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Mais Harajuku, dessa vez batendo mais perna e gastando de verdade
24 de julho de 2025. Para ser sincera, achei que fosse me dar uma trégua após escrever sobre o dia anterior. Acho que dois dias precisavam ser colocados para fora com urgência: o dia da ASOBIEXPO e o dia de ontem, o dia em que contei aos meus pais. Os outros dias foram legais, sim, todos eles são importantes, mas nenhum deles mudou minha vida para sempre como esses dois. Dito isso, ainda existem outros dois dias de viagem que precisam ser externados de alguma forma, embora talvez sem tanta pressa, talvez precisando de um pouco de absorção do que já foi escrito antes, que são os dois últimos dias da viagem.
Não que esse dia não tenha nada de importante, ele tem e foi talvez um dos dias mais cansativos da viagem. A primeira passagem por Harajuku tinha sido uma brincadeira de criança, hoje seria o dia de passeio sério, de passar nas lojas não para conhecer mas para comprar, de conhecer o bairro e não só a Takeshita Street, de entender melhor o que é essa tal Harajuku, ou até mais, o distrito de Jingumae como um todo. Terei que ser sincera e dizer que não lembro qual foi o look desse dia. Eu lembro do sapato, é claro: foi um sapato da Schutz chamado Myriam, não me lembro se cheguei a usar antes nessa viagem mas foi um dos que comprei pensando na viagem, achando que tinha tudo a ver com a viagem. Era uma Mary Jane anabela de uns 10-12cm, de cor vinho, e com duas tiras finas cruzadas em X ao invés de apenas uma. Eu adoro esse sapato até hoje. Se eu lembrar do resto das roupas, aviso. Acho também que fui com a lace rosa de novo.
Mais uma vez saímos em horário de almoço e eu não lembro qual foi a comida, tem uma foto de um gyoza no meu celular, talvez tenhamos almoçado ainda em Otsuka, não posso confirmar. Mas partimos para Harajuku. Metrô de Otsuka, sentido Ikebukuro, passando Ikebukuro, passando Shibuya e voilá. Mais uma vez nessa estação. Dessa vez passamos pela frente da fachada da Takeshita Street mas eu decidi que seguiríamos reto, chegaríamos até a parte residencial, conheceríamos outros aspectos daquele bairro. E assim fizemos. Já vou colocando agora que uma coisa extremamente burra que fiz durante essa viagem foi escolher um lado do bairro de acordo com a estação de metrô e explorá-lo, dificilmente eu olhava para o outro lado da estação, Harajuku é um bairro lotado de templos e jardins enormes mas todos eles estão do outro lado da estação e eu não vi, assim como Shibuya tem uma parte interessantérrima do outro lado da estação e... eu não vi. Mas acontece. Estava um sol do caralho, calor dos infernos, e nós andando. Até então estava tudo bem porque aquela região ainda era muito bem arborizada, bem mais do que a Takeshita Street diga-se de passagem. Daí eu percebi que estávamos andando para longe demais de tudo e decidi entrar naquela avenida principal que liga Harajuku a Shibuya, mas estava bem distante da Takeshita então acreditava que tinha muito a explorar. Foi nesse incrível momento em que entramos na avenida larguíssima, precisando de passarela para chegar ao outro lado, que torci o meu pé terrivelmente nessa anabela e não me recuperei mais disso. Por sorte não caí mas, assim, péssimo. De qualquer forma seguimos adiante e, depois, nos enfiamos ainda mais para dentro desse bairro.
O que percebemos logo de cara é que aquela parte de Harajuku onde ficamos no outro dia era uma parte bem "povão", nós estávamos adentrando a uma Harajuku diferente, elitizada, chique, cult e... super cara. Sério. A primeira loja onde fomos já tinha um ar todo diferente, todo num climinha meio country, meio amadeirado, e os preços já estavam bem pouco acessíveis. Foi daí para pior. Por outro lado, maioria das lojas eram muito adoráveis: eram ateliês, davam uma impressão muito caseira, autoral, artística mesmo. Nem todos os ateliês eram assim tão chiques, sobretudo porque o relevo de Jingumae é péssimo para comércio, são inúmeras subidas e descidas e elas não param de começar e terminar, não é uma montanha, parece que o bairro é um aglomerado de ondas. Então os andares dos ateliês eram irregulares, passavam uma impressão muito legal. Por outro lado eu entrei em poucas lojas porque o valor das roupas me assustava muito, eu morri de vontade de levar ao menos uma mas não tive coragem, talvez na próxima viagem, as roupas eram bem bonitas e estilosas, não tão fora do padrão como eu gostaria mas eu queria ter aquilo no meu guarda-roupa. Esse relevo, essa falta de vontade de entrar nas lojas e esse sol escaldante, que agora estava pior porque essa região não estava mais tão arborizada, se combinaram, já cansaram minha esposa e também me fizeram sentar em algum lugarzinho e colocar o tênis. Assim como a bota de Akihabara esse sapato era envernizado, então combinado com o sol ele fritava o meu pé. Uma grande lição para o verão é não sair com sapatos envernizados. Essa viagem foi mesmo um grande aprendizado nos menores detalhes, não é mesmo?
Fomos nos enfiando cada vez mais para dentro dos bairros, dessa vez tentando já voltar até a Takeshita Street, mas não fazíamos ideia de onde estávamos. E mais uma vez eu não queria usar o celular, eu queria sentir as direções. Fomos entrando pelo bairro e não entendendo mais se estávamos numa região comercial ou residencial. Comércio e residência se misturam demais em Jingumae, de repente tem um prédio com gente morando, de repente um brechó do lado, de repente uma loja de bijuterias, de repente um ateliê, era assim. E eu queria um docinho. Na verdade eu queria água, eu queria muito uma água, estávamos morrendo de sede e isso chegou ao ponto de começar a nos irritar. Apesar de querermos água encontramos uma sorveteria e eu fiquei louca de vontade de ir nessa sorveteria, um lugar refrigerado, bonito, mas que eu não conseguia entender o cardápio e ninguém ali sabia falar inglês para me ajudar. Juntando isso com o fato de que estávamos ficando estressadas, acabamos desistindo do sorvete, saindo de lá e voltando a andar em busca dessa água.
Eu achei uma loja de tudo quanto é coisa e não consegui me segurar, entrei. Não queria gastar mas não tinha como. Eu encontrei um brinco de gatinhos pretos em cima de uma lua colorida com tons de azul (acho), que é icônico para vários dos meus looks, e comprei. Tive que levar. Não tinha como não levar. Mas a real é que eu queria levar um bilhão de coisas daquela loja a mais. É que eu tinha acabado de conhecer, ainda tinha ao menos um lugar de Harajuku que eu precisava conhecer e ver o que tinha para comprar, fiquei com medo de gastar muito dinheiro sem poder. Meio besta, né? Se a ideia desse dia era finalizar Harajuku... Na próxima eu volto lá, quem sabe tudo ainda esteja no lugar e eu posso levar um mundo.
Seguimos andando sem muito rumo, apesar de eu ter desistido de não usar o celular (a pedidos). Encontramos uma maquininha de bebida e achamos que era a salvação mas, quando peguei a bebida, era um limonetto de novo. Acho que não tinha água naquele trem, só pode. De qualquer forma, melhor do que nada. Andamos por ruas super estreitas em que carro não passava junto com pessoa, vimos mais coisas residenciais, até que do nada desaguamos numa rua com umas lojas super estilosas e um pouco mais baratas, vimos algumas lojas, minha esposa quase levou umas roupas masculinas muito style para ela. Descobrimos que estávamos em Takeshita Street de novo, não a própria, e sim seu reflexo do outro lado da avenida. OK. Pegamos a avenidona Harajuku-Shibuya de novo, eu não passei mais necessidade de comer aquelas comidas esquisitas e carnudas de novo porque Ueno tinha resolvido meu problema, e achamos um lugar muitíssimo engraçado que era ainda mais Brás do que a Takeshita Street: um shopping super hiper mega povão em que pessoas estavam com araras do lado de fora vendendo coisas na promoção, fazendo queima de estoque, gritando muito. Infelizmente nada ali me interessou muito, mas esse shopping... pelo amor de Deus, não tinha como não entrar nesse shopping. Então entramos.
Ele tinha ali cerca de uns oito andares mais o subterrâneo, que deveriam ser mais uns dois andares. Começamos pelo térreo e já tinha lojas muito legais, uma loja de sapatos muito foda mas impossível de entrar porque tinha gente demais, ela gorfava gente, acho que tinha tipo uma fila em que você entrava e os próprios lojistas te obrigavam a olhar os sapatos no tempo deles para que você desocupasse logo. Tinha uma loja meio lolitinha, tinha muita coisa bacana, mas era só o começo. Descemos ao subterrâneo e, já de cara, eu passei muito mal. Primeiro a minha esposa passou mal, na verdade, porque tinham várias lojinhas de perfumes com vários sabores para experimentar, e ela ama perfumes tanto quanto eu amo sapatos (talvez), então ela quis experimentar tudo. As lojas de acessórios ali eram o máximo, mas eu surtei porque em algum momento eu encontrei lojas de estilos lolitas, tanto mais coloridinho quanto gótico, eu quis levar um mundo de coisa, mas... não quis gastar mais uma vez, e também é importante lembrar da última vez que fui a Harajuku, eu tinha muito pouca esperança de encontrar roupas do meu tamanho. O estilo lolita é naturalmente apertadinho, as chances pareciam bem baixas mesmo. Mas porra. Eu vi a Arika Takarano naquelas roupas, foi incrível. Eu pretendo voltar a esse shopping na próxima viagem sim, sinto muito, vai ser uma vez só e eu vou experimentar todas essas roupas que tive medo de experimentar da outra vez, não quero nem saber.
Ainda nesse subterrâneo, descendo só um pouquinho mais, encontrei a loja mais gótica que vi em Tóquio. Aquelas botas cheias de espinhos com plataformas enormes, tênis, blusas cheias de adereços, calças, saias, tudo preto e cinza. As pessoas também todas de preto e cinza, cheia de piercings, tatuagens, uma coisa de fato muito foda. Também queria gastar nessa mas tive medo porque era caríssimo. Além da loja mais gótica, a loja mais cara. Depois disso fomos subindo e encontrando lojas um pouco mais normais, mas nada me atraía muito, eu estava muito seletiva nesse dia, não lembro muito bem o motivo. Eu estava um pouquinho cansada de andar também, num geral. Minha esposa também estava bem cansada, mas em algum momento se encontrou nas lojas e passou a querer experimentar. Eu sei que chegou num ponto em que eu quis sentar e esperar ela olhar as lojas todas, porque eu olhava, não me interessava por nada e era isso, enquanto ela estava revirando tudo e achando tudo o máximo. O jogo virou muito nesse dia. Conforme subíamos o clima Brás ficava cada vez mais forte. Enquanto os andares mais baixos eram silenciosos, os superiores tinham vendedoras que subiam em caixotes, usavam megafones, gritavam suas promoções, era muito foda.
Teve uma loja só que entrei e achei algumas roupas interessantes, demorou horrores para eu conseguir prová-las e acabou que nenhuma serviu. Um dia que não rendeu nada. Mas foi legal ver aquele shopping, ele era muito útil. Nós ficamos nele praticamente até ele fechar. Saímos e já estava meio tarde. Ainda tínhamos que encerrar o expediente em Takeshita Street porque eu tinha visto uma loja de bijuterias baratas que eu precisava explorar, e minha esposa ainda queria comprar alguma sandália que achou interessante na loja de sapatos mais de boa. A loja de sapatos ainda foi um tanto frustrante para mim porque eu gostei das mary janes azul bebê e tentei experimentá-las no maior tamanho possível, mas ainda não servia. Eu ainda estava lombrigada com a ideia de comprar um sapato em Harajuku então deixei ela lá e fui, mais uma vez, na Yusuke. Fiquei apreciando. As botas gigantes de plataforma, as sandálias gigantes meio gothic lolita, tudo isso, mas não tive coragem nem de provar. Se uma mary jane não servia, por que uma bota serviria? Talvez, mas só talvez, eu tenha experimentado uma dessas sandálias, em xadrez vermelho, plataforma de uns 10cm inclusive na pata, parecendo meio coisa de garota morcega, mas ela ficou um tanto apertadinha. Entrou, mas ficou apertada. Eu saí frustrada de novo e voltei para a loja onde minha esposa estava. Ela comprou a sandália, deu certo. Não precisam ficar tristes para sempre porque o jogo virou em algum momento mas, nesse dia, é claro que eu fiquei com inveja dela, fiquei triste, mas sobrevivemos.
Já era noite e precisávamos comer. O meu alvo da vez foi um lugar que vi que vendia "hambúrguer de wagyu". Isso parecia incrível, não tinha como dar errado. Era uma lanchonete bem pequena no segundo ou terceiro andar de um prédio já minúsculo, cheio de restaurantes assim, pequenos, apertados, com algum tema em específico. Bem de frente para uma entrada alternativa da estação de Harajuku. Fomos lá. Subimos as escadas, chegamos. A lanchonete era de um senhorzinho latino-americano, acho que inclusive de algum país aqui da América do Sul, mas ele parecia muito concentrado em outros afazeres e não tinha assim tanto assunto para puxar. A impressão que dava era que ele estava trabalhando remotamente enquanto administrava a situação da lanchonete que, aliás, só tinha ele no atendimento e outra pessoa na cozinha. Hambúrguer de wagyu. É claro que eu pedi isso, não tinha como não pedir. Aí fizemos o pedido e esperamos. Esperamos bem, esperamos muito. Não lembro se nesse dia eu quis pedir uma coquinha ou uma bebida alcoólica, acho que fui de coquinha. Só lembro de ter esperado o lanche por muito tempo mesmo, era demais, a fome estava destruindo a gente por dentro. Aí o lanche chegou e: o hambúrguer tinha gosto de qualquer outro hambúrguer que já comemos. Não vou ser injusta, era bem gostoso, era um hambúrguer bem feito, saboroso, mas... não entendi onde estava o wagyu, para mim se falassem que era de costela, de bife, de qualquer coisa, daria na mesma. Fiquei decepcionada, mas não demonstrei. Só continuei comendo mesmo, saciando a fome, aproveitando o fato de que a comida continuava boa e foi isso. Pagamos e fomos embora.
Não teve como não comentar que foi decepcionante. Ambas tivemos essa sensação. Com essa decepção, entramos na estação e quase nos perdemos porque essa entradinha alternativa é muito diferente da principal e embarcamos sentido Ikebukuro para descer em Otsuka como sempre.
Exaustas física e mentalmente, chegamos em Otsuka. Uma moça até meio jovem nos abordou na saída do metrô para perguntar se estávamos morando no Japão ou se éramos turistas. Eu disse que era turista, ela respondeu o "que legal" de sempre e decidiu me perguntar se eu estava gostando da viagem, eu respondi que estava amando porque era verdade. Ela então me perguntou o que me fazia estar gostando tanto do Japão, eu respondi uma série de coisas, tipo achar muito bonito, ser bem seguro, etc etc, aí em algum momento ela pegou esse gancho e de forma muito mas muito mas absurdamente resumida disse "tudo isso que você vê de bom no Japão é por causa das nossas tradições, você já ouviu falar no caminho de Buda?". Ela também já tinha perguntado minha religião e eu disse, sem nenhuma certeza do que eu estava dizendo, que era cristã, e ela fez aquela mesma cara que crente faz quando alguém diz que é católico. Eu sei que a conversa foi muito extensa, com ela mostrando vídeos do pregador do grupo dela explicando coisas, contando como o cara era um santo, uma reencarnação de Buda e deveria ser ouvido e obedecido, tentando nos convencer a interromper todo o nosso plano de viagem para ir ao Monte Fuji. Até que eu dei um corte falando que estávamos morrendo de fome e precisávamos procurar um lugar pra comer, ela até tentou recomendar alguma coisa mas nessa altura do campeonato eu já tinha dificuldade de prestar atenção em tudo o que ela dizia. Por fim, ela veio com a tática de pedir meu telefone mas... falou com a pessoa errada, né? Eu já vivi essa vida criminosa da evangelização. Eu sabia que, se eu passasse aquele número, ela me mandaria mensagem e me encheria o saco até eu bloquear ou até eu ir a esse bendito Monte Fuji, ela me cobraria sobre a meditação que precisa ser feita às 3 da manhã e eu disse que faria porque não me custava nada, então é claro que eu falei que eu não lembrava de cabeça e daria muito trabalho procurar com tão pouca bateria e pedi o telefone dela. E é claro que eu nunca liguei nem mandei mensagem para esse número. Para falar a verdade, eu até fui procurar esse número agora para ver se encontrava e acho que encontrei. Foi assim que eu descobri que nos encontramos pela primeira vez no dia 24/07, até então eu achava que tinha acontecido já no dia da ASOBIEXPO porque eu lembrava de estar de lace rosa quando ela me encontrou, e é por isso que lá no começo eu disse que acho que fui de lace rosa.
Não é um dia assim tão interessante de se contar, mas acho que foi o dia mais cansativo de toda a viagem. O dia que nos exauriu. A gente andou demais, visitou loja demais, vimos variedade demais, gritaria demais, ambientes apertados. Tomamos sol, tivemos dificuldades de comunicação. Sem contar que ainda estava aquele clima de velório entre eu e meus pais. O meu pai ainda sem entender, desesperado, pedindo fotos, a minha mãe vindo perguntar o que custava eu mandar as benditas fotos, eu explicando que não daria porque não achava que eles estavam afins de me ver como uma mulher, ela dizendo "nossa, você fica assim o dia inteiro?" ainda achando sei lá que era um teatro que eu fazia, um personagem que eu incorporava, uma brincadeira que eu gostava de fazer, não entendendo que se tratava de identidade de gênero e que portanto eu estava andando como eu sempre quis andar. Que seria assim para sempre. Foi levando um tempo para começar a cair a ficha deles sobre isso, acho que até hoje a ficha não terminou de cair. O que eu posso fazer? Nem no meu registro o nome morto está mais. Mas sim, foi um dia exaustivo. Complicado. Satisfatório, em especial para a minha esposa. Eu também senti que não tinha visto tudo o que queria de Harajuku e hoje entendo que é porque não passei pela Cat Street, não andei por várias ruas ali na boca de Shibuya mas sem cruzar os limites. Eu quero um novo dia de exploração em Harajuku sim, talvez meio dia de exploração e meio dia de revisitar as lojas dos shoppings, a Yellow House e a Yusuke. Mas é um bairro adorável, as pessoas são adoráveis e muito bem vestidas. O que importa disso tudo é que me sinto muito realizada de saber que conheci Harajuku.