Ginza, algumas "primeiras vezes" como travesti e dicas da burra
17 de julho de 2025. Aqui saímos de Ikebukuro pela primeira vez. Para esse dia eu preparei um look meio otome de Shein: a minha lace preta mesmo, um vestidinho preto de um tecido bem quente da Shein, meia calça preta e um sapato Mary Jane anabela de cor vinho (é o Myriam da Schutz, mas esse modelo já existia antes na AliExpress e depois outras lojas brasileiras passaram a vender em ainda mais cores).
Tivemos um tempo antes de sair para comer algumas coisinhas que compramos no mercado e foi aí que descobrimos de vez o que é “chá de cevada”, já que no Nakau ainda não dava para entender muito bem o que estava acontecendo. Minha esposa comprou uma garrafinha com isso, tomou, achou a coisa mais tenebrosa do planeta e me deu, já que eu disse que conseguiria tomar. O chá de cevada é uma bebida muito comum e de fácil acesso, dizem que tem propriedades relaxantes. Também comemos umas outras besteiras que trouxemos do mercado, algumas muito muito boas, outras mais ou menos, mas nada de fato ruim, tudo bastante industrializado porque afinal compramos embaladinho no supermercado.
Em algum momento desse dia, suponho que já desde cedo, eu descobri que haveria um show da Kyary Pamyu Pamyu no domingo e isso passou a me perturbar muito. Talvez eu já tivesse visto essa informação antes mas não tinha sequer levado a sério, só pensei que não daria certo e pronto, bola pra frente, adeus, etc. Mas conforme o dia foi chegando mesmo eu passei a pensar direito: e se desse certo? E se houvesse uma pequena chance de eu conseguir ver um show da Kyary Pamyu Pamyu no Japão, já que ela não vem ao Brasil por nada nesse mundo? Então eu gastei um tempo na internet tentando entender como comprava aquele bendito ingresso mas era difícil demais, precisava de um número de celular e tudo mais. Tentei trocar uns e-mails com a empresa que estava vendendo os ingressos mas era tudo muito lento. Tentei também pegar instruções com a recepcionista do hotel sobre como poderia conseguir um número de celular, ela me passou alguns pontos no mapa em Ikebukuro e uma dessas lojas era a Bic Camera, que tinha unidade em Ginza também, o nosso principal alvo do dia. Nesse dia eu ainda não estava muito desesperada sobre o show, pode-se dizer que eu saí da inércia, mas que ainda não estava dando a atenção devida a esse fato.
Minha vida tem muito disso, sabe? Tinha, ao menos. Eu já perdi um milhão de chances por suspeitar que não tinha como dar certo para descobrir, pouco tempo antes da chance passar na minha frente, que se eu tivesse acreditado um pouco em mim mesma e me esforçado, eu poderia conseguir. Eu luto muito para identificar meus desejos e chances para não deixá-los passar porque tenho trinta anos disso, e tem tanta coisa envolvida nisso que não tem nem por onde começar. Só posso dizer que uma transição de gênero foi muito importante para eu começar a dar a volta por cima nisso, mas ainda é só o começo.
Enfim, não foi um dia muito desesperador em busca do show da Kyary. Depois eu comecei a entender que não era só um show da Kyary e sim um festival, mas eu realmente só conhecia a Kyary ali.
O dia era dedicado a conhecer Ginza. Não vou me alongar explicando que não teve um dia dessa viagem que conseguimos sair antes das onze da manhã do hotel, no dia anterior eu expliquei tudo. Tenham ciência de que não saímos uma manhã sequer, exceto quando estritamente necessário. Foi tudo almoço e depois rolê até onze horas da noite.
Com muita fome, nesse dia saímos e procuramos algum outro restaurante ainda em Higashiikebukuro para conhecer. Espero não estar enganada, mas o mais importante é narrar o que aconteceu, né? A ordem não é tão importante assim, é? Tem algum problema se eu errar o dia? Espero que não. Acho que foi nesse dia que conhecemos um restaurante italiano na rua do hotel. Para falar a verdade, o restaurante não tinha cara de italiano e, por mais que tivesse alguns pratos italianos, tudo parecia muito japonês. Acho que é como ir na pizzaria podreira do seu bairro em que você não pode pedir a pizza quatro queijos porque vem mussarela, requeijão, cheddar e cream cheese, então você precisa pedir por meia pizza de cachorro-quente e meia pizza portuguesa que na verdade vem uma marmita em cima da massa e é isso, com todo o respeito já que essa pizza também é ótima, recatadíssima e ainda barata, mas ela é podreira. Só que nesse caso não era podreira, era japonês, então parecia muito mais um lugar boêmio, melancólico. Umas moças conversavam ali, pareciam estar no horário de almoço do trabalho. A comida foi ótima também, acho que tomei alguma bebida alcoólica para começar bem o dia, mas não foi nada muito forte.
Foi nesse lugar que esqueci o celular e a mochila, tudo lá, e voltei para o hotel sem dar falta até que cheguei na escada e pensei “caramba, cadê meu celular?”, entrei em desespero, deixei minha esposa procurar no hotel enquanto eu voltei para o restaurante e tudo estava lá. Ou não estava? Ou estava perdido na minha bolsa? Acho que não, acho que estava lá mesmo. Incrível. Não perdi meu celular mesmo esquecendo ele num restaurante do outro lado do planeta, impressionante. A segurança pública do Japão é uma coisa incrível.
Além disso, houveram uns outros pormenores que tivemos que aprender também: lavar roupas no hotel custava dinheiro e não era tão fácil, não me lembro se foi nesse dia ou no anterior que tivemos que colocar as roupas na máquina do hotel e, como era a primeira vez, eu que tive que me virar para entender muita coisa lá. Conversei com os recepcionistas, eles não entenderam muito bem a demanda, talvez porque precisasse de dinheiro de moeda e eu não tinha, não sabia onde pegar nem como pegar. Eles falaram de uma máquina de sacar dinheiro que tinha dentro do hotel mas ela não funcionava para mim, não lembro o motivo. No final das contas, descobri que dava para sacar de um Seven-Eleven ali na frente (o Seven-Eleven é uma rede de konbini que tem em cada esquina de Tóquio, e em outras cidades também), fiz isso, voltei, descobri que eles trocavam dinheiro por moedas, então trocamos, e aí cheguei na máquina de lavar mas eu não fazia ideia de como funcionava e não queria botar moeda lá sem ter a certeza de que não estava fazendo besteira. Importante dizer: não nos comunicávamos bem em inglês então estávamos fazendo todo esse rolê por meio do Google Tradutor do celular. Um funcionário do hotel foi lá me ajudar e, com muitos desentendimentos e risadas de tipo “ah então era isso!”, conseguimos. Depois dessa ficou fácil, ensinei a Vivian e ninguém mais teve grandes problemas. Acho.
Então saímos para Ginza. Nessa primeira vez, fomos até o ponto do bondinho de Mukohara, naquela avenida. Pensei que era tudo integrado, mas acabamos tendo que pagar essas duas passagens de Mukohara e depois duas passagens de metrô, então cheguei a conclusão de que era melhor ir a pé até a estação de metrô de Otsuka, que ficava uns dez minutos dali. Aliás, quando descemos do bondinho, fiquei abismada pensando “não é possível que andamos dois pontos” porque jurava que era mais longe. Bem.
Tudo o que é primeira vez é difícil.
Também foi difícil entender como funcionava aquela estação de metrô, ainda que fosse mais fácil e menor do que muita estação de São Paulo. Era só que eu achava que a entrada estaria já meio integrada com a linha de trem também e não estava, só estava na mesma quadra. Já tínhamos aprendido como era o cartão do metrô, então foi só usar. Me informei muito bem sobre a estação que iríamos descer: era Yurakucho, e o melhor sentido era sentido Tóquio, mas sinceramente não fazia muita diferença já que Yurakucho ficava praticamente do lado oposto de Otsuka e qualquer sentido passaria por uma quantidade semelhante de estações.
Para quem não sabe, Otsuka (e não Shin-Otsuka: isso será importante) faz parte da Yamanote Line, a Linha Amarela de Tóquio. A Yamanote Line é uma linha circular que passa pelos grandes bairros comerciais de Tóquio: de cabeça eu lembro de Tóquio (durr), Shinagawa, Shibuya, Shinjuku, Ikebukuro, Ginza (Yurakucho é basicamente lá já), Akihabara, Ueno, Harajuku. Sim, Shinagawa. Para quem lembra do primeiro dia em Tóquio, a estação onde cheguei e peguei o táxi para ir ao hotel. Isso significa que, em Shinagawa, eu deveria ter achado a Yamanote Line, entrado num metrô sentido Ikebukuro e descido em Otsuka. Olha que simples! Mas nem dava tempo, quanto menos eu tinha entendido isso. Então, bem, OK.
É uma grande linha e devo dizer que, nessa viagem, nós praticamente não saímos dela. Só me lembro de ter pegado uma linha diferente nesse domingo para ir até Chiba, no outro domingo para ir até os parentes da Vivian e, claro, no primeiro e último dia para ir e voltar de Haneda, sem contar que no último dia fomos até Yokohama em outra linha. Mas foi quase tudo na Yamanote. É um trato meu e da minha esposa: na próxima viagem, não ficaremos tão presas à Yamanote durante a passagem por Tóquio.
Dito isso, a Yamanote tinha quase tudo o que meu coração precisava ver naquela viagem. Só de entrar no metrô e ver que tinha Shibuya, Harajuku e Ikebukuro ali, eu passava mal. Já estava até meio triste de saber que o sentido Tóquio não passaria por nenhuma das três estações mas tudo bem, eu veria muita coisa. Nesse primeiro dia não tirei os olhos de fora da estação, tentando ver a cidade aparecendo e desaparecendo da minha vista. O que eu mais via era prédio e ferrovia, uma grande parte das estações da Yamanote se cruzam com outras linhas, Tóquio tem muita Sé, e algumas Luz já que o Shinkansen (trem-bala) até onde me lembro passa por Ueno, Tóquio e Shinagawa. Era ferro e trem pra todo lado.
Também observava um pouco as pessoas que entravam e saíam, saboreava a sensação de pegar um metrô como travesti assumida pela primeira vez na vida: para falar a verdade não é aquelas coisas. Comecei a entender que sentia medo de homens mal-encarados de terno, de senhores, mas ao menos me sentia bonita. Acho que existem aqueles momentos da sua vivência transfeminina, bem no começo, em que você começa a ter sentimentos “como mulher” e acha que tem a ver com a sua transição, com a sua aparência que mudou, com um “agora que sou assim, tenho esses medos também” mas, estando a quase um ano de distância desses metrôs de Tóquio, muitas sessões de psicoterapia, muitas revisitações ao passado e muito mais clareza da vida, posso dizer que o sentimento é automático porque de alguma forma ele sempre esteve ali. Eu sempre me escondi muito nos ônibus, tinha pavor do contato físico, me encolhia na cadeira, não o suficiente para não conseguir prestar atenção na vista ou usar o ônibus para estudar na época da faculdade, mas… era ruim e opressivo quando as pessoas encostavam em mim, eu tinha mais dificuldade com mulheres do que com homens com relação a isso porque, sei lá, suponho que as minhas relações com o gênero eram tão bagunçadas que eu achava que mulheres faziam com homens o mesmo que homens faziam com mulheres. Teve uma fase bizarra da minha vida em que pensei assim. Quando entendi que isso não fazia sentido já era tarde, eu já não pegava mais ônibus.
Bem, então essa sensação do metrô pela primeira vez sendo lida como uma mulher não foi assim tão estranha. É o que eu disse: ao menos agora eu passo por isso sendo bonita, só que por outro lado os riscos talvez tenham aumentado, então não posso dizer que melhorou.
As três linhas mais interessantes dessa viagem provavelmente foram Ueno, Akihabara e Tóquio. Ueno porque tinha a vista para um zilhão de parques e isso era interessante, Akihabara porque eu sabia que era bairro de nerd e eu precisava visitar, e Tóquio porque… sei lá, você está em Tóquio, a estação Tóquio é interessante. Seria como se São Paulo tivesse uma estação chamada São Paulo, ou não porque a organização distrital japonesa é totalmente diferente da brasileira, mas eu sou brasileira então isso não saiu da minha cabeça. Foda-se. Eu já sabia que visitaria Akihabara e Ueno, mas acabei visitando Tóquio também.
Então chegamos em Yurakucho. Uma estação de metrô comprida, com um mercadinho do lado de fora cheio de coisas interessantes, como uma loja de doces em que os chefs faziam os doces ao vivo numa chapa com uma plateia enorme. É claro que minha esposa fez parte dessa plateia. Saímos desse mercadinho e fomos em direção a essa Bic Camera, uma loja de tecnologia que na verdade vendia de tudo, tinha uns nove andares e mais o subterrâneo que se ligava diretamente à estação de metrô. Dessa vez eu não quis explorar muito a loja. A passagem era para perguntar sobre chip de celular com um número, algo que a recepcionista do hotel falou que poderia ser possível, talvez porque não nos comunicamos direito, mas o pessoal de lá logo explicou que não faziam esse tipo de serviço. Triste, mas OK. As lojas que a recepcionista tinha passado ficavam em Ikebukuro: uma era a Bic Camera (por isso eu tentei em Yurakucho), a outra eu nem lembro o nome mas ficava bem no centro comercial também, então ter conseguido em Yurakucho seria pura sorte.
Saímos de lá e seguimos para Ginza. Tínhamos duas metas em Ginza: tomar café no lugar que nosso amigo cafeólogo passou, e comprar umas coisinhas na Uniqlo que nossa amiga esposa do amigo cafeólogo pediu. Além disso, claro, conhecer Ginza. Em primeiro lugar, Ginza era uma visão de cidade grande perfeita para quem gosta de visões de cidade grande, algo que eu nunca tinha visto na minha vida exceto talvez se forçar muito a amizade na Paulista ou no centro comercial do Rio, mas já garanto que estou forçando a amizade (dito isso, Brasília chega mais perto do que essas duas, mas não conhecia Brasília ainda). Os prediões de Ginza eram espetaculares. Eu sabia o endereço da Uniqlo e desse café e fomos primeiro na Uniqlo, mas ambos exigiam uma pernada boa de Yurakucho.
Ainda no começo do caminho paramos em um parque para descansar e tirar umas fotos porque o parque era lindo e porque o salto estava me incomodando um pouquinho. Dessa vez era a palmilha muito dura, e o fato de que o sapato era de verniz vinho e batia aquele sol absurdo de um verão japonês então começava a fritar meu pé. Cada dia um conhecimento diferente sobre sapatos, não é mesmo? Mas ainda estava melhor que o dia anterior e, viva! Eu estava com a tática do tênis, quando não aguentasse mais iria trocar pelo tênis e vida que segue. Ainda estava aguentando. A pior dor ainda era remanescente do dia anterior.
Esse momento do parque foi bem especial porque, ao tirar fotos, eu tentei pela primeira vez em muitas décadas ou talvez na vida fazer um sorriso com a boca aberta. Para essa viagem eu tinha acabado de tirar o aparelho fixo de cima, estava só com o móvel e, claro, não estava usando nem esse móvel… aliás, nem lembro se levei o aparelho na viagem. Pobre dentista. Voltando ao momento especial: eu descobri que meu sorriso é bonito. Tirei umas fotos sorrindo e fiquei muito emocionada com o que vi, percebi que sou uma pessoa maravilhosa, fiquei mesmo muito satisfeita e feliz e me propus a sorrir mais para fotos depois desse dia. Em especial quando faço limpeza nos dentes, né, agora tá meio complicado, eles são muito amarelinhos de café e tenho fases depressivas em que minha higiene se perde um pouco, tento compensar nas boas fases mas elas não fazem milagres.
Enfim, enfim! Sem estragar essa sensação incrível das fotos no parque. Foi isso. Literalmente comecei a sorrir para fotos aí. Fiquei surpresa com como eu era bonita. A vida me roubou muito.
Descansadas, seguimos então rumo a Uniqlo. Até então, Ginza só parecia a cidade grande mais bonita que eu já tinha visto, mas comecei a perceber que tinha muito turista lá, maioria com cara de europeu. Às vezes me batia um incômodo pensando que eles estavam reparando em mim e me julgando, mas fazia parte, tinha que seguir o baile. Até que chegamos no que é possivelmente a avenida mais famosa de Ginza: uma avenida com uma cacetada de lojas famosíssimas e chiques, de grife de verdade, tipo Chloé, Balenciaga, e por incrível que pareça nesse momento só lembro dessas (não é tão incrível na verdade, é claro que não tive coragem de entrar em nenhuma, então faz sentido que eu não lembre os nomes).
A Uniqlo ficava nessa avenida também, mas eu confiava no que meus amigos disseram, que era uma loja acessível. Não é uma avenida compridíssima também, aliás, talvez até seja, mas essa parte em que estavam essas lojas deveria ter umas cinco quadras. A avenida era larguíssima também, posso estar enganada mas parecia ter três mãos para cada sentido.
Logo chegamos na Uniqlo, possivelmente a maior loja dali, em altura ao menos. Ela não tomava muito da quadra em largura, mas tinha uns nove andares. Na entrada, já algumas peças de roupas para vender, não lembro quais tipos porque não pareciam interessantes para mim. O interessante era que eles fizeram um espaço largo cercado por vidro onde algumas roupas ficavam sendo balançadas de um lado para o outro, num pêndulo. Era uma coisa relativamente simples mas, como estávamos deslumbradas com tudo, isso também nos deslumbrou.
Será impossível narrar cada andar porque não lembro como era a organização, então vou falar de alguns pontos mais importantes independente da linha do tempo. Sobre a organização em si, era um setor diferente por andar, e aí era muito engraçado porque tinha um andar para crianças, um (ou dois) andar(es) para homens, e aí uns quatro andares diferentes para mulheres (um para roupas íntimas e o resto… sei lá, mas eram muitos), aí algum andar para roupas de esportes e um andar para camisetas estampadas, e o último era tipo um café. Incrível.
Claro que eu quis explorar todos, talvez até o de criança afinal, teoricamente, depois do Japão, já estaríamos disponíveis para ter filho. De qualquer forma, em um dos primeiros eu já estava muito cansada de andar naquela plataforma e resolvi achar um cantinho na loja para trocar por um tênis. É meio triste estar com um look tão absurdo e colocar um Nike preto falsificado mas era o que tinha, na próxima uma papete preta serviria até que bem para o look. Apesar disso, um pouco do cansaço não era especificamente do salto, era de andar mesmo, a gente já tinha andado bastante.
Essa também foi minha primeira experiência fazendo compras numa loja de roupas, praticamente um shopping, então foi muito especial mas também muito traumática. O Japão tem uma certa dificuldade com roupas GG para mulheres, não é nada fácil encontrá-las, e achei uma pancada de peças no G que me interessavam muito. A minha primeira rodada na loja foi só para olhar e tirar fotos dos modelos que me interessaram, para eu sentar em algum momento, relaxar, apreciar a vista e selecionar o que eu levaria de verdade, bem como fazer contas e mandar fotos para os familiares conferirem o que os interessava, caso quisessem me mandar o dinheiro para eu comprar. Quando cheguei nesse último andar para descansar eu levei muito a sério. Minha esposa pegou uma água, porque ela lembrou (e eu não) que estávamos sem beber nada desde o almoço, desde Higashiikebukuro. E eu fiquei lá, descansando dessa caminhada intensa, ainda aguentando as dores do dia anterior, que foram se arrastando até a segunda-feira, por aí.
Depois disso, round 2. Escolhas feitas, agora era ir lá buscar as roupas e experimentar. Deu um trabalhinho buscar todas, escolher se economizaria no HeatTech ou se compraria o melhor, mas a pior parte foi o provador. Eu nunca tinha usado provador antes na minha vida daquele jeito e… foi horrível, pavoroso. Em primeiro lugar, fiquei morrendo de medo de entrar num provador feminino, então minha esposa teve que ir comigo para me dar segurança. Mesmo assim eu senti muito medo, estava tensa, não estava conseguindo fazer nada muito bem. Em segundo lugar: no Japão eles te dão tipo uma sacolinha para você colocar na cabeça e evitar que a sua maquiagem suje as roupas, o que é super correto, mas essa sacolinha simplesmente não cabia na minha cabeça porque eu estava de lace cacheada na altura do ombro. Esqueceram dos negros, né? Eu estava de lace mas não era grande assim, grandona, não era nem a maior de onde eu comprei, mas eu tenho amigas que têm cabelos daquele tamanho ou até maiores; aliás eu, hoje, quase um ano depois, já não encaixo mais naquele saquinho com meu cabelo natural, basta ele estar seco. O dia que eu resolver ir de afro então, meu deus do céu, né? Mas calma, calma! Eu aprendi a usar esse saquinho com a lace no futuro, então tem uma saída, mas vale a pena refletir (eu coloquei isso no feedback do cliente da loja como sugestão amigável, depois de elogiar horrores). Dito isso, essa sacolinha acabou comigo: acabei me vendo obrigada a tirar minha lace, fiquei morrendo de medo de alguém me ver, isso acabou com a experiência do provador ao ponto de eu colocar as roupas o mais rápido possível. Aí teve um conjuntinho de regata e vestido que eu fui colocar nessa pressa e a regata e o vestido se separaram, já achei que tinha estragado a roupa, já achei que estava muito gorda, já achei mil e uma coisas, aí eu acabei nem tendo coragem de experimentar tudo, só me arrumei mesmo bem rápido para sair logo daquele espaço. Ser travesti é uma merda, às vezes, e principalmente no começo.
Com muito cansaço e um clima meio ruim chegamos no caixa, passamos todas as roupas, vimos o preço, sofremos, consideramos que estávamos levando um monte de coisa e pagamos. Era tarde demais para tomar o café em Ginza que nos foi recomendado, mas cedo demais para jantar em Ginza no lugar que nos foi recomendado. Parecia um tempo bom para começar a compra de malas, que deixamos para fazer em Tóquio mesmo, ao invés de comprar tudo com antecedência no Brasil. O lugar indicado se chamada Don Quijote e eu não fazia a menor ideia do que esperar. Loja de malas? Shopping? Era um nome engraçado e eu não tinha conseguido pesquisar muito bem, apesar de ter visto o símbolo em algum lugar enquanto andava de metrô.
Saímos da Uniqlo e continuamos andando na avenida chique. Eu fiquei interessada na loja da Chloé, vi a vitrine com sapatos incríveis, mas não tive coragem de entrar, apesar de haver uma nítida diferença entre o olhar das atendentes japonesas de loja de grife e o olhar das atendentes de loja de grife do Batel em Curitiba. Elas também pareciam saber que não era para o nosso bico, mas ao menos sorriam quando olhavam pra nossa cara, babando na vitrine, pensando que nunca teríamos dinheiro o suficiente para aquilo.
Continuamos a procurar por essa tal Don Quijote. Já estava escurecendo, deveria ser umas seis, sete horas da noite. Pode ser que em algum momento daqui eu tenha arriscado colocar os sapatos de salto de volta porque, se ainda não ficou claro, eu queria usá-los o máximo que pudesse, como se ao voltar para o Brasil isso não fosse mais ser possível. Compreendam que na minha cabeça não era mesmo, essa viagem teve grande importância para eu mudar e me impor no Brasil.
Achamos a Don Quijote em uma das entradas mais difíceis. Segue sendo muito engraçado em pensar em como as lojas de Tóquio, que agora são tão comuns, pareciam tão misteriosas. Quando vi a fachada e tive um primeiro olhar na Donki, achei que fosse alguma loja de conveniência, não entendi nada. Aí entramos. E meu deus do céu. A Donki (como todo mundo chama a Don Quijote), para quem não sabe, é como se fosse um camelódromo inteiro só que dentro de uma loja só, separada por departamentos. Então tem um lugar que vende salgadinhos, outro que vende bebidas, outro que vende eletrônicos, roupas masculinas, bonés, bolsas, brinquedos, sex shop, cosplay, jogos, malas (err), utensílios de cozinha, maquiagens, skincare, e muito mais. Sim, muito mais. Tudo no mesmo lugar. Tudo meio embolado, sem uma sequência muito lógica (que eu tenha entendido), mas cada coisa ficava no seu departamento e era isso. A Donki também é super apertadinha, dificilmente dá pra passar duas pessoas no mesmo corredor com um carrinho. Dificilmente tem um andar só, então sempre tem elevador. E tem vários jingles próprios intercalando com músicas de J-pop e K-pop, no momento só me vem o ~don don don doooonkiiii donkijooteeeeee~ mas tem outros. Também percebi bastante imigrante atendendo nos caixas da Donki de Ginza, nem tantos na Donki de Otsuka ou de Ikebukuro, que acabei indo quase que no automático dias depois. Eu tinha que comprar sacos a vácuo para colocar as roupas antes de viajar de volta também, mas acabei esquecendo.
Fora o fascínio por estar num lugar que tinha de absolutamente tudo, não há muito a se comentar da Donki. Sinceramente os preços não são tão bons, você paga pela facilidade de encontrar tudo o que precisa no mesmo lugar mas, talvez pela minha viagem ter sido extremamente comercial (o que é meio triste de se pensar) logo eu ter revirado trocentas lojas de departamento, trocentas Donkis e Bic Cameras e lojas que são tipo elas só que menores, eu percebi que gastei dinheiro demais. Comprei uma mala lá e achei que tinha pagado um preço ótimo, mas alguns dias depois achei ela por metade do preço numa loja obscura de Harajuku, sem contar que haviam malas um pouco menos fodonas mas bem mais em conta no Sunshine City, que eu já tinha visitado. Sei lá. Também tem o fato de que consigo achar essas malas aqui no Brasil pelo mesmo preço, talvez por ser uma pessoa crescida a base de camelô, de confiar até na loja mais suspeita da Shopee e ter certeza de que vai dar certo (e dá). Mas não vou negar: se dependesse só do dinheiro, eu teria comprado uma mala ligeiramente pior, e essa mala que comprei na Donki é a melhor que tenho, que melhor resistiu às violências dos aeroportos e a mais fácil de usar, então não são só trevas. Compramos também uma cacetada de lembrancinhas para a família, aproveitamos que tínhamos acabado de comprar uma mala e colocamos tudo lá dentro.
Como disse, contei meio rápido porque não há muito a se comentar, mas passamos horas ali dentro. Horas a ponto de termos saído quase nove ou dez horas da noite, acredito que tenha sido quase nove, e descoberto pelo Google que teríamos dificuldades em encontrar lugar pra comer. A primeira dificuldade, inclusive, era: o que comer?
Então estávamos exaustas e morrendo de fome numa noite de Ginza. É importante prestar atenção que nós não comemos nada depois do almoço, talvez alguma bobeira no último andar da Uniqlo, mas tenho quase certeza que só bebemos água mesmo e foi isso. Exaustas e morrendo de fome. Exaustas e morrendo de fome. Não me lembro muito bem como foi o processo de achar um lugar para comer, eu sei que estava longe demais do lugar recomendado em Ginza, ele não parecia acessível no momento, então nós saímos meio que no sentido da estação de Yurakucho, que também estava bem longe. Isso tudo com uma novíssima mala que tínhamos acabado de adquirir, e seria pior ainda se não a tivéssemos porque estávamos com uma sacolada da Uniqlo e mais as lembrancinhas e talvez outras coisas da Donki. Muita coisa já estava fechada e muita coisa estava fechando, tudo o que víamos no nosso caminho eram uns troços esquisitos que não estávamos afim de comer (não era comida japonesa mas também não lembro o que era), talvez eu fosse capaz de encarar um dogão ou um hambúrguer mas a maioria dos lugares que encontrávamos tinha algum empecilho, não me lembro se eram estar lotados ou só fechando, só sei que eram problemas que nos impediam de entrar.
Até que, depois de muito caminhar e sofrer, encontramos um lugar que servia carne. Carne de wagyu. Eu não fazia a menor ideia do que era isso mas como sempre a sábia da culinária, minha esposa, sabia do que se tratava. Cansada de esperar aparecer oportunidade melhor, entramos.
Era um pouco difícil se comunicar também. O inglês do pessoal variava entre o fraco e literalmente não saber falar, e outra coisa importantíssima sobre essa viagem toda surgiu aí: eu sustentava toda a comunicação da viagem por saber inglês, só que eu sou autista. O que significa que no final do dia eu estava morta, não queria mais falar com ninguém, queria só fazer sinais mínimos com o dedo e a pessoa entender tudo e resolver os problemas para mim como mágica, só que eram quase dez horas da noite e eu precisava respirar fundo, pensar que era isso ou duas bocas passarem fome, e encarar tudo de novo. Acho que nesse dia chegou algum momento em que eu não dei conta, aí a minha esposa fez o melhor dela para se comunicar e meio que deu certo. Uma hora teria que dar, as pessoas não vão simplesmente nos deixar ali na mesa até dar o horário de ir embora.
Valeu muito a pena porque a comida era absurda. O único problema era a quantidade ridícula porque, afinal, é wagyu, para comer bastante só desembolsando no mínimo uns 10 mil ienes. Mas ainda assim foi ótimo. A comida nos alegrou muito, pegamos boas bebidas e, se tudo desse errado, a gente passava no Seven-Eleven de frente pro hotel e completava a barriga com o que desse.
Quero voltar nesse lugar. Não lembro o nome, mas devo saber onde fica se procurar. O tratamento deles foi incrível, eles salvaram nossas vidas e a comida é só… incrível. Quero voltar com dinheiro para gastar. Colocar esses 10 mil ienes na mão deles, ver eles enchendo nossa grelha de uma montanha e ser feliz, muito feliz. A próxima viagem para Tóquio eu quero fazer com no mínimo uns 40 mil reais. Tóquio é um dos motivos pelos quais eu estou estudando como louca para passar em um concurso de auditora. Tóquio me fez perceber que, se eu tivesse me empenhado e entrado no Banco Central, eu poderia ir pra lá todo ano com metade do PLR. Eu quero me entupir de wagyu. É sério.
Enfim, saímos de lá. Exaustas mas alimentadas e felizes com a comida, fomos terminar de procurar a estação de Yurakucho. Meu celular estava sem bateria e o celular da minha esposa não tinha internet, então nós precisávamos procurar, mas eu não surtei porque não era possível que não fôssemos conseguir encontrar uma estação de metrô, era só lembrar o caminho que fizemos para chegar até onde estávamos. Não era para ser difícil. E, assim, não foi mesmo. Não posso dizer que funcionou exatamente do jeito que eu esperava, acabamos indo parar numa região mais boêmia onde tinha muita coisa aberta, principalmente bar, restaurante, e se não estivéssemos tão cansadas teríamos rido de ter passado tanto desespero achando que a comida iria acabar, sendo que ali do lado todo mundo estava enchendo a cara e a barriga sem hora para sair em lugares que pareciam não ter hora para fechar. Não conhecer as coisas é tudo de bom, né?
Minha esposa até quis parar para comer mais coisa, mas eu não estava dando conta de falar um A, então continuamos andando. Esse lugar boêmio ficava do lado da linha do trem, então era só seguir reto que uma hora esbarraríamos em alguma estação. Tinha que ser Yurakucho mas, se não fosse, daríamos um jeito, né? Ainda não era meia-noite, nada iria fechar.
Por fim, chegamos em Yurakucho mesmo.
Pegamos o trem de volta, exaustas, eu sem prestar muita atenção e com bem menos deslumbramento que dos primeiros dias mas tudo bem. Chegamos em Otsuka. Pegamos o trem para descer em Mukohara, ainda sem nenhum acesso a internet, então eu simplesmente esqueci onde era Mukohara. Passamos reto. Eu não tinha forças para entrar em desespero mais, não tinha fôlego para descer um ponto ou dois depois então pensei que foda-se, iríamos até o final e voltar, e se não desse pra voltar desceríamos aonde estivéssemos e acharíamos um táxi, ou só sentaríamos em cima da mala em posição fetal e esperaríamos o dia chegar. Tipo… foda-se.
Apesar de tudo isso, sendo lugares novos de Ikebukuro e passando por um trecho muito diferente de uma linha de metrô, já que era um bondinho cruzando a cidade por dentro, eu aproveitei um pouco para observar e me divertir. Tenho certeza de que vi o Sunshine City de novo, pegamos uma rebarbinha do centro comercial de Ikebukuro, vimos outros bairros, foi bem legal apesar da tragédia. Quando chegamos ao fim o motorista percebeu o que havia acontecido, deixou a gente sair e entrar no bondinho de novo (parece que não poderíamos só ficar lá), perguntou a nós onde queríamos ir e eu ainda lembrava que era Mukohara, então ele prometeu nos avisar. Estava visivelmente cansado, mas muito simpático mesmo assim.
No fim deu tudo certo. Talvez eu tenha subido no hotel sozinha para minha esposa pegar algo no Seven-Eleven. Ela se habituou muito bem ao Seven-Eleven. Isso passou a acontecer com certa frequência: eu chegar no hotel só o resto do bagaço e ela pedir para eu ir levando as coisas, porque ela precisava pegar um negocinho no Seven-Eleven.
É claro que eu não lembro de mais nada além disso. Estava morta. Devo ter me jogado na cama e dormido antes mesmo dela chegar, sei lá.
Nesse segundo dia ainda estávamos muito perdidas sobre o que fazer nessa cidade. Ainda não tínhamos pegado o jeito de nada, como devem ter percebido. Os horários eram todos confusos, as estações e os trens eram coisas complicadas.
Uma coisa ficou muito bem definida nesse dia: nunca mais pegaríamos o trem para Mukohara, não valia a pena, eram duas passagens para descer no primeiro ponto; eu não desci no ponto certo provavelmente porque não acreditei que era tão perto assim, tinha que ser ao menos dois. Também não deixaríamos para jantar às dez horas da noite porque tudo fechava cedo, a não ser os lugares certos.
Eu também não ficaria gastando bateria do celular com bobeira e levaria carregador sempre, já que a internet era bem importante para nós. Na próxima viagem pretendo deixar internet nos dois celulares. Não era só um problema de gasto, é que o iPhone tem aquele esquema de chip virtual enquanto o Xiaomi não tem (ou não tinha na época), mas hoje sei como é fácil comprar um chip aleatório na Bic Camera com pacote de dados e instalar então farei isso o mais rápido possível. Deve ter como fazer isso no próprio aeroporto. Existe wi-fi grátis em vários lugares, mas parece que só precisamos da internet quando não temos esse bendito wi-fi, é incrível.
Perrengues colocados de lado, foi um dia incrível. Já sinto saudade do sentimento de estar naquele parque de Ginza, de ver aqueles prédios pela primeira vez, ver a avenida, entrar na Uniqlo. Sinto muita saudade desse sentimento de entrar pela primeira vez na Donki, essa coisa estranha. Para ser franca: não pretendo gastar mais de um dia em Ginza novamente, aliás, acho que com meio dia posso matar a saudade de Ginza e já partir para algum outro lugar. É um lugar extremamente comercial que você vai para comprar roupa e ver gente fashion, mas o fashion padrão, não o fashion Harajuku. Fomos a Ginza mais uma vez, devo contar a história logo logo, e nesse segundo dia tivemos memórias mais interessantes embora menos nostálgicas porque já não era a primeira vez. Mas é isso.
Sobre esse dia, senti muito mais narrando fatos do que contando sentimentos muito profundos, mas acredito que tenha contado uma coisa interessante ou outra, e até que eu tenha sido um pouco útil. Espero que tenha sido um texto legal. Farei os próximos independente de ter sido ou não.