Série: Tóquio, Japão - Julho de 2025

27 de julho de 2025

30 de agosto de 2026

Tamamura

27 de julho de 2025. Um dia bem estranho de se narrar. Esse foi um dos dois dias em Tóquio em que eu não pude estar de uma maneira confortável, embora na época ainda fosse um tantinho mais acostumada com essa forma camuflada masculina do que hoje, em que não suporto, me machuca muito mais. O primeiro desses dois dias, embora talvez possamos contar o primeiro dia de todos, quando cheguei na cidade, quando tivemos que pegar táxi em Shinagawa. Esse seria um dos dois dias em que sairíamos de Tóquio também: o alvo era uma cidade no interior chamada Tamamura, que para falar a verdade nem sei se é uma cidade ou um vilarejo. Sei lá, vai que podemos pensar tudo meio RPG assim.

Tamamura é a cidade onde os familiares da minha esposa que moram no Japão ficam. Não sei se deveria estar dando essa informação, pode ser ruim para eles, pode ser ruim para mim também porque fico mais identificável, mas acho que nessa altura do campeonato eu já sou bem identificável, basta querer. Pensando bem, esse dia também tinha outro agravante: tanto quando vim de Guarulhos para Tóquio, quanto quando voltei de Tóquio para Londrina, eu ao menos estava usando uma batinha feminina; esse foi o único dia em que minhas roupas eram totalmente masculinas, apesar da minha camisa creme com flores não ser lá um símbolo da masculinidade, aliás, ter sido um significativo presente que dei a mim mesma no meu aniversário de 30 anos, quando entendi que era não-binária. Mas é, eu estava bem machinha, eu abstraí todos os sentimentos de disforia possíveis e é por isso que falaremos exclusivamente da viagem, do trajeto, da comida, do rolê. Também não quero dar muitos detalhes da minha relação com a família, acho que isso pode ficar só entre nós porque, sim, gostei deles, eles gostaram de mim, mas sabemos que tudo isso irá se dissolver assim que descobrirem que sou uma travesti.

Enfim, saímos mais cedo do que estávamos acostumadas do hotel. Assim como quando precisamos ir ao Makuhari Messe, o trem tinha horários muito mais específicos, não podíamos perder. A estação onde precisávamos chegar era Takasaki, tínhamos a opção de pegar Shinkansen (trem-bala), bem mais caro, e o trem normal. Ambos em Ueno. Eu preferi pegar o trem normal em primeiro lugar para economizar dinheiro, mas também porque eu tive medo de não poder aproveitar a paisagem com um Shinkansen, já que eu não tinha ideia do quão rápido ele era. Foi um pouco difícil entender onde encontrar esse trem normal, havia uma orientação sobre o subsolo mas, quando chegamos lá, não tinha nada. Não lembro qual confusão que deu mas acabamos pedindo informações às pessoas até conseguirmos montar o quebra-cabeças de como partir de Ueno a Takasaki e, por fim, arriscamos entrar num trem, descobrindo que fizemos a escolha certa já lá dentro. Chegamos bastante adiantadas na estação, ao contrário de todos os outros dias, porque eu estava morrendo de medo de algo não dar certo. Para falar a verdade, caso se lembre da minha ansiedade de alguns outros dias, mesmo que já houvessem evidências suficientes de que estávamos indo para Takasaki, eu ainda tinha muito medo de ir parar em outro lugar e estragar tudo. Não sei se um dia vou conseguir deixar de ser assim.

Não sei se dou conta de narrar toda a viagem de Tóquio a Takasaki mas posso assegurar que foi uma das viagens mais bonitas que já fiz na minha vida. Sair de Tóquio de trem, por si só, é uma aventura incrível. Ver aqueles prédios enormes se dissolvendo em casas menores, mais populares, bairros periféricos que possuem muito charme, casas ficando ligeiramente maiores do que no centrão onde tudo é um cubo minúsculo encaixotado um em cima do outro. Logo começamos a ver campos. Acho que quando conhecemos um país novo acabamos tendo a impressão de que tudo é do jeito daquela primeira cidade, era uma impressão bem idiota acreditar que a ilha do Japão teria gente para todo lado, prédio para todo lado, mas o Japão é um país normal. Se você pega estrada ou alguma outra coisa vai acabar saindo da cidade e começando a ver campos enormes, gigantescos, percebendo que continua sendo mais natureza do que gente, que não é só o Paraná que é assim. É óbvio. Mas é claro que é muito legal ver os campos do Japão, o verde do Japão, um verde que é diferente do verde do Brasil, campos que têm intervenções humanas muito distintas das brasileiras, em que pessoas se comportam de maneira muito diferente da brasileira. E, apesar de muito campo, apesar de muito verde, logo começávamos a ver algumas casinhas aparecendo, mais casas aparecendo, mais e mais casas, pessoas, e aí sabíamos que estávamos chegando em alguma estação.

Paramos em muitas estações. Algumas, grandes. Outras, bem pequenas. O comportamento das pessoas que entravam e saíam do metrô passava a ficar diferente, também. Tem uma diferença gritante entre as pessoas de Tóquio e as pessoas do interior. Todas as pessoas. Os idosos, as crianças, as mães. Tóquio é uma cidade onde todo mundo parece estar buscando sua própria identidade, por mais que existam bandos que andem de maneira parecida as roupas são bem diferentes, bem destemidas. Cada quilômetro de distância que atingíamos de Tóquio trazia mais pessoas com as roupas todas iguais, as mesmas cores, o mesmo formato, implorando para que não prestássemos atenção nelas de jeito nenhum, porque eram apenas pessoas normais como todo mundo, não seja estranha, seja normal também. Um sentimento muito estranho, mas que não é nada de outro mundo para qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo que viva o conflito entre o interior e a capital, embora eu não ache que muitos lugares de São Paulo (a nossa maior e mais cosmopolita capital, independente do quão odiada seja) tenham o mesmo choque de personalidade que Tóquio. Eu acho que São Paulo concentra essa personalidade em alguns centros específicos enquanto Tóquio parece ter muita gente diferente em todo lugar, embora a gente sempre veja um ou outro arriscando a sorte no meio da torcida do Corinthians pegando a Linha Vermelha. Também não é um sentimento estranho ao próprio Japão quando se é fã de alguma obra, qualquer obra, japonesa, porque esse conflito bem específico da pessoa do interior que quer largar a vida sem graça e arriscar a loucura de Tóquio é um dos roteiros mais comuns que existem. Eu li muito yuri da caipira com a mulher da capital. Mas é muito engraçado ver ao vivo. É algo que só dá para sentir e entender direitinho vendo mesmo. De repente aquela pessoa que era só mais uma passa a ser o centro das atenções no trem, em Tóquio era apenas uma roupa colorida com uma bota de plataforma, igualzinha tantas outras. Ali já dá até para imaginar que ela é a pessoa esquisitinha da cidade que foi para a capital, despirocou de vez, e agora ela está indo visitar sua mãe que irá passar a viagem inteira lhe dando bronca e perguntando onde foi que ela errou.

Além disso, também chegamos a uma cidade interiorana onde o trem parou por alguns bons minutos e, do lado de fora da estação, estavam comemorando o Matsuri. Comemorando mesmo, de verdade. A impressão que me dava era que não era bem uma festinha para comer algumas coisas legais, era um ritual mesmo, um ritual religioso complexo, com as roupas específicas, os dragões, a narrativa de uma história que era impossível entender, instrumentos muito específicos como sinos de timbres que eu nunca tinha ouvido na minha vida. Um absurdo de legal. Pena que o trem não ficou lá o dia todo. Uma hora ele teve que partir e abandonar aquele mundo onde toda a história da criação, com os deuses-dragões, estava sendo recontada, e então eu perdi para sempre a oportunidade de descobrir como o mundo foi criado de verdade e quem são os deuses-dragões que tapearam todos nós do ocidente porque somos muito otários, acreditamos em deuses muito menos interessantes. É brincadeira, talvez não fosse nada disso. Mas que era um ritual religioso, provavelmente era mesmo.

Nós passamos por muito mais verdes e muito mais cidades que pareciam vilarejos. Foram duas horas de viagem, mais ou menos. Até que chegamos em Takasaki. Takasaki parecia uma cidade razoavelmente grande, lembrava um pouquinho a atmosfera de Chiba nessa questão do tamanho, da aparência dos prédios, mas as pessoas ainda eram bem diferentes. Foi um dos dias em que mais fui observada no Japão todo, o que é bem curioso porque eu esperava que teria menos olhares estranhos por não estar aparentando ser uma travesti, mas apenas um "homem comum", só que aparentemente ser uma estrangeira era bem mais chamativo lá. As pessoas também não falavam inglês e boa parte não estava muito interessada em tentar, em especial os mais velhos. Nós ficamos um tempinho na estação-shopping-e-tudo-mais de Takasaki tentando combinar com os parentes da minha esposa, mas a nossa comunicação estava um pouco difícil e era difícil nos localizarmos dentro daquela estação também. Mas uma hora nos encontramos. Nos conhecemos, acho que até minha esposa com os parentes dela, já que um deles ela deve ter conhecido apenas na infância porque ele costuma vir mais vezes pro Brasil, enquanto a outra nunca mais saiu do Japão então talvez elas nunca nem tenham se encontrado antes.

Era um carro grande, não muito grande, definitivamente não uma SUV. Mas os carros ao redor do mundo são pequenos, Tóquio ainda tem uma variedade maior de tamanhos de carros em comparação com Roma por exemplo, como se fossem carros mais luxuosos, mas ainda assim existe uma predominância de carros pequenos entre a população comum que assusta o Brasil. Quando falo de carros pequenos, falo de carros pequenos de verdade, não um Kwid. Kwid é carro pequeno para o brasileiro. De qualquer forma aquele carro tinha espaço o suficiente para nós quatro sem ninguém ficar apertado porque ele era comprido, mas não muito largo. Nós saímos de Takasaki e fomos até Tamamura pela rodovia. Tamamura tem realmente um aspecto de vilarejo: apenas casas, ruazinhas, poucos comércios, verde, terra, bastante gente idosa, pouco jovem. Nós chegamos na casa dos familiares a tempo para um almoço e eles deram um jeito de conseguir até picanha, foi um verdadeiro banquete. Como disse, não quero dar muitos detalhes sobre as relações familiares, mas tinham ali três gerações: idosos, que cresceram no Brasil e se mudaram para o Japão para tentar "construir a vida" lá, lá pela década de 90, algo assim; os adultos, que se mudaram ainda novinhos, construíram a vida por lá, nem lembram direito como é o Brasil; e os adolescentes, que nem português falam muito bem.

Nós comemos, conversamos muito, descansamos, até que um dos parentes deu a sugestão da gente ver o Matsuri (estou falando Matsuri mas na real nem lembro se era isso mesmo) que estava acontecendo ali na cidade. Eu sinceramente já estava muito cansada e com preguiça de fazer qualquer coisa. Apesar de serem pessoas que tínhamos acabado de conhecer, elas falavam português, tínhamos certa familiaridade, era um ambiente que desgastava menos a minha cabeça. Mas pensei: não viemos aqui para perder oportunidade, então fomos. Assim como naquele outro vilarejo, o Matsuri dessa cidade tinha um aspecto bem espiritualizado. Eram espécies de carros alegóricos disputando entre si, uma competição em que não lembro os critérios, em que o carro alegórico vitorioso tinha um significado espiritual, eu adorei ver isso. Infelizmente não estou com uma ótima memória dessa competição para descrevê-la com mais detalhes, mas os carros alegóricos tocavam tambores, faziam disputas sonoras, disputas de dança, de quem movimentava o carro mais rápido, e tinha participação de todas as faixas etárias.

Não lembro se ficamos até o final da competição, nós logo fomos adentrando uma das ruas ali onde tinha uma infinidade de barraquinhas vendendo um trilhão de coisas diferentes. Doces, salgados, refeições, lembrancinhas. Tinha até morango do amor, que na época estava uma febre no Brasil, e aparentemente tinha chegado ao Japão também. Minha esposa comprou pela primeira vez e achou estranho, eu nunca teria feito uma coisa dessa. Mas ela comprou mais coisa. Algo que é muito bom de estar entre parentes que falam japonês é que, por mais que ninguém ali falasse inglês, a nossa comunicação era muito mais fácil, eles traduziam tudo para nós, já nos davam as informações mastigadas e... algo muito importante: cavavam um túnel comercial que a gente nem imaginava que existia. Eu estou estudando muito para concursos, mas tenho a séria intenção de fazer aulas de japonês antes da minha próxima viagem porque, algo que eles nos falaram e que nós confirmamos ali mesmo: existe um Japão para quem fala inglês e outro Japão para quem fala japonês. As relações comerciais no Japão são diferentes quando você fala japonês. Para muitos lugares existe um jeito mais certo de pedir, um jeito que eles capricham mais porque entendem melhor o que você quer, a comunicação em si é mais fácil (lógico), eles se sentem muito mais respeitados. Não é indispensável falar japonês para ir até o Japão, acho que ninguém mais diz isso. Só tenha a noção de que, se é um país que você quer visitar com certa frequência, que não é um passeio turístico qualquer que você vai uma vez na vida, talvez aprender japonês seja sim algo interessante, tem uma série de vantagens, você vai conhecer coisas que demandariam muito mais do que comunicação e fazer amizades lá dentro. Também não sei se é uma grande dica porque talvez todo lugar seja assim, né? Até o Brasil.

Eu peguei um espeto com uma lula cozida enorme e um molho dentro de um saquinho que parecia uma maionese. Todo mundo me achou muito corajosa por fazer isso mas, na real, eu sempre gosto de pegar o que há de mais inusitado. Não acho que isso tenha espantado em nada minha esposa, só os outros mesmo. A lula era gostosa, tinha uma textura meio borrachuda mas eu não me importava muito com isso, achei bem saborosa, ainda mais mergulhando naquela maionese esquisita do saquinho. Seguimos em frente e fomos parar em um lugar que parecia um pouco um templo, não me recordo se era, mas estava com um clima todo festivo e era mais para o pessoal bater perna e tirar foto mesmo. Eu fiquei um tempão procurando banheiro ou qualquer outro lugar para limpar as mãos todas melecadas, até que finalmente achei. Tiramos as tais fotos, fomos felizes weeeeee, voltamos, compramos mais algumas coisinhas para comer e fomos embora.

Conhecemos outras casas de parentes, voltamos para jantar. Jantamos. Conversamos, conversamos muito, abrimos chamada com o pessoal do Brasil, todo mundo muito feliz. Decidimos que voltaríamos de Shinkansen para podermos aproveitar até o final do dia com o pessoal, mas mesmo assim saímos muito em cima da hora e quase perdemos o último trem. Era uma viagem de Tamamura a Takasaki, afinal. Se não fosse um dos parentes indo com a gente comprar as passagens não teríamos conseguido. Tivemos problemas com o caixa eletrônico que era bem diferente dos de Tóquio, não conseguíamos nos comunicar com o pessoal da recepção, foi um caos, ele que ajeitou tudo para gente. E então, partimos. Sentamos em qualquer lugar, ficamos por um tempo, até que um guarda veio conferindo assento a assento e eu tive a impressão de que os assentos naquele trem eram marcados, que a gente não estava no lugar onde deveríamos estar. Ele conferiu o nosso, pediu as nossas passagens, verificou que não estávamos mesmo no lugar correto e nos pediu para ir até o "vagão sem lugar marcado", que foi o tipo de passagem que compramos mas nem sabíamos porque quem comprou foi aquele parente. Nós simplesmente não sabíamos como um Shinkansen funcionava, por isso nem fiquei muito constrangida, só levantei, andei até o vagão correto, achei um lugar e sentei. Minha esposa não teve a mesma reação, claro, mas é a vida.

A viagem de Shinkansen é gostosa, o trem é realmente rápido, mas até que é possível ver algum tipo de paisagem pela janela. Não consegui ver muita coisa porque, além da velocidade, era noite. Acho que já era cerca de onze horas da noite, nós chegamos bem tarde em Ueno, meio a ponto de precisar se cuidar para não perder o último trem sentido Ikebukuro. Mas deu tudo certo no final. Acho que dificilmente alguém terá essa dificuldade que tivemos com o Shinkansen comprando a passagem de Tóquio, e talvez dessas cidades maiores como Osaka, Nara, Kyoto etc. Mas Takasaki tinha tudo para nos complicar: era importante andar com dinheiro naquela região porque a tecnologia era relativamente precária (sim, isso existe no Japão, mas acho que é mais uma questão de escolha), ninguém falava inglês, tudo funcionava de um jeito muito mais local, muito mais centrado em quem realmente mora ali, quem pertence àquele lugar. Nada de outro mundo, eu acho. Bem normal. Então, se por algum motivo muito estranho como o nosso, a primeira vez que você for pegar um Shinkansen seja em uma cidade bem interiorana, guarde essas noções: dinheiro na carteira vai te ajudar, a passagem mais barata provavelmente vai te levar a um vagão onde você não escolhe o lugar então preste atenção na passagem para entrar no vagão correto. Tóquio é o tipo de cidade onde você resolve tudo com um cartão, o que até aí é normal da nossa realidade também, mas com um cartão que, se você não tiver, você gera em cinco minutos em um totem que está em qualquer lugar, inclusive em redes de fast food, em mercadinhos, em konbinis. Aliás, para quem não sabe, o cartão do metrô funciona como cartão de débito em maioria dos lugares que a gente foi em Tóquio. Mas só Tóquio é assim. No interior, tudo é bem diferente. Você precisa de um preparo bem maior. Um preparo que envolve, inclusive, não depender de falar com absolutamente ninguém porque, se você não sabe japonês, talvez você realmente não vá conseguir falar com ninguém.

Enfim, no final tudo deu certo. Chegamos em Ueno, de Ueno para Otsuka. De Otsuka para o hotel. No hotel, só se jogar na cama e dormir.

Talvez eu não tenha descrito muito bem esse dia porque, como disse no começo, me concentrei apenas em aspectos da viagem em si, das paisagens, do comércio, da comida, das coisas que vi, do jeito das pessoas, dos perrengues. Mas mesmo isso talvez eu tenha narrado com uma certa rapidez, com certa falta de detalhes, porque é um dia bastante difícil de narrar para mim. Um dia bem doloroso. Eu prometi não desabafar nenhum aspecto da família da minha esposa mas vou contar só um: eles são evangélicos, bem evangélicos, talvez até um pouco próximos dos meus sogros nesse aspecto, já que o resto da família nipo-brasileira aqui no Brasil não costuma ter religião alguma, não se importa muito com isso. Foi um dia em que esse linguajar se mostrou presente por conta de algumas pessoas específicas. Foi um dia ótimo, mas um dia em que carreguei uma sombra o tempo todo, porque o tempo todo eu ficava pensando que todos aqueles sorrisos, todas aquelas conversas, tudo se perderia assim que essas pessoas descobrissem que eu sou uma travesti. Elas gostaram muito de mim, mas só gostaram porque eu era "o marido legal da minha esposa". Eu não esperava que houvesse um clima ameno para pessoas LGBTQIAPN+ numa família tradicional nipo-brasileira morando numa cidade no interior do Japão, mas doeu bem mais quando percebi que esse clima opressivo não viria de uma cultura que não conheço, mas da cultura que conheço, que vivi e que me agrediu até eu sair dela. Não que eu não entenda muito mais o lado deles, eu entendi, é difícil ser descendente de brasileiro no Japão, não ter a língua japonesa nativa dominada com perfeição, ter a fisionomia de uma pessoa brasileira. É difícil fazer amigos, é uma vivência muito solitária. Daí existem igrejas evangélicas feitas por brasileiros para acolher essas pessoas lá. É sempre assim, eu conheço muito bem o plano de dominação evangélico, é uma cartilha bem batida. Mas funciona. Então eu julgo bem menos eles do que julgo evangélicos brasileiros, por exemplo. Mas na prática, isso significa que eu não serei bem-vinda assim que descobrirem quem eu sou. Talvez eu possa ser surpreendida, mas a regra é a regra. Quando as coisas são postas dessa forma, fica difícil comentar sobre o que conversamos, as piadas, as discussões, as perguntas de "como tá o Brasil", as perguntas sobre o meu trabalho, sobre o trabalho da minha esposa, sobre o trabalho deles lá, sobre quando viriam para o Brasil, sobre o que faríamos na nossa próxima viagem ao Japão. Acho que é importante dizer que uma das pessoas que ficaram com a gente o tempo todo, desde Takasaki até... Takasaki, nos recomendou Yokohama, disse que era imperdível, e isso foi mesmo muito importante para nossa viagem.

Eu vou ser sincera: estou lacrimejando um pouco enquanto escrevo esses últimos parágrafos. Eu estou muito cansada. Sei que é um texto sobre o Japão, mas estou em um momento muito triste, doloroso, com as minhas famílias com relação ao fato de eu ser uma travesti. Eu queria muito chegar na próxima viagem ao Japão, levar minhas malinhas para Tamamura no final de semana conforme recomendado por eles, que aliás queriam que ficássemos todos os dias lá para nem gastar com hotel, e ser recebida de braços abertos como eu sou. Com todo mundo sabendo, com todo mundo me tratando normal, com todo mundo me respeitando, com todo mundo me amando assim como eles amaram uma pessoa que chegou só por ser "um bom homem, um bom marido para a sua parente de sangue, de sobrenome japonês". Eles me acharam o máximo, me acharam uma pessoa falante, uma pessoa simpática, uma pessoa que une porque eu fiz parentes que não se falavam há 20, 30 anos, conversarem de novo via chamada de vídeo, eu empolguei todo mundo a fazer isso. E posso dizer que fiz isso mesmo, que venho fazendo isso há anos: a minha própria esposa melhorou muito a relação com a família dela porque EU disse que seria legal, que ela deveria tentar, que ela deveria relevar as brincadeirinhas, que ela deveria valorizar a maneira da avó demonstrar amor porque era meio complexa mas era amor. Eu era tão iludida com a ideia de família feliz que contaminei a minha esposa com isso e fiz ela, que não confiava nem na própria família direito, confiar. É tão injusto pensar que, quando eles me verem de verdade, eu não vou ser aceita! Eu estou muito cansada disso tudo. Então a mim, hoje, mesmo que tenha sido um dia de muitos sorrisos e boas conversas, eu não tenho memórias felizes. Eu tenho pais que só me amaram até descobrirem quem eu sou, agora eles só se iludem chamando de amor enfiar uma faca no meu peito por dia com as suas palavras, porque eles nunca entenderam o quanto eu sou delicada, o quanto eu sou sensível, o quanto cada palavra conta, e não só não vão entender como faz parte do expediente não aceitar e tentar me machucar tanto, mas tanto, que quem sabe assim eu "viro homem de novo". Eu tenho sogros que me odeiam e que me violentam. E o mais triste é que essa pessoa falante, simpática, que une, é a Lis Núbia. A pessoa com o nome morto que eles conhecem é apenas alguém que odeia viver e que está fechado em seu quarto definhando. Eu fui eu mesma em Tamamura, só que com um corpo masculino, e nem a voz de bichona eu consegui esconder direito. Eles vão maltratar a Lis Núbia que eles conheceram em favor de um zumbi que eles acham que conheceram, mas é apenas uma carcaça. Isso dói muito. Isso dói demais. E eu estou cansada dessa dor, muito cansada. Eu estou exausta. Eu não acho justo. Eu não acho o mundo justo. Eu estou muito cansada desse mundo. Por isso quero sumir, quero reconstruir minha vida em outro lugar, quero lembrar o mínimo possível, porque todo mundo gosta de uma pessoa que eu criei literalmente derramando meu próprio sangue no papel mas ninguém gosta de mim, que sou a criadora dessa pessoa, que sou essa pessoa só que ainda melhor porque real, porque espontânea, porque plena, porque completa, porque existindo. Eu adorei Tamamura, mas já tenho uma relação complicada com ela. Olha que legal e chique! Ter uma relação complicada com uma cidade do Japão.

Meu sonho, do fundo do meu coração, ainda é ser recebida de braços abertos por pessoas que disseram que me amam. É um sonho que provavelmente vai morrer comigo. É um sonho que provavelmente vai morrer comigo. Mas eu tenho outros sonhos. Eu vou ficar bem. Eu acho. Não, eu vou ficar bem.

Você leu um capítulo da série Tóquio, Japão - Julho de 2025

escrito por nubobot42 narrado por lisbeth