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Ginza 2: Sanseito, comidas gostosas e um desabafo sobre como o capitalismo consegue se aproveitar até da nossa disforia de gênero
19 de julho de 2025. Mais um dia acordando toda fudida por conta de péssimas decisões do dia anterior, acordando tarde, demorando pra se arrumar, não fazendo nada muito certo. Eu sei que já falei bastante sobre isso nos outros textos mas acredito que a mistura de jet lag com o fato de que eu estava precisando muito de férias pesou muito, ao ponto de eu não conseguir dizer que me arrependo de ter acordado tão tarde todos os dias e não ter aproveitado um dia sequer de Tóquio de manhã. Mas quero sim fazer diferente na próxima.
Bem, o meu look para esse dia foi: a minha bata creme, a mais utilizada até então, primeiro top que comprei na minha vida; a minha lace loira mais uma vez porque o primeiro alvo do dia era Ginza, e eu já tinha ido a Ginza com minha lace preta; a minha saia comprida verde que eu comprei num surto em shopping de Londrina, ainda como pessoa masculina, na ideia de que "era para minha esposa" mas com um jeitinho muito obviamente não-normativo que dava às vendedoras a certeza de que algo ali tinha; e, por fim, a minha sandália da Schutz verde cheia de adornos de cangaceiro. Um look bem senhora de respeito.
A ideia era não passar fome, então resolvemos comer ainda em Higashiikebukuro, mas confesso que não lembro qual foi o lugar desse dia. Pode ter sido o Nakau novamente, bem como pode ter sido um restaurante que servia lámen, e aí subestimamos muito o tamanho do pedido (principalmente a minha esposa) e o negócio veio um balde gigante cheio de coisa. A minha esposa deixou comida lá, acho que o pessoal do restaurante não gostou. Mas como disse: não tenho certeza qual dos dois foi, pode ter sido isso, pode ter sido o Nakau, mas vamos tornar esse restaurante do lámen o evento canônico. A partir de hoje, foi o restaurante do lámen oficialmente e não se discute mais.
A sandália era bastante confortável, mas é claro que levei minha mochilinha e meu tênis, porque era promessa. Nunca mais sofrer. Ainda que eu fosse ficar meio feia com um Nike preto de homem e a minha roupa, mas... Nunca mais sofrer. Descemos até Otsuka, eu parei num posto da Lawson no meio do caminho conforme dito no dia anterior e tentei entender, junto com um trabalhador indiano, se havia possibilidade de usar os tótens para comprar um ingresso. Devo ter gastado uns vinte minutos lá e o resultado foi negativo. Nay, sem telefone não havia chance. Eu me desesperei e mandei mensagem direta no BlueSky para pessoas que eu sabia que moravam no Japão, inclusive pessoas que nem me seguiam, nem sabiam quem eu era, mas a princípio ninguém me respondeu. Bom, ainda tínhamos o dia pela frente.
Pegamos o metrô em Otsuka, seguimos sentido Yurakucho. Acho que não era tão tarde assim. Resolvi tentar mais uma vez a Bic Camera de Yurakucho, não só porque eu queria esgotar todas as possibilidades, mas porque eu queria muito ver aquela loja inteira, era a maior Bic Camera de todas as que vi na cidade. E realmente, realmente, realmente. Realmente. O lugar parecia uma Casas Bahia Turbo, tinha de tudo lá. O primeiro andar era dos celulares, eu não vou lembrar certinho a ordem dos andares mas tinha andar pra tudo lá: andar de eletrodoméstico, com máquina de lavar, micro-ondas, ar condicionado, fogão; andar de literalmente casa, com venda de cozinha inteira, quarto inteiro, cama, sei lá um só andar tinha uma Leroy Merlin inteira dentro dele; um andar de videogame, claro, com o ainda-em-lançamento Nintendo Switch 2, inclusive acho que um dos motivos de eu ter passado nessa Bic Camera foi ver se achava o Donkey Kong Bananza que um amigo meu tinha pedido para eu comprar pra ele, e eu achei mas não levei porque confiava que acharia mais barato em Akihabara; tinha um andar que era um supermercado, com farmácia, com a parte de cosméticos, e eu fico muito triste porque uma amiga me recomendou bastante coisa da Canmake mas eu não soube pegar porque eu ainda não entendia nada de maquiagem, só peguei um blush rosa que até hoje uso; o andar dos eletrônicos, computadores, notebooks, impressoras, etc; uma parte pra esportes, com itens de todos os tipos, de bicicletas até itens de golf com um campinho pequeno para testar os equipamentos; o último andar eu lembro que tinha uma parte dedicada a relógios de luxo, caríssimos. Essa Bic Camera é muito incrível. Além de tudo ela é conectada via subsolo com a estação de metrô.
Ficamos horas explorando ela, compramos um monte de coisa, inclusive uns salgadinhos no supermercado para nos ajudar porque não sabíamos quando comeríamos novamente. Eu fiquei muito feliz no andar cheio dos Gundams, tinha uma televisão tocando a abertura do Mobile Suit Gundam primeirão, foi lindo. Também gostei muito dos andares dos computadores e dos videogames, mas não tive coragem de tocar em nada. Enfim, saímos de lá. Acho que ainda antes de sair eu troquei a sandália pelo tênis porque, bem, foram mais de dez andares lotados de coisa, não houveram condições e meu pé ainda estava machucado do dia anterior, com seus band-aids segurando tudo ali.
Uma coisa que deixei passar é que, antes de entrar na Bic Camera, pegamos um comício de algum partido político e eu já estava atenta ao fato de que logo haveriam eleições no Japão. Em Ikebukuro havia alguns rostos de políticos colados nas grades, mas é claro que eu não sabia do que se tratava. Ali também eu não sabia do que se tratava, eu só sabia que tinha um partido de extrema direita que não gostava muito de imigrantes então torci para que não fosse esse partido ou que, caso fosse, eles não se importassem com a nossa presença ali em particular. Mas Ginza estava toda tomada por comícios desse partido e havia um movimento enorme de pessoas, não chegava a ser uma multidão mas tinha uma galera prestando atenção, embora eu acredite que o movimento tivesse mais relação com o povo passeando em Ginza no sábado mesmo.
Como eu estava mais concentrada em encontrar o café que meu amigo me recomendou, não prestei tanta atenção nesse movimento, fiquei mais seguindo meu mapa e atravessando a avenidona principal até chegar lá. Alguns restaurantes estavam mesmo lotadíssimos, vomitando gente, era difícil passar. Mas passamos e chegamos no café. GLITCH GINZA o nome da criança. Um lugar pequeno, super acolhedor por conta da recepção calorosíssima e muito gentil de todos os trabalhadores, e com fila para entrar e aproveitar porque era mesmo pequeno e tinha grande demanda. Logo conseguimos.
Pedimos o café.
E de fato.
De fato.
Eu não lembro se esse meu amigo é um homem de cafés desde que descobriu esse café ou se já era antes, por isso descobriu esse café, mas fez todo o sentido do mundo. É outro gosto. E outro gosto, inclusive, se comparado com quando você compra algum café mais gostoso do que o normal, de um produtor rural e resolve fazer em casa. Era forte, muito forte. Precisava de água para o café não consumir toda a garganta. E era muito bom. A culpa, provavelmente, não era só dos grãos, mas do preparo que eu não prestei muito bem atenção mas era todo diferente. Era muito bom mesmo. Minha esposa gostou, achou bacana, mas eu senti uma experiência de outro mundo também, talvez um pouco parecida com a do meu amigo, embora eu não tenha me tornado nenhuma mestra cafeeira provavelmente porque a vida me demandou outras coisas de lá pra cá ou talvez eu só não saiba ser uma mestra em nada. Mas acho que fico com a vida me demandando outras coisas, porque demandou mesmo.
Gostei tanto da experiência que resolvi honrar o meu rolê e colocar de volta a minha sandália. Fui ao banheiro, fiz o meu xixi e me troquei, determinada a dedicar mais alguns minutos ao meu look completo. Então desocupamos o café, rumo à Uniqlo para comprar coisas que ficaram em falta da última vez.
Mais uma vez fui parada na rua para ser elogiada, e mais uma vez foi bem especial. Foi uma senhorinha que fez isso. Eu fiquei um pouco em choque porque, sendo bem honesta, tinha um pouco de preconceito com idosos com relação a transfobia e acho que é uma experiência comum de pessoas trans: a gente sempre acha que os idosos serão super conservadores e nos tratarão mal, nos reconhecerão e nos ofenderão, e eu pensava que isso poderia acontecer comigo tanto como pessoa trans quanto como pessoa negra porque no Japão não há muita margem para dúvidas, para parditudes e coisas do tipo, a minha cor de pele era única, o meu cabelo era único. Principalmente o meu cabelo. E era principalmente o meu cabelo que era elogiado. As minhas laces, que eu sempre considerei que fossem apenas extensões do meu cabelo por isso sempre comprei cacheadas, dos mesmos cachos que meu cabelo faz, variando apenas as cores e o tamanho. Eu pensava "um dia meu cabelo vai crescer tanto que ao menos a lace preta não será mais necessária" e parece que hoje, um ano depois, estamos chegando nesse lugar, já que eu não costumo mais usar lace. Eu era muito elogiada mesmo pelo cabelo, era o que mais chamava atenção, que nunca escapava do radar de ninguém. Talvez isso tenha acontecido de maneira tão positiva porque eu estava em Tóquio, talvez no interior as pessoas não sejam assim tão receptivas a alguém tão diferente, eu não tive nenhuma experiência como travesti negra no interior pra saber diferenciar. Mas Tóquio foi adorável.
Depois disso, seguimos andando pela avenida movimentada rumo a Uniqlo. O comício estava fervendo. Dessa vez eu resolvi prestar um pouco mais de atenção, embora não entendesse nada do que estavam falando, e decidi gravar um pouco. Espero que não tenha nenhum problema, eu ainda não sabia o quanto os japoneses não gostavam dessa coisa de ficar gravando e postando. Mas foi graças a ter postado que eu descobri que era um comício do Sanseito, o partido de extrema direita anti-imigrante. Fiquei espantada com a maneira como a política de rua no Japão funciona: eu não imaginava que poderia ser o Sanseito porque tinha um menino com blusa e cobrindo o rosto, segurando uma faixa com um desenho contra o discurso anti-imigração, então no Japão é possível protestar contra um partido em seu próprio comício sem sofrer nenhum tipo de violência... Uau. Imagina chegar no comício do Bolsonaro segurando uma bandeira escrito "Sangue de 600 mil mortos de COVID nas mãos"? Imagina chegar no comício do Lula segurando uma bandeira escrito... Não sei, qual recado um bolsonarista deixaria pro Lula? "Lula cachaceiro"? Essa pessoa seria morta. Na última eleição teve gente sendo morta fazendo festa pro Lula na sua própria casa, né? Mas no Japão, ao menos nessa última eleição, aparentemente dava para protestar contra o Sanseito no comício do Sanseito.
Eu me senti meio mal quando descobri que era o Sanseito, fiquei com um pouco de medo, mas logo passou porque não me aconteceu nada e não tinha ninguém me olhando esquisito. Também não sei se o Sanseito foi tão interessante assim pra Tóquio. Acho que, como todo partido de extrema direita, deve ter ganhado mais pelo interior mas é só um palpite, posso estar falando besteira. Eu realmente só estou dizendo das hipóteses que levantei no momento, o grande fato é que fiquei muito surpresa que estava num comício de extrema direita, eu trans brasileira, vendo um jovem protestar, e nenhum tipo de pancadaria comendo solta. Foi isso. Nada de opinião política sobre um país que está do outro lado do mundo, apenas observações.
De qualquer forma, seguimos pela avenida procurando pela Uniqlo. A avenida parecia estar meio fechada, com as pessoas passeando pelo meio da rua, plaquinhas e tal, como se fosse a Avenida Paulista de domingo, mas acho que estávamos numa avenida maior e mais central do que a da Uniqlo. Passamos por lá, coisa rápida mas nem tanto. Já tínhamos comprado as nossas roupas, o que fizemos foi dar continuidade a algo que começou no outro dia: tiramos fotos de várias coisas que julgamos interessantes para nossos pais e irmãos e mandamos para eles, falamos para decidirem o que queriam e eles decidiram. Aí nesse dia fomos lá buscar os pedidos deles. Além disso, compramos uma coisinha que esquecemos, já pedido de alguns amigos.
Enquanto isso, nada de resposta de todo mundo sobre o show da Kyary. A Lawson não me respondia, acredito que por ser sábado. Ninguém para quem mandei mensagem direta respondeu, a prima da minha esposa também não respondia. Ainda assim o dia seguinte estava decidido: era pegar um trem para Chiba e ver o que aconteceria. Eu seguia sem esperança alguma, mas não aceitaria morrer sem tentar.
Enfim... Tem horas que eu penso que não deveria contar sobre dias inteiros, porque tem dias que são bem simples e sem uma infinidade de coisas para narrar, como esse. E eu nem sei narrar tanta utilidade pública: em resumo até aqui, konbini da Lawson não serve pra comprar ingresso, vá na Bic Camera de Yurakucho se precisar comprar uma casa inteira, vá no GLITCH CAFE GINZA se você quiser tomar o café colombiano mais forte do mundo, e ao menos até 2025 você podia andar num comício do Sanseito sem morrer. E sobre meus sentimentos: obrigada velhinha que me elogiou em Ginza, você nunca será esquecida. Mas foda-se. Eu gosto de contar tudo. É pra mim mesma.
Depois da Uniqlo, fomos na Donki porque a minha esposa queria comprar mais algumas coisinhas. Eu já estava cansadíssima e resolvi esperar lá fora mesmo. Acho que esse movimento gigantesco de gente foi me consumindo, eu não daria conta de encarar a Donki mais uma vez, ela era um espaço minúsculo lotado de gente se esbarrando, não tem autismo que suporte (eu não tinha um laudo de autismo ainda mas nessa altura não tinha psicólogo que não me sugerisse correr atrás de um). Tudo no Japão é bem pouco espaçoso, aliás.
Quando saímos de lá, já era noite. O segundo alvo era um lugar em Ginza que servia carne de wagyu. É um lugar onde pretendo voltar cheia de dinheiro, porque o rodízio era 10 mil ienes, mas era o primeiro final de semana no Japão e eu já estava preocupada com a quantidade de dinheiro. Na verdade, se fosse hoje, mesmo com a mesma quantidade de dinheiro, eu teria comprado no cartão de crédito e deixado para a eu do futuro se foder, feito empréstimo, sei lá. Não é nem uma questão de me arrepender, é uma questão de que hoje minhas prioridades são diferentes... E que eu sei como frequentar o consignado da funcionária pública. Eu me vejo lá atrás comprando mil e um sapatos diferentes para satisfazer aqueles desejos reprimidos de 30 anos e penso que, se fosse hoje, eu teria muito mais calma. Mas mais do que isso: por ter elevado tanto os meus gastos, e esses gastos continuam elevados desde que eu decidi que entrarei num bendito tribunal de contas e então faço dívida de viagem de avião de tempos em tempos pra fazer concurso, eu tenho noção de que eu sobreviveria se tivesse sido mais feliz no Japão. Eu teria uma dívida de, sei lá, quantos reais a mais eu teria gasto para ser plenamente feliz no Japão com comida e bugigangas? Dois mil reais? Três mil? Eu diria que seria só mil. Sabe, 20 mil ienes eram 600 reais, então seriam uns 500 reais a mais nesse dia. Então eu olharia para essa dívida e pensaria nossa, ok, faço um empréstimo esse mês, olharia para a minha coleção de sapatos já enorme, fecharia os olhos para todas as lojas de sapato no Instagram, principalmente as influencers que fazem você se sentir morta por não comprar aquele sapato tão bonito mas que talvez nem seja assim tão diferente dos outros que você tem, e tudo ficaria muito bem. Então, se fosse hoje, eu teria participado de um rodízio de wagyu. E se for você no meu lugar e você for num lugar que serve rodízio de wagyu, faça dívida e participe do rodízio de wagyu.
É por isso que eu devo contar sobre dias inteiros, aparecem coisas legais que eu devo falar não só sobre o Japão, não só sobre o dia, mas sobre a minha vivência. E eu adoro a minha vivência. Considero ela importantíssima.
Dito isso, como muitas vezes eu já disse nessas minhas histórias de coisas que fiz de errado nessa viagem, eu sou muito tolerante comigo mesma e não posso dizer que fiz algo de errado. Era meu sétimo mês sendo uma travesti pra fora do meu corpo e, por incrível que pareça, se assumir traz um abalo mental financeiro enorme. Como um "menino", eu sempre fui uma pessoa super controlada financeiramente. Sempre fui daquelas pessoas que coloca as coisas em planilha do Excel, aliás, na verdade eu cheguei a desenvolver um software para gerir minhas contas porque tinha muita preguiça de usar o Excel, mas acabei deixando o software de lado porque não programei muito bem a parte de parcelamento e recorrência e também fiquei com preguiça de consertar. Hoje estou refazendo, com uma lógica muito melhor. Mas é isso, sempre muito organizada. Sempre sabendo quanto estava batendo a fatura no mês. A minha maior dificuldade com as contas foi quando veio Mega Man X DiVE, um gacha, e eu não conseguia não gastar, então às vezes ficava com vergonha de colocar que gastei aquele tanto na planilha e colocava tipo um apelido, só pra eu não ficar lembrando que foi com gacha, mas pra não perder o controle das contas também. Depois eu acabei assumindo que eu tinha direito de gastar com o que quisesse desde que não saísse tanto do controle mas, assim, o dinheiro sobrava, eu fiquei anos construindo o montante no Tesouro Direto que seria para essa viagem e outras emergências também sem nenhum problema. Outra dificuldade que foi surgindo com o tempo, e isso já tinha a ver com a minha transição, foi o fato de que eu gostava muito de comprar roupas pra minha esposa, em especial sapatos. Eu dei de presente pra ela uma tamanca da Arezzo de 500 conto e isso pra mim foi o fim, mas antes eu já tinha gastado mais de 1000 reais em compras porque vinham várias. E, assim, eu comecei a minha transição com uma anabela da Schutz com 50% de desconto, uma bata e uma calça da Renner. Eu achei que tudo ficaria sob controle.
Acontece que eu tinha uma sandália plataforma da AliExpress que eu precisava comprar pra mim há anos e ela, junto com todos os impostos, ficaria mais de mil reais. E uma outra sandália meio de dominatrix que eu sempre quis ter de alguma forma, desde a adolescência. E ela custava uns 300 reais, mas com o imposto iria pra 600. Então eu comprei um tamanco da Vizzano baratinho por menos de 100 reais e pensei que nossa, tá ótimo. Mas aí eu não resisti e fiz essas compras na AliExpress. E aí eu fiz muita coisa. Muita, muita coisa. Eu olhava pro dinheiro que tinha ali na aplicação e pensava poxa, não vai faltar. Eu olhava pro fato de que tinha acabado de receber o décimo-terceiro. Era impossível equilibrar as finanças com os meus sonhos. Eu fiz o meu melhor e segui meio mundo de perfis de lojas no Instagram para nunca comprar nada com preço cheio, sempre com desconto, e era a liquidação de verão então haviam descontos, mas não há desconto que resolva o seu problema quando você quer comprar vinte pares de sapatos. E aí eu comprava os sapatos mas só tinha o mesmo conjunto, então eu precisava de mais roupas. E eu continuava olhando o Tesouro Direto e olhando o meu décimo terceiro e pensando que tava tudo bem, eu iria sobreviver.
Aí essa ideia de seguir perfis no Instagram se tornou um problema enorme porque esses perfis não vendem só sapatos, eles vendem a ideia de que você vai se tornar a pessoa mais linda, autêntica, feminina e poderosa do mundo com esses sapatos, e isso para uma mulher trans ou travesti tem uma camada a mais de crueldade porque além de todas essas coisas você se sente comprando passabilidade, comprando os anos perdidos dentro do casulo da cisgeneridade. E dói mais ainda porque parece funcionar, porque a partir do momento em que você é uma cliente frequente naquelas lojas de roupas de shopping que vendem coisas bonitas sim mas que valem cerca de 25% do valor cheio, do momento em que você deixa mesmo seu dinheiro nessas lojas, você compra a dignidade de agir como uma perua e chegar experimentando meio mundo de sapatos e roupas e acessórios porque dificilmente algum vendedor vai preferir expressar seu preconceito do que ficar com o seu dinheiro, as únicas pessoas que te tratam esquisito são as outras clientes. Pra falar a verdade, eu não acho que as vendedoras morram de preconceito e tenham que ficar escondendo de mim, acho mesmo que muitas delas não têm, que estão super acostumadas a atender mulheres trans, que gostam mesmo da nossa conversa, mas é inevitável pensar que tipo de tratamento eu teria numa loja de shopping se eu chegasse bem mais largadona ao invés de com um figurino que custa um salário mínimo.
Então sim, eu entendo a minha instabilidade. Eu de fato sou uma pessoa extravagante que detesta não sair de casa radiante, que coloca uma roupa bonita até pra ir jogar o lixo, mas era, e ainda é, muito difícil separar esse meu traço de personalidade da disforia de gênero. Porque o patriarcado pode fazer uma mulher cis sofrer N coisas se ela não sair bem vestida, ele pode em casos muito excepcionais fazer com que a mulher cis seja confundida com um homem, mas em casos como o meu até eu ter aprendido a identificar e lidar com a disforia não ser confundida com um homem é o que coordenava cada movimento, olhar, modulação de voz, jeito de andar, e também as roupas e maquiagens, eu vivia em função disso. Então talvez a parte divertida de colocar uma plataforma de 12cm pra ir jogar um lixo não fosse assim tão divertida. O capitalismo vender passabilidade é definitivamente cruel e, pra falar a verdade, enquanto eu estava no Japão eu já não estava passando por isso, eu já estava passando pelas consequências disso. Eu já estava passando pela culpa por ter gastado parte do dinheiro que juntamos por anos para estar lá, eu olhava pra mim mesma e ficava muito assustada com meu descontrole financeiro, com medo disso ter se tornado minha personalidade, com medo de que passaríamos por dificuldades financeiras com salário de concursada.
Mas eu ainda era atingida. Eu ainda tive mais uma crise de comprar sapatos meses depois dessa viagem, porque eu fiquei por meses cobiçando sapatos que eu queria comprar mas estava esperando sair em promoção, e aí eles saíram em promoção todos de uma vez junto com meu décimo-terceiro e meu saque-aniversário do FGTS. Até que não teria sido um arrombo nas minhas contas mas eu já tinha começado com a minha loucura de fazer concursos então tinha que conciliá-los com viagens de avião pro Espírito Santo, pra Minas Gerais, pra Brasília e pro Mato Grosso.
Não estamos bem das pernas até hoje. Mas fiquei feliz que em algum momento eu cansei de comprar, cheguei no meu limite, olhei para minha coleção e pensei "eu não preciso tanto continuar comprando, eu tenho muita coisa, eu preciso concentrar minhas energias em comprar coisas realmente originais". Hoje, com um ano e sete meses de transição, sou muito mais consciente dos meus sentimentos: eu sinto vontade de comprar roupas e sapatos quando passo por frustrações de transgeneridade, fico mais vulnerável quando interajo com meus pais ou sogros porque eles me tratam de um jeito que me machuca e eu sinto que uma roupinha me ajudaria a superar; eu não posso seguir determinadas influencers, porque em primeiro lugar eu nem gosto de influencer de moda, é um ecossistema de direita um pouco mais inteligente do que as tradwifes mas com muito intercâmbio de ideologias, mas ver esses closets cheios de coisas que eu gostaria de ter (mesmo que nem tanto), ver elas performando feminilidade por meio dessas roupas e dessas posses, também é algo que ataca minha disforia mesmo que de forma sutil. Eu posso até não querer ser como elas mas eu quero esse "algo" que elas tem que as reafirmam como mulheres, mesmo que eu nem me identifique com isso de fato porque eu não sou uma pessoa binária, mas como existe em mim um horror em ser identificada como homem e uma tranquilidade em ser identificada como mulher então esse lugar inconquistável das influencers parece ser confortável. E tem outras coisas também que eu sei sobre mim que me ajudam a não gastar tanto com roupa, além da consciência nesse momento de que, se eu gastar com roupa, vou ter que pedir mais um empréstimo.
Me sinto feliz por falar dessas coisas porque, insisto, um dos grandes aspectos da viagem pro Japão foi que eu fui eu mesma o dia inteiro, a semana inteira, pela primeira vez. Fico feliz de narrar isso, todos os dilemas, olhar para trás e ver o que melhorei, pensar que outras pessoas podem ter passado pelo mesmo.
Mas o fato aí é que era noite e estávamos caminhando para um lugar desconhecido em Ginza em busca de um wagyu muito gostoso recomendado por um amigo. Eu estava cansada, é claro, principalmente por conta dos estímulos da multidão, com o acréscimo de que eu continuava sendo a pessoa que falava inglês então tinha que resolver as coisas, achar os lugares no mapa, etc. Mas nessa altura a minha esposa já tava ficando um pouco independente na comunicação, já que os gestos também comunicam muito e algumas palavras básicas todo mundo sabe.
Então chegamos nesse lugar: eu sinceramente não me lembro o nome mas era tipo um segundo andar de um prédio, como muitos outros restaurantes, como a pizzaria do dia anterior. Pouco espaço, muito estabelecimento, fica assim. Era um lugar meio escuro, um clima gostoso, aquela mesa de churrasco oriental (eu já vi usarem mesas assim para churrasco japonês e sul-coreano) e um povo muito disposto que nos ensinou como deveríamos fazer cada coisa. O wagyu era divino. Divino, divino, divino. A comida era incrível. De fato, precisamos voltar e precisamos comer o rodízio. O wagyu do outro dia era muito bom também mas, pra começar, aqui não estávamos com pressa porque o restaurante iria fechar, e depois de fato compramos melhor, com calma, pensamos na carne, na bebida. Foi ótimo. Eu não lembro com detalhes qual foi o pedido, mas consigo lembrar muito bem daquela atmosfera alegre e silenciosa do lugar, a sensação boa de comer uma carne tão gostosa, e a vontade de voltar. Além de um enorme cansaço, um exaustivo cansaço.
Quando saímos de lá, mais uma vez, fiz aquilo que rolou da outra vez em Ginza: ao invés de olhar no mapa, decidi simplesmente seguir a rua ao invés de procurar o caminho mais fácil, pensando que aquele sentido já era o correto em direção a Yurakucho e querendo ver coisinhas que não tínhamos visto antes. Estabelecimentos, pessoas diferentes. Aquela experiência de chegar nas linhas de trem e ver aquele lugar boêmio da outra vez foi legal mas não tinha pra que eu ver de novo, eu queria ver esse centrão de Ginza no final da noite mesmo, o movimento das pessoas aos poucos indo embora já que parecia ser um lugar muito baseado em restaurantes e lojas. Ginza não parecia ter tanto espaço para sentar e ficar tranquila, é uma região que está sempre em movimento, as pessoas sempre circulando, saindo de um lugar e indo até outro. É diferente de Otsuka e Shibuya. Ficamos só em centros comerciais de Ginza, vi um parque pequeno mas sempre pouco movimentado, pode ser que existam outras partes mais pacíficas e menos transitórias, mas é que o centro comercial de Ginza é enorme, gigantesco, então nunca sequer conseguimos sair de lá. Em Ikebukuro o centro comercial era gigante mas, como estávamos na parte residencial do bairro, nós caminhamos, passamos por pracinhas, as casinhas foram lentamente se convertendo nos prédios enormes do centro comercial, enquanto Ginza parecia ter só isso. Acho muito possível que tenha mais coisa, mas não exploramos mais. Esse foi nosso último dia em Ginza, até teve um outro mas foi super rápido, coisa de descer em Yurakucho, correr pra Uniqlo, comprar algo que ficou faltando e já voltar porque nosso alvo do dia era outro.
Foi um dia ótimo mas, para ser sincera, não acho que Ginza mereça mais do que um dia. Claro que tudo merece se você descobrir as coisas certas mas um dia bem cheio, chegando de manhã, tomando um cafézinho gostoso, explorando o centro comercial, almoçando em algum lugar (não sei se esse restaurante onde jantamos abre no almoço, seria uma boa pedida), passando a tarde na Uniqlo, e aí ou jantando wagyu se o lugar ali não abre para almoço ou passando a noite na boemia ao lado de Yurakucho está bom demais. A Bic Camera de Yurakucho é legal de se ver, mas não tem necessidade nenhuma se você não mora no Japão e não vai mobiliar sua casa. A Donki de Ginza é cara, alguns bairros têm Donkis mais baratas, inclusive Ikebukuro. Ginza num geral é um bairro caro. A própria Uniqlo de Ginza é mais cara que a de Harajuku, mas a Uniqlo eu digo que vale a pena porque é a maior, tem muita coisa legal e tudo muito bem organizado.
Quando eu voltar pro Japão, Ginza será apenas um dia, mas será um dia cheio. Eu vou acordar sete da manhã, me arrumar com uma hora, pegar um metrô e chegar em Yurakucho às nove. Viver Ginza o dia todo, encher a cara à noite e voltar pro hotel. Não adianta querer madrugar nesses bairros e acordar muito tarde, ao meu entender o Japão é um país bem diurno, tem muita coisa interessante para se viver de dia.
Já estava tarde quando pegamos o metrô, mas ainda não era tempo de desespero, de pegar um dos últimos. Essa minha ideia de andar aleatoriamente até chegar em Yurakucho acabou fazendo com que pegássemos uma entrada desconhecida, difícil de entender e de chegar até a Yamanote Line, já que a estação era pequena vista de cima mas enorme na parte subterrânea, acho até que nos perdemos lá. Foi divertido. Logo chegamos em Otsuka, tudo certo, e dessa vez não pegamos bonde nenhum, apreciamos a praça lotada de pessoas descansando às onze horas da noite, subimos a ladeira, encontramos o hotel bem rápido e chegamos lá. Não sei dizer se nesse dia minha esposa quis passar no Seven-Eleven pra comprar alguma coisinha, mas quase todo dia aconteceu, então considere evento diário.
Um detalhe que não mencionei, mas que me consumiu muito, é que não conseguimos comprar os ingressos pro show da Kyary. Ele esgotava num horário ali bem tarde mas, poucas horas antes, o lote já tinha esgotado. A prima da minha esposa respondeu só à noite, eu tive uma resposta positiva na DM à noite também e, apesar de ter ficado triste porque não rolou, eu me surpreendi muito com a boa disposição, afinal, era uma pessoa que nem me seguia, nem me conhecia e que eu já admirava, acabou que ela me seguiu também depois disso e fomos felizes pra sempre. Mas o problema estava ali e só me restava uma chance: ir até Chiba na maior cara de pau e, sei lá, implorar pra entrar, chorar, ouvir o show lá de fora se pudesse, fazer qualquer coisa. Essa era a missão do dia 20 de junho de 2025. Precisávamos dormir porque nesse dia não dava para acordar ao meio-dia, nesse dia teríamos que sair do hotel no máximo às onze da manhã.
Que a missão comece.