Elohim, comecei a conhecer as minhas próprias feridas, a minha própria dor. de onde vinha? por que queimava tanto? por que eu odiava tanto as pessoas? por que me odiava tanto? por que era tudo tão forte e intenso, estava ali há quanto tempo?
para algumas, obtive respostas. para outras apenas um sinal. “ela está aqui, não dá pra mexer nessa agora, vamos pra outra”. tentei resistir muito a mim mesmo para não reagir quando Elohim tocava nelas mas, por algum motivo, não funcionava, eu precisava reagir. “precisa ser assim”, ela dizia, “sou o seu sacrifício”.
não tinha muita paciência, nem vontade, de ficar conversando com as pessoas naquela época. enquanto essas noites iam acontecendo, pessoas me perguntavam se estava tudo bem e eu respondia que sim. pessoas me perturbavam, até mesmo me pressionaram a falar, e levei horas e mais horas para conseguir liberar minhas primeiras palavras. não esperava compreensão e de fato não fui compreendido, nunca em minha vida fui compreendido, por que seria diferente ao se tratar de algo que nem mesmo eu compreendia? mas, enquanto alguns abriram mão de vez de mim, outros se aproximaram mais.
eu não conseguia mais dormir então, às vezes, chorava de tristeza por isso. a minha cabeça estava entrando num estado de definhação pela insônia que já estava durando semanas. ainda que Elohim sofresse mais que eu esse processo cirúrgico também me trazia essas sequelas difíceis de lidar, uma falta de vontade de viver diferente das outras porque já não era mais vontade de morrer, era só cansaço, esgotamento. dá trabalho conhecer as suas dores mais viscerais e entregá-las. a única coisa que me confortava era a construção de um novo quadro que eu tinha iniciado tentando apreender tudo o que senti naqueles tempos mas, assim como o processo era enorme, o quadro levou meses.
pra falar a verdade, esse processo em si não é só enorme, ele é eterno. ainda que eu não pretenda continuar tratando da minha relação com Elohim sobre minhas chamas porque, desde então, venho progressivamente aprendendo a cuidar desse “ódio pela humanidade” que existe dentro de mim, esse processo continua. porque ainda quero isolação, ainda quero ficar só, ainda não tenho interesse nenhum de participar de comunidades porque a comunidade significa, em minha vida, exclusão, supressão de gostos e dor.
foi entrar nesse processo eterno que abriu a fenda para esse estranho peixinho, chamado vishnu. dele falaremos no próximo capítulo.