Série: Tóquio, Japão - Julho de 2025

14 de julho de 2025

24 de abril de 2026

Avião e Dubai

Segunda-feira, 14 de julho de 2025. Passei o dia praticamente todo no avião, mas não deixou de ser um dia interessante. O vôo era do aeroporto de Guarulhos até o aeroporto de Haneda, em Tóquio, mas ele fazia uma escala por Dubai. Não sou dessas pessoas com interesse muito profundo em Dubai. Para ser sincera nada em Dubai me chama a atenção, exceto talvez ser uma pessoa que fala “já passei por Dubai” para outras pessoas que parecem dar uma importância enorme a isso, de maneira a conseguir alguns benefícios sociais, mas mesmo isso é mentira porque nunca consegui nenhum benefício social falando que já fui a Dubai. Nem sei se Dubai ainda existe mesmo, já que estamos em abril de 2026.

Eu gosto de cidades grandes, gosto de prédios, isso já é clássico para quem me lê há mais de dez anos, então não posso dizer que Dubai era totalmente desinteressante. Seria um blaséismo que passaria por cima dos meus próprios princípios. Eu queria ver prédios diferentes e coloridos, experimentar comida árabe, mas tinha muito medo. Sei lá, imagine… é, isso mesmo, de novo a mesma história… imagine eu ser assaltada em Dubai? Perder todas as minhas coisas em uma escala para o Japão? A ideia era chegar onze horas da noite, partir para o hotel oferecido de graça pela companhia aérea, tomar um banho (talvez não), tirar um cochilo, acordar quatro da manhã, pegar nossas coisas, ir até o aeroporto e pegar nosso vôo para Tóquio. Só isso. Entre onze horas e quatro da manhã talvez pudesse haver alguma vida na cidade a se aproveitar, mas eu tinha medo demais para fazer isso. Bom, teria que chegar na cidade e sentir.

Foi um vôo compridíssimo, acho que deve ter durado umas quinze horas. O vôo mais comprido que já fiz. Uma vez viajei para a Índia, fazendo escala por Adis Abeba. Deve ter dado onze horas de Guarulhos até Adis Abeba, e mais umas dez de Adis Abeba até Mumbai. Chegou perto, mas esse foi pior: quinze horas num avião é praticamente um dia, né? Não é tão desconfortável pra mim porque eu já sou uma pessoa sedentária mesmo, já costumo passar quinze horas do dia sentada, então foi tipo mais do mesmo. Já fui uma pessoa muito de livros, mas faz alguns anos que perdi o hábito de leitura assim como o de escrita, faz pouquíssimo tempo que os retomei e estou carregando-os de maneira muito humilde. Meus erros de português não surgiram com essa perda do hábito não, descobri que minha ortografia sempre foi ruim, que meus tempos verbais nunca foram os mais corretos. Estou tentando prestar mais atenção na ortografia dos livros para melhorar, inclusive. Se isso te fizer me julgar, problema seu. Mas enfim: não lembro de ter lido nenhum livro na viagem, o wi-fi não pegava direito, e tinha que me conformar que só faria as diárias dos gachas quando chegasse no hotel em Dubai.

Foi uma viagem bem “inútil”, bem pouco culta mas, se quer saber, estou contando isso porque comparo com essa outra viagem para a Índia em que eu devo ter lido uns três livros inteiros entre os vôos. Não acho que me interessa de verdade ter sido menos culta. Eu estava no meu quarto dia de férias, de uma sequência de dois ou três anos sem férias. Acho que poderia passar um vôo de 48 horas dormindo, acordando, pensando em merda nenhuma, sonhando com Tóquio, sem tocar num livro, sem tocar em nada que eu pudesse encarar como “produtividade”. Se eu estivesse mesmo com vontade de ler um livro, eu teria levado um livro e lido um livro, porque já estaria lendo esse livro antes da viagem, estaria interessada em aproveitar o tempo para continuá-lo e ser feliz com ele. Não era o caso, então graças a Deus que não aconteceu.

Me incomoda um pouco estar com o hábito de escrita prejudicado porque, por anos, foi o que eu tinha de melhor para expressar meus sentimentos. É ótimo que eu tenha aprendido a diversificar mas não é bom perder aquilo que tenho de mais refinado, por isso voltei a escrever e me esforço para, todo dia, colocar ao menos uma página no papel, independente do que seja o assunto ou a história.


A viagem tinha seus momentos interessantes, também. Eu estava na janela do avião, então pude ver o mundo sendo lentamente transformado. Acho que chegamos no clima desértico dos Emirados Árabes só a noite, porém. Também foi muito interessante observar as rodovias de lá de cima, todas muito bem iluminadas, parecendo bem organizadas e muito mais uniformes que as brasileiras, o que não sei se considero uma vantagem. Acho que o lugar era mais plano, também. A cidade a noite também era bem bonita, mas não posso dizer que fiquei deslumbrada por nada.


Mas bem, chegamos em Dubai, no aeroporto. Em primeiro lugar, o inglês dos árabes era tão ruim quanto o meu, mas eles não tinham o bom humor dos indianos. O que eu entendo, porque ninguém precisa ter bom humor trabalhando onze horas da noite. Meu inglês estava enferrujado também. Eu estava penando para entender coisas simples, esquecendo palavras óbvias na construção de frases, então estava especialmente irritante para as recepcionistas que não queriam resolver o problema de mais ninguém e sim ir embora e dormir depois de um dia que deve ter sido tenebroso, lidando com as possíveis piores pessoas do planeta, já que Dubai deve receber esse tipo de gente. Então eu peguei uma orientação com uma recepcionista sobre como sair dali e simplesmente não consegui seguir, fui parar num trem dentro do aeroporto e ele me levou para outro lugar, fiquei morrendo de medo desse outro lugar ser um problema e não desci, pensei que poderia ter algo mais pra frente mas ele voltou aonde eu estava antes. Aí um árabe, pela primeira vez muito bem humorado, olhou para a gente quando a gente saiu do trem, disse “You in. You out.” gesticulando e rimos. Ele tentou me explicar de novo, entendi que era para descer ali no lugar-problema mesmo e descemos. Tudo muito complicado, uma fila dizia que era para uma coisa mas estava servindo para outra, aí quando perguntamos para outra recepcionista ela olhou com uma cara feia como se fosse óbvio. Homens árabes não atendiam minha esposa direito. Talvez, pensando agora, fosse uma questão cultural, de que minha esposa deveria falar com as mulheres e eu (que estava com aparência de homem cis) deveria falar com os homens, mas acontece que minha esposa não fala inglês. Tinha muito disso mesmo, sabíamos que não podíamos andar de mãos dadas mesmo sendo um casal, achei interessante porque parece que todos lá sofrem igualmente as coisas que os homossexuais sofrem no Brasil (eu inclusive, já que somos lidas como um casal lésbico), os homens só conversavam com homens, as mulheres só conversavam com mulheres, mas na verdade só homens conversavam enquanto o ideal para mulheres era ficar em silêncio. Dito isso, ninguém assoviou para ninguém, ninguém se engraçou com ninguém. Vantagens e desvantagens.

Foi um lugar de comunicação muito tensa e de difícil localização, mas uma hora chegamos na sala onde deveríamos esperar a van que nos levaria para o hotel. Talvez já tivesse passado de meia noite mas, vamos combinar? Foi mais um daqueles dias que não acabou meia noite em ponto. Eu diria que ele acabou ali pelas duas ou três da manhã, a hora em que deitei na cama para tirar um cochilo de uma ou duas horas e encarar o dia seguinte. Antes disso, não.

Depois de mais um bom tempo esperando, pegar um 4G gratuito do aeroporto por um dia, fazer o meu gacha de celular, esperar essa van, finalmente ela chegou e saímos do aeroporto. Foi um choque colocar a cabeça para fora daquela porta de vidro e sentir a temperatura da cidade. Não posso dizer que foi a primeira vez que passei por isso. A primeira vez foi em Mumbai, quando entendi que o mundo realmente possui diferenças climáticas insanáveis e intransponíveis. O bafo quente que veio na minha cara é um bafo que não existe no Brasil. Eu achei que poderia existir no Centro-Oeste, tipo em Cuiabá, mas nem Cuiabá me mostrou esse tipo de bafo. Só existe ali em Dubai e na Índia mesmo, talvez também em outros países que eu não conheça, mas no Brasil não. Eu também estava com uma roupa meio quente, aliás, estava usando uma bata feminina com um pouco de medo de alguém implicar, mas acho que as noções de gênero nas roupas dos Emirados Árabes é bem diferente da nossa, acho que muitos homens estavam usando roupas bem mais “femininas" do que a minha se estivéssemos dentro do Brasil. O mundo é assim.

A van foi direto para o hotel e a cidade pareceu meio morta, na real. Não tive muita vontade de sair do hotel para nada, mesmo porque o tempo era bem curtinho também. Estávamos precisando demais descansar, eu não aguentava mais as chicotadas na comunicação com os árabes cansados e estressados, eles nos ofereceram um jantar só que pediram para que acelerássemos o passo porque teríamos no máximo dez minutos para chegar ao restaurante e pegar a comida, então… eu não dei conta. A comida deveria estar maravilhosa, fico um pouco triste de pensar que perdi a única oportunidade de comer comida árabe de graça, mas eu não tinha mais forças. Só queria meu quarto de hotel, fazer meu joguinho e dormir. A minha esposa me acompanhou mas não sei se era vontade dela também, é triste pensar que ela não tinha muita escolha a não ser depender de mim porque só eu falava inglês. Mas eu estava cansada de falar inglês com aquele pessoal. Só queria ficar em paz. Meu autismo cantou aí.


Ainda assim, o dia não acabou. Quando cheguei no hotel, quis tomar banho para dormir. Uma aventura de bastante tempo para entender como aquele chuveiro do hotel funcionava, depois descobrir onde estavam as tomadas do quarto para carregar os celulares e o notebook, tudo isso enquanto minha esposa estava no terceiro sono. Meu gacha e minhas redes sociais pipocaram de propagandas da Temu muito diferentes das brasileiras, o que me fez entender que a Temu era a Shopee deles. Como eu disse, o dia acabou lá pelas três da manhã. O próximo dia começaria às quatro.


Tem dia que é comprido, né?

Você leu um capítulo da série Tóquio, Japão - Julho de 2025

escrito por nubobot42 narrado por lyra