Higashiikebukuro, Sunshine City, J-pop amador e sandálias carnívoras
16 de junho de 2025. O primeiro dia em que acordamos no Japão. Não me lembro se com a minha esposa foi diferente, sei que comigo não tinha um despertador, um compromisso, nada. Não me lembro muito bem também de como foi dentro do hotel. Para falar a verdade, não consigo lembrar se na noite em que chegamos estávamos cansadas demais para qualquer coisa e já fomos direto dormir, ou se tomamos um banho. É pouco provável que tenhamos tomado banho de noite porque o banheiro daquele hotel era um enigma. Não que fosse a coisa mais misteriosa do mundo mas tinha coisa diferente, nova, para explorar, e precisávamos de tempo: era um banheiro com banheira e, é claro, assim como todos os banheiros do Japão, a privada era equipada com o jatinho no cu, e dessa vez eu tinha tempo de sobra para entender como aquilo funcionava mesmo.
Também precisávamos entender como colocar as roupas para lavar, já que já tínhamos três dias de viagem (quatro, né? É que dois dias ali puderam ser computados em um, estávamos doze horas adiantados do relógio brasileiro, afinal) e algumas roupas já gastas. Precisávamos entender como iríamos comer. E, para o primeiro dia, eu não tinha roteiro nenhum. Aliás, eu montei um roteiro sobre lugares que gostaria de visitar em Tóquio e não explorei nem metade, era simplesmente impossível me organizar ali. Acima do roteiro, existiam lugares que eu não poderia deixar passar de jeito nenhum: Ikebukuro, Shibuya, Harajuku, Akihabara e talvez Shinjuku. Aliás, não é nem que eu tinha mesmo esse roteiro super-estruturado, era só uma série de lugares que alguns amigos meus passaram e falaram “aqui se você não for… esquece”, outros lugares meio turísticos que pesquisei na internet, cheguei mesmo a preencher uma agenda mas nem no começo eu tinha muita pretensão de fazer um rolê certo. Mas, como disse, eu não dei conta de me organizar. Acho que a cidade foi me soterrando e soterrando e soterrando e, quando vi, não dei conta de riscar nada.
Um dos maiores problemas dessa viagem foi o fato de que, até então, eu era uma travesti com pouca experiência em… ser travesti no mundo. Problemas eu digo para a viagem, para o roteiro, para o consumo da minha energia e da minha esposa. Essa viagem foi essencial para eu adquirir um pouco dessa experiência, a experiência de me sentir à vontade para sair na rua e ser feliz foi um divisor de águas na minha vida, voltei para o Brasil com muito sangue nos olhos, mas esse processo nos custou um pouco do aproveitamento dessa viagem. Em primeiro lugar: eu não sabia me maquiar, nunca tinha nem tentado, então todas as vezes antes de sair a minha esposa precisava fazer a minha maquiagem e isso era bastante estressante para ela, o que por consequência era estressante para mim, que não consigo não absorver os sentimentos de outra pessoa na minha frente ainda que ela tente disfarçar. Em segundo lugar: eu não sabia passear; não, não é que eu nunca tivesse saído antes após a transição, é que eu nunca tinha batido perna, até sabia que os sapatos incomodariam mas não sabia exatamente como isso aconteceria andando dez quilômetros por dia - não é nem que eu não sabia “o quanto”, eu simplesmente não sabia “como”, não sabia o que fazer, como proceder depois que machucasse, não sabia nada. E se você vier com conversinha de que é claro que é uma idiotice andar de tamanco com mais de 10cm na rua só vá embora, tenha noção de que eu até então não tinha um sapato baixo e que, aliás, sinceramente, acho pouquíssimos sapatos baixos menos do que horrorosos. Era importante para mim andar com os sapatos bonitos que eu tinha levado dias para escolher, não me arrependo, mas existem os macetes para fazer isso funcionar e eu não os tinha, aliás, eu não tinha nem recursos para fazê-los funcionar. Era só isso, mesmo, das grandes limitações que a pouca experiência social trouxe. É que o segundo não me atrapalhou taaaaaanto assim, exceto nesse primeiro dia, nesse primeiro dia ele me destruiu. Mas o primeiro foi algo que infelizmente carregamos pela viagem toda. Fico muito feliz de pensar que, na próxima vez, eu vou saber me maquiar por inteira… até o delineado eu já estou treinando agora, está uma bosta mas eu que fiz essa bosta, até lá as coisas estarão muito bem. Ah, tem outra coisa! Meu cabelo estava curtinho ainda então todo dia eu saía de lace, e botar lace dá um trabalhão, é bem estressante também… eu ainda levarei minhas laces para a próxima, mas pretendo não usar todos os dias, em especial nos dias em que acordarmos mais cansadas e quisermos sair rápido.
Dito isso, tudo já veio a tona no primeiro dia. Eu escolhi meu primeiro look: se não me engano lace rosa, um conjuntinho jeans clarinho e uma sandália Nantes bege da Vicenza, passamos um tempão até terminarmos de nos arrumar e saímos sem rumo para explorar Ikebukuro (Higashiikebukuro, sendo mais específica), só para conhecer a nossa vizinhança. Sem mapa nem nada. Era quatro da tarde quando a gente saiu do hotel, jet lag e tudo o que uma mudança de fuso de 12 horas era capaz de nos oferecer, imaginamos que não era um dia que nos ofereceria muito. Precisávamos, em primeiro lugar, encontrar um lugar para comer, a primeira coisa que nos apareceu foi um Nakau na frente do hotel e foi lá que amarramos nosso burrinho.
O Nakau tinha uma música muito boa que sempre tocava lá, tipo, a cada outra música que tocava. Depois de um tempo, talvez não na primeira vez, percebi que essa música era como um jingle deles. Talvez todas as músicas fossem. Tóquio tem uma coisa muito engraçada que até acontece no Brasil também, mas lá é com uma frequência muito maior, que é que uma quantidade muito grande de lugares tem um jingle e eles ficam tocando sem vergonha nenhuma. Às vezes, vários jingles. Às vezes, tantos jingles que tudo o que toca é jingle, mais nada. Minha cabeça não traz memórias a favor de dizer que era o caso do Nakau mas poderia ser, não duvido também.
Toda essa lógica dos jingles não foi a primeira coisa que me saltou a atenção, só a música mesmo porque era muito boa. Logo em seguida o que aconteceu foi uma enorme dificuldade em fazer o primeiro pedido de comida do Japão, eu já fiquei achando que não teria como usar o nosso cartão da Wise lá, não conseguia entender nada. Em boa parte dos lugares onde fui o pedido era feito digitalmente, algumas máquinas nem pareciam tablets, pareciam mais fliperamas mesmo e era o caso desse Nakau. Devo ter levado um tempão até conseguir entender como pedir qualquer coisa ali, com a ajuda do Google Tradutor e a câmera do celular. Eu sei que até o final do processo eu descobri que tinha como mudar o idioma da máquina para o inglês, descobri como fazia para passar o cartão da Wise, e até o final da viagem eu descobri até como faz para passar o cartão do metrô e que meu cartão de crédito normal provavelmente passaria lá também.
É muito engraçado como o primeiro dia no Japão é um dia de inaptidão absurda. Pode ser que você não seja burra como eu, mas suponhamos que você seja. Independente do quanto você pesquisou na internet e do quanto os seus amigos te passaram as instruções por A+B, parece que simplesmente você não consegue fazer nada direito. Acho que a Índia deve ser pior mas, quando fui para a Índia, estava em um grupo de igreja e eu não era responsável por nada. Nessa viagem eu assumi toda a responsabilidade porque era a pessoa que falava inglês, era a pessoa informada sobre como comprar, sobre onde ir, sobre tudo. A minha esposa não sabia nada. Não julguem, até então a viagem era “minha”. A intenção maior dela era comer bem e conhecer os parentes no interior. Se ela escrevesse sobre essa viagem, seria um baita texto bonito sobre como chegar em um lugar sem saber o que quer e sair desse lugar com mil e um planos muito bem definidos para a próxima. Mas é, eu não estava sabendo pedir comida numa maquininha. Levou muito tempo para eu conseguir, mas conseguimos.
Quando conseguimos e comemos, meu deus. Que comida boa. O mais engraçado é que o Nakau é uma rede de fast food. Eu só me atentei a isso agora, tipo literalmente agora, escrevendo. É engraçado porque não tem cara de fast food, sentíamos como se estivéssemos comendo a comida legítima do Japão e… na verdade, é mesmo, estamos no Japão, comendo comida japonesa, então é tipo literalmente isso. Para nós, naquele momento, foi o máximo. Eu pedi alguma carne de porco (ou frango karage? Sei lá) com gohan e suco, enquanto a minha esposa pediu outra coisa, talvez já o lámen que ela queria, e um chá de cevada que ela descobriu ser horrível (eu… não sei dizer se achei bom, mas achei um gosto mega interessante). O mais interessante eram os temperos e os molhos porque, bem, a minha esposa é nipo-brasileira, não é como se não tivéssemos costume de comer carne de porco no missô, frango karage, gohan, só o lámen que realmente não tem como reproduzir nada parecido aqui no Brasil. Quer dizer, estamos falando de um fast food, OK? A bacchan e os filhos e netos dela não perdem nada para um fast food do Japão. Mas não quer dizer que era tudo igual. Como eu disse, os molhos e temperos são todos muito diferentes. O sabor é simplesmente mais equilibrado lá, nada é salgado demais, o agridoce é o corriqueiro, os gostos só existem lá. E o chá de cevada é um bagulho muito misterioso, indecifrável. Eu sinto saudade do chá de cevada. Compraria um se tivesse aqui.
Aquilo foi uma das melhores refeições das nossas vidas. Não acho que tenha sido nada extraordinário, nada de outro mundo, mas era gostoso justamente por isso. A nossa primeira refeição comum no Japão.
Eu saí quase esquecendo minha mochila lá, o que foi um comportamento preocupantemente comum ali. Dessa vez, eu quase esqueci. Houveram outras vezes. Numa delas, esqueci mochila com celular e tudo no restaurante e cheguei no hotel, desesperei, e quando voltei para o restaurante estava tudo lá, tranquilo. A segurança de Tóquio me chocou completamente. Eu sei que não deve ser perfeito, sobretudo para nós, mulheres, e que faz todo o sentido do mundo reclamar de algo independente de se acontece com pouca frequência ou muita frequência, e que ninguém deve ficar comparando nada com os piores lugares do planeta para protestar, mas… Tóquio é o paraíso. Quer dizer, você que me lê deve ser brasileiro, talvez seja de metrópole. Eu sou da periferia de uma cidade com 600 mil habitantes do interior e, sinceramente, é o paraíso comparado com cidades como São Paulo, mas eu também vivo num estado de alerta. A minha esposa é de uma cidade vizinha com bem menos habitantes e parece também ter sentido os efeitos, mas acho que a nossa diferença de noção de segurança ficou clara ali.
Para mim parecia que eu estava vivendo num outro planeta. Esquecer os pertences nos lugares foi uma visível consequência desse choque de realidade: se eu desligo meu alerta constante, meu medo de ser roubada, sobra espaço na minha cabeça para cuidar dos meus pertences? Ou uma coisa está tão atrelada à outra que, quando eu não estou com medo de ser roubada, eu nem lembro que estou carregando coisas? Eu nunca me permiti desligar esse senso de alerta nem em cidades onde isso não acontece. Porecatu, a cidade em que meus pais cresceram e que visito com certa frequência para ver minha avó, tem 15 mil habitantes e você também não precisa ter medo de ser roubada, mas não é por isso que eu permito minha guarda abaixar. A cidade da minha esposa também é mais ou menos assim, os crimes até acontecem mas as pessoas não botam cerca elétrica nas casas, esquecem portas abertas, portões abertos e, tipo assim, foda-se. Isso pra mim é inconcebível. Quando casamos eu tive que ensinar ela a abrir o portão já da esquina de casa, entrar e fechar, porque ela simplesmente não se ligava que era perigoso.
Isso melhorou um pouco quando me mudei para um bairro nobre, onde a p… melhor não entrar nesse assunto, em nome do decoro. Mas é, num bairro nobre de Londrina existe um tanto mais de segurança, você não tem taaaaaaaanto medo assim de entrar em casa, mas não quer dizer que seja perfeito. No Japão o sentimento era de perfeição mesmo. Você pode esquecer o celular numa mesa e ninguém vai pensar “otário deu sopa, vou levar”, enquanto no Brasil, na melhor das hipóteses, o dono do lugar vai ser muito gente boa e pensar que o otário que deu sopa é o cliente dele então ele vai guardar, esperar você chegar e te devolver, ou te contatar de alguma outra forma se ele é seu chegado. Isso estou dizendo porque não moro em São Paulo, acho que em São Paulo até essas minhas hipóteses londrinenses são ilusórias.
Mas enfim. Depois falo mais de segurança, se esse assunto voltar a tona.
Fato é que saímos do Nakau e resolvemos (eu resolvi) andar meio sem rumo, para conhecer o bairro. Com uma sandália plataforma de mais de 10cm de altura. Por enquanto ainda não vou falar dela, também.
Eu ainda tinha muito medo daquele lugar, por ser um lugar estranho, então qualquer coisa que parecia fugir muito da normalidade já era motivo para eu desistir de seguir em frente. Nós estávamos numa avenida simples que “terminava” entrando em contato com um viaduto enorme e seguia em frente sabe-se-lá até onde (vendo aqui no mapa ela segue até o centro de Ikebukuro mesmo, mas estávamos até meio sem celular nesse rolê, não era mesmo para ir longe e fazer nada complicado). Para não seguir pelo viaduto entramos no bairro mesmo, vimos as casas, os carros… não estava muito movimentado provavelmente porque era uma quarta-feira, um dia de semana qualquer, e as pessoas ainda deveriam estar trabalhando ou estudando. Ali era um bairro residencial super comum e pacato então não há nada de tão absurdo a se comentar, só era um climinha gostoso, as casas interessantes, com aparência um pouco tradicionais por fora, algumas passavam a impressão de ter bem pouco espaço enquanto outras já pareciam maiores, bastante plantas, roupas estendidas em varal, ruas estreitas com pouca calçada.
Andamos um pouco em círculo e, quando vimos, já estávamos de volta no hotel. Acho que o fato de ser tudo muito novo e diferente dava uma sensação de pouco sentido lógico para aquela sequência de ruas mas agora, claro, eu acho tudo muito normal: aquela parte de Higashiikebukuro era uma ladeira, com a avenida onde estávamos no topo e a estação de Otsuka no fundo; do ponto de vista da avenida, tudo convergia para a estação naquela direção, e aquela parte da avenida era cercada pela linha de trem (tinha um ponto de trem chamado Mukohara a uma quadra de distância do hotel) e por aquele viaduto grandão, então qualquer passo que você desse estaria limitado até geograficamente por esses três pontos, uma coisa meio triangular. Parágrafo neurodivergente para vocês que gostam!
Chegamos no hotel e pensei: bom, então vamos para o outro lado. Ainda eram umas cinco ou seis da tarde, no máximo. Foi fácil observar que era época de campanha política porque tinham umas caras sérias e engravatadas coladas em vários murinhos ali daquela outra região, que já não parecia ser tão residencial assim, estava cheio de obras, tinham campos de esportes, parecia ter escola e até universidade. Não levou muito tempo até chegarmos em um lugar chamado Sunshine City. Não lembro se foi totalmente por acaso ou se eu até tinha chegado a pesquisar sobre ele no celular porque tinha o tal Pokémon Center, mas uma coisa posso afirmar: não era um ponto turístico planejado para a viagem. Hoje eu entendo que o Sunshine City é bem mais famoso do que eu podia imaginar, aliás, é um ponto de encontro comum em Durarara, e nesses dias fiquei sabendo que houve um crime de feminicídio cuja vítima trabalhava lá e me deu uma tristeza como se tivesse rolado em um lugar próximo de mim.
Havia um problema ali: eu já estava um pouco cansada por causa da sandália. Nesse ponto, a pouca experiência social feminina me pegou muito forte: eu esperava que usar sandálias de salto fosse cansar meu calcanhar, que eu fosse sofrer com me equilibrar ao andar, mas o que me pegou de jeito foi a tira de couro na parte dos dedinhos e também o calcanhar mas porque a palmilha era dura e desconfortável. Eu já tinha saído com sandálias de salto antes mas sempre foi para lugares em que eu andaria um pouco e sentaria um pouco, ou ficaria de pé por bastante tempo, e como os saltos eram até maiores do que esse eu sofri um pouco com o desequilíbrio. Não aconteceu. O meu pé estava doendo mesmo, criando bolhas e machucados, de tanto caminhar em um sapato que não parecia tão desconfortável, só… não era confortável o suficiente para caminhar. Eu também atribuí esse “aperto” da tira ao fato da sandália ser 38 e eu, até então, acreditar que calçava 39 (na verdade eu talvez ainda acreditasse que calçava 40). Mal sabia eu que meu número é, de fato, 38, mas a primeira vez de uma sandália a sério sempre machuca se ela não foi feita para ser confortável.
Queria caminhar pelo shopping todo mas estava com esse problema do cansaço. Ainda assim, exploramos um pouco do primeiro andar e logo descobrimos que o shopping fechava oito da noite: mais uma vez, ponto para os trabalhadores japoneses. Fiquei chocada mas, devo dizer, em nenhum desses choques pensei “nossa, como esse povo trabalha pouco, credo”. Eu fiquei revoltada com o Brasil. Por que mesmo a gente acha importante que os shopping centers fechem tipo dez, onze horas da noite? E principalmente: não era o povo brasileiro que era vagabundo, que não gostava de trabalhar, não sei que, não sei que lá? Já havia o Movimento VAT na época então eu já fiz a associação. Grande parte dessa galera que luta contra o fim da escala 6x1 são os trabalhadores de shopping centers… pois é, saibam que, em dias de semana, os shopping centers fecham oito horas da noite, não dez. Abrem onze horas da manhã, fecham oito da noite. Ou seja, um expediente normal de oito horas corridas. Em Tóquio, no Japão. A cidade que não para. Pelo que pesquisei, a escala dos trabalhadores de Tóquio costuma ser 4x3, justamente como maneira de incentivar a natalidade já que ninguém quer ser pai ou mãe trabalhando que nem louco. Que coisa, não? Também achei interessante o comportamento das pessoas quando o expediente encerra porque ele encerra mesmo, não tem conversa. Reparei no metrô de Shinagawa em que os trabalhadores não respondiam nem perguntas, no shopping isso também rolou.
Dito isso, ainda tivemos um tempinho para andar por lá. Para ser sincera, vou ter que conferir as fotos para entender como foi que interagimos com o Sunshine City porque houve um dia em que passamos bastante tempo lá, mas não consigo lembrar qual dia foi. Não foi nesse. Nesse, o que aconteceu foi que caminhamos pelas lojas, vimos bastante coisa interessante mas foi tudo meio rápido demais para o meu gosto (adoro explorar cada corredor, ver cada produto, só não ligo tanto para experimentar e ligava menos ainda nessa época porque eu nem me sentia capaz de experimentar qualquer coisa em público por conta da disforia de gênero), eu tive que parar pra sentar várias vezes para acalmar a dor nos pés, não tinha band-aids porque não sabia que precisava, era o suprassumo da garotagem. Ainda bem que era o primeiro dia e tinha milhares de lições a tirar para os próximos.
O Sunshine City tinha um Pokémon Center e uma loja enorme da Bandai Namco. Só explorei o Pokémon Center, definitivamente não dava tempo de ir naquele espaço da Bandai Namco. Aliás, nem lembro se estava aberto.
Até que chegou o grande momento desse dia. O maior e melhor de todos. O inacreditável aconteceu.
O Sunshine City tem um palco no térreo. Você pode ver do térreo, mas também pode assistir de qualquer andar superior porque todos os andares têm sacadas com vista para esse palco. Logo após o Pokémon Center, eu vi que tinha um alvoroço nessa sacada do… terceiro? Andar, não sei. Acho que era o terceiro. Na verdade esse alvoroço já estava acontecendo desde que estávamos no primeiro, mas ainda eram só grupos de pessoas se formando. Nesse momento eu percebi que tinha som saindo de algum lugar. Fui até a sacada e olhei para o palco: tinha um grupo de J-pop amador feminino se apresentando.
Meu deus do céu.
Meu deus do céu.
Meu deus do céu.
MEU DEUS DO CÉU
Eu estava mesmo tendo a oportunidade de ver um grupo de J-pop tentando começar uma carreira? Mesmo? Mesmo mesmo??? Mesmo mesmo mesmo???!!!! Sim! Eu estava! EU ESTAVA!!!
Vamos lá, você pode me deixar contextualizar um pouquinho, né? Só um pouquinho, prometo. No dia 20 de julho sim, desaguarei absurdos. Mas aqui é coisa simples: por muito tempo eu fui a maior fã de Yasutaka Nakata no Brasil, possivelmente uma das maiores do mundo mas no Brasil era uma certeza. Para ser mais específica, talvez não, porque ainda me faltava conhecer a carreira da MEG e eu tinha um pouco de medo. Mas Perfume, Kyary Pamyu Pamyu, NAGISA COSMETIC, COLTEMONIKHA? Em especial Perfume e KPP? Eu era fanática por elas. Eu assistia os DVDs de Perfume inúmeras vezes, em alguns momentos da minha juventude eu assistia todos os dias todos os DVDs, inclusive o primeiro, quando elas ainda pareciam (ou talvez até fossem) adolescentes, o público do show consistia basicamente em velhos otakus tarados e elas cantavam várias músicas antes mesmo do Nakata se envolver na carreira delas. Olha que fã de merda, tive que pesquisar! O nome do DVD é Fan Service. Eu assistia ele quase todos os dias. Eu sabia a coreografia de Electro World, Computer City, Linear Motor Girl, Twinkle Snow Powdery Snow, Oishii Recipe, Perfume, Jenny wa Gokigen Naname. De todos os outros DVDs também, mas vamos falar do Fan Service? Porque o Fan Service é o primeiro DVD delas e os fãs eram basicamente velhos otakus tarados.
É importante observar isso porque os fãs daquele grupo eram velhos otakus tarados. Claro que tinha eu, tinha um monte de gente jovem ali, tinha mães e seus filhos e filhas. Eu pensei em gravar mas logo reparei que pouquíssima gente estava gravando, então meu alerta social me disse que seria uma boa ideia guardar meu celular. Mas lá embaixo, no térreo, no lugar de difícil acesso, onde você conseguia ver o grupo de pertinho? Lá só tinha velho otaku tarado. Não era possível que todos aqueles homens fossem pais e tios das meninas… cadê as mães? E eu só conseguia lembrar do DVD Fan Service de Perfume, eu me sentia fazendo parte daquele DVD. Não tinha nenhum profissionalismo, nenhum equipamento mirabolante, eram as meninas, as roupas meio Harajuku Fashion meio cosplay mesmo, o gogó, as danças, a plateia e era isso.
A minha esposa cansou de assistir e foi explorar as lojas do shopping enquanto ainda dava tempo, mas eu fiquei lá. Passou pela minha cabeça que era o primeiro dia no Japão e eu já estava tendo a oportunidade de ver um show de J-pop acontecer na minha frente, fiquei muito, mas muito eufórica, emocionada, senti vontade de chorar. A viagem parecia ser feita sob medida para mim desde o primeiro momento, era impressionante. Eu pensei que se pudesse encerrar ali eu já teria ganho a minha vida, ainda sem imaginar o que viria pela frente.
Depois entrou um outro grupo, aparentemente mais adulto, mas ainda com uma sólida base de fãs velhos otakus tarados. Esse grupo não tinha só meninas, tinha meninos também. Achei conceito mas, sinceramente, não sou a maior especialista em J-pop do mundo, sou a maior especialista em Nakata e ALI PROJECT, e além disso gosto muito de shibuya-kei (fanática por Pizzicato Five e Maki Nomiya, muito gosto pela discografia do ORIGINAL LOVE, CUBISMO GRAFICO, Fantastic Plastic Machine, sei lá todo mundo que já fez qualquer coisa para Katamari), um tanto bacana de EDM (RAM RIDER, LiL, etc.), Yellow Magic Orchestra e todos os envolvidos, e… muitas outras coisas, tipo uns indies e punks, speed metal, visual kei. Mas J-pop, J-pop mesmo? Vamos ser honestos? Não. Nem AKB48, nem Tommy heavenly 6, nem… sei lá, muita coisa do J-pop escapa do meu radar. Talvez fosse normal haver grupos assim, boys and girls, mas eu não sabia. Além do mais eles passavam uma vibe mais K-pop, o que fazia todo o sentido, afinal, o K-pop ganhou a guerra dos pops orientais na década passada. O que eu sabia era que poderia estar vendo o nascimento de um novo Perfume, ou a morte de algum Perfume que não foi pra frente, não importa, eles eram todos ótimos, eram lindos, assim como eu adoro o Fan Service e tenho certeza que adoraria ver as meninas apresentando Omajinai Perori na escola porque superei há muito tempo a noção industrializada da música, em parte graças ao próprio Fan Service. E isso era tão lindo, tão empolgante, tão perfeito. Tão feito pra mim! Tenho amigos que foram para o Japão, tenho certeza que nenhum deles esbarrou numa apresentação amadora de J-pop dentro de um shopping no primeiro dia e sentiu como se tivesse sido feito para eles, isso só aconteceu comigo!
Depois disso, tivemos mais um tempinho complicado. Eu simplesmente estava exausta com aquela sandália comendo meu pé e fui sentar. E fiquei lá, sentada, no mesmo andar em que assisti o show. Um tempão. Abri meu celular, fiz tudo o que podia fazer dos meus gachas, e fiquei lá. Achei esquisito. Minha esposa não terminava as compras, pensei que estava levando o shopping inteiro sendo que eu queria descer e dar mais uma passada nas lojas já que elas fechariam às oito.
Bom, encurtando a história: minha esposa voltou ao lugar onde eu assisti o show e eu não estava mais lá, então ela presumiu que eu fui bater perna de novo e já ficou toda desorientada sobre o que fazer. Só o meu celular tinha crédito, o dela não, estava sempre dependendo de wi-fi e não lembro se ela conseguiu pegar o do shopping. Por fim, eu mesma tentei ir até o lugar onde ela foi comprar algo e ela não estava, aí fui procurando naquele mesmo andar e a encontrei lá. Precisávamos combinar melhor esse tipo de situação e assim fizemos mas, na real, a questão aí era o cansaço, eu estava muito cansada e ainda era o primeiro dia da viagem, era impossível estar totalmente bem.
Não conseguimos ver mais nada porque o shopping fechou, então voltamos para o hotel. Bem devagar para não sentir muita dor. É engraçado pensar que eu não sabia o que faria eu sentir dor usando uma sandália mas, de fato, eu não sabia. É engraçado porque todo mundo resume o problema ao “salto” mas o salto só é problema se ele for fino, difícil de manter equilíbrio, incompatível com pisos de formas geométricas variadas ou só todos quebrados mesmo como costuma ser aqui no Brasil, mas o problema dos scarpins é aquele formato que achata o pé. É conhecimento comum isso, mas só para quem usa sandálias e sapatos, não para uma pessoa que usou tênis a vida toda. Eu tenho flats que machucam mais o pé do que algumas sandálias de salto porque o formato, ou as tiras, são péssimas. Era o caso dessa. Era bonitinha mas tinha esse custo terrível.
Quando chegamos no hotel, percebemos que não tínhamos comido nada. Não sabíamos se podíamos pedir algo por qualquer aplicativo, aliás, não sabíamos qual seria o aplicativo, como usar, como ler o alfabeto, então supomos que era menos problema logístico sair e achar qualquer coisa que vendesse comida. A minha esposa julgou que seria melhor encontrar um supermercado para fazer comprinhas básicas, apesar de que não podemos chamar nada em Tóquio de supermercado: ou é uma konbini (loja de conveniência) pequena, ou uma konbini maiorzinha.
Eu ainda insistia em andar com algum sapato espetacular, já que o único sapato confortável que levei foi um tênis masculino. Já disse, mas eu não tinha comprado nenhum sapato confortável feminino até então, e achei os sapatos confortáveis japoneses realmente horrorosos. Tenho um problema com sapatos confortáveis num geral, que anda diminuindo um pouco mas eu ainda odeio coisas que parecem Usaflex, rasteirinhas, acho sapatilhas sem graças, e odeio saltos blocos de altura evangélica, e Tóquio não escapou disso: fora a estética gothic lolita eu achei tudo muito feio, aqueles modelos balão inflável da AliExpress não estão lá só para enfeitar a loja, os japoneses usam com força e provavelmente os chineses também. Eu entendo o apelo, de qualquer forma, porque parecem super confortáveis e pouca gente é idiota como eu.
O que eu escolhi então foi a minha bota preta verniz com uma patona e um salto bloco altinho. Não era uma maravilha mas já era melhor que a outra sandália. Também tive que colocar uns band-aids que minha esposa trouxe, já que ela sim sabia o que aconteceria. Ajudou mas não resolveu. Esse primeiro dia realmente deixou uma marca que durou o resto da viagem. Os machucados que fiz nesse dia não pararam de me incomodar nunca mais, só amenizaram com o tempo. Aceitei que, do próximo dia em diante, mesmo que fosse um tênis Nike falsificado comprado numa feira no litoral do Paraná e fosse masculino, eu o colocaria na minha mochila e o vestiria assim que o salto começasse a incomodar, truque que mantenho até hoje com alguma papete ou tênis (feminino rosa pink com plataforma, eu corri atrás de um assim que voltei ao Brasil) mesmo que a própria mochila já prejudique o meu look. No final das contas caminhar é caminhar, passeio é passeio, dá pra chegar muito perto de tornar o mundo uma passarela mas não dá pra chegar realmente lá, e todos os dias em Tóquio nós andamos mais de dez quilômetros.
Mas bem! Bem! Um pouco de descanso no hotel, uns band-aids e uma bota preta de salto, e partimos pela noite. Eu não queria ir, mas pensei que seria muito custoso para minha esposa procurar um mercado, fazer as compras, pensar no que eu gostaria de comprar, pegar meu cartão, conversar com pessoas se necessário (sem o inglês) e tudo mais. Também queria saber o que poderia ter num mercado de Tóquio.
Eu ainda não tinha muita certeza sobre a segurança da cidade então estava andando muito alerta, com medo de cada vulto que via, mas com uns quinze minutos de caminhada chegamos no mercadinho. Meus pés logo começaram a doer de novo porque o descanso foi pífio, mas aguentei. Compramos. Voltamos para casa, um pouco devagar. Eu já estava exausta, já podíamos declarar o dia encerrado, e na prática foi isso que rolou mesmo.
Eu poderia ter só contado os melhores momentos lá no Sunshine City mas, sendo um blog onde posso escrever sobre o que quiser, acho importante contar tudo. É importante contar essa burrice da sandália porque deixa claro aquilo que venho dizendo ao longo dos textos, sobre o Japão ter me ensinado a ser mulher no mundo. Tenho certeza que todo mundo deve ter pensado “que burra”, mas acho que toda mulher deve ter aprendido sua lição sobre isso em algum momento da vida, provavelmente na adolescência, às vezes até na infância. Eu tive que aprender aos 31 na viagem dos meus sonhos, mas fico feliz de ter aprendido, e de certa forma fico feliz de que tenha sido na viagem dos meus sonhos.
Tenho certeza que aproveitaria bem mais Tóquio como um lugar físico se não tivesse precisado aprender a ser no mundo mas, pensando por outro lado, quem mais teve a oportunidade de ser no mundo na viagem internacional dos seus sonhos? Que importa o que deixei de fazer, ou o que fiz com um pouco mais de sofrimento, diante disso? Não acho que posso encerrar esse tema aqui, ainda é o primeiro dia da viagem, muita coisa aconteceu. Mas adianto que um país estrangeiro, do outro lado do planeta, é muitas vezes muito mais generoso contigo (claro, quando você é turista) do que seu próprio país. Não vou falar mais, chega disso por hoje.
Esse foi o meu primeiro dia oficial em Tóquio, mais especificamente Higashiikebukuro. Um pouquinho de perrengue, mas muita realização. Eu dormi maravilhada com o show de J-pop amador. Mal sabia o que conseguiria ver mais adiante. Não sabia mesmo.
Não tinha como não ser a melhor viagem da minha vida.