Não compre passagem de ônibus para fazer viagem internacional. E a última vez que vi meus pais
Domingo, 13 de junho de 2025. Esse dia começou meia-noite em ponto. Sim, porque existem dias que não começam meia-noite em ponto, já que você está dormindo nesse horário. Existem dias que não começam meia-noite em ponto porque eles não passam da continuação do dia anterior. Dizem que o dia só acaba de fato quando você dorme e eu costumo concordar com isso, mas acho que esse dia em especial é um dia que começou meia-noite em ponto. Eu poderia dizer que começou entre meia-noite e uma da manhã, que foi quando o ônibus chegou e eu e a minha esposa embarcamos, mas é melhor dizer que foi meia-noite.
Meia-noite e bem pouco foi quando meus pais chegaram na rodoviária, sem avisar que chegariam, para se despedirem de nós. Já foi uma situação complicada em que a “sorte”, digamos assim, estava do meu lado, porque eu tinha refletido muito sobre fazer a viagem desde o início já vestida com as minhas roupas adequadas, mas percebi que não seria uma boa ideia porque a viagem passava por Dubai. Ainda assim, também pensei sobre ir para Guarulhos, para o hotel, já com essas roupas, mas intuí muito corretamente que não teria essa coragem. Pensando bem, nessa época era bem mais difícil de viajar: meus documentos não estavam corretos, eu não usava meu nome social nem mesmo nos cadastros de sites, tinha um “Henrique" lá fazendo a reserva do hotel. Não fui. Que bom. Meus pais chegaram de surpresa e estavam tão ansiosos quanto nós, meu pai botou defeito na mala que peguei emprestado (não porque a mala era ruim mas porque, supostamente, seria alvo fácil dos traficantes que colocariam droga dentro dela para transportar), botou defeito que eu levei meu notebook (foi um bom defeito, mas eu não tinha pesquisado sobre padrões de tomada do Japão para perceber que eu não conseguiria carregar lá), tentou inclusive abrir minha mala para pegar o notebook de volta e deixou meu cu na mão com isso porque poderia ver todas aquelas roupas lá e… não era difícil jogar tudo nas costas da Vivian, mas tudo é constrangedor quando você está escondendo um segredo mortal das pessoas.
Isso foi algo que eu pensei agora, nesse momento, enquanto decidi escrever esse texto sobre o terceiro dia para a viagem ao Japão: esse momento na rodoviária foi a última vez em que vi meus pais sem que eles soubessem que sou uma travesti. Não vou contar com todos os detalhes agora, já que haverá o dia certo para isso mas, no meio da viagem, eu acabei revelando isso a eles e desde então a vida de nenhum de nós foi a mesma. Então esse momento tem muito significado, pensando bem. Essa primeira hora do dia que começou meia-noite em ponto é muito importante. Enfim. Ficamos de acordo que, ao chegar em Guarulhos, ao invés de ir direto para o hotel, eu chegaria no aeroporto e me informaria sobre se a minha mala era embarcável (porque na cabeça do meu pai a mala era tão insegura que o pessoal nem deixaria embarcar), eu mandaria cada segundo de notícia para eles, avisaria tudo. E foi isso. Pegamos nosso ônibus velho fudido de uma empresa de ônibus que não vou mencionar e partimos para a estrada.
É importante dizer: essa foi a ideia mais idiota que eu já tive na minha vida. Meu conselho é: se você vai para o Japão, não queira economizar dinheiro com uma passagem de ônibus, faça o trajeto todo de avião. “Esse conselho é muito idiota” para você que nunca foi pobre pode ser mas, para mim, é importantíssimo. Você vai gastar quase 20 mil reais de passagem de avião de Guarulhos para Tóquio, que se fodam mais 2 mil reais para ir de Londrina a Guarulhos de avião, sabe? Pega um empréstimo, sei lá, foda-se. E, se for fazer essa idiotice de pegar ônibus, pegue um ônibus que preste. Mas não pegue. Nunca vá de ônibus de Londrina a Guarulhos para fazer uma viagem internacional de avião depois. Seja pobre premium. Foda-se.
Eu peguei um ônibus de uma viação que já tinha comprado antes, era boa, mas nunca tinha pagado tão barato numa passagem e não suspeitei que poderia dar merda: em primeiro lugar, o horário do ônibus era meia-noite, mas ele estacionava tipo no cu da rodoviária, no lado da rodoviária em que nenhum ônibus estacionava, e quando eu fui perguntar a alguém da viação a pessoa me respondeu “ah, você sabe, né, diz meia-noite mas ele chega entre meia-noite e uma da manhã, pode esperar aí de boa”. OK. Aí embarcamos nesse ônibus e não me lembro se ele parou no Graal ou em qualquer restaurante, estávamos de bucho bem cheio por conta da festa de casamento do dia anterior, não tinha nenhum problema.
O problema foi que, quando o céu estava clareando e eu ainda dormindo, em alguma altura ali da Rodovia Castello Branco, o ônibus parou do nada. Acordei, OK, logo ele voltou a andar, mas já era um presságio. Então, assim que chegou em Osasco, acho que faltando uma quadra de distância da rodoviária, o ônibus faliu de vez, pediu arrego. Demos sorte dele ter pedido arrego aí. Esperamos um pouco e eu decidi que iria a pé até a estação e de lá já pegaria o trem para a Barra Funda e depois Guarulhos, ao invés de esperar, sei lá, eles consertarem ou mandarem outro ônibus para ele entrar na rodoviária de Osasco, descarregar a galera, depois partir para a Barra Funda. Nessa caminhada de uma quadra no asfalto puro, sem calçada nem nada, é que eu descobri que a mala de fato era dificílima de carregar, cheguei já com os braços cansados no terminal e começamos nossa aventura de trem.
Importante dizer, eu não fui tão burra assim. Comprei passagem de ônibus nessa tranquilidade toda porque o vôo para o Japão era na madrugada de domingo para segunda. Nunca teria passado na minha mente de comprar uma passagem que fosse, tipo, dez da manhã, “ah, eu vou chegar sete da manhã em São Paulo, vai dar tempo”. Eu sei o quanto São Paulo colabora para arruinar seus planos então tudo precisa de muitas horas de antecedência. Não imaginava que a Viação Cu do Paraná é que seria a primeira vilã da história.
Então chegamos no terminal de Osasco, com aquele climinha anormal que todo terminal da região megalopolitana de São Paulo tem, esperamos o trem e entramos no trem. Sentido Barra Funda. Descemos na Barra Funda, não tivemos pressa alguma de correr e tentar pegar um trem para Guarulhos antes que ele partisse, andamos tranquilamente até chegar lá e esperamos bastante tempo. Eu ligada no 478374357V porque ainda morro de medo de ser assaltada em São Paulo e, nesse contexto específico, a última coisa que poderia ocorrer era roubarem minhas malas ou meu celular ou qualquer outra coisa. Pegamos o trem. O trem parou no meio do caminho para uns guardinhas investigarem não sei o que, e é claro que sempre rola um medo subjetivo do guardinha implicar comigo mas nada aconteceu, passou. Chegamos em Guarulhos. A mala era impossível de carregar mas carregamos, pegamos ônibus com ela, andamos o aeroporto com ela, eu descobri que dava para embalar a mala por apenas algumas centenas de reais, fiquei revoltada mas pensei em não desrespeitar conselho de pai porque eu ouviria pelo resto da vida se algo acontecesse. Almoçamos uma belíssima comida de restaurante tradicional, porém de shopping. Fomos para o hotel. Descansamos. Eu recebi uma sandália lindíssima preta no verniz que tinha combinado com uma loja de São Caetano do Sul, o que já foi mencionado em algum capítulo anterior, provei e fiquei linda, mas guardei para não usar nunca porque não encararia usar um salto 15 em Tóquio por mais grosso que esse salto fosse. Fui usar essa sandália na rua pela primeira vez esses dias, quase nove meses depois.
Então fomos até o aeroporto. Aquela ansiedade absurda, o tempo todo um medo de que algo ruim iria acontecer e perderíamos o vôo, que era apenas uma hora da manhã. Era nove da noite quando saímos. Conferimos todas as bagagens possíveis para ver se tinha objeto cortante, objeto inflamável, tivemos medo de embarcar até nossa necessaire de fazer unhas por conta do alicate e dos esmaltes, como se esmaltes ou acetona pudessem explodir um avião. A nossa mala realmente tinha um formato irregular mas foi só levá-la a um lugar específico onde se embarcavam malas de formato irregular e deu tudo certo, o peso não era maior do que o permitido, tudo certo. Mas ainda havia medo. Carregando o celular com medo de perder o vôo, mesmo que ele fosse horas depois. Jantando rápido com medo. É necessário dizer que não foi nem a primeira vez que fiz uma viagem internacional, muito menos que peguei um avião, mas fazia sim bastante tempo desde a última vez. Cerca de nove anos. Mas acho que toda essa ansiedade, todo esse “confere tudo”, todo esse “acho que vamos perder”, é porque era a viagem da minha vida. Tóquio, Japão. Não parecia que estava acontecendo mesmo, eu não sabia lidar, a minha cabeça estava assim inventando um bilhão de coisas que pudessem acontecer porque eu estava inquieta demais. Sei lá, é bastante improvável que as coisas dêem errado quando você chega no aeroporto com seis horas de antecedência, quando você chega em Guarulhos com dezoito horas de antecedência, tudo o que pode dar errado é sanável antes do embarque. Ansiedade é foda.
Esse dia não acabou meia-noite, ele acabou uma hora da manhã, quando embarquei no avião que sairia de Guarulhos e chegaria em Dubai onze horas da noite no dia seguinte.