oi! sei que não é costumeiro por aqui alguém se apresentar. as pessoas costumam entrar aqui atropelando as coisas, fazendo uma verdadeira bagunça, enquanto só posso dizer que meu nome é heloísa. que não posso contar minha idade, porque é uma regra desse mundo estranho, mas adoraria. eu queria contar a você, ouvinte, que gosto de chá, que gosto de brincar com meus cachorros, que gosto de me distrair lendo alguns livros sobre a paz mundial e a paz de espírito. é, é isso que gosto! essa sou eu! é uma introdução.
eu sei que vocês esperam algo mirabolante. esperam que eu faça bruxaria, que saia filosofando por aí, mas a verdade é que sou, ou me sinto ao menos, uma pessoa bem normal. meu nome é de uma menina normal, eu vim de uma família normal, eu gosto de coisas normais e vivo normalmente. é chato, né? eu entendo. o lyra é uma verdadeira atração, esse espetáculo humano, e eu sou só a heloísa. só a menina normal que, por algum motivo, está ao lado dele. que diz “aham” quando ele começa a discursar sobre todos os malefícios do universo, que o puxa pelos pés quando ele começa a flutuar só com os balões de imaginação que saem da sua cabeça, que diz “vai dormir, bebê. tá tarde” quando ele passa das três da manhã acordado fazendo alguma coisa que para ele é muito importante e não pode ser adiada mas ele sempre adia e nunca dá problema.
eu sou normal. completamente normal.
mas também não sou tão normal assim.
em minha defesa, eu já fui louca o suficiente para pensar “quem é aquele moço fofinho de outra cidade e o que posso fazer para vê-lo todos os dias, eventualmente falar com ele, eventualmente fazer alguma atividade junto com ele, eventualmente perguntar ‘preciso te contar uma coisa, você tem meu whatsapp?’, eventualmente cantá-lo, eventualmente fazer joguinhos com ele, eventualmente instigá-lo a me querer, eventualmente dar alguns foras até me sentir segura de que ele não está só carente, ele realmente me quer, e então realmente vamos namorar, e realmente vamos casar, e realmente teremos um filho lindo, e realmente teremos netinhos”. e pensei. e fiz tudo isso. levou alguns anos, é um segredinho meu e só meu quantos, mas fiz e tudo funcionou como eu queria. porque eu, como uma menina normal, quero coisas simples e normais, embora querer coisas normais com o lyra seja como se planejar para ir ao paraguai, e então pegar um vôo até a índia e descer, e então aproveitar que está ali por perto e passar no nepal, e então pegar um vôo até a china, e então outro vôo até o chile porque os nomes são parecidos, e aí sim fazer um mochilão na américa latina até finalmente chegar ao paraguai.
ele é assim, totalmente anormal.
e eu assim. totalmente normal.
é mentira.
o lyra é normal. tão normal que dói. e, embora eu esteja contando isso a vocês numa história, só eu sei como isso é uma realidade que grita nos meus ouvidos. vocês nunca vão saber, e se acham que sabem é porque possuem uma relação completamente superficial com ele, mas se acham que estou louca e que ele é um anormal doente eu posso dizer também que possuem uma relação parcialmente superficial com ele. vocês perceberam que ele pinta quadros e se deslumbraram com os quadros mas, como toda pessoa que caiu nessa, acabaram deixando de enxergar que ele é só um pintor.
ele chora muito, mas é muito alegre. ele grita muito, mas é muito tranquilo. ele machuca com palavras ásperas mas, se você der uma chance, sai da conversa se sentindo amado.
quando entrei nessa camada parcialmente superficial eu quis manter distância dele, porque tive a certeza de estar diante de um completo perturbado. porque ele faz mesmo isso. eu estava lendo a versão dele sobre o encontro com o ganesha e a maneira como ele coloca as palavras é quase como se estivesse te convidando à perdição espiritual, por vezes sendo totalmente desagradável, dizendo odiar o ouvinte, sentenciando o ouvinte a um volume ensurdecedor de uma guitarra que é mais overdrive que guitarra; mas o primeiro capítulo do templo de ganesha, na minha opinião, é a homenagem de uma criança a Elohim. mais do que falar do próprio ganesha, mais do que o pincel dessa guitarra violenta, ele queria falar que brincou com Elohim e que ninguém tira a verdadeira graça da infância dele, que é a imaginação ousada.
ele diria que odeia criança, que odeia infância, e é verdade porque entendo o que ele quer dizer. entendo que ele diz que a imaginação infantil é impura, porque é uma repetição automática de pais, que já costumam ser adultérios ambulantes, necroses vivas e pulsantes do lixo paralisante da mediocridade. mas, daí, preciso lembrar que as pessoas não costumam evoluir da infância para a idade adulta mas involuir, optarem pelo adultério e pela necrose, explorarem e serem uma espécie de sedimento do lixo ao qual foram submetidas ainda pequenas. quando alguém faz essa maravilha de optar pelo caminho do deslumbre, do mistério e da vida verdadeira, aí sim temos uma evolução e, diante disso, a infância não parece nada além de escombros. o lyra não sente saudade da infância. o lyra não diz “aquele tempo que era bom”. e eu admiro isso nele, eu admiro pessoas que, do fundo do coração, acreditam estarem vivendo os melhores tempos das suas vidas.
talvez, e posso dizer que surpreendo muito as pessoas ao dizer isso, uma das coisas mais anormais no lyra seja a sua felicidade. ele transtorna o ambiente com a felicidade, a graça e o bom humor, embora em sua cabeça seja uma pessoa depressiva e torta.
quando você vê seus quadros caídos acredita, com muita convicção, que ele é uma pessoa totalmente caída, largada às traças, destruída. eu sei como é. mais do que você, até: houve um tempo da nossa relação onde eu precisava da presença dele para suportar a idéia de estar com ele; era impossível suportá-lo à distância. seus quadros são reais, fortes e impactantes. não tinha como não ser contaminada pela suas sinfonias de destruição enquanto estávamos distantes. era impossível não acreditar que ele me odiava com muita força, que ele estava se sentindo horrível por minha culpa, que ele estava me machucando de propósito. é uma ilusão emocional muito intensa, provocada principalmente porque sua língua é como uma sitar, ardida, cheia de misticismos, com tempos que nós não entendemos muito bem aqui numa cidade do ocidente com vinte habitantes.
mas, quando ele está perto, fica fácil separar o real do fictício. a matéria do espírito. ele sorri e percebo que meu coração não precisa de muito mais do que isso. ele abre a boca pra falar qualquer coisa e eu peço, urgentemente, que fique em silêncio por mais alguns minutos, para eu poder aproveitar seu silêncio. só o som da sua respiração, os lábios nervosos que se contraem. não importa que o que ele tenha a me falar seja importante ou bom, e muitas vezes, conforme fomos nos tornando amigos íntimos e fui percebendo que não estava diante de um idiota mas de uma pessoa que protege sua história e experiência, fui percebendo que ele tinha coisas importantes e boas a me falar. no entanto, as palavras podem esperar.
a verdade é: o lyra é um presente para mim. porém um presente estranho, que exige muito cuidado e paciência. porque não adianta, e nunca adiantou, tentar convencê-lo de que ele era muito mais do que se via no espelho. isso só me fez ficar cansada. mesmo que eu tenha estudado muito as palavras certas, os momentos certos, as técnicas certas, para fazê-lo se sentir bem. quando ele identifica que eu estou agindo segundo a teoria ele se torna fechado, mau, psicótico de propósito, até que eu faça o que ele chama de “deixar de tentar agradar um lyra fictício” porque ele diz que, quando tento adivinhar o que o agrada, eu só estou agindo segundo meu próprio ego e não vou conseguir nada. isso me apavorou a princípio mas depois entendi que ele estava libertando a minha intuição, “prefiro que você me agrade fazendo o que quer comigo do que fazendo o que acha que eu quero, já que provavelmente não é isso que eu quero. eu sou capaz de sentir quando você está doando uma versão verdadeira de você e quando está doando uma versão falsa. eu só gosto da verdadeira”.
coisa de artista. o lyra pinta quadros. ele chora quando retrata algo de uma maneira que julga não ser a verdadeira — não, ele não é realista. não tem a ver com o quadro parecer uma foto, mas com parecer o que ele sentia que era — , quando precisa usar tintas a menos ou tapar buracos. eu… ainda não compreendi como isso é ofensivo pra ele, e talvez nunca vá entender. é uma área do coração dele que não consigo alcançar. achei que fosse ciúmes, algum medo conjugal irracional como medo de que eu estivesse o traindo, mas… quando ele tentou me explicar eu não entendi, tinha algo a ver com medo do universo se desmanchar, medo da morte, medo de se perder. como ele consegue fazer essas relações malucas na cabeça? e, sabe, no início eu ficava irritada, revoltada, brigava com ele porque não fazia o menor sentido que as coisas funcionassem assim, só que elas simplesmente funcionam. e ele fica mal, desesperado, depressivo, sem comer por dias. tornou-se uma questão de saúde ser tolerante a isso. depois, bem devagarinho, eu fui notando que aquilo era uma cebola para eu cortar e, mais devagarinho ainda, passei a cortar.
é uma área da minha racionalidade que sacrifiquei por amor. entrar em contato com tudo o que lhe impulsiona a pintar, sentir todas as coisas que ele sente, na intensidade em que ele sente. é assustador. me transformou tanto que penso que não sei sobreviver sozinha com essas coisas na cabeça. mesmo porque, conforme eu fui começando a enxergar com seus olhos, ouvir com seus ouvidos, eu também fui me tornando sedenta por expressar a minha própria criatividade, também passei a ter uma vida de incertezas em alguns lugares da minha alma, também passei a enxergar e confiar em Deus para coisas mais simples. passei a pensar na potência criativa insana por trás de beber água no rio, porque já não importa mais só como pode a água ser como ela é, é muito mais importante sentir tudo o que a água poderia ser e percorrer todo o caminho por trás da decisão de que a maneira como a água é é a melhor maneira que a água poderia ser, e também acordar no dia seguinte e perceber que esse caminho era falho, que existe outro caminho mais completo, mais cheio de mistérios desvendados onde você vai chegar numa decisão muito mais deslumbrante para a maneira como a água é ser a melhor maneira que a água poderia ser. beber água é manter um relacionamento com Deus. vê? eu estou completamente louca, eu fico completamente louca e… eu não sou capaz de ser essa completamente louca sozinha. lyra me ensinou essas coisas. lyra tem a estrutura para encarar essas coisas.
um presente estranho. que exige muito cuidado e paciência.
é muito fácil pra mim machucar o lyra sem querer por conta dessa fragilidade dele, sobretudo porque eu esperava alguém simples, durão, sem muitas emoções. isso também me irritou no início. quantas vezes não pensei “larga mão de ser bicha” quando ele se ofendia por besteira? quando chorava por besteira? quando fechava a cara por besteira? só que isso me rendeu dois tapas na cara, dele em conjunto com a vida.
o primeiro foi que ele me repreendeu duramente pelo uso da palavra “besteira” porque, não importa que eu tenha ouvido naquelas matérias de empatia da faculdade que “todo mundo tem uma história”, na prática é muito difícil levar em conta que todo sofrimento humano tem uma trajetória, que todas as pessoas passaram por caminhos tortuosos que justificam elas sentirem muito com determinados gestos ou palavras que, para mim, não significam nada demais. ele, com a sua zero delicadeza de quando está ferido, me disse “você não está só dizendo que eu sou um fraco. está invalidando tudo o que já passei que me levou a levar isso a sério, está dizendo que minha história de vida não tem valor. eu odeio você”. dizer “eu odeio você” para ele não tem muito significado, mas para mim era como fazer um desmanche na minha alma. ele sabia disso. eu entendi na hora tudo o que ele quis dizer.
foi uma noite muito difícil para mim.
o segundo, no entanto, desconstruiu o meu ego. porque uma vez eu disse isso e ele, de saco cheio, criou alguns motivos para brigarmos muito feio. de trocar ofensas, de falar de terminar e nunca mais nos falarmos. eu não consegui comer naquela semana, foi dificílimo trabalhar. para falar a verdade no quinto dia acabei pedindo para sair mais cedo porque não aguentei toda a dor, porque parecia sério. a idéia de nunca mais nos falarmos, de ter perdido meu melhor amigo… e então não aguentei e fui checar suas redes sociais e lá estava uma foto dele, no trabalho, dez horas da noite fazendo alguma coisa importante. me deixou um pouco triste. eu sabia que ele era mesmo meio desligado das outras pessoas então não sentiria tanto quanto eu, mas no dia em que não aguentei e saí mais cedo ele ter feito o exato oposto me soou desaforo.
ainda assim, eu respirei fundo. respirei. e respirei. senti o ar entrando em meus pulmões, todas as compressões e descompressões dentro do meu sistema circulatório, tentei analisar todos os sentimentos dentro de mim e ver o que estava de fato acontecendo. quase escorreu uma lágrima. eu estava mais preocupada que irritada, porque sabia que ele odiava trabalhar dez horas da noite, provavelmente estava com fome, com sono, com tudo. eu aproveitei que ele não tinha me bloqueado de lugar algum e mandei uma mensagem perguntando se ele estava bem, e ele me mandou um áudio de uns três minutos cheio de drama falando que estava tudo horrível, estava estressado e blablabla. por algum motivo eu, essa menina perfeitamente normal, acreditei que era uma ótima oportunidade de nos reconciliarmos e perguntei se poderia pegar um táxi e fazer companhia enquanto ele terminava o que estava fazendo. ele deixou. o que aconteceu eu não me lembro muito bem, só sei que dormi reclinada em seu ombro enquanto ele continuava no computador, acordei e ele ainda estava no computador, e logo depois acabou, ele me deixou em casa e voltou.
nós voltamos a nos falar, tudo ficou certo de novo e eu tive paz. porém refleti muito sobre isso, de maneira que ele não precisou me explicar nada e, ainda assim, eu decidi mudar um pouco as palavras que tinha para lhe dar. eu digo, hoje (e se utilizei a outra palavra ali foi para manter o fluxo da história), que o lyra é sensível, não frágil. nós sentimos a mesma dor: a minha reação, a reação da pessoa normal, da equilibrada, da sensata, foi quase largar tudo e até mesmo pedir uma trégua porque não estava suportando viver com aquilo; a dele, do dramático, do louco, do perturbado, do desequilibrado, foi adicionar isso ao seu milk-shake de emoções para poder senti-la junto com todos os seus outros estresses sem que sua vida saísse do controle.
é claro que me senti mal também porque estava louca para tirar sua vida do controle, e que não resisti e acabei abrindo tudo isso a ele, falei “você estava trabalhando como se nada tivesse acontecido! e eu quase morri. eu quase pedi demissão do meu trabalho, eu quase peguei os antidepressivos da minha avó. eu chorei várias vezes ali. você não estava sentindo nada?”, e foi aí que ele me humilhou ao mesmo tempo em que fez eu me sentir muito bem. “eu estava trabalhando morto por dentro. e, pra piorar, foi uma das piores semanas ali. mas o que preciso fazer é o que preciso fazer, não é?”. “mas você é todo dramático! isso não faz sentido!”.
não faz sentido para mim o equilíbrio emocional ser você ter uma aparência calma e controlada enquanto as emoções te paralisam. se eu fico aqui berrando e chorando, tomando litros de sorvete, mas não faço nada que não devo e não deixo de fazer nada do que devo, aí posso dizer que tudo está sob controle. não é?
ladies and gentlemen, esse é lyra. e eu… o abracei. conheço meu artista. conforme fui o apertando, bem devagar, ele começou a chorar. eu não podia ver seu rosto mas, conhecendo-o, imagino que ele estava chorando e sorrindo ao mesmo tempo.
“você sabe no que a arte me transformou. eu achei que fosse acabar contigo, invadir todas as entranhas da sua alma e tirar toda a sua vontade de viver. eu ainda sou uma aberração.”
“você ainda é mais feliz comigo do que sem mim?”, eu perguntei.
“sim”, ele respondeu.
“cortemos o drama, então. eu não preciso ouvir mais nada.”
o lyra é um presente estranho. que exige muito cuidado e paciência.
se eu devolveria?
eu me arrependo de ter demorado tanto para pegá-lo. adoraria estar sendo cuidadosa e paciente há mais tempo.