Portfólio

21 de agosto de 2026

Olá! Meu nome é Lis Núbia, escrevo desde pequena para sobreviver à existência no mundo sem me perder.

Isso aqui era para ser originalmente um portfólio da minha produção artística, e de fato foi. Eu entreguei uma ficha com meu nome, minha idade, minha profissão, etc etc para participar de um projeto (segredo). Não acreditei que o portfólio fosse ser aprovado porque ficou extenso demais e nada do que escrevi é profissional, não são livros, não são histórias já finalizadas com uma quantidade X de páginas, eu nunca passei por uma revisão editorial na minha vida (e morreria de medo? Talvez. Talvez não. A música pode ter me educado bastante nisso). Mas funcionou. Dito isso, esse portfólio do site é ainda mais extenso porque pretendo colocar mais sentimentos neles. A versão do projeto era mais para me apresentar através das histórias, não para me abrir tanto a respeito delas. Como estamos agora em uma publicação no meu site, eu posso e quero contar mais ainda.
De qualquer forma foi uma intensa experiência de dois dias revisitando meus textos, reencontrando uns bem antigos e, pela primeira vez, contando o que eu estava passando, como estava me sentindo, quando escrevi alguns deles. Eu me senti tão viva! Porque quando os escrevia eu tinha que esconder o que sentia, às vezes até de mim mesma. Eu tentava inventar histórias para justificar essas histórias. Agora não, é isso mesmo! Quando eu escrevi Lisbeth foi isso mesmo que aconteceu, quando eu escrevi a Noite na Pequena Londres foi isso mesmo também. É muito libertador poder dizer. É muito gostoso. É muito reconfortante olhar meus textos, reconhecer neles que Lis Núbia sempre foi real e, mais do que isso, contar o que eu sentia em cada uma das fases antes de Lis Núbia sair do armário. Espero que gostem, que tenham carinho. E que, se você tem uma relação com a escrita tão forte quanto a minha e não faz isso, passe a olhar para seus próprios textos com muito mais carinho também.
Eu nunca fui muito lida mas, ainda assim, escrever sempre foi a minha maneira primária de me expressar, de colocar para fora minhas dores, meus questionamentos e, quando entendi que a minha identidade não tinha espaço no mundo exterior, escrever foi a minha única maneira de contar quem eu era, mesmo que eu negasse quando me perguntavam. Por isso eu escrevi tanto. É claro que eu adoraria ser lida. Que, se você gostar desse portfólio, eu ficarei feliz de você procurar alguma dessas histórias públicas e tentar ler, mesmo que eu mesma me incomode muito com a minha fase evangélica (2015-2018) e suas milhares de indiretinhas teológicas nos textos. Você pode se incomodar também, mas pense que escrever esses textos foi justamente o que me tirou dessa fase. Que eu escrevia "homem é homem, mulher é mulher" mas terminava com "e eu sou muito mais uma mulher" sem entender o que significava, e não posso me isentar da responsabilidade por ter escrito essas palavras mas acho que, quando a contradição fica tão estampada com um parágrafo de distância, dá para entender que alguém ali estava em sofrimento, debaixo de forte opressão.
Mas você pode só ler esse portfólio, não se interessar por nada e por mim tudo bem. Esses textos já saíram. Eles já me libertaram. Eles já cumpriram seu papel. Tudo o que eu escrevo, em primeiro lugar, eu escrevo para mim. Ainda essa semana eu escrevi um conto erótico para libertar a minha libido dos resquícios do mundo evangélico, eu sou assim. Se você for também, eu recomendo que aceite, que abrace isso, que seja feliz com isso. Não fique se sentindo idiota porque só consegue vencer os problemas da vida depois de colocá-los no papel, é só quem você é. Tenha orgulho do que escreve, encha os pulmões e leia em voz alta, interprete, sinta-se lá dentro porque você está. Mas chega de papo, vamos ao que interessa: vamos ao portfólio.


Passei a infância e adolescência escrevendo fan fictions em fóruns de internet, e histórias de ficção autorais em meu caderno. Algumas se perderam, outras acabei salvando em algum lugar. Na infância e na adolescência (2000-2010) a minha temática predominante era tecnologia (robótica, inteligência artificial, mudanças climáticas causadas pelo desenvolvimento desenfreado) e sentimentos causados pela injustiça social.
Dessa época destaco:

System of a Chaos (2007-2011): uma fan fiction baseada na série de videogame Sonic The Hedgehog que comecei, reescrevi várias vezes e acabei terminando com um final ruim, distópico, onde robôs superinteligentes acabam dominando o mundo. A história possui 156 páginas. Embora o tema central siga sendo a tecnologia, os conflitos e até bastante "lutinhas" de desenho, afinal a história era baseada em Sonic, a última parte foi escrita já no final da minha adolescência. Envolvia a introspecção do protagonista, um robô ultrapassado e descartado, e essa introspecção tinha tudo a ver com o que eu passei durante a adolescência: um eterno questionamento do por que existir, não saber lidar com o sentimento de ser descartável, esse olhar cínico para o mundo evoluindo tecnologicamente de um jeito muito pouco apreciável e achar que ele vai acabar; e, em especial, nas últimas páginas, o surgimento da Lilly, uma contraparte do protagonista, que tenta tirar dele todos os sentimentos ruins mesmo que seja à força, como se a sobrevivência dela mesma dependesse disso. Essa relação do protagonista com a Lilly é muito um esqueleto do que era a relação de Lisbeth e Elliot, mas mais tarde vou contar sobre eles. Apesar de ser uma história tão antiga ela foi uma das mais importantes para mim. Ela foi essa primeira história séria - mesmo que fosse uma fanfic de Sonic, mas nunca nem sequer se pareceu com fanfic de Sonic, ninguém nunca achou parecido. De semelhante só que todo mundo era furry e que o nome dos robôs era "(letra)-(número de 3 dígitos) (codinome)" -, em que coloquei meus medos com os rumos da humanidade, em que expressei essa dualidade de gênero por meio de dois robôs que foram feitos para ser um só e toda a profundidade emocional disso. Por ter essa importância toda é que o personagem principal ("N-105 Nubobot", embora Nubobot já seja um apelido com significado antes da história) foi minha identidade na internet por décadas e entrou para o meu nome retificado ("Núbia").

Metamorfose (2007-2011...): uma ficção científica que não completei sobre um futuro que demandou a construção de cidades flutuantes porque o planeta reagiu a degradação acelerada com a elevação irreversível do mar, e então o nascimento de pessoas paranormais, com superpoderes, bem X-Men, mas bastante orientalizado pela minha relação com mangás e animes. A história também é bem parecida com X-Men na ideia de lidar com o conflito desses paranormais com os seres humanos comuns, embora os paranormais a princípio fossem vilões, e só depois eu tratasse de mostrar a visão deles e passasse a questionar situações como violência policial, evolução tecnológica irresponsável, abandono estatal, desigualdade social, entre outros, que os atingiam. A ideia era separar a história em "livros", o primeiro chegou a ser completado e também ficou ali próximo das 180 páginas. Parei de escrever no meio do segundo. Não publiquei essa história, no máximo compartilhei com meus melhores amigos da época.
Me dá nos nervos pensar nessa história porque ela foi "a" minha história da adolescência. Enquanto eu usava apenas o computador para escrever a System of a Chaos, eu escrevia a Metamorfose no caderno, o que significa que era o que eu fazia quando tinha tempo sobrando na escola, em casa, na casa da minha avó, na praia, em todo lugar. Aí todo mundo ficava me tratando como a pessoa esquisita que ficava escrevendo, espantavam-se com como eu escrevia tanto porque, afinal, se o primeiro livro da Metamorfose deu 180 páginas no computador, é porque ela deu 476 páginas no caderno. Eu acabava um caderno, começava outro, todo mundo me achava um prodígio ao mesmo tempo em que tinha horror a mim por ser nerd demais. Meu pai me pressionava para acabar logo e ganhar o troféu de pessoa que publicou um livro antes dos 18 anos. Hoje, aos 32, eu com certeza já escrevi mais de 10 mil páginas, mas nunca publiquei um livro. Interessante, não?
Eu não acho o roteiro da Metamorfose grandes coisas, nunca achei. Era uma história de mutantes como qualquer outra. O que me encantava era descrever a relação das personagens. A vilã inicial era uma mulher, Aurora. Ela era poderosa, cruel, muito objetiva com seus planos, mas tudo isso acontecia pelo amor que ela tinha pelas crianças órfãs paranormais que ficaram com ela, junto com o sonho de se unir ao seu filho roubado. E eu adorava escrever essas contradições, principalmente nas personagens femininas que eram sempre muito fortes, determinadas e ousadas, embora o "filho roubado" (Hércules) fosse o protagonista da história junto com a única pessoa que não se tornou paranormal por acidente e sim de maneira deliberada, a Ísis. Eu dedicava muito mais tempo a escrever momentos afetivos e desafetivos entre as personagens do que avançar o roteiro. Por isso, depois que todo mundo ficou bem e a ameaça externa apareceu, escrevê-la passou a me entediar.
"E algum personagem com disforia de gênero, Núbia, teve? Se até robô com disforia teve" bem, eu sempre dava um jeitinho: no final do primeiro livro o personagem principal, numa sequência inusitada de acontecimentos, começa a namorar uma personagem com poderes psíquicos, vê essa personagem morrer em seus braços e ela, num ato mais passional do que de sobrevivência, usa todas as suas forças para "se instalar" na cabeça dele. O drama do segundo livro era para ser sobre a puberdade dos paranormais, que era um processo muito doloroso mas que os dava novos poderes, coerentes com os poderes que já tinham antes, mas eu lembro que uma das coisas mais importantes para mim era explorar essa relação dessa personagem com poderes psíquicos vivendo dentro da mente do protagonista. E era com o protagonista, não era qualquer personagem, embora eu não fosse muito dessas que fazia grande distinção entre o protagonista e o resto e gostasse de explorar a história e as emoções de todos, o que poderia ser um porre para algumas pessoas mas para mim era essencial.
Acho que se eu relesse, elaborasse um roteiro vagabundo para rodar a história enquanto os personagens interagem, eu conseguiria terminar. Um dia, quem sabe, eu falo com essa Lis da adolescência, que se escondia muito nesses dramas românticos e introspectivos de todas as personagens, mas aumentarei um pouquinho a idade delas. Quando você tem 13 anos até que se dá uma colher de chá para escrever sobre romances profundos entre adolescentes de 13, já com 32... é melhor não.


No início da minha juventude me dediquei muito mais a blogs, ficcionalizando minha vida, que eu considerava a de "um nerd fracassado". Cheguei a ter um blog ridículo chamado "Zero mulheres" em que eu contava todas as vezes que me apaixonava por meninas, imaginava sobre como seria nossa vida juntos, como seria um romance, para no final descer no ponto de ônibus de casa e lembrar que eu não passava desse "nerd fracassado". Além disso, usava muito o blog para escrever poesias, cartas de romance mais sérias para pessoas por quem eu sofri por amor não correspondido, revoltas com a vida, com as estruturas sociais, temas que bombavam na internet, resenhas de videogames, de música e tudo mais, da minha perspectiva entrando nessa juventude. Muitos desses posts se perderam, só consegui resgatar o Zero mulheres (que revisei e tratei de eliminar alguns elementos de misoginia muito latentes, que na época, 2011, passavam despercebidos não só por mim mas por grande parte da sociedade), meu blog principal chamado Fazer Nada é TUDO e meu blog para escrever sobre música chamado O fluxo, que estão incorporados no meu site.

No meio dessa juventude surgiram meus dilemas existenciais e conflitos com minha identidade de gênero. É importante observar algumas coisas: era 2011, eu cresci num lar evangélico no interior do Paraná, eu não fazia ideia do que era "uma pessoa trans", travesti para mim infelizmente era a mesma coisa que prostituta. Só não tinha informação nenhuma disponível para mim. Eu nunca descobriria que o que estava sofrendo era disforia, que eu era uma pessoa transgênero, que EU era a tal "travesti". Anos depois, quando amigas minhas se assumiram trans, foi assustador para mim porque eu estava na contramão disso tudo, dedicando toda minha vida a me livrar dessa agonia por meio de fingir que nada disso existia. Mas isso foram anos depois, nessa época eu só conseguia viver os dilemas, e esses dilemas então assumem a forma de textos introspectivos em primeira pessoa e tentativas de dar forma fictícia a essas "personagens" que surgiram dentro de mim e me conectavam a uma identidade feminina. Dessas histórias destaco:

Lisbeth / Melodia dissociativa (2011-2015): várias cartas que escrevi para mim mesma vivendo o que na época eu acreditava ser um "transtorno dissociativo de identidade". Eu, até então acreditando ser um menino, descobri que só conseguia falar dos meus sentimentos e da minha existência com profundidade quando incorporava uma mulher. Essa mulher tomou a forma de "Lisbeth", muito influenciada pelo álbum Sirens da cantora Lisbeth Scott. A minha contrapartida masculina, ao invés de receber meu nome morto, acabou recebendo o nome de "Elliot", inspirado em um dos meus artistas favoritos: Elliott Smith. Lisbeth (vs. Elliot) consiste em uma obra com duas partes: uma pública, que eu divulgava nos blogs, onde quase sempre só a Lisbeth escrevia, expressando sentimentos lapidados de solidão, vontade de se compreender, de se curar, de pedir ajuda; uma privada, presa no meu caderno, com textos totalmente irregulares, sobrepostos, palavras muitas vezes escritas apenas para criar formas de desenho, tentando traduzir toda a dor existencial, toda a inconformidade com o mundo, as ideações suicidas, a vontade de matar minha "parte masculina" e o medo de viver no mundo só com a minha "parte feminina" sabendo que eu tinha aquele corpo.
Do texto privado mais importante para mim, onde definimos que Lisbeth e Elliot não eram inimigos, que nós precisávamos sobreviver com aquele corpo, aprender a amar aquele corpo, amar aqueles sentimentos, aquela sensibilidade, então não podíamos mais continuar nos destruindo e mutilando, surgiu a capa da minha demo "heartshaped star". Essa "destruição" e "mutilação" é literal. Alguns dos meus amigos sabem, mas todo mundo precisa entender que, nessa época, eu já vivia a história de uma pessoa trans assumida para mim mesma, ainda que sem saber o que significava isso. Eu não tinha coragem de falar para ninguém que meu nome era Lisbeth ou Elliot mas eu nunca me chamei pelo nome morto nessa época, nunca. Jamais. Eu me sentia horrível de escrever meu nome morto no papel, eu me sentia uma farsa, mesmo sem entender o motivo. Então quando falo de mutilação, é porque o desespero era tanto que, de fato, eu me mutilava, eu tinha mesmo ideações suicidas, eu fazia chantagens emocionais comigo mesma, eu às vezes usava peças de roupas só para metade do corpo, Lisbeth era a história que se refletia totalmente na minha vida real e vice-versa. Existem textos públicos que são verdadeiros pedidos de socorro, porque eu não dava mais conta de suportar o peso dessa disforia invisível. Falo isso com muita convicção: disforia. Porque quando leio o Lisbeth público eu me vejo nela, eu sei que sou ela, mas foi lembrando de todo esse reflexo no caderno que eu lembrei que já existia, de fato, palavras escritas em 2011 sobre eu querer que as pessoas me vissem como uma mulher, me tratassem como uma mulher, idealizar as roupas que eu queria vestir, os sentimentos que eu queria viver, e "saber" que tudo isso iria ficar no papel para sempre. E chorar, chorar muito, chorar de tristeza, de raiva, de desespero, escrevendo essas coisas.
O mais assustador não é que eu escrevi tudo isso, isso faz parte, o mais assustador é saber que eu consegui esquecer que escrevi tudo isso: a história infelizmente acabou quando eu escrevi uma carta de despedida para a Lisbeth após retornar à igreja evangélica, contexto que me levou a entender que eu não podia manter "uma mulher" dentro de mim, me sujeitando a um período de extrema dessensibilização, despersonalização e apatia. Não é motivo de infelicidade a história acabar, a tristeza vem mais da maneira como ela acabou. Além disso, eu produzi algumas poucas músicas relacionadas a essa história para tentar expressar de outras formas o que estava sentindo ali.
Foram 13 cartas públicas e incontáveis páginas de caderno.

Project Dissonance (2011-2022...): um projeto megalomaníaco de jogo, livro e álbum de música envolvendo esses dois "personagens". Baseado em Mega Man, minha série de videogame favorita. Lisbeth e Elliot (codinomes Free jazz e Smooth jazz, respectivamente) assumem o papel de agentes secretos em um país qualquer. Enquanto Lisbeth é uma veterana, Elliot acabou de chegar no país como imigrante e eles precisam assumir um casamento de fachada tanto para manter Elliot no país legalmente quanto para ninguém suspeitar deles. Os dois vão desenvolvendo um relacionamento confuso porque, enquanto pessoalmente Lisbeth é dócil e Elliot é uma pessoa super grossa e arrogante, nas missões ocorre o contrário, com Smooth jazz se sentindo frágil e inadequado e Free jazz sendo uma pessoa estressada, rigorosa e intolerante a qualquer erro do companheiro. A ideia dos "chefões" era representar sentimentos dos personagens e, conforme a história se desenrolava, os personagens iam descobrindo que eram um só, que estavam sofrendo de dissociação de identidade. Como produção literária - um roteiro, na verdade, envolvendo inclusive as decisões do jogador e qual diferença elas faziam para o jogo - eu cheguei perto de completar a metade da história, da introdução ao sexto "chefão". Como produção musical cheguei um pouco mais longe, fazendo introdução, fase de abertura, várias fases e a música principal, que é o tema do conflito entre a Lisbeth e o Elliot. Ainda tenho a história completa na minha cabeça com os diálogos, mas perdi o conceito das fases e dos chefões. Não publiquei nada dessa história.

Marina (2013): era minha história quebra-gelo no meio desse monte de coisa pesada que eu escrevia. Marina era uma otome apaixonava por anime, videogame, visual kei, cosplay, yaoi e tudo mais, mas namorava um heterotop e por algum motivo muito misterioso envolvendo, claro, o fato deles se respeitarem e defendê-los das piadinhas idiotas do contexto social de cada um, o relacionamento dos dois dava certo.

Jardim fantástico (2013-2017): uma história que eu escrevia sempre que tinha alguma crise existencial muito forte e precisava me recompor, muito inspirada na banda japonesa de rock progressivo e darkwave ALI PROJECT. Nela, uma bruxa que existe há milhares de anos e cuida de um jardim encantado recebe um garoto (conforme a história narra, mas a própria bruxa é um pouco relutante em definir seu gênero) e acaba adquirindo um carinho de mãe por ele, os dois conversam, se confundem, se encontram, ela ensina várias maneiras diferentes de encarar a vida a ele e é isso. É importante dizer que eu sempre saía muito diferente depois de escrever um capítulo, às vezes me sentia irreconhecível. Era normal um capítulo me tomar um mês inteiro, e nesse mês eu não comia direito, eu não socializava direito, nada saía muito bem. A ideia de chamar o lugar de "Jardim fantástico", além obviamente de ser o título do primeiro álbum do ALI PROJECT (Gensou Teien), era justamente porque eu entrava, me perdia e só voltava ao normal depois de sair.

Rebecca (2014): uma história que só consegui completar muitos anos depois, mas pulei quase inteira porque não tinha condições psicológicas para sustentá-la, ainda mais depois que voltei à igreja. Rebecca é a história de uma mulher que vive um relacionamento muito conflituoso com o seu namorado e, de repente, algo macabro acontece e seu namorado passa a ser apenas um boneco de pano, imóvel e indefeso, mas com a capacidade de sentir dor, e esse acontecimento testa toda a moralidade dela já que ela tinha a oportunidade de descontar todo o ódio que sentia dele. Cada dia que passava ele ganhava um minuto de liberdade, um minuto onde voltava a ser humano e podia fazer o que quiser, mas era Rebecca quem controlava quando isso aconteceria e isso poderia ser revogado se ele se mostrasse uma ameaça.


O meu período na igreja evangélica fez com que eu extravasasse os meus sentimentos e conflitos de identidade de outras formas, então eu acabei mantendo minha escrita muito frequente, sempre levando meu caderno a todos os lugares e tentando construir personagens para entender o que havia dentro de mim, foi o período em que mais escrevi em primeira pessoa. Foi um período muito mutuamente incômodo entre eu e as pessoas da igreja porque, enquanto eu escrevia, muita coisa acontecia dentro de mim, então eu demostrava raiva escrevendo forte no papel, eu chorava, e tudo isso acontecia em público. Além disso, conforme eu ia melhorando nas minhas produções musicais, eu precisava escrever textos que sustentassem essas músicas porque, como eram todas instrumentais mas todas me tocavam profundamente, não tinha como não tentar traduzi-las em palavras. Disso nasceu então:

A Identidade (2015-2019...): uma tentativa de personalizar cada "chefão" do Project Dissonance, de me definir com todas as limitações impostas pelo contexto religioso. Para cada um deles, criei uma sub-história em que, a depender da personagem, era apenas a expressão de sentimentos abstratos, um desabafo, ou às vezes histórias fictícias baseadas na re-narrativa da minha própria história. Esse grupo de histórias tinha uma dinâmica parecida com a Lisbeth vs. Elliot porque as publicações eram versões muito lapidadas daquilo que estava no papel, por mais que às vezes ainda soassem muito abstratas quando retratavam sentimentos em primeira pessoa.
- fábrica de explosivos - inferno em uma mente (2015...): muito impulsionada pela música que produzi, foi um único capítulo (até agora) sobre as oscilações de uma mente que vivia o tempo todo se esforçando para se controlar porque, assim que parasse de tentar, entraria em surto e botaria toda a sua raiva para fora. Eu dei o nome desse personagem de "peter dangerous", um dos dois personagens para quem não dei um "nome de verdade" mas um codinome porque queria que fosse algo meio amorfo, cheio de contradições na maneira de lidar com o mundo, principalmente em opiniões políticas, porque a impulsividade faz com que ele nunca consiga se amoldar a movimento nenhum. Ainda pretendo escrever mais dessa história porque pretendo refazer a música e porque foi a primeira. É muito, mas muito primitiva.

- campo de tesla ~ perigos da alma elétrica (2015-2017): outra história onde construí personagens parecidos comigo. De certa forma também falei muito de autismo sem saber que estava falando sobre autismo. Era uma história sobre uma pessoa que desenvolveu gostos muito peculiares, tinha hiperfoco nesses gostos, se isolou, desaprendeu a se comunicar com as pessoas. Essa incapacidade fez com que ela criasse conflitos constantes e ela foi construindo fortalezas emocionais para não dizer mais coisas erradas fora de contexto e não se machucar mais. A história é dividida em quatro atos: os dois primeiros são muito, mas muito abstratos, em que distorções de comunicação são discutidas como se fossem ferramentas de trabalho; o terceiro é sobre uma engenhoca que contém todas as cenas de horror que ele já viu na vida (e o "tesla", protagonista, é um fã de filmes de terror) e assume a forma do medo que ele sente de se relacionar com as pessoas; no último capítulo, ele tenta, da sua maneira, se explicar. É uma das poucas histórias que terminei e considero que terminei bem, com ele se propondo a destruir as suas fortalezas e voltar a tentar se relacionar com as pessoas. Por mais que essa história tenha tudo a ver com o que eu estava vivendo no momento, porque de fato as pessoas me davam muito medo, e que eu tenha compartilhado diversas características minhas com o tesla, enxergo nele uma coisa bem única, uma imagem bem distorcida de mim na qual já não consigo me reconhecer.


- noite na pequena londres ~ nós, destruidores de corações, filhos dos céus estrelados (2016-2022): não sei se foi a história de maior sucesso, mas com certeza foi minha música de maior sucesso no Soundcloud, entre meus amigos e conhecidos, que me impulsionou a fazer o álbum "heartshaped star". Essa história foi a coisa mais importante que eu escrevi durante esse período na igreja: o personagem principal era um garoto que não acreditava que podia ser amado porque ele era muito feio, esquisito e, principalmente, porque havia algo dentro dele que o fazia nunca acreditar em alguém quando essa pessoa demonstrava amor. A história toda, no fundo, era uma investigação tentando encontrar o que era essa coisa. Essa história foi importante porque, nela, fui capaz de escrever pela primeira vez sobre temas como as altas habilidades (que eu só lembrei que tinha graças ao processo de escrita), escrevi coisas sobre o autismo sem saber que eram sobre autismo e sem saber que eu era autista, mas principalmente porque partir do quarto capítulo passei a colocar em xeque a orientação sexual e a identidade de gênero do protagonista. Eu trazia esses temas de um ponto de vista bem conservador, transfóbico, essencialista de gênero, mas sempre mostrando que o protagonista nunca conseguia se adequar a esses padrões e sofria por isso.
Essa história também foi importante porque a escrevi como forma de me imaginar numa situação mais vantajosa na vida. Todas as personagens que apareceram são baseadas em pessoas por quem eu me apaixonei, para nenhuma delas eu acreditei que houve reciprocidade. Depois de anos acabei descobrindo que eu tinha mais em comum com o protagonista do que imaginava, porque a história fictícia onde essas pessoas se apaixonaram por mim e se frustraram por eu não fazer nada com relação a isso era mais realista do que a versão da minha cabeça, em que eu sempre era a pessoa trouxa sofrendo por amor platônico. Essa história se retroalimentava disso porque, a partir do quarto capítulo, um divisor de águas na história e talvez na minha vida, surge a personagem "heartshaped star", essa personagem assume a narrativa e conta das vezes em que as personagens dos capítulos passados passavam a me tratar mal porque nosso relacionamento não deu certo. A "heartshaped star" é minha segunda personagem sem nome por não ter muita forma, justamente porque a única maneira dessa criatura existir no mundo era se transformando constantemente, ela foi a minha primeira personagem compatível com uma transição de gênero. Encerrei essa história contando como foi meu casamento. Foi possivelmente a maior "produção literária" que eu fiz, nunca contei a quantidade de páginas porque sempre a postei em blogs, mas não duvido que tenha mais de 300.


- lisbeth vs. elliot ~ valsa da alma gritante (2016-2017): muito potencializada pela "noite na pequena londres", não dei conta de bancar a inexistência da Lisbeth e essa foi uma história de um único capítulo sobre uma tentativa "dela" voltar, com muito amor e sensibilidade acumulados ao longo de todos esses anos. "A Lisbeth" ressurgiu bem no final de 2016. Eu tive duas semanas de intensa dissociação de identidade como nos tempos antigos (a própria história retrata bem isso), daí entendi que não fazia sentido nenhum lutar contra isso, que eu sentia muita falta desse meu "eu". A minha única maneira de conciliá-la com essa vivência conservadora da igreja era me colocando como uma pessoa muito imaginativa e que tinha relação forte com a arte, isso era extremamente limitado e me forçava a me impor como uma pessoa arrogante e combativa, sempre buscando literatura, obras e pessoas que me fizessem adquirir argumentos contra todos (mas principalmente a igreja) para justificar eu ser do jeito que era. Sei que é pouco compreensível para as pessoas "de fora" mas, na igreja, eu não podia nem gostar de música, então qualquer um desses argumentos que ligasse música e Deus, que ligasse viver perdida nas próprias ficções e Deus, era vantagem para mim. Por outro lado, ainda que houvessem essas limitações, e que eu tenha sofrido muito na interação com esse mundo externo repressivo cristão, foi um período em que eu voltei a sentir bem mais alegria do que antes porque conseguia me amar de novo, conseguia dizer coisas bonitas para mim mesma, cuidar melhor das pessoas que eu amava, dançava de rebolar muito quando não tinha ninguém vendo, mesmo tratando isso como "tá bom Lis, vou deixar você usar meu corpo para expressar essas vontades" e olhando para "ela" como uma pessoa a quem eu estava satisfazendo com meu afeto. Eu ainda estava muito longe de entender que isso era ser transgênero, mas era o que eu tinha e me sinto muito feliz por não ter deixado passar.


- estradas do Paraná ~ indústria das almas feridas (2017...): uma das últimas vezes que escrevi como Elliot. Como uma pessoa que viaja muito, tentei escrever sobre as minhas relações com as rodovias que cruzam de alguma forma o Paraná. Acabei só escrevendo sobre a BR-369, que foi palco de boa parte dos diálogos mais violentos da história "Lisbeth vs. Elliot". Um dia retomo essa história, de preferência começando por reescrever esse capítulo da BR-369 sendo menos crente e não cuspindo no prato em que comi, afinal, Raul Seixas me ajudou demais na adolescência, eu não estava em meu juízo normal para dizer que era ruim.


- instituto de física ~ tempo é uma mentira do capitalismo (2019): eu inventei um personagem velho - não idoso, velho. Sem etarismo - rabugento para tratar da minha relação com a matemática e a física (por incrível que pareça eu fiz uma faculdade de engenharia, sou formada e trabalho na área) e, quando fui botar no papel, mesmo que eu ainda estivesse na igreja e que ainda não desse muita bola para política de verdade, saiu uma crítica ao capitalismo. Não sei como trabalhar essa história, mas ao menos de lá pra cá eu já li Friedrich Nietzsche, Karl Marx e Bakunin. A esse personagem eu dei o nome de "Leibniz", que foi meu ídolo ali entre 2014 e 2016.


- templo de ganesha ~ tariqa das artes tradicionais do ocidente (2018-2019...): muito inspirada por uma viagem que fiz para Índia, tentei narrar minha relação com a religião de uma maneira bem fantasiosa, misturando com as minhas relações com a arte, tentando fazer um sincretismo entre espiritualidade e arte. Não gosto da história como ela está no momento, pretendo retomar e trabalhar muita coisa, sobretudo porque não existe nada mais incoerente do que retratar essa personagem, a quem dei o nome de "Lyra", como evangélique. Elu é meu lado mais anti-religião, que vê nos deuses, espíritos, crenças e tudo mais apenas expressões artísticas do ser, assim como milita pela destruição absoluta das estruturas sociais de gênero, não aceitando a própria ideia de gênero. Para ter noção, esse é um lado tão revolucionário que eu tento não expor às minhas amigas trans binárias porque provavelmente as ofenderia, ofende até a mim mesma, é tipo uma voz que eu tenho que me diz "você não é revolucionária o suficiente", me pede para largar o emprego e ir viver de arte. Foi bizarra a ideia de pegar essa personagem e tentar dar um pano de fundo religioso a elu, interpretar deuses hindus como vilões e não como obras de arte, mas ao menos gostei da personalidade que dei ao Ganesha e ao Vishnu. Mas bem, que bom que eu ao menos comecei essa história, não é?


- deep freeze ~ abaixo de zero por ansiedade (2019): uma recaída nas ideações suicidas me fez tentar descrever uma crise de ansiedade. Ainda não sei como trabalhar essa história. A esse personagem dei o nome de "Nomiya". De Nishinomiya, cidade irmã de Londrina, e também de Maki Nomiya. É um personagem nipo-brasileiro.

O fluxo (2015-2017): ao invés de escrever resenhas de músicas, eu tentava recriar os meus álbuns favoritos como contos, reflexões e experiências subjetivas minhas. Não poderia deixar de contar essa fase d'O fluxo porque foi usando um álbum que expressei parte da minha dor por ter abandonado uma ex-namorada que eu amava muito por coerção da igreja e dos meus pais, situação que me deixou depressiva por um ano inteiro (2015), ao ponto de eu nem conseguir lembrar direito o que aconteceu nesse ano, só lembrar do final quando eu não consegui entregar o TCC e tive que fazer um em uma semana depois de ser humilhada pela banca. Também foi usando um álbum que expressei pela primeira vez uma admiração feminina não porque achava a pessoa legal, ou porque estava interessada nela, mas porque eu desejava ser como ela: "A garota mais legal do mundo", inspirada na Kyary Pamyu Pamyu.

heartshaped star (2017-2019): ainda muito inspirada na "noite na pequena londres", tentei produzir um álbum de música inteiro sob essa temática. Isso acarretou em produzir um texto (ou vários textos) para cada faixa do álbum. Esses textos ainda se misturavam muito com a minha religião do momento e com um certo conservadorismo e tentativa de me adequar às normas de orientação sexual e de gênero, mas neles eu voltei a usar personagens femininas, desenterrando até a Rebecca, vivia e expressava todas essas contradições no papel.
É importante falar da Rebecca nessa época porque eu tinha mais controle sobre a minha feminilidade enquanto tinha só a Lisbeth dentro de mim, já quando a Rebecca voltou ela saiu chutando o balde e me colocou em situações muito bizarras. Apesar do corpo masculino e das roupas masculinas, eu cheguei a flertar com pessoas (inclusive dentro da igreja) com o comportamento "feminino", olhando fixamente, cruzando perna de um lado para o outro. Deveria ser muito esquisito mas, se parar para pensar, eu só aprendi a flertar assim, até hoje eu não sei exatamente o que é que um homem faz para flertar. Uma vez eu estava tão possessa que um cara foi orar por mim e descreveu uma imagem feminina muito perturbadora me controlando. Eu amo contar essa história mas não tive coragem de colocar no papel na época. Achei muito babado. Então foram histórias que mexeram muito comigo, eu diria que elas me permitiram sobreviver a toda a cascata de frustrações que vivi dentro da igreja nessa época em que eu estava mais envolvida, fazia seminário, participava de missão, cheguei até a dar aula.
Os temas passavam por idealizações românticas de casamento - eu era MUITO romântica, estupidamente romântica, carente ao extremo. Não conseguia enxergar isso porque era algo que "não podia estar na vivência masculina" mas, na real, era só eu trocar um "oi" ou um olhar com uma menina que eu já começava a pensar na nossa festa de casamento, nos nossos filhos, já começava a fazer as contas para financiar um apartamento, já começava a pensar em como eu iria decepcioná-la, que ela iria ficar triste comigo porque eu sou sufocante demais, que eu iria descobrir uma traição, até chegar no pedido de divórcio. Era tão forte que vinha até antes de eu pensar se achava a menina bonita ou atraente -, paixão, reflexões espirituais, dificuldades de comunicação, frustrações sexuais, etc. Apesar de chamá-lo de "álbum" às vezes, considero-o uma demo, sinto que eu era muito limitada fazendo esse álbum no meu quarto, no meu computador, sem nenhuma interação humana, ninguém para me dar uma direção. Hoje imagino as músicas bem diferentes do que elas saíram. É impossível falar da produção literária na minha vida sem falar da música porque é uma relação de simbiose, os textos foram feitos para as músicas, e as músicas dependem dos textos para dar contexto.


Ainda no contexto da igreja, eu lentamente me afastava pelas divergências políticas, mas principalmente vivia esse novo momento onde todas as minhas identidades femininas voltaram a querer espaço no meu corpo, muito fortalecidas por essa nova força criativa que surgiu com as criações musicais, o alívio de voltar a escrever como Lisbeth. O meu relacionamento também me ajudava porque era um espaço onde, aos poucos, eu fui notando que tinha liberdade para ser quem eu era. Nesse contexto de afrouxamento das forças opressivas do meu contexto social, eu me permiti explorar literariamente várias personagens femininas, o que resultou em:

Rebecca / notas mais curtas que um beijo (2019-2026...): com a retomada das minhas identidades femininas, eu já não conseguia mais escrever muito bem as histórias em primeira pessoa d'A Identidade, já que sempre me expressei melhor como uma mulher. Tentando vencer esse contexto repressor em que vivia, finalizei aquela história da Rebecca de 2014 fazendo dela a contraparte da "noite na pequena londres" porque, se o tal "heartshaped star" era esse personagem que representava minhas paixões, frustrações sexuais e românticas, nada melhor do que juntá-lo com a Rebecca que era a mesma coisa, só que feminina. A Rebecca é talvez a minha personagem mais importante, se é que posso dar esse tipo de importância aos meus personagens, fora a própria Lisbeth que ganhou o direito do meu primeiro nome retificado (Lis), porque dela saem os meus desejos profundos, aquilo que tento (espero parar de tentar) esconder dos outros e até de mim, então todas as histórias da Rebecca são implicita ou explicitamente eróticas, cheias de vontades intensas sobre tudo.
Retomando um pouco Rebecca (2014), a história foi sobre ter o poder de fazer o que quiser e se perder com isso e naquela época isso para mim era absurdo, eu sentia arrepio de escrever sobre uma personagem tão violenta, era insuportável. Eu escrevia, olhava bem para aquilo, falava "quero mesmo publicar?", às vezes publicava, às vezes acabava cortando alguma cena. Eu tinha medo de colocá-la até no papel. Eu diria que a minha relação com a sexualidade é ainda mais difícil do que a minha relação com o gênero, eu sempre reprimi minha identidade de gênero mas sempre foi ou por me achar louca, ou por medo dos outros me acharem louca, o mundo lá fora sempre foi a maior ameaça. Já a minha sexualidade não, eu sentia nojo e culpa por ela, era um julgamento meu, ninguém mais precisava julgar. Nunca me senti desprezível por ser uma pessoa trans, em todas essas formas de pessoa trans que fui, mas sempre que pensava em sexo, eu me sentia desprezível. Não esqueço a sensação de escrever o "5min", na parte em que ela fala "se você fizer isso eu vou pisar em você" como se pisar na cara de alguém fosse o fim, eu me senti a pessoa mais exposta do mundo por ter escrito que alguém poderia querer pisar em outra pessoa. E agora cá estamos nós, 12 anos depois, com salto de 18cm cheio de espinhos na sapateira. Por isso, por mais que a Rebecca seja mesmo assustadora, que pessoas tenham medo de me ver "possessa", ela é minha heroína, ela me salva daquilo que mais me fere. Por mais que eu não troque muitas figurinhas com o BDSM porque não gosto de sentir e nem de causar dor, tenho uma relação muito complexa com o poder, com a exploração da carência alheia, com as minhas próprias carências, com a auto-estima, e a Rebecca é a única personagem que não tem medo de tocar nesses assuntos. Então toda vez que escrevo com ela eu saio mais livre, consciente das minhas vontades e dos meus limites verdadeiros, aquilo que me incomoda de verdade, aquela linha que eu não posso cruzar de verdade, não aqueles limites que a sociedade desenhou para mim.
Por isso na história atual ela tem consciência do seu poder, de que é perdida por isso, e de que isso não a faz pior do que ninguém, apenas humana. Do que já ouvi de opiniões sobre ela, a Rebecca é desumanizada pelas pessoas, vista como uma cachorra, manipuladora, má, cruel, sem limites, egocêntrica, hedonista, do tipo que sente prazer em humilhar desafetos (e até afetos às vezes), que começa a ouvir o desabafo de uma pessoa querida e termina com ela na cama sem ela nem entender como isso aconteceu. Eu vejo ela mais como uma pessoa muito verdadeira, que se assume por inteiro, tanto nessa posição de deusa que deixa as pessoas de joelhos, quanto também na posição de pessoa frágil, que não esconde a própria carência, não se sente amada o suficiente, se apaixona e tem medo de ferir, sente a dor da pessoa amada como se fosse a sua, e que entende que "pessoa amada" muitas vezes não se dá bem com a monogamia, porque aquele cara que passou na rua uma vez na vida pode acabar com seu coração e te fazer pensar em terminar um namoro, porque aquela sua amiga que chega falando que terminou com o namorado parece estar precisando demais do seu beijo e você também precisando do dela. É tão imoral falar disso, né? Mas as pessoas sentem, e a Rebecca não só sente como fala também.

yasu (2019-2021...): a Yasu surgiu como contraparte do Nomiya. Ela é minha personagem jovem filósofa oriental, nipo-brasileira, um pouquinho inspirada na minha esposa que na época era só minha pretendente. As minhas reflexões filosóficas mais profundas e maduras envolvendo autismo, aceitação social, a tentativa de ser quem eu sou e o medo de me perder de mim mesma, a tentativa de compreender o mundo, foram feitas em nome dela. Um dos meus textos favoritos foi escrito dois meses antes de eu casar, quando eu vivia a contradição de morrer de medo de estar casando por obrigação porque eu sentia que era uma pessoa inadequada para o sistema patriarcal, com um defeito irreconhecível mas também incorrigível ("Talvez eu saiba fingir um beijo, talvez eu saiba fingir um abraço, talvez eu saiba fingir até sexo, talvez eu saiba fingir um casamento, talvez eu saiba fingir uma vida a dois, talvez eu saiba fingir uma família, talvez eu saiba fingir uma morte."), mas amar minha esposa de verdade ("E então sinto sua falta, porque seu abraço me corta e me rasga, seu abraço arranca tanta dor, mas tanta dor, que às vezes me parece arrancar toda a dor.").

heloísa (2019...): contraparte de Lyra. Provavelmente onde eu tento expressar um pouco de prudência já que a "protagonista" do templo de ganesha, aquela que eu falei que é revolucionária demais e não acredita em absolutamente nada se não a arte, se perde todos os dias no meio dos quadros e das músicas. Até agora também não me agradou muito assim como a própria história do templo por conta da religiosidade. Pretendo compreender melhor essa personagem para voltar a escrever com ela: a única pista que eu tenho é que, quando Lyra diz "larga tudo e vai morar na praia, viver de arte", ela provavelmente é a pessoa que diz com todo o carinho do mundo "você não aguenta um mês sem salário, sem ter uma casa e pagar conta de luz, aliás, você faz arte no computador". Mas, por incrível que pareça, é mesmo de um jeito carinhoso. Tanto é que, ao invés de causar revolta, tranquiliza.

Yasmine (2021...): uma personagem muito legal, contraparte do Leibniz mas que, até agora, só serviu para expressar minha frustração com a vida adulta e todas as regras implícitas de convivência. Assim como com a Heloísa, acho a Yasmine ainda muito primitiva dentro de mim, não sei muito bem o que ela é e o que quer, apesar de já ter usado ela para escrever dois capítulos de história. Se a memória não me falha, 2021 foi a época quando as frustrações com a igreja evangélica estavam finalmente começando a me catapultar para fora dela, e eu remoía muitas memórias de como me prometeram essa amizade feliz para o resto da vida e me abandonaram assim que eu demonstrei que não era igual a todo mundo.

mundo digital (2020...): com todas esses personagens dentro de mim eu acabei precisando inventar uma nova história, mais ou menos como foi o Project Dissonance, para incluir todos eles e dar uma certa "vida" a todos esses conflitos internos. Acabei criando mais uma história futurista (por incrível que pareça eu GOSTO de trabalhar com tecnologia, OK?), que dessa vez que se passa em Londrina mesmo, com todos esses "casais". É uma história em um mundo ainda mais conectado à internet do que hoje, onde é possível chegar de um lugar a outro se convertendo em dados e transitando pela rede, e o dilema da história envolve a conspiração de uma organização neofascista para desestabilizar a ordem política mundial por meio da internet. Dessa vez só a Lisbeth é uma policial, o Elliot é um hacker freelancer. Já com a mente mais aberta, consegui trabalhar melhor esses personagens todos para não ser tão monótono: a Heartshaped Star se descobre uma travesti na história (o que faz sentido e é coerente com a minha história); a Madalena é uma mulher trans idosa (nunca escrevi usando ela ainda, mas pretendo, é minha personagem mais tranquila e pacífica); a Hannah é uma trabalhadora do sexo pansexual casada com um pastor evangélico e eles vivem um relacionamento não-monogâmico (formando um quadrado amoroso com a Yasmine e o Leibniz, e é claro que os fiéis não sabem disso); o Nomiya é um garoto trans aceito e amado pela família desde a infância, mas líder prodígio de um grupo antifascista que não deu conta de lidar com tanta injustiça e pressão e se perdeu em dependência química; o Lyra é ume pintore e produtore musical não-binárie e assexual, que também vai se descobrindo ao longo da história; a Yasu e o Nomiya são um casal de nipo-brasileiros, daí eu consigo trabalhar alguns dos dilemas das suas famílias por ser casada com uma nipo-brasileira e ver certas coisas de perto; ao menos metade dos personagens são negros porque não faz sentido narrar uma história em Londrina e todo mundo ser branco. Essa história, embora esteja apenas no começo, é minha maneira de dar corpo e interação a essas personagens que são tão importantes para mim e expressam tanto do que sinto e penso. Tenho inúmeras cenas já prontas em mente, o difícil é encaixá-las de maneira coerente com a história, mas não tenho pressa.


É a única vez que vou contar uma história além das próprias histórias, prometo: o início do casamento foi um período complicado para mim porque eu estava muito ocupada em sentir as coisas conforme elas aconteciam, perdendo um pouco esse costume de escrevê-las. Sendo um pouco mais detalhista: entrar para a instituição do casamento me pressionou muito a realizar a performance masculina de um modo assustador, sufocante, violento como nunca antes. Quando um corpo como o meu casa, ele finalmente recebe o título de "homem de verdade", e acho que isso foi muito importante para a minha ficha como pessoa transgênero cair, porque comecei a perceber que eu não dava conta de sustentar esse título. As cobranças das pessoas finalmente atingiram um peso insuportável para mim. As cobranças implícitas minhas, que tive toda uma estrutura montada na minha cabeça sobre "como ser o homem da casa", e da minha esposa, também. Por mais que desde o namoro eu falasse que não queria ser tratada como "homem de verdade". Uma coisa que me chamou muita atenção desde o começo é que, antes de casar, eu era uma pessoa chorona, eu me permitia chorar. Depois que casei eu passei a sentir medo de chorar. Foi automático, essa pressão só veio. A pressão de trabalhar sem hora para sair, de pegar dois empregos, três se fosse necessário. A pressão de controlar contas rigorosamente, a pressão de não sentir prazer em nada, de só sustentar uma casa. A pressão de fazer sexo todo dia só para cumprir tabela, sendo eu... tudo aquilo que eu escrevi nessas últimas páginas. Inúmeras pressões.
A minha única válvula de escape a isso tudo era, ela mesma, a Rebecca. Quando tudo ficava insuportável demais eu ficava possessa, desabafava em surto todos os meus sentimentos (pronomes femininos, sempre), e depois voltava "ao normal". Como sempre acontece com as pessoas quando vêem a Rebecca, minha esposa tinha sentimentos muito confusos, mas ela era minha esposa, havia nisso uma vantagem enorme para ela: ela conseguia me enxergar de verdade, sem controlar cada fala e movimento para "aguentar a pressão de ser homem". Às vezes eram sentimentos insuportáveis demais, tipo quando ela estava morrendo de ciúmes de uma senhora na rodoviária com um puta tamancão que eu não conseguia parar de olhar, e a Rebecca foi lá e postou em uma rede social de um jeito bonitinho "eu adoro seduzir homens casados cruzando as pernas e balançando os pés". Mas às vezes eram, tipo, "eu não me sinto amada o suficiente, você precisa fazer tal coisa" e era uma dica valiosa.
Mas voltando às pressões: eu comecei a falhar, uma a uma, pressão por pressão, até começar a pensar que eu queria ter nascido uma mulher, ou que queria ao menos ter uma "vida extra" para viver como mulher e ver como seria. Esse sentimento culminou na "crise do aniversário de 30 anos", quando eu lembrei que eu só tinha esse meu corpo e resolvi assumir que era uma pessoa não-binária, o que aos 30 anos eu conhecia, sabia do que se tratava, tinha facilidade em compreender. Esse título passivo de não-binário que ficava só na internet durou até outubro e foi me abrindo para repensar a vida, até que a Rebecca (sempre ela) veio na minha cabeça do nada, achou um salto da minha esposa e disse "bota o salto, eu quero que você entenda uma coisa", foi um tiro de bazuca no meu coração, trocou todos os parafusos da minha cabeça porque finalmente eu entendi que eu não tinha desejo sexual por ver pessoas vestindo saltos, eu tinha desejo sexual por vestir saltos. Eu gostaria de dizer que era um pouco de cada para parecer mais palatável para quem não entende essa loucura que é crescer numa igreja evangélica super repressiva e manipuladora sendo travesti e lésbica mas, na real, não é, é literalmente isso, nem mais nem menos, é isso aí mesmo. Mais dois meses e a transição veio. Não tinha como não vir, era inevitável.

Por que falar de tudo isso? Porque esse período pós-casamento foi um hiato de praticamente quatro anos sem rascunhar quase nada, sem publicar quase nada. Talvez algumas resenhas de videogame, uma newsletter, coisas do tipo. Quando veio a transição de gênero, fiquei confusa porque não sabia se ainda tinha a necessidade de escrever personagens fictícias, já que agora meu corpo as representava na vida real. Foi só diante do turbilhão de situações que a transição de gênero provocou, tensões com a família, sentimentos que agora eu sabia que se tratavam de disforia de gênero, que eu acabei precisando retomar a escrita. E está sendo devagar, ainda. Além de voltar a escrever com as minhas personagens, veio:

Tóquio, julho de 2025 (2025-2026): resolvi narrar toda a minha viagem para Tóquio, no Japão. Era minha viagem dos sonhos, mas não resolvi narrá-la só por isso: eu resolvi narrá-la porque foi a primeira vez que eu coloquei várias roupas femininas na mala e saí a algum lugar, para ser feliz, para viver o dia todo com a minha identidade de gênero. Quis contar como foi essa experiência, mais a experiência de ter visto uma das artistas que mais me influenciou na vida ao vivo, mais a experiência de ter contado aos meus pais que sou uma travesti e ter sido muito mal acolhida. E, claro, contar sobre como é Tóquio. Ainda faltam 4 dias, mas devo terminar essa história ainda em 2026.


Essa é minha trajetória literária (e de vida também, né? Está tudo misturado) até agora. Eu não tenho nada profissional, não cheguei a transformar nenhuma dessas histórias em livro de fato, com revisão do mercado editorial para tornar mais palatável ao público. Maioria dessas histórias na verdade nem estão completas. Muitas delas são, muito antes da potência de serem histórias ou reflexões interessantes, a única luz que tive na minha vida, o único lugar para onde eu podia olhar e dizer "isso aqui sou eu", em especial as histórias com personagens femininas que vieram quinze anos antes de eu me entender uma travesti e passar pela transição de gênero. Mas sei que, mesmo com esse tipo de trajetória amadora, sou uma escritora. Escrevo e escrevo muito. No meu site existem milhares de páginas, sem contar os rascunhos dos meus cadernos.
A minha escrita vem desse lugar de sobrevivência e desespero, por isso nunca me importou tanto que eu não tenha publicado nada, por vezes eu não me importo nem mesmo se alguém vai me ler: em primeiro lugar eu escrevo, depois eu vejo no que vai dar. Quer dizer, olha o que escrever fez comigo mesma! Eu insisto que adoraria ser lida mas não existe a possibilidade de eu depender disso. Sem a escrita eu nem sou capaz de me decifrar. Talvez eu não seja capaz de sentir por inteiro. Então eu sou uma escritora.

escrito por nubobot42 narrado por lisbeth