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Akihabara: dia de nerd
22 de julho de 2025. Akihabara. Esse era o nome do lugar aonde iríamos nesse dia. Já tínhamos lugar para almoçar, o resto não sabíamos muito bem. Eu não sabia muito o que imaginar de Akihabara: era o bairro dos otakus, essa era a informação, isso era o que eu tinha em mãos.
O look do dia foi um pouquinho otaku também: eu já botei o meu cropped branco com relevinhos de dragão comprado em Harajuku para jogo, uma saia preta de tamanho médio que até parecia meio corporativa e aquela bota plataforma da Schutz de verniz que eu até já tinha usado no primeiro dia para ir ao mercado. Lace rosa, mesmo que ela estivesse só o bagaço pós-ASOBIEXPO. E foi isso.
Não saímos tão cedo do hotel como sempre, mas saímos cedo o suficiente para que ainda fizesse sentido almoçar. Descemos a ladeira de sempre, pegamos o metrô sentido Ueno e descemos na estação de Akihabara. Perdeu a graça contar essa parte, né? Bem rápido e já resolve o problema. A primeira impressão de Akihabara foi a de que estávamos num centro urbano qualquer. Era um pouco difícil sair daquela estação completamente porque as duas avenidas, tanto pela direita quanto pela esquerda, eram muito lotadas. O almoço era num restaurante (fast food disfarçado também) chamado CoCo Ichiban, que a gente já tinha visto em Ikebukuro, mas preferi ser fiel à recomendação do meu amigo e ir no de Akihabara. Nós saímos em busca desse restaurante mas não estávamos entendendo muito bem que ele ficava praticamente de frente para a estação, entramos naquela parte do bairro que parecia um amontoado de vielas com alguns restaurantes e algumas lojas de gacha, mas com zero cara de tecnológico. Parecia mesmo um bairro residencial qualquer com umas lojas enfiadas no meio. Comecei a achar esquisito demais quando passei a ver uns senhores aleatórios em pleno dia de semana e eles não pareciam estar com bons olhares para mim, então resolvi voltar e ser mais fiel ao mapa.
Logo achamos o tal CoCo Ichiban. A ideia do CoCo Ichiban é comer curry. Não lembro muito bem qual prato peguei, mas peguei um dos mais caros e mais cheios de coisa e gostei bastante. Meu paladar para curry tem uma memória um pouco esquisita porque eu já visitei a Índia e comi curry lá mais de uma vez, então foi muito estranho pra mim comer aquele curry e não cuspir fogo antes da colher entrar na boca, mesmo que ele fosse apimentado o suficiente para eu terminar a refeição cuspindo fogo. A carne estava muito boa também. Mas eu ainda prefiro o curry indiano. A culinária japonesa é incrível mas a indiana é bombástica e o curry é um prato bombástico. Nós, latinos, somos muito acostumados a achar que nossa comida é super temperada e que, quando vamos ao resto do mundo, sentimos falta de tempero, mas nada chega perto da culinária indiana nesse sentido: a culinária indiana parece que coloca uns três ou quatro gostos diferentes na sua boca ao mesmo tempo, um mais forte que o outro, e no começo você só luta para distinguir qual é qual mas conforme vai se acostumando vai entendendo que todos aqueles sabores fazem sentido e se complementam. Com uns três dias de Índia você nem se importa mais com as lágrimas escorrendo enquanto come, vira rotina. O curry pra mim tem essa memória muito forte dos vários sabores explodindo na minha boca e cérebro ao mesmo tempo vindos de um simples caldo, então foi difícil eu entender que era a mesma coisa. Eu não tinha do que reclamar porque o curry estava bem gostoso, escolhi muito bem o meu prato, veio tudo o que eu gosto, mas ainda tinha aquela coisa estranha na cabeça do "cadê a viagem astral porque estou desesperada por dentro?".
De qualquer forma, que maravilha. Como o último almoço tinha sido um McDonald's e o penúltimo... eu nem lembro o que era, fazia tempo que a gente não enchia o bucho no começo da viagem com uma comida boa assim. Akihabara é um bairro bem nerd mesmo. Não digo isso num bom sentido: é o bairro menos verde que a gente tinha visitado até então, muito mas muito concreto, sol escaldante, um calor da porra. Foi a primeira vez que senti vontade de tirar o sapato não porque estava doendo, mas porque era um preto vernizado e estava cozinhando meu pé. Talvez até estivesse doendo também mas era o menor dos problemas. Saímos do CoCo Ichiban e eu vi que não tinha nada de interessante naquele lado do bairro. Atravessamos a avenida, passamos por baixo da estação e seguimos para o outro lado.
Akihabara não tem lá uma estrutura muito regular de rua não. É um bairro meio zoadão em comparação com os outros. De repente tem uma rua que começa em um lugar e termina do nada, cercada por um monte de prédio aleatório. De repente uma Bic Camera. De repente isso. De repente aquilo. A Bic Camera foi um dos primeiros lugares aonde fui, para dar aquela olhadinha rápida e também colocar o tênis, porque já não era possível continuar cozinhando o pé daquele jeito. Me chamou um pouco a atenção que essa Bic Camera em especial, além de bastante desorganizada com as escadas rolantes, sempre tornando muito difícil encontrar onde subia e onde descia, tinha bastante venda de eletrônicos usados. E esses eletrônicos usados eram bem mais baratos. Era coisa de iPhone penúltima geração por 2 a 3 mil reais, iPads, outros modelos de celulares também, câmeras fotográficas, notebooks, enfim. Era só o começo, também.
Estou tentando olhar o mapa para entender meu trajeto nesse dia e ficando mais confusa ainda. Não lembro muito bem a ordem dos acontecimentos e foi um dia um pouco complicado por conta de alguns sentimentos ruins que foram ocorrendo e eu vou explicar, mas agora que estou puxando da memória todos os lugares onde fui, eu aproveitei muito Akihabara. Comprei pouco, é claro, mas vi muita coisa legal. Só que vi o mapa e percebi que não consigo lembrar como fiz esse caminho tão louco, onde comecei e onde terminei. Eu lembro da Bic Camera porque a primeira coisa que fiz no rolê foi tirar a bota, mas não consigo entender como porque a Bic Camera está lá na frente. Vai ver a Bic Camera já trocou de prédio, né?
Acho que nós andamos bastante pelas ruas internas do bairro e vimos muitas lojinhas temáticas, a maioria delas apenas por fora, como uma de Umamusume que achei bem interessante, mas pensei que eu nunca joguei, nem tinha interesse e não entrei. Minha esposa estava achando um rolê meio chato na real, não entendia nada, não se situava em nada. Em algum momento eu achei um lugar que me lembrava muito o Camelódromo de Londrina quando ainda ficava ao lado do Terminal Central, um lugar super estreito e com teto baixíssimo, cheio de fios passando por todo lado, que era o ápice da nerdice tradicional: eles vendiam trocentas peças e materiais mecânicos e eletro-eletrônicos, alguns daqueles aparelhos eu nem imaginava o que raios faziam, eu não tinha coragem de perguntar nada mas observei cada uma daquelas lojas com muito interesse pensando que algumas daquelas bugigangas talvez nunca tivessem encontrado o Brasil. Era muito interessante mesmo. Eu ficava imaginando meu pai ali, perderia dias fuçando cada coisa. Só fiquei um pouco triste de não ter encontrado nenhuma bugiganga velha para som, nenhum daqueles sintetizadores malucos de 1500 cabos do Yellow Magic Orchestra, esse tipo de coisa, mas foi muito legal.
Saímos de lá e entramos num lugar também muito legal, mas que eu fiquei morrendo de vergonha de fazer qualquer coisa, porque era um fliperama. Me bateu muita vergonha porque só tinha nerd jogando e eles jogavam assustadoramente bem. Era separado por andares e haviam muitos. Os primeiros dois ou três eram dedicados àquele jogo mais físico, de pescar ursinho, gacha, esse tipo de coisa. Depois eu não lembro muito bem a ordem e a disposição, mas tinha um andar praticamente só de jogo de simulação de robô gigante, vários Gundams, tudo muito novo e específico. Parecia tão novo que eu tive a impressão de que primeiro eles lançavam um Gundam ali para só depois lançarem o anime e os brinquedos. Eu parecia estar diante dos jogos mais novos que existiam, parecia que as pessoas estavam testando aqueles jogos no fliperama e vendo o que valia a pena lançar no mundo. Tinham vários jogos de corrida muito esquisitões, jogos de navinha, um ou outro de esportes, RPGs, acho que vi musous também, eu vi muita coisa. Os piores de todos, é claro, eram os andares de jogos de ritmos. Jogos muito normais, talvez um pouco mais moderninhos mas num geral o mesmo de sempre, exceto que não: tinha jogo ali que você tinha tipo duas maracas e precisava ficar girando em uma velocidade e precisão absurdos, absurdos de absurdos, os jogos pareciam Touhou com um tipo de controle muito específico e os nerds filhos da puta que estavam ali não erravam nada, não piscavam. Eu morria de vontade de gravar mas tinha um aviso bem explícito ali pedindo para não gravar ninguém (certas pessoas acharam que não até começarem a olhar torto pra ela, mas ainda bem que essa certa pessoa não foi eu). Isso me desencorajou muito de tentar jogar também. Aposto que as pessoas não seriam tão ruins assim comigo mas eu já estava com a bateria social um pouco detonada, eu também ficava lembrando que o meio nerd é um meio muito misógino e transfóbico e imaginei que no lugar mais nerd do Japão essa regra valeria muito, por isso acabei nem arriscando. Quem sabe na próxima? Jogar um Gundamzinho novo? Quem sabe! Não foi dessa vez.
Minha esposa já estava bem cansada ao sair do fliperama, mas o próximo lugar foi bem interessante: fomos parar em um sex shop. Acho que foi a primeira vez que entramos num sex shop nas nossas vidas, talvez a segunda porque uma vez tivemos que comprar umas coisas que o ginecologista dela pediu e só tinha lá, e na verdade acho que eu fui sozinha. Era um sex shop enorme e bastante completo, mas eu tive um ou outro problema com o lugar. O principal deles era que alguns andares eram divididos por gêneros e eu não sabia quais eu estava autorizada a acessar. Eu tinha certeza que as pessoas daquele sex shop eram legais e talvez até fossem me entender, sobretudo porque a pessoa no andar mais baixo que parecia ser a caixa era uma baixinha super gótica cheia de apetrechos malucos, mas... eu não consegui vencer. Outro problema relacionado é que eu simplesmente tenho problemas com a minha sexualidade. Com culpa, com vergonha, com tudo. É uma área da minha vida que eu ainda não aprendi a vencer, eu tenho muita coisa na cabeça mas tenho muito medo, além de ter um perfeccionismo horroroso que me faz querer desistir de tentar qualquer coisa porque acho que vai ser uma merda, que vou fazer muito mal, que vou me expor ao ridículo (como se isso existisse no sexo), mas mesmo isso é muito simples e não dá conta de explicar quase nada e eu sinceramente não estou afim de tentar explorar o assunto aqui em Akihabara. Eu já explorei melhor em outros momentos, explorava bem melhor quando era solteira.
O casamento me prejudicou muito nesse sentido porque ele me jogou com força num papel de gênero muito esquisito, numa masculinidade muito mais bruta do que eu precisava viver antes. O casamento foi crucial para eu entender que não queria isso, que não tinha nada a ver comigo, mas tanto eu quanto minha esposa nos machucamos muito nessa primeira fase onde os papéis estavam postos, eu tinha que pegar o meu e fiscalizá-la para que executasse o seu, ela tinha que pegar o dela e me fiscalizar para que eu executasse o meu. Nós tivemos e temos que pedir muitas desculpas pelo que os papéis fizeram com a gente. A sexualidade sempre foi minha área mais frágil e vulnerável, geralmente a área que a igreja evangélica conseguia manipular bem, portanto é muito fácil me machucar nela e é muito difícil eu conseguir montar alguns quebra-cabeças. Sempre acho que o gênero vai me ajudar mas também não faz milagre. Eu diria que seria impossível entender as questões com a minha sexualidade sem entender as questões com o gênero, mas não é porque resolvi o gênero que consegui automaticamente carregar a sexualidade junto, tem umas coisinhas ali que precisam de outro tipo de olhar e sensibilidade.
Acho que o que aconteceu em Akihabara não é um bom acontecimento para explorar tanto, mas é o suficiente para dizer que não saímos bem do sex shop. Eu saí me sentindo estranha e incapaz e minha esposa saiu chateada por não ter comprado nada. A princípio não fizemos muita coisa com isso. Na mesma quadra tinha mais uma daquelas lojas que parecia Casas Bahia, mas essa realmente só tinha eletrodomésticos. O mais importante desse prédio era que a partir do segundo ou terceiro andar havia a promessa de ser um paraíso otaku. E era mesmo. Tinha muita camiseta de anime, de jogo, tinha bonequinho, tinha acessório, tinha botton, tinha várias ilhas tocando músicas de animes diferentes e passando aberturas de animes diferentes em televisões minúsculas, mas o que mais me fez surtar foi que tinha um espaço específico para Touhou. Tinha otaku e otome também, é claro. Eu sinceramente nem lembro tudo o que tinha de Touhou, acho que era bem mais as action figures mesmo, acho que tinha alguma coisa impressa também, não era aquela Comiket toda mas... poxa, era uma ilha dedicada a Touhou, isso era muito, mas muito incrível. Eu até selecionei algumas coisas para comprar mas não tive muito ânimo não.
Em algum momento minha esposa desistiu e me chamou num canto para parar e descansar, principalmente a cabeça. O canto que tínhamos ali era, no mesmo andar, um Maid Café. Eu nem esperava que fosse visitar um Maid Café naquele dia, simplesmente tinha esquecido que Akihabara tinha aquilo aos montes. Não estávamos em um clima muito legal para nos divertirmos num Maid Café, algo tinha acontecido ali entre nós e estava difícil de saber o que era, mas fomos. Não me lembro o que ela pediu, eu pedi um chá muito gostoso e um doce muito gostoso. Muitos dos chás que estavam ali tinham propriedades curativas e eu pensei que cairia muito bem. Para mim, independente de tudo isso, estava muito bom. Então fizemos o que sempre fazemos para tentar progredir um pouco na vida: conversamos, conversamos muito, conversamos por umas duas horas, choramos, nos acertamos, ficamos um pouquinho mais próximas do que antes. A vida é assim. Não conseguimos aproveitar o fato de que estávamos em um Maid Café. Eu não fiquei em nenhum momento pensando "uau um Maid Café hahahahaha nossa vamos tirar uma foto com as maids não sei que", acho que as maids também se sensibilizaram com a gente, pareciam meio preocupadas, mas foi bem legal de um jeito bem diferente do esperado. O mais importante é que o docinho era muito, mas muito gostoso. Deve ter sido uma coisa interessante para elas também.
Saímos melhores de lá, mas eu já estava um pouco cansada daquela loja e quis sair. Seguimos andando por Akihabara, saindo daquela avenida super movimentada para ir mais uma vez a pontos apenas de pedestres. Achamos algumas lojas cheias de bugigangas aleatórias eletrônicas também, cheias daqueles pen-drives que a gente vê na AliExpress que comportam 128TB e não dá muito para confiar que é sério. Eu quase levei um para experimentar porque eu nunca tinha visto uma sacanagem dessas ao vivo. Também éramos convidadas por maids para lugares duvidosos, talvez fossem só outros Maid Cafés, talvez não, mas era divertido de ver porque eram várias, às vezes mais de uma ao mesmo tempo, lotando as ruas como se fosse uma coisa normal (e é, né?).
No meio daquele rolê todo fomos parar na Kotobukiya de Akihabara, algo que eu nem tive intenção de encontrar, nem lembrava que existia. Na hora caiu minha ficha que aquele era um lugar importantíssimo, então quis muito conhecer e acabamos entrando. A Kotobukiya, para quem não sabe, é basicamente a maior loja de bonequinho (action figures, para os nerds) e de coisinha de montar (model kits, para os nerds) do mundo. Eu não sou nada fissurada em bonequinho mas pensei que talvez fosse ficar mexida se visse um de Mega Man. E para a minha tristeza eu vi alguns de Mega Man, inclusive do meu personagem favorito (Bass.EXE), mas não consegui a coragem para comprar porque custava 15 mil ienes (cerca de 500 conto, para quem não lembra). Foi um lugar muito legal, vi muito bonequinho de coisa que eu conhecia, muito bonequinho de coisa que não conhecia, tinha vários pôsteres lá, flyers de eventos até internacionais, acho que é um dos lugares mais nerds que já vi na vida. Chega a ser meio chato ficar falando "lugar mais nerd que já vi na vida" em Akihabara, o bairro dos nerds, o bairro de todas as gerações de nerds, desde quando nerd era a neurodivergência que te obriga a construir a casa do zero com ferramentas construídas por você mesma até os nerds de hoje que colecionam dakimakura (travesseiro comprido com o desenho da menina de anime que você gosta). Mas é, Akihabara.
Saí muito triste da Kotobukiya por não ter comprado o Bass.EXE. Hoje me arrependo disso. São 500 reais e é o Bass.EXE. Eu não sei se ficou claro já que eu falei tanto "dos nerds", mas eu sou uma nerd. Eu vou tocar mais um pouquinho a banda e depois vou contar uma coisa, inclusive relacionada com o Bass.EXE, que vai deixar vocês pensando "essa é a travesti mais nerd que eu já conheci", provavelmente porque não sabem que o maior raio trans que existe no mundo não é a Liniker, não é a Linn e nem a Erika Hilton, é o Final Fantasy XIV. Que muita gente deve ter se descoberto porque queria ser a vampira gostosa no Dungeons & Dragons (não sei se D&D tinha vampira gostosa, eu jogava RPG de mesa no MSN). Mas foda-se. Vamos falar de mais nerdices depois, por enquanto ainda temos algumas coisinhas a comentar.
Acho que chegamos na última parte da exploração de Akihabara: nós ficamos um pouco perdidas no meio da bagunça que esse bairro é, mas logo nos situamos numa avenida que parecia ser bem principal, era bem larga, bem movimentada, muitos carros, muita gente. E uma infinidade, mas uma infinidade mesmo, um absurdo, um escândalo, de loja de eletrônicos. Em primeiro lugar, achei uma loja de videogame que parecia boa e barata o suficiente para comprar o Donkey Kong Bananza para o meu amigo, comprei. Em segundo lugar, achei uma loja de som: seis andares de sons. Andares para caixas de sons, andares para earphones, andares para headphones, andares para headsets, andares para variantes de iPods, andares para quaisquer tipos de aparelhos de som, andar dos usados (claro), andares para tudo isso só que de luxo (eu cheguei a ver um headphone que custava 600 mil ienes, mas posso também ter visto coisa de mais de um milhão de ienes). Técnicas de isolamento acústico, técnicas de estéreo, de 3D, de 4D, sei lá o que porra mais tinha naquilo, era muito absurdo, eu quis levar metade dessa loja embora e acabei não comprando nada porque no fundo eu não precisava, não tinha dinheiro e não saberia como levar os aparelhos de DJ.
Mas não foi a única loja de videogames, nem a única loja de eletrônicos. Esse lugar de Akihabara é o verdadeiro ferro velho nerd, são inúmeras lojas de vendas de novos e usados, eu ficava em choque com os preços dos Macbooks, e eu estava numa pira enorme de comprar Macbook que durou até março desse ano. Quando eu comprei um Macbook. Sério, tinha Macbook usado com processador Apple Silicon por 2 mil reais, mas sempre tinha aquela descriçãozinha do defeito que me deixava pensando "Hmmm, será que é só isso mesmo? E se tiver mais defeitos e eu estiver do outro lado do mundo, como resolvo?". Sem contar que o teclado era japonês, o padrão de tomadas japonês era super diferente, eu tive muitos medos e também sabia que, se gastasse 2 mil reais de uma vez só, o empréstimo teria que aparecer. Andei por várias dessas lojas, uma seguida da outra. As lojas de videogame vendiam tudo quanto é videogame usado, Nintendinho, Super Nintendo, Game Boy, Game Boy Advance, Nintendo DS, Mega Drive, Master System, do PS1 ao 4, eu devo ter visto até um Game & Watch naquele lugar. Também vendiam PCs gamers usados. Tudo com preço muito bom. A minha esposa já estava de saco cheio porque eu queria entrar em todas as lojas, ficar em choque com os preços dos usados e sair. E depois começar a entrar em todas as lojas, achar que estava caro porque outras lojas tinham a mesma coisa bem mais barato, e sair. Uma das lojas estava tocando Cha-La Head Chala, achei engraçado porque tinha a impressão de que Dragon Ball era daquelas coisas que o Brasil venera mas nem faz tanto sucesso assim no Japão mas parece que não, que eles gostam mesmo, e faz todo o sentido porque eles com certeza ligariam para algo com a abertura feita pela melhor forma do Hironobu Kageyama.
Também fomos praticamente coagidas a entrar num lugar cheio de quadros. Ao que parecia, a própria pessoa que pintou os quadros foi quem nos chamou, então ela ficava explicando cada um deles, eu achava todos bem bonitos mas quando vinham os preços, eu pensava que ainda faltava um bom tempo de viagem e ficava um pouco intimidada. Depois, quem parecia ser o dono da loja apareceu e foi incisivo tanto com a gente quanto com a pessoa responsável pelos quadros. Meio sem graça, procurei uma estratégia para encerrar o assunto e ir embora.
Já era noite e ainda estávamos em Akihabara. Não era plano sair de lá e conhecer outro lugar. O plano agora era encontrar um lugar para comer e depois ir embora, mas nós nos enfiamos bem no meio do bairro, não parecíamos estar nada perto da estação e eu não sabia muito bem o que seria melhor fazer. Era a avenida principal, eu pensava que chegaríamos em algum lugar se andássemos reto. Eu sempre tinha esse pensamento, como devem ter percebido, e diria que ele é péssimo mas não deu errado nenhuma vez. Estávamos com fome. Eu não sabia muito bem o que queria, olhava as fachadas dos restaurantes e nada me agradava muito bem, mas não iria ceder de novo aos fast foods.
Encontramos um restaurante meio com cara de bar, iluminação baixa, e entramos. Por dentro era bem mais familiar do que bar mesmo, mas já estávamos lá. Eu ainda me sentia meio desconfortável de estar em lugares muito família, era meio instintivo ter medo de olhares de pai de família, de criança, esse tipo de coisa. Além disso, outra mesa estava lotada de uns homens meio mais velhos, um clima meio happy hour de firma, sei lá, eu tive um pouco de medo. Logo a comida e a bebida chegou. Nesse dia eu decidi beber. Não lembro muito bem o que pedi para comer, deve ter vindo porção de gyoza, porque sempre que pude eu pedi gyoza. Mas pra beber... eu pedi um saquê, e não imaginava que viria uma garrafa de saquê todinha. E eu aceitei, eu disse que beberia naquela noite então me comprometi a beber aquela garrafa inteira de saquê. Comi bem, bebi bem, e bebi bem devagar. A minha esposa me ajudou um pouco com um shotzinho ou outro mas a garrafa foi quase toda minha. Não me lembro se tinha colocado a bota de volta ou se estava de tênis. Eu tinha certeza que estava de tênis antes de começar a escrever esse parágrafo, mas me veio uma lembrança estranha de estar de bota no final da noite de Akihabara, então vamos ficar com a indecisão ao invés de um evento canônico definido dessa vez.
E eu bebi. Bebi bem.
Quando saímos de lá eu estava bem bêbada. Nunca tinha ficado tão alegre assim na minha vida antes. Não estava andando torto mas não estava falando muita coisa com coisa, estava rindo por qualquer motivo ou nenhum motivo. Em algum momento a minha esposa pegou meu celular e me gravou rindo e imitando a narradora da linha Yamanote, falando os nomes das estações e dizendo por qual lado deveria desembarcar. Ela ainda deve ter esse vídeo (tomara que não). E eu segui nesse lance de pegar a avenida e andar sem rumo dizendo que chegaríamos a algum lugar, botando um limite prudente de que, se desse umas dez e meia da noite e não tivéssemos chegado em nenhum lugar, nós olharíamos o mapa do celular e procuraríamos alguma estação. É que estávamos mesmo muito longe da estação de Akihabara, não parecia fazer sentido que o caminho mais seguro e próximo fosse voltar a ela. Então andamos, andamos, andamos, andamos e... esbarramos na estação de Ueno. Eu estava meio bêbada e sentimental mas a visão ao lado da estação de Ueno, que é um prédio com uma iluminação muito única feita de luzes amarelas, me emocionou muito, eu fiquei boquiaberta com aquilo, parando para observar por um instante. Mas a minha esposa, e eu também, estávamos muito cansadas para ficar lá admirando um prédio iluminado e era muito tarde, então tratamos de achar a entrada da estação e embarcar.
Ueno seria o próximo bairro, já estava decidido. O final do dia é como sempre: descemos em Otsuka, subimos a ladeira, chegamos no hotel. Se minha esposa foi ao Seven-Eleven mais uma vez, nem vi. Só deitei e me joguei na cama como nunca antes, bêbada e bem feliz. Eu tinha comentado mais cedo sobre falar de mais coisas de nerd e quase estava me esquecendo: estar em Akihabara aqueceu muito meu coração porque eu reconhecia a estética daquele bairro, as ideias por trás daquele bairro, o jeitinho das pessoas porque, conforme mencionado ao dizer que deveria ter levado o Bass.EXE, eu sou fanática por Mega Man Battle Network. Na verdade isso não deve ter falado nada a você porque ninguém liga para Mega Man Battle Network, principalmente ao ponto de jogar até o 4. Eu sempre quis conhecer Akihabara pelo simples fato de que ACDC Town, na versão japonesa, se chamava Akihara Town e eu sabia que vinha de Akihabara. Mais importante: Akihabara é referenciada no Mega Man Battle Network 4 na forma da Elec Town. A primeira quest do BN4 é contra o ShadeMan.EXE na Elec Town e, enquanto está tudo bem, o Lan está com o pai dele em Elec Town para comprar bugiganga em uma loja chamada Jomon Denki (isso estou pegando da Wiki, para mim sempre será o JO-MON). Eu me senti fazendo essa quest em Akihabara porque é isso que você faz lá: compra bugiganga eletrônica, vê prédio super poluído visualmente que vende todas as coisas do mundo, ouve ruído sem parar na rua. Só faltaram mesmo os videogames e o Maid Café, mas a Elec Town só tem três telas e só duas mostram lojas (uma só mostra a JO-MON, que é tipo a Bic Camera).
Talvez você não tenha entendido nada mas você deve ter percebido que essa viagem foi muito referencial para mim. Que mais importante do que os pontos de referência, eu queria conhecer os lugares onde se formaram as bandas que eu amo, as roupas que eu amo, as pessoas que eu venero. Mega Man Battle Network, para quem não sabe, é a minha série de videogame favorita: eu aprendi a jogar RPG com ela, tenho memórias de levar meu computador velho fudido caquético para o trabalho do meu pai e ficar jogando Mega Man Battle Network 2 lá com 8 anos de idade no emulador de Game Boy Advance. Eu não sei quantas vezes zerei os seis Mega Man Battle Network, em especial o segundo (o quarto também mas não muito porque eu quis, né), mas eu joguei muito dos sete aos dez anos, depois com quatorze voltei a jogar, e antes de casar eu fiz questão de jogar tudo de novo porque eu morria de medo do casamento dissolver a minha personalidade e eu queria lembrar de tudo o que me definiu até então. E Mega Man Battle Network me definiu em muitos aspectos da vida, inclusive de gênero porque eu queria muito de alguma forma ser a Roll.EXE e a Meddy.EXE (eu tinha essa coisa por mulheres fortes, sensíveis e que curavam os outros), esteticamente a Tesla Magnets e a Princess Pride me deram muitas aulas, aliás eu adorava a personalidade de várias mulheres e a maneira como elas se relacionavam com seus NetNavis, a Miyu super misteriosa e o SkullMan.EXE durão, a Tamako mega explosiva de um jeito que assustava até o gigantesco MetalMan.EXE e essa relação invertida entre a Pat e o SlashMan.EXE. Eu também me eduquei muito politicamente com essa série e, talvez principalmente, é graças a ela que eu me sinto bem trabalhando com tecnologia para internet. No fundo, quando eu executo um código, eu me sinto construindo uma área da internet do Mega Man Battle Network.
Eu sempre tive essa visão da internet como uma espécie de área habitacional porque eu imaginava, e ainda imagino, que no mundo virtual as pessoas estão usando seus NetNavis ao navegar pelas páginas e os Navis são muito espelhados em seus donos mas eles possuem uma personalidade própria, podem sair de controle, serem corrompidos, se dissociarem do real. Hoje se discute muito do que Mega Man Battle Network alertou lá atrás: dos perigos de digitalizar o mundo todo e comprometer estações de energia elétrica, de saneamento básico, até a história que a princípio me pareceu super viajada do quinto jogo em que um cientista maluco descobre como usar a internet para colocar pessoas umas contra as outras emitindo ondas de ódio. Bem, em 2005 era super viajada mesmo. Cá estamos hoje vendo como as pessoas são capturadas por discursos de ódio e sendo jogadas umas contra as outras.
Então é isso. Me permiti falar sobre Mega Man Battle Network porque o texto é meu, eu falo do que eu quiser, mas não aprofundei em nada. Vamos voltar à Terra e lembrar o porque essa série entrou na história: eu me senti muito realizada vivendo um lugar que pertence a um jogo tão querido da minha infância. Acho até que nessa quest a minha esposa era o Lan e eu era o Dr. Hikari, ela entediada e querendo algo mais divertido enquanto eu ficava explorando cada centímetro de loja de tecnologia em busca de bugiganga que eu nem ia comprar. Não acho que ela queira voltar a Akihabara, nem eu sei se quero, só se eu estiver realmente na promessa de comprar um videogame novo, um celular, sei lá. Akihabara é um bairro útil, não necessariamente agradável. CoCo Ichiban eu posso comer em qualquer bairro de Tóquio. Quem sabe estejamos mais empolgadas para jogar fliperama, para levar coisa de algum sex shop ou se envolver com a parte divertida de um maid café, aí fará muito sentido voltar até lá. O que importa é que eu gostei muito, mas muito mesmo, de ter vivido isso, de ter essa memória, de saber que um dia vou abrir o Mega Man Battle Network 4, vou para Elec Town e vou me lembrar do dia em Akihabara.
Antes de encerrar de vez, vou avisar que esse foi o último dia da minha vida em que as coisas eram como antes. O dia seguinte seria o dia que me mudaria muito. Por isso aproveitem que esse dia teve mais coisinha interessante, muita nerdice, sem muito drama: o próximo dia foi talvez o dia mais difícil de toda essa viagem e não foi culpa do Japão, não foi culpa de Tóquio. Pois bem, até lá.