Série: Tóquio, Japão - Julho de 2025

23 de julho de 2025

7 de agosto de 2026

O dia em que me assumi aos meus pais e um tiquinho assim de Ueno

23 de julho de 2025. Nossa primeira visita a Ueno. Não precisavam ser duas, mas foram.

Antes de Ueno, preciso contar uma história fundamental a toda essa viagem para Tóquio. Do começo ao fim. Vou começar falando que uma pessoa LGBTQIAPN+ precisa ter amigos como ela. Nenhum sofrimento é igual ao outro, nenhuma pessoa sente nada da mesma forma, mas a estrutura que perpetua a LGBTQIAPN+fobia é a mesma então há grandes chances de alguém ter passado por algo parecido, por dilemas parecidos, ter ouvido as mesmas coisas, então é bom ter amigos que sejam também. Tem ao menos duas pessoas LGBTQIAPN+ na minha equipe do trabalho além de mim, uma delas bastante distante (eu nem sei se a pessoa ainda é do time ou só está lá por consideração, porque é muito amiga dos veteranos), outra muito integrada com a gente e com quem eu tenho alguma intimidade. Essa pessoa foi a primeira para quem contei sobre ser uma travesti no meu trabalho, aliás, a primeira para quem eu quis contar. A primeira para quem contei foi um cerimonialista que era responsável pela palestra da Symmy Larat dentro da empresa. Eu fiquei morrendo de medo mas não ocorreu nenhum problema em ter contado, é só que essa pessoa da minha equipe foi a primeira para quem eu quis contar. Passamos um tempão depois do trabalho trocando figurinha (online, minha equipe é remota), a pessoa contando as experiências porque ela já tinha muito mais tempo assumida para todo mundo, e eu carregando o seguinte dilema: será que eu deveria contar aos meus pais? Quando contaria?

Então ela me contou como foi a história para contar aos seus pais: ela estava viajando para longe e, antes do avião decolar, jogou a mensagem para eles e colocou o celular em modo avião para só ver a resposta depois que chegasse. Eu só conseguia pensar que eu só teria coragem de contar fazendo algo bem parecido, bem distante fisicamente dos meus pais porque eu tinha certeza que, mesmo com 31 anos de idade, eu sofreria algum tipo de violência se contasse a eles com eles na minha frente. Hoje continuo tendo essa certeza.

Meu pai é um cara de muitas fotos, então todos os dias ele me infernizava sobre tirar fotos minhas com a minha esposa nos lugares, todo santo dia, mais de uma vez, toda hora. Ele não se satisfazia com fotos dos lugares, dos prédios, tinha que ter uma foto nossa. Desde o primeiro dia.

Vou contar outra coisa sobre a experiência LGBTQIAPN+ para quem não sabe, e para quem sabe confirmar se é assim mesmo ou não: depois que eu saí do armário para mim mesma, tirava meu sono pensar que meus pais estavam descobrindo a verdade. Todos os dias eu pensava que eles me viram na rua e estavam esperando o momento certo para me contar e me destruir, ou que eles esbarrariam comigo e fariam um escândalo. Meus pais, meus sogros, pessoas da minha família, pessoas da família da minha esposa. O fato de ninguém saber me deixava com o peso de um segredo insuportável de manter. Um peso que me consumia. Parecia que todo mundo sabia de alguma coisa. Aliás, posso dizer que sair do armário ampliou esse sentimento estranho que sempre existiu em mim do primeiro ao último dia no armário: o sentimento de que as pessoas descobririam tudo e passariam a me odiar, a ter nojo de mim, mesmo que eu não fizesse ideia do que era esse "tudo"; parecia que as pessoas eram todas muito diferentes de mim e elas só não sabiam disso, ou talvez elas já soubessem, talvez entre elas já haviam conversas de que eu era anormal. Não eram pensamentos aleatórios, era constante, toda minha socialização passava pelo momento em que eu sentia e pensava isso. Diante desse sentimento tão aflorado, qualquer coisa que meus pais falavam para mim era um indício de que eles tinham descoberto tudo. Meu pai ficar me pedindo foto todo dia, mesmo eu sabendo que era algo muito dele, que ele faria em qualquer contexto, me pressionava e me dava a impressão de que ele estava pedindo porque estava achando tudo muito estranho, achando muito bizarro minha esposa só postar fotos dela mesma e eu só postar fotos dos lugares (no perfil público que eu ainda tinha no Instagram).

Quando contei aos meus irmãos eu disse que não contaria aos meus pais, que não havia necessidade nenhuma. Quando contei à minha prima, disse o mesmo. Eu juro que não via necessidade de contar isso aos meus pais. Eu só não estava suportando o fato de que todo tempo parecia que eles sabiam de tudo e já estavam me atacando. A vida como LGBTQIAPN+ é uma vida de violência constante, de se acostumar com a violência, em especial aqui no interior do interior do Paraná. Depois eu também comecei a entender que as pessoas não saberem quem eu sou já é, por si só, uma violência. Já dói. Ir na casa dos pais, dos parentes, disfarçada de um homem que nunca existiu, dói muito, sempre doeu, mas eu estava anestesiada dessa dor de 30 anos de duração, era uma dor crônica enraizada que eu nem entendia mais que sofria. Então achei que conseguiria viver como antes. Eu não esperava que, conforme fosse vivendo do jeito que gosto, me sentindo bem, me acostumando com essa sensação de me olhar no espelho e ficar feliz, libertando todos os meus trejeitos, a minha voz molinha e de um a dois tons mais altos à que me forçaram a usar na infância, a minha personalidade espalhafatosa, sem vergonha, sem medo de elogiar as pessoas e sem medo de me elogiar para as pessoas porque finalmente estava rodeada de motivos para me sentir bem comigo mesma, eu passaria a me sentir mal ao me esforçar de novo para agir como agia antes.

Foi por isso, diante dessa pressão interna toda aliada a uma pressão externa fantasiosa, de ter a certeza que meus pais já estavam suspeitando, já estavam me atacando, que eu resolvi, no dia 23 de julho de 2025, ao meio-dia, mandar uma mensagem enorme contando a verdade para minha mãe no WhatsApp. Era meia-noite no Brasil. A minha mãe estava chapada de zolpidem, ela não entendeu a seriedade daquilo e contou ao meu pai, e eu não queria que meu pai soubesse, eu queria que a minha mãe soubesse e de alguma forma articulássemos um momento mais oportuno para contar ao meu pai. Eu queria uma coisa de cada vez. Nada aconteceu do jeito que eu queria. Eu estava muito errada de acreditar que a minha mãe respiraria e entenderia algo da minha condição para depois pensar em como e quando contar ao meu pai. Além da questão do preconceito, a minha mãe também tem problemas sérios de saúde e faria muito mal a ela segurar uma bomba dessas por muito tempo.

Posso dizer que as consequências de eu ter enviado essa mensagem foram sofrer algo que nunca mais me deixou voltar ao que eu era antes. Meu pai me ligou e me disse muita coisa, em algum momento ele deu a entender que eu era mesmo a pessoa sem caráter que os pastores da minha antiga igreja disseram que eu era antes de me casar com a minha esposa porque queriam impedir esse casamento e eu xinguei ele, ele ficou muito ressentido comigo (mesmo que diga que não) e é disso que lembro. Não lembro do resto. Ele também não estava com grandes ideias comigo, queria conversar quando eu voltasse ao Brasil. Para ser sincera, eu não esperava nada do meu pai. Por mais que ele tenha melhorado muito, ele segue sendo um homem machista criado à moda antiga e sempre deixou claro que até "respeitava" LGBTs mas não se fosse um filho dele. Foi difícil de encarar mas isso, para mim, não era uma questão de se iria acontecer, era uma questão de quando.

O que acabou comigo foi quando minha mãe ligou para minha esposa e pediu desculpas por ela não ter descoberto isso antes e não ter me impedido de casar com ela. Sinto muito se alguém da minha família ler isso mas, desde então, eu não considero mais que tenho pai e mãe. O maior valor dos meus pais, para mim, era que mesmo que eu me metesse em alguns problemas por ser linguaruda demais, tipo na igreja mesmo onde os pastores queriam induzir todo mundo a votar em determinado candidato em 2018 e eu acabei atrapalhando isso porque não era uma coisa minha ficar quieta, eles sempre me defendiam ou sempre se doíam por mim. Se doíam por mim. Sofriam por mim. Sofriam comigo. Quando a minha mãe não pensou em nenhum momento na minha dor e veio falar com a minha esposa sobre ela ter casado com um lixo, com uma pessoa nojenta, uma pessoa sem caráter (mesmo sem usar essas palavras), uma pessoa ruim, uma verdadeira decepção em todos os sentidos, eu me decepcionei muito. Foi de livre intenção. Minha esposa não ligou para ninguém. Ela pegou o celular dela, foi lá e ligou para minha esposa. Eu não esperava que ninguém fosse me entender, até esperava várias brigas, mas também não esperava que fossem soltar a minha mão desse jeito tão cruel.

Eu tinha, e ainda tenho na verdade, muito orgulho de ter sido criada por eles. É tão especial lembrar que minha mãe às vezes não tinha com quem me deixar e então me levava para a UEL com ela à noite! Aquilo era tão divertido para mim! E ao mesmo tempo deve ter custado tanto para ela! Eu reconheço isso. Não tenho nenhum problema com meus pais no passado, nem mesmo do meu pai ter me podado de toda a sensibilidade que eu tinha e me fazia ser uma pessoa aparentemente extrovertida na infância, depois ter perdido tudo isso e me tornado uma pessoa reclusa e ninguém ter entendido o por quê, nem eu. Mas isso foi uma pancada que eu não pude suportar. Acho que todas as pancadas que vieram depois foram mais fáceis do que essa.

O pior foi perceber que eu nunca tive mesmo um pai e uma mãe para o meu eu como travesti, eu sempre me criei sozinha emocional, afetiva e intelectualmente. Todo mundo só quis saber o que eu estava sentindo depois que tentei tirar minha vida, como se meus textos não fossem todos públicos, como se eu não tivesse passado por uma crise de dissociação de identidade na adolescência e passado a viver com uma personalidade masculina e outra feminina, tivesse contado isso a eles e ouvido um "isso é fase, logo passa" e nada mais. Meus textos eram todos públicos. Sempre foram, sempre serão. De uma série de 15 cartas que escrevi como Lisbeth entre 17 e 19 anos, 13 sempre estiveram publicadas. Ninguém se interessou. E ali estava o fato na minha frente: meus pais nunca me protegeram, eles sempre protegeram a imagem que eles criaram de mim. É muito difícil ouvir de um deles que, quando todos me abandonarem, só sobrarão eles, quando eles foram os primeiros que me abandonaram. Já me abandonaram. Eu já estou sozinha.

Então eu ainda tenho um relacionamento com meus pais, ainda os chamo de pais por costume, ainda os amo e me importo com eles, me importo com a saúde deles, se eles estão bem em casa, se estão brigando muito ou estão em paz, mas não sinto mais que são meus pais. Mesmo porque esse ciclo se repetiu. Eles seguiram preferindo defender os outros de mim do que me defender, outras pessoas da família já souberam de mim e já me machucaram nesse percurso e eles sempre ficaram do lado deles, sempre falando que eu provoquei por ser assim, que eu preciso entendê-los, que eu preciso evitar problemas. Eles nunca viram meu lado. Às vezes parece até que gostam de me ver sofrer, parece que se sentem validados quando mais pessoas me atacam, o que também desmonta esse mito ridículo de que pais preferem colocar filhos no armário ou serem violentos com os filhos que saem do armário por medo do que eles vão sofrer no mundo. Só aceite que você não está pronto para defender uma filha LGBTQIAPN+ do mundo porque também se sentiria mais próximo do mundo que a odeia do que dela, OK? Te dar essa vergonha? Você que lutou tanto para conseguir a aprovação dos seus sogros? Tanto para conseguir aprovação da família que te menosprezava, dos seus pais, dos seus tios, dos seus irmãos? E agora seu filho decidiu ser um viadinho, porque no fundo você ainda acredita em decisão, ainda acredita que uma bicha pode influenciar seu filhinho a ser viadinho, e vai ter que ouvir de todo mundo que a culpa é sua? O mais difícil para a maioria dos pais não é defender os filhos desse mundo cruel LGBTQIAPN+fóbico, é se defender. Não sou ninguém para dizer que isso é fácil mas, se você não é corajoso o suficiente para encarar uma família pela sua criança, ao menos seja uma pessoa corajosa para assumir que você não está se importando com ela tanto quanto consigo mesmo, que é mais fácil para você colocá-la no armário e deixá-la vivendo sem gosto pela vida do que peitar o mundo com ela. Não seja tão covarde a ponto de espalhar esse discurso nojento de "querer proteger o filho do mundo cruel" porque eu acreditei nisso, acreditei em algum momento que seria tratada dessa forma, me iludi pensando que falaria "relaxa, eu tenho 31 anos, eu encaro" e foi mil vezes pior do que eu imaginei. Eu até me lembro de ter dito isso aos meus pais. Que coisa patética, que papelão. O mundo mais cruel para uma pessoa LGBTQIAPN+ é a sua família.

Tenho esperança de um dia ainda ter um bom relacionamento com a minha mãe, porque ela vive uma série de contradições internas e já reconhece muitas dores que eu sinto, mas ainda é impossível considerá-la minha mãe hoje. É uma pessoa com quem estou tentando reconstruir a amizade valiosa, mas não mãe. E não espero que ninguém entenda o motivo. Eu só posso continuar esse evento dizendo que eu chorei tanto, mas tão profundamente, eu fiquei tão deprimida de um jeito que nunca fiquei antes na minha vida. Eu me senti tão sozinha, mas tão sozinha! E tão desamparada, mas tão desamparada! Mesmo com uma pessoa ao meu lado me confortando. Não me recuperei desse começo de tarde até hoje, algo em mim morreu permanentemente. Sinto que me tornei uma pessoa mais violenta depois desse dia, como se tivesse perdido algo que me dava uma segurança, uma permissividade para ser ingênua no mundo, uma esperança nas pessoas. Sempre fui a pessoa que fazia de tudo para entender todos os lados, mesmo que fossem lados que me atacassem. Depois desse dia, não mais. Eu passei a desejar que pessoas morressem sem sentir nenhuma culpa, cortei minha tolerância com todo mundo sobre vários assuntos, sempre estou pronta para ameaçar alguém de processo se vier encher meu saco, deixei de me importar com cortar pessoas da minha vida (eu tentei cortar contato com toda a minha família quando cansei de me sacrificar para estar com eles e em troca ter que ouvir atrocidades e, se não fosse a insistência da minha mãe, eu teria mesmo cortado), e para andar na rua comprei uma taser. Você pode perceber pelo último parágrafo: eu não escreveria aquilo antes com tanta convicção, no máximo como provocação. Mas eu não estou provocando, não assumi uma personalidade alternativa para falar essas coisas como se fosse uma historinha de ficção, não é "noite na pequena londres", meu nome é Lis Núbia, é o que está na minha Carteira de Identidade Nacional e em breve na minha Certidão de Casamento e é exatamente isso que está no meu coração.

Eu acho que havia algo construído dentro de mim, e era muito sólido, muito pacífico que, se tudo desse merda, se as pessoas me fizessem mal, não importava tanto porque eu tinha meus pais. Mesmo que eu tivesse 31 anos. Pode ter sido um erro de criação porque ninguém tem seus pais para sempre e em todo lugar, mas eu preferia que isso fosse arrancado de mim com a morte de um deles, ou até mesmo que a vida me arrancasse de outras formas, não queria que eles mesmos tivessem arrancado. Não acho que eu vá voltar a ser essa pessoa pacífica que eu era antes, é muito provável que a vida me arrancaria isso de outras formas porque o mundo não dá paz a uma travesti mas, para voltar a ter pais, eu vou precisar de muito mais do que manter contato com eles, eu só vou considerá-los pais de novo quando me aceitarem. Podemos morrer sem isso acontecer, não tem problema, ninguém é obrigado a nada, não vou deixar de conviver com eles porque eles não me aceitam e eu não preciso de pais porque tenho 32 anos, mas também estou no meu direito de não autorizá-los a me machucar tão profundamente de novo enquanto eles não entenderem sequer o tamanho do buraco que escavaram dentro da minha alma nesse dia. Dar o título de "pai" e "mãe" às pessoas é dar um título poderosíssimo, não é um poder que eles devem ter em mãos. Talvez eu não me importaria tanto de eles me aceitarem se eu não tivesse chorado tanto nesse dia, mas é impossível esquecer. Mandei a mensagem e já comecei a tremer e chorar mesmo antes da resposta, então eu já estava fragilizada. Eu não tinha estrutura para o que veio depois. Me deprime muito saber que, hoje, eu tenho uma estrutura criada para reagir até a isso, que foi necessário criar. Não me dói mais ouvir "eu preferia morrer a ter um filho traveco", eu só respondo "então morra". Não me dói mais ouvir "eu não te respeito", eu só respondo "e eu lá te respeito?". Eu estou totalmente cauterizada. E a dor de ser cauterizada é uma dor muito ingrata porque você pode até não sentir mais a pancada, mas sempre vai se revoltar de pensar que não é justo precisar criar essa casca.

Costumo escrever com bastante intervalos, mas decidi escrever todos aqueles parágrafos acima de uma vez só porque sei que não daria conta de ir sentindo aquilo aos poucos, as palavras precisavam vir todas de uma vez. Continuando sobre o Japão, o nosso plano era visitar o zoológico de Ueno. Todo mundo que vai a Tóquio precisa visitar o zoológico de Ueno, né? Finalmente seria um dia para bater metas dos visitantes do Japão. Mas eu só consegui sair do hotel às quatro horas da tarde. Do meio-dia às quatro eu precisei ficar na cama do hotel revezando entre chorar e dormir. Então quando chegamos em Ueno era mais de cinco horas da tarde e o zoológico já tinha fechado.

Não me lembro também o que comemos antes de chegar em Ueno, ou se comemos antes de chegar. Acredito que sim porque eu fico sem fome quando fico deprimida, mas a minha esposa não. Talvez tenhamos cortado caminho no Nakau porque eu não me recordo de ter comido nada em Ueno para começar o dia, só comemos mais perto do final. Não me lembro mesmo. Eu lembro de ter chegado no zoológico de Ueno e ter me decepcionado que não daria mais tempo de entrar, ficamos ali sentadinhas por uns minutos no banquinho, então tive a ideia de explorarmos o bairro de Ueno já que não tinha mais como entrar no zoológico. Ah! Estava quase esquecendo: o look desse dia não me agradou muito, também. Eu coloquei uma lace loira, a batinha creme que eu usei até em Dubai, um shorts verde que eu amei quando comprei mas hoje sinto que não faz muito meu estilo ou que não consegui achar um top que se encaixasse bem com ele e um tamanco anabela da Arezzo com um camurção em cima, uma anabela bem amadeirada e tachinhas na borda da plataforma, que era um tanto desconfortável porque apertava os dedinhos. Tentei amenizar esse desconforto com meias, o que ajudou mas não fez milagre. De qualquer forma, levei o tênis e usei quando precisei.

Começamos Ueno pelo espaço do zoológico mesmo, fomos até uma fonte gigantesca que estava lotada de gente, tiramos algumas fotos lá, conversamos com um rapaz que queria dinheiro para permanecer ali fazendo faculdade mas não tínhamos esse dinheiro para dar, seguimos em frente. Passamos por alguns museus mas não entramos, até que seria uma boa ideia mas também considero que foi muito gostoso explorar o bairro, entender como que aquilo funcionava. Esbarramos na Tokyo University of the Arts mas não tínhamos como entrar. Eu acho que não estava com clima para entrar em prédio algum nesse dia. Só admirei o prédio do lado de fora, pensando em tanta gente importante para mim que tinha passado por lá e pronto. Continuamos andando. Ueno é um bairro bastante interessante porque tem esse enorme zoológico acoplado a um pátio cheio de museus e a universidade, mas bem ao lado era um bairro residencial super comum, com casinhas pequenas, idosos passeando, alguns templos religiosos escondidos no meio do nada. Eu tinha um comportamento bem sincrético com esses templos. Acho que ainda me vejo como uma pessoa cristã porque tenho uma relação espiritual com o meu desejo de que as igrejas acabem, acho que é a única maneira de salvar a religião e não vou lutar por isso nunca porque é em vão mas vejo que a institucionalização a destruiu completamente. Mas tinha muito respeito por esses templos e, sinceramente, eu dialogo com tudo, não via problema nenhum em dialogar com os deuses daqueles templos, dizer que esperava que entendessem a minha intenção de respeitá-los e reclamar um pouco da vida.

Fomos andando ali pelas ruas, circulando o espaço do zoológico, até que passamos por baixo de um viaduto que ligava um pedaço do zoológico ao outro. Acabamos entrando mais uma vez em um enorme campo onde tinha a entrada para o zoológico, mas dessa vez era outra entrada, o chão era de terra e estava cheio de gente. Acho que estávamos no lugar para onde as pessoas iam depois do zoológico. Tinha uma feira, pessoas vendendo coisas muito interessantes e uma belíssima lagoa cheia daquelas plantas aquáticas enormes e lindas. Seguindo reto encontramos mais um templo rodeado de feirinhas, mas eu não me lembro se podíamos entrar no templo, porque não entramos. Depois voltamos porque o templo ficava num lugar meio sem saída, fomos andando pela feira, rodeando a lagoa e finalmente encontrando gente vendendo comida. Esse lado de Ueno é lindo. Tiramos muitas fotos dessa lagoa porque ela é linda, ela é diversa, é enorme, é limpa, as plantas também são maravilhosas mas eu morria de medo de chegar perto tanto porque me achava desastrada o suficiente para cair numa lagoa quanto porque nada impedia aquelas plantas de serem carnívoras. Importante dizer que o rolê também era bem cansativo porque estávamos no verão, o sol estava tenebroso, ainda mais porque era um sol de final de tarde.

Eu não me lembro muito bem da ordem das coisas, mas acho que não demorei tanto para comer nessas feirinhas. Eu estava seca de vontade de comer essas comidas estrangeiras com carne, muita carne, louca de vontade desde Harajuku, e lá tinha. Não me recordo a nacionalidade da barraquinha que fui, parecia ser indiana, o cara me serviu um pão todo bagunçado com carne de frango, ele me ofereceu para escolher o grau de picância e eu escolhi o menor possível mas não adiantou, com certeza era comida indiana ou de algum vizinho da Índia, faltou pouco para eu chorar com a pimenta. Mas eu adorei. Muito, muito saborosa. Uma delícia. Eu sentia falta de carne feita daquele jeito. Eu estava muito cansada então a minha esposa correu atrás da comida dela e já me trouxe um pouco de água, mas mesmo isso não conseguiu resolver tão bem o meu problema. Também não lembro se conseguimos pegar algum doce.

Depois disso, continuamos a explorar essa parte da lagoa. Encontramos um lugar lindo cheio de sinos pendurados, não me lembro se tinha aqueles simbolismos de escrever alguma coisa numa carta e pendurar lá, acho que tinha, mas eu não estava muito animada com isso. Para falar a verdade, eu não estava muito animada. Não posso dizer que não estava aproveitando aquele rolê, ele me fez muito bem, mas eu cansava rápido, eu tinha pouca energia para participar de coisas que com certeza participaria em outros dias, e me permiti não me sentir culpada por isso. Esse dia foi o primeiro dia em que minha esposa parecia mais animada que eu para participar das coisas, ela quis participar mais desse rolê embaixo dos sininhos, ela encontrou gueixas e tirou fotos com elas. Ueno era tão bonito e tinha tanta coisa interessante, mesmo que não tivéssemos entrado nem no zoológico nem em um museu, que eu não estava lembrando a cada cinco minutos que tinha passado por tudo aquilo que passei antes de sair do hotel, mas meu corpo ainda estava com toda aquela carga. Talvez, pensando bem, tenha sido até bom que eu não tenha conseguido entrar no zoológico e em algum museu, esse dia foi um dia de andar na rua, ao ar livre, o tempo todo. Até comer nós só comemos ao ar livre. Eu acho que precisava mesmo acalmar o meu corpo da forma que sempre fiz, desde a minha adolescência: saindo para andar sem compromisso, sem horário e sem muito rumo, vendo as paisagens conforme elas vinham, parando para descansar, receber alguma carga emocional, chorar, sem me importar muito com o que estava acontecendo ao meu redor, sem ter paredes restringindo o meu olhar, tendo acesso constante ao céu.

Saímos desse lugar e demos de cara com o que parecia ser um cinema que só passava filme pornográfico, achei o máximo, mas o prédio estava fechado e parecia estar meio mal cuidado também, meio velho, não sei se funcionava. Bem, os cartazes estavam lá. Agora precisávamos procurar um lugarzinho para jantar. Sei que não fui muito regular ao contar a história, mas já estava de noite e já fazia bastante tempo desde que eu comi aquela bomba. Nós fomos parar bem naquela construção que me deixou maravilhada no dia anterior após encher a cara, ela continuava toda bonita e iluminada. A estação de Ueno era mais uma dessas estações enormes, contei em algum outro dia que ela é uma das que tem Shinkansen (trem-bala), e é parecida com Shibuya no quesito de ter muitos comércios ao redor (se bem que em Shibuya não era bem ao redor da estação, e sim dos trilhos).

Sentamos em um desses pequenos bares-restaurantes que gravitavam ao redor da estação. O pessoal que nos atendeu era muito jovem e prestativo, a princípio parecia ótimo. O lugar só tinha o caixa e a cozinha mesmo, as mesas ficavam para fora. Pegamos o cardápio e o que tinha ali era espetinho com legumes e uns peixes, e bowls com um monte de coisas, era um lugar bem tranquilo que vendia umas coisas bem normais. Fizemos o pedido. Esperamos. O pessoal não se comunicava muito bem com a gente, parecia que o inglês não era muito bom, sei lá, mas logo veio uma entrada e a gente não entendeu muito bem porque não tínhamos pedido entrada nenhuma. Julgamos que vinha com o prato e não falamos nada, só aceitamos, até porque não tinha cara de algo pelo qual a gente pagaria dinheiro mesmo assim, era só uma entrada, uma coisa muito básica. E então, com certa demora, a comida chegou. Eu não lembro exatamente o que comi não, não foi nenhuma comida marcante mas também era gostosa. A minha esposa não teve a mesma sorte, o espeto com legumes e peixe não estava muito legal. Ah, eu tinha pedido um drink também e esse drink estava incrível, quase que eu pego mais para encher a cara de novo mas quis evitar. Por fim, quando fomos pagar, descobrimos dois probleminhas: primeiro que eles não aceitavam cartão, segundo que eles cobraram a entrada que não pedimos. Nem preciso falar que eu estava sem nenhuma energia para debater isso, só fiz uma cara meio "hm, que?" e... não paguei porque não tinha dinheiro o suficiente para pagar aquilo, eu precisaria achar um caixa eletrônico e sacar. Pedi a eles que esperassem então porque eu iria sacar dinheiro, tudo certo, zero problemas, então fui. Foi bem fácil de achar esse caixa, acho que andei umas duas quadras e já consegui. Aí voltei. Paguei. Fomos embora. Nem lembro o nome desse lugar mas lembro como ele era e a cara dos atendentes, eu espero nunca mais ir de novo e também aprendi que não se aceita entrada só porque estão oferecendo, achei uma coisa bizarra. E, se eu fiquei revoltada, imagina minha esposa.

Ainda estava cedo demais para ir embora e eu não estava com muita paciência de ficar conhecendo prédio de novo, resolvi andar ao lado da estação de Ueno sem muito rumo para ver o que descobriria. Pegamos então essa rua paralela à estação e fomos subindo, chegamos até a entrada do zoológico, chegamos até a entrada da parte onde ficavam os museus, de frente para uma das entradas superiores da estação, e seguimos reto. Começou tudo bem, tudo legal, até que chegou num bairro residencial em que a rua não tinha nem calçada, era só a rua mesmo, carro e pedestre caminhando juntinhos do jeito que dava. Depois disso a iluminação também foi ficando precária. Parecia um bairro muito antigo, vimos algo que parecia um cemitério ali. Até que tudo foi ficando tão estranho que eu, que tinha me submetido ao desafio de andar sem celular, fiquei com muito medo e quis olhar para ver se compensava voltar (não queria, a gente tinha andado bastante) ou se poderíamos seguir em frente porque havia alguma estação por perto. Para minha felicidade, havia. Era só andar mais duas quadras, virar a rua e estaríamos na estação de Uguisudani. Uguisudani. Uguisudani. O nome mais engraçado da linha Yamanote, sem dúvidas.

Chegamos lá e a entrada da estação estava após uma escadaria acoplada a uma ponte muito bonita, que ficava acima das linhas de trem, onde eu tirei várias fotos e fiquei alguns minutos apreciando a vista. Depois entramos na estação. Uma das estações mais interessantes de Tóquio, na minha opinião: ela parecia ser super antiga, ainda era feita de madeira, tinha uns armários para as pessoas guardarem coisinhas e como tudo era muito pequeno, compacto, corredores super estreitos, isso chamava muita atenção. Eu acabei ficando curiosa para conhecer essas estações de lugares que não pareciam ser tão grandes quanto as regiões que eu queria conhecer: Kanda, Ebisu, Takadanobaba, Okachimachi, etc. Aquela estação era mesmo muito diferente, parecia uma casinha, era muito engraçada. Pegamos o trem sentido Ikebukuro, descemos em Otsuka, seguimos até o hotel e foi isso. Dia encerrado. Não foi um dia muito cheio, né? Não teve evento praticamente nenhum lá no Japão. Acho que precisava escrever sobre esse dia, acima de tudo, para finalmente colocar no papel a história de quando contei aos meus pais que eu era travesti. Apesar disso, ainda foi um dia memorável, ainda foram algumas das paisagens mais bonitas que vimos, eu andei muito, distraí muito a cabeça, eu adorei ter comido aquela comida maluca da feira. Eu tenho uma foto que me traz uma lembrança muito feliz naqueles espelhos curvados aleatórios das ruas em Ueno, esse meio de tarde na parte residencial de Ueno foi muito gostoso, não sei explicar o motivo, só foi.

Antes de encerrar o dia, acho importante escrever mais um pouco sobre toda essa experiência horrível que aconteceu comigo, sobre me assumir para os meus pais e sofrer retaliação. Eu não sei exatamente o que vou escrever mas, como tive uma sessão de terapia entre o começo do texto e o final, quero concluir algo diferente. Eu gostaria que meus pais soubessem e entendessem tudo o que eu senti, ao mesmo tempo em que não gostaria que eles lessem esse texto porque, se não entendem o que senti, também jamais entenderiam de que lugar do meu coração vem dizer que "não os considero mais meus pais". É o que é, porém. Eu repito que não considero de muita maturidade querer que meus pais estejam sempre do meu lado, sempre me defendendo, como se a família fosse o núcleo supremo indestrutível do universo e o único lugar no mundo capaz de me fornecer abrigo e proteção. Em algum momento da minha vida eu tentei romper com isso, mas como eu tentei dentro de uma igreja evangélica, era praticamente predestinado que alguma merda aconteceria e eu voltaria a buscar apenas a minha família como esse lugar. "A igreja não me entende, a família entende": não, nenhum dos dois me entende, nenhum dos dois nunca me entendeu, e sinceramente isso não importa. Quando Lisbeth se tornou cartas pedindo socorro por iminentes tentativas de suicídio ninguém entendeu, ninguém esteve lá, ninguém pôde fazer nada. Acho que perdi de vista o quão impotentes meus pais sempre foram com relação aos meus dilemas internos. Eu me permito sofrer porque a promessa da família perfeita que entraria em infinitos conflitos dentro de casa mas nunca deixaria alguém de fora interferir, nunca humilharia um dos seus para alguém de fora, não foi feita por mim, não foi eu quem criou filhos dessa forma, nesse sistema, então ainda que seja uma promessa insustentável, e que sempre foi insustentável apesar do meu reconhecimento pelo esforço, ela foi quebrada. E ela foi quebrada com muita dor. Com muito choro e tristeza. Com muita humilhação e desprezo. Por isso meus sentimentos com relação à situação não vão mudar sem que aconteça um esforço de outra parte para repensar o que fizeram comigo.

Mas sinceramente de novo, isso não importa. Perder isso fez eu me questionar inclusive o que eu quero oferecer como mãe para meus filhos. Eu sempre tive esse medo na verdade, desde sempre, olhando para os meus pais: será que eu preciso de fato concentrar todos os meus esforços de humanização em uma criança só porque eu a gerei? Desprezar a humanidade de quem entrou em conflito com ela? E, principalmente, será que eu dou conta? Eu sempre pensei em coisas muito básicas como o fato de eu acreditar ser terminalmente carnívora e pensar nas chances até grandes de um filho meu se tornar vegano, porque vai olhar para mim toda cheia das minhas ideias e falar "mas com todas essas ideias aí e... come carne?". Eu não acho que esse é o tipo de promessa que se faça para alguém. Não acho que foi só eu que perdi o pai e a mãe, também acho que eles sentem que perderam "o filho". Também acho que custa olhar para a sua criança e perceber que não tem a capacidade de defendê-la como fazia antes, que foi impossível estar do lado dessa criança, que teve que soltar a mão. Era inevitável que essa ruptura fosse acontecer quando se olha para essa promessa e ela parece tão insustentável, tão cheia de furos, tão... frágil.

Agora que estou do lado persona non grata da família tradicional brasileira eu percebo como todas essas ideias de "a família de verdade", "as únicas pessoas que estarão aí com você quando você estiver na pior", "uma mãe e um pai fazem de tudo por seu filho", "o amor incondicional", são promessas falsas que contém em si mesmas mecanismos de defesa contra pessoas dissidentes. É muito fácil acreditar no romantismo materno e paterno quando se tem um filho criança sem autonomia nenhuma para atravessar seus valores, quando tudo depende de você, quando você se percebe doando tempo, gastando forças, trabalhando em dois empregos, quando você pode se colocar como herói daquela criança. Quando eu comecei a demonstrar meus trejeitinhos na infância meu pai me censurou, deu certo e foi isso. É muito fácil. Não estou falando que é fácil doar saúde e tempo, estou falando que é fácil acreditar que isso é amor incondicional, quando não é. Isso é só responsabilidade. Disse que as promessas falsas contém mecanismos de defesa contra pessoas dissidentes porque, se eles fizeram de tudo por mim (não fizeram), se eles até hoje se oferecem para estar comigo quando eu estiver na pior (não estarão, só se eu voltar ao armário), eu é que sou a pessoa ingrata por não topar só deixar de vestir uma roupinha (é assim que ser transgênero é visto pela família tradicional) para retribuí-los. Eu não deveria fazê-los passar vergonha e, para a família tradicional, ser LGBTQIAPN+ não é existência, é só uma prática, então é só largar a prática. Lembra lá no começo que eu disse que todos nós, LGBTQIAPN+, somos super diferentes, mas temos a estrutura LGBTQIAPN+fóbica em comum? Essa estrutura é essa família tradicional, os pais são tão doutrinados a repetirem essas frases e outras que estou com preguiça de colocar que eu e minhas amigas travestis montamos até bingo de fala dos pais nesse contexto, e o pior é que eu aqui do sul e minhas amigas do norte, do nordeste, compartilhamos o mesmo bingo. Se as famílias são tão iguais em comportamento então não é uma coisa pessoal, é sistêmica. Eu não subestimo o poder do amor dos pais, não estou dizendo que pais cuidam por obrigação, mas não acho justo me pedir para chamarem de amor incondicional algo que se mostrou tão cheio de condições para mim.

Também acho que está tudo bem. Acho que ninguém deve amor incondicional a ninguém, acho saudável reconhecer que existem condições, que existem limites, que existem paredes, que existem limitações. Isso é o que eu quero exercer na minha maternidade. Quero promover uma quantidade enorme de afeto na minha casa, quero promover a felicidade dos meus filhos. O que não quero é me colocar numa condição em que a criança ache que eu sou uma fonte ilimitada de afeto e compreensão porque eu não sou. Quero uma criança que receba afeto o suficiente para criar a sua própria reserva de afeto e, um dia, me dizer algo sobre si que eu não seja capaz de lidar, e ela permanecer bem, ela até sentir que perdeu mas não se sentir traída. A minha família não vale nada, família não vale nada, família não significa nada. Os títulos por si só não entregam nada. Eles só se sustentam enquanto a dissidência não vem: dá para ficar até o resto da vida protegendo um filho alcoólatra, um filho ladrão, mas não um filho viado. Um filho alcoólatra acolhido pelos pais chega bêbado em casa dando trabalho, os pais sofrem, sofrem muito, amargam de sofrer, mas reconhecem um vício no álcool. Uma filha transgênero como eu só será acolhida pelos pais se não se vestir como uma mulher, como se eu não tivesse essa necessidade. Pior pensar que não é nem uma necessidade por vício, é uma necessidade por existência.

Então é muito fácil apontar o dedo para mim e falar "você não sabe o que é ser um pai e uma mãe". As poucas pessoas que vêm de uma família tradicional como a minha e sabem de mim podem pensar isso, é muito fácil, o difícil é ouvir dos seus pais o que eu ouvi. Que preferia que eu tivesse escondido isso pelo resto da vida. Que preferia morrer a ter descoberto isso, que preferia morrer a ter uma filha assim. Me chamando de doente toda hora, procurando os vídeos mais imbecis do YouTube e do Instagram para entrar numa redoma de pessoas asquerosas, nojentas, estúpidas, e que eu gostaria do fundo do meu coração que morressem ou que ao menos fossem presas (e deveriam mesmo ser presas, são estelionatárias, quando não diretamente cometem crime de homotransfobia na internet, em vídeos que são públicos), para procurar "curas" para a minha "doença", não dedicando um milésimo de segundo sequer a pesquisar por algo que rompa o seu próprio preconceito. Toda hora brigando comigo quando eu desabafo que fui desrespeitada, ameaçada, que gritaram comigo, e que eu odeio dessas pessoas por isso, como se fosse justificável uma pessoa ser violenta comigo só porque eu sou transgênero. Quando você passar por metade disso, aí a gente conversa. Eu ouvi muito de pessoas cisheteronormativas que até me apoiaram a conversa de "é, mas você tem que tolerar, são seus pais, eles te amam, só estão tentando entender", mas curiosamente nenhuma das minhas amigas e amigos LGBTQIAPN+ me disse o mesmo. Mesmo as pessoas mais sábias, mais velhas, que de certa forma me falaram sim que eu teria que colocar na balança, ou cortar contato, ou aprender a tolerar, falaram de forma totalmente diferente. É uma dor que só a gente conhece. E eu não julgo ninguém por não entender minha dor, mas me julgar sabendo que não teria a capacidade de estar no meu lugar é algo que eu não vou respeitar.

Entendo também que existem famílias que acolhem filhos LGBTQIAPN+ e que lutam por eles, acho isso lindo, mas ainda acho que a estrutura familiar vigente não é sustentável. Enquanto sistema que promove amor incondicional em meio a uma relação de poder, que é o tipo de relação que os pais têm com os filhos, a família está fadada ao fracasso. Não existe amor incondicional se você condiciona seu filho, você só está invertendo a lógica para se cegar. Como pessoa LGBTQIAPN+, eu faço parte de um grupo de pessoas que promove, só por existir, o debate inevitável de que existe autonomia infantil, de que pais sempre terão limites, porque pais não querem e não acham que devem ter limites e essa visão é crucial para a manutenção da família como ela é hoje. Pais que reconhecem de fato a autonomia das crianças são nossos aliados, assim como brancos que sabem, mesmo, que não basta não ser racista, tem que ser antirracista. O controle parental para televisão e internet são coisas que me arrepiam, mas são vistos como a salvação para os pais. Imagina se meus pais tivessem descoberto que, aos seis anos de idade, quando eu precisava interagir com pessoas na internet, eu usava uma identidade feminina? Imagina se meus pais soubessem que meu nome na internet era Melina aos 10 anos? Imagina se meus pais soubessem que eu estava desenvolvendo meus fetiches sexuais aos 14? Meus pais não são pessoas seguras para mim, nunca foram, foi uma bênção eles não saberem o que eu via na internet. Porque essas perguntas são importantes, mas elas também só orbitam a pergunta principal: imagina se eu tivesse informação o suficiente para saber que aquilo que eu sofria tanto aos 16 anos, as dissociações de identidade, as crises de choro, surtos de bater cabeça na parede, ideações suicidas, tentativa de suicídio, eu sofria porque era travesti e me assumisse para os meus pais? Essa é a pergunta principal. Os pais não estão prontos para aceitar que eles não são dignos de controlar a fonte de informação, de afeto e de cultura dos filhos, porque talvez eles sejam incapazes de promover a autonomia dos filhos, talvez eles sejam limitados demais, talvez os filhos sejam algo que eles não queriam que fosse, que não é o que eles idealizaram, e quando se trata de uma criança eles têm poder o suficiente para colocá-la contra ela mesma em favor de seus próprios interesses. Meu pai fez isso, até hoje acha que tem razão. É um grande debate, eu me meti num vespeiro, mas é o que penso. Nunca vou defender essa merda porque eu sei que minha vida poderia ter sido ainda pior se meus pais tivessem tanto poder em mãos. Os filhos muitas vezes ficam revoltados porque os pais se mantiveram distantes demais, trabalhando por inúmeras horas, não dando afeto o suficiente, não vivendo juntos o suficiente, enquanto eu dou graças a Deus. Eu era assim, ficava muito chateada que meus pais não liam o que eu escrevia, vivia tentando mostrar meus textos e músicas para eles e nunca deu certo. Hoje eu dou graças a Deus. Imagina os inimigos que eu teria arrumado se eles tivessem entendido? Acho que nossas proximidades foram ótimas, mas nossas distâncias foram melhores ainda.

Queria ter terminado bem menos ressentida do que fui no começo, mas acredito que não tem como negar o fato de que estou ressentida, de que amargarei essa tarde pelo resto da vida. Não fico pensando nela dia e noite, mas é uma memória sem cura. A partir dela eu evoluí muito, amadureci muito, mas é uma memória sem cura. Para deixar uma mensagem mais agridoce, agora não mais sambando entre a minha própria experiência e minhas convicções sobre as estruturas sociais e sim concentrada em meus próprios sentimentos, eu acredito que a minha relação com meus pais pode não melhorar nunca, mas pode melhorar muito também. Como disse, não acho que importa tanto se eu devo considerá-los pai e mãe ou não, nessa altura da vida eu só me importo com eles, é só isso que conta. É duro dizer "nossas distâncias foram melhores ainda", mas é verdade. Acho porém que, o dia em que essa distância puder ser reduzida, será um bom dia para todos. Eu sempre digo isso: sinceramente, meus pais estão perdendo muito por não me conhecerem. Eles sempre estiveram ligados à parte mais monótona da minha vida, ao meu trabalho, a como está tal pessoa na família. Meus pais nunca souberam do que eu gosto, por que gosto do que gosto, daqueles meus talentos que não foram eles que me incentivaram a desenvolver, dos grupos dos quais faço parte, da minha influência, do meu encanto. Meus pais sempre se aproveitaram um pouco do fato de eu ser uma pessoa muito sensível, que ouve, que considera contradições, mas nunca entenderam de onde isso vinha, então eles nunca entenderam quanto poder existe nessa minha sensibilidade. Agora eles têm a opção de fugir disso tudo, ou de aceitarem e se fascinarem. É muito patético o seu teto ser ter orgulho de uma criança concursada no Executivo da União. Muito patético. Eu faço coisas muito mais legais do que isso, sou muito mais legal do que isso, embora adore trabalhar concursada no Executivo da União, não só porque também me orgulho de ter passado num concurso mas principalmente porque gosto de trabalhar no Estado, eu me sinto realizada fazendo algo legal para a população. Eu faço mais coisas para a população além de trabalhar no Estado, eu divido lágrimas e compaixão com a minha comunidade, reclamo em público pelo coletivo, sou desbocada e falo da minha vivência como travesti autista na intenção de que outras pessoas também se sintam validadas. Participo. Faço arte. Escrevo, componho. Eu sou muito feliz e orgulhosa de mim, e olha que eu nem comecei a fazer o que queria direito na vida. A distância entre como eu me sinto realizada e como eles não se sentem realizados quando me vêem diz infinitas coisas, mas é um sofrimento tão vão, tão... impotente, quando existe um outro lado colorido que é só abraçar. Eu estou pronta para o pior, é o que minha dor diz, é que aquela "eu violenta" lá de cima diz, eu sei usar taser e sei entrar com medida protetiva. Mas sei que, o dia em que essa distância puder ser reduzida, será um bom dia para todos.

E então, com essa enorme viagem entre a Lis de 31 anos e a Lis de 32 anos, que nem me importo se mais ninguém aproveitar porque para mim foi essencial escrever, terminamos nosso querido dia 23 de julho de 2025. Nossa querida aventura pelo hotel e por Ueno. Que venha o próximo.

Você leu um capítulo da série Tóquio, Japão - Julho de 2025

escrito por nubobot42 narrado por heartshaped star