Série: Tóquio, Japão - Julho de 2025

15 de julho de 2025

5 de maio de 2026

A primeira memória do Japão

Terça-feira, 15 de julho de 2025. Esse sim é o dia mais comprido da viagem.

Depois do cochilo de uma hora acordei desesperada, com o celular e o telefone do hotel tocando, de acordo com o horário que eu tinha pedido. Não me lembro o horário do vôo, acho que era tipo, oito ou nove da manhã mas, como podem perceber, sou uma pessoa bem ansiosa. O hotel não ficava nem a dez minutos de van, mas eu precisava estar lá sete da manhã no máximo e é por isso que cheguei seis. O hotel não tinha café da manhã tão cedo, então precisávamos comer pelo aeroporto mesmo. Ainda nem tinha certeza se meu cartão de crédito iria passar lá.

Estava usando um cartão Wise mas não sabia certinho como usar e não estava disposta a aprender lá, naquela correria (que correria?), para tomar um café da manhã e nunca mais usar de novo, o que foi uma enorme besteira porque teria economizado uns trocados eu ter descoberto a moeda principal ali de Dubai, colocado na conta e passado esse cartão. Bem, primeiro dia de viagem internacional e isso pra mim era novidade. Quando fui pra Índia eu troquei dólar ainda no Brasil e aí na Índia eu fazia a troca por rúpias, algo assim que os astecas já tinham superado há tempos, então não estava com muita cabeça para aprender nada. Sem contar que eu ainda estava com medo das patadas dos árabes, mas de manhã eles são mais bem humorados, e meu inglês já tinha florescido cerca de 5%.

De qualquer forma chegamos no aeroporto, conferimos as passagens e o lugar onde deveríamos ficar, sofremos um pouco para encontrar mas sobrevivemos, deu tudo certo. Assim que percebemos que não tinha mais o que dar errado, fomos atrás de um lugar para comer. Para minha surpresa, alguns dos fast foods ali do aeroporto eram conhecidos pela minha esposa. Estávamos muito em dúvida se compraríamos alguma dessas comidas de restaurante já seis da manhã, se pegaríamos um lanchinho desses sanduíches matinais que são uma fortuna por pão, queijo e maionese, ou se encararíamos um lanchão nervoso de fast food mesmo. Fomos de lanchão nervoso de um tal Five Guys, que minha esposa morria de vontade de conhecer e eu nem sabia (eu imaginava que ela morria de vontade de conhecer um trilhão de culinárias, mas não um fast food chamado Five Guys), e acontece que o lanche era ótimo mesmo, a salsicha tinha um gosto que não existe no Brasil, os molhos eram incríveis, o pão era diferente e muito bom. Foi uma ótima pedida, minha esposa nunca erra.

Felizes e de bucho cheio, esperamos o avião chegar. Ele chegou. Entramos, tudo certo. Decolamos.


Essa viagem teve uma vista muito mais interessante do que a outra porque vimos, durante o dia, mais do que meio mundo de oceano. Não que o oceano não seja bonito, mas eu sou uma pessoa terrena. A viagem começou com aquele deserto absurdo dos Emirados Árabes, uma vista que eu nunca imaginei ver na minha vida, que fez eu entender que o negócio com Brasília ser um deserto é só uma piada mesmo - eu ainda não tinha conhecido Brasília na época, de qualquer forma. É claro que eu dormi um pouquinho e perdi algumas coisas. Outra lembrança que tenho é de ver uma extensão de quilômetros e mais quilômetros daqueles cata-ventos de energia eólica (não sei o nome disso, que péssima engenheira!). Eu estava sobrevoando a China. Morri de vontade de ver uma cidade grande chinesa de lá de cima mas não consegui, foram só infinitos vilarejos mesmo. Não lembro se sobrevoei alguma Coreia também, mas aí já estava mais tarde.

Para essa viagem eu acabei ouvindo alguns álbuns da lista japonesa da Emirates, muito inspirada pela minha esposa que estava fazendo o mesmo. Lá tinha Japamyu da Kyary Pamyu Pamyu, que ela deve ter ouvido umas três vezes, e eu reouvi uma vez. Também ouvimos alguns álbuns juntas. Acho que teve um da Sheena Ringo que foi absurdo, incrível, mas não lembro o nome. Tiveram outros ótimos também que eu até tinha decorado o nome para anotar depois, como se a viagem não fosse ter um trilhão de coisas que fossem me fazer esquecer isso em dois tempos. A comida do avião estava bem interessante, bem gostosa, sendo já um esquenta para a comida japonesa que teríamos aos montes porque… estaríamos no Japão.


O segundo sentimento mais poderoso da viagem foi o que veio ao sobrevoar a China. O principal veio quando começamos a sobrevoar, é claro, o Japão. Era inacreditável. Até aquelas luzes eram apaixonantes. Não lembro por qual cidade começamos, o avião vem bem pela bordinha esquerda do Japão, acho que em algum momento passou por Osaka e foi voando até chegar em Tóquio. O aeroporto de Haneda fica bem na ponta da Baía de Tóquio então, para fazer a manobra, ele acaba sobrevoando Chiba também. De qualquer forma, eu insisto que as luzes do Japão vistas de cima são encantadoras, do começo da ilha ao final, da esquerda para a direita. Não teve um momento em que fiquei entediada observando. Não dormi mais. Também pensava em como seria assim que descesse. Era um sonho se realizando, né? Eu comentava o tempo todo sobre essa viagem para o Japão, fiz promessas de que faria muita coisa na vida depois de ir pra lá, tipo ter um filho, sei lá, mas não haveria nenhuma mudança brusca antes de conhecer o Japão.

Não consegui cumprir totalmente, já que me assumi travesti mais de meio ano antes. Foi inevitável mas, de certa forma, eu gostaria de ter conseguido segurar um pouco mais por questões financeiras. Tinha separado bastante dinheiro para aproveitar o Japão e comprometi um pouco dessa renda comprando sapatos que nem uma louca e algumas outras roupinhas, num desespero que só uma pessoa que ficou trinta anos da vida querendo uma coisa e nunca pôde sabe como é. A viagem poderia ter sido muito mais tranquila e inconsequente se eu não tivesse feito isso. Eu também tinha muito medo de empréstimo, um medo que já não me pertence mais. Mas eu fiz, eu me assumi antes. Claro que não estou falando que realmente me arrependo, só estou contando que a asfixia financeira que a saída do armário me trouxe foi um aspecto negativo para essa viagem, mas muitas coisas positivas aconteceram nela por conta de eu ter me assumido também. Eu diria até que foi essencial.


Bem, eu estava ali, aterrissando em Tóquio. Nem imaginava que esse dia seria comprido. Quando chegamos mesmo, quando liberaram para sair do avião, eu mal acreditei. Por outro lado, todo esse encanto estava numa disputa mortal com outro desejo muito complicado: eu estava morrendo de vontade de cagar. Não sei dizer se a última vez tinha sido em Guarulhos ou em Dubai, não lembro muito bem, mas ali estava no limite. Fiquei com muita vergonha de ir no avião porque, não bastasse já ter a vergonha boba em si, eu demoro muito no banheiro, tipo questão de mais de uma hora. Imagine eu travando um banheiro de avião com sei lá quantas centenas de pessoas por uma hora? Pelo amor de deus, horripilante. Só que me arrependo profundamente dessa vergonha e logo saberão o motivo, deveria ter encarado tudo isso e foda-se. É uma lição que só estou pensando agora, mas… como disse, logo saberão o motivo.

Tentei não enrolar demais no banheiro para sair logo, mas é importante pensar que a primeira coisa que conheci do Japão foi o banheiro. Em especial, a famosa privada com jatinho no cu. Eu demorei um pouco para entender como funcionava, acho que as instruções em japonês deveriam estar melhores do que as em inglês, não sei se eles sabem que uma parcela significativa da população mundial vive com privadas sem nada disso e papel higiênico, algo que provavelmente até a civilização maia superou, então precisamos de informações em inglês como se estivéssemos aprendendo a engatinhar. Porque é isso que uma população sem jatinho no cu é:  uma população de bebês, ainda não podem ser chamados de civilização. Quando entendi como funciona, porém, fiquei muito feliz. Jatinho no cu. O negócio é a melhor solução higiênica que já existiu para o ato de cagar, em especial para quem costuma ter esses intestinos complicadíssimos que voltimeia soltam uns barros de consistência tenebrosa e deixam o cu todo melecado, o jatinho vai e limpa tudinho, você só precisa passar o papel depois para secar. É lindo. E isso que eu não tive a capacidade de aprender a regular o jatinho com perfeição, algo que fui aprender apenas lá no hotel mesmo.

Então esse foi o meu primeiro contato com o Japão: o banheiro com jatinho no cu. Saindo do banheiro, logo fui encontrar a minha esposa que ficou me esperando no banheiro feminino porque, bem, eu estava com roupas (ligeiramente) masculinas, sem make, sem sutiã, com o único par de tênis que levei, com meus documentos todos no masculino… não haviam condições de usar banheiro feminino. Mas tudo bem. Jatinho no cu. Seguimos caminho pelos corredores do aeroporto que eram gigantescos, piores do que a procissão da Estação Consolação em São Paulo. Vozes ecoavam em todo o corredor falando um japonês todo cantado, palavras compridas, tom finíssimo, de forma muito repetitiva. Nós estávamos no Japão. Meu deus.

Chegamos lá no lugar que esqueci o nome, onde você coloca os seus dados, seu nome, de onde vem, para qual cidade vai, se usa drogas, se já matou alguém, se veio por causa dos animes, etc. Isso toma um bom tempo. Depois disso, fomos procurar a mala grande e, meu deus, como aquela mala dava trabalho para pessoas cansadas, mas foi um tesouro da bacchan que salvou nossas vidas naquele momento então evitarei grandes críticas. Nós estávamos no Japão. Por fim, tivemos uma última conversa com um senhor ali da imigração, ele fazendo todas as perguntas para nós em inglês e eu tentando responder cada uma delas com o meu inglês recém-acordado de sua tumba sombria de cinco anos, florescido em 10%, mais uma vez perguntando para onde iríamos, quais cidades visitaríamos, até que a conversa se encerrou de repene assim que comentei que além de Tóquio visitaríamos uma cidade do interior, onde familiares da minha esposa moravam. Ele ouviu isso, deu uma olhada no sobrenome dela, rolou aquele sinal “Oh. Japoneses.”. Fomos liberados.


O próximo passo era descobrir como chegar aonde precisávamos. Chegamos num posto de informações e eu perguntei como poderia chegar em Ikebukuro, para viver um episódio de Durarara à quase meia-noite (brincadeira, nosso hotel era em Higashiikebukuro). O rapaz tentou me explicar com um inglês também pouquíssimo perfeito, mas bateu o dedo no pulso e falou “hurry”. Eu não consegui entender muito bem o motivo, mas botei fé. Não me informei o suficiente sobre como funcionava o metrô, então devo ter perdido ali uns vinte minutos até entender que precisaria pegar dois cartões, porque cada um tinha que ter o seu, sem compartilhar, e ficar colocando dinheiro nele. “Como você não se informa disso?” você deve estar pensando, mas a questão é que eu me informei, eu sabia de tudo isso, só que por algum motivo ao chegar lá na hora de fazer eu esqueci.

Pior ainda: conseguimos chegar no metrô, mas o pacote de internet que eu tinha comprado simplesmente acabou. Sem mais nem menos. Me surpreendeu muito porque eu levo uma semana inteira aqui no Brasil para gastar a quantidade de dados que comprei, e estou falando de quando viajo para outra cidade mesmo, não em casa o dia todo com wi-fi. Mas aconteceu. Então eu estava no Japão pela primeira vez, meia-noite, dentro de um metrô, sem ter decorado direito as linhas que eu deveria pegar para chegar em Ikebukuro, carregando uma mala enorme, destruída de uma sequência de quase 30 horas de avião. Concorrendo com todo esse perrengue estava a vista do metrô da cidade de Tóquio, indo de Haneda até Shinagawa, nomes que eu não sabia muito bem mas agora sei de cor. Todo esse mundo seria explorado por mim nos próximos doze dias, eu teria muito tempo para aprender tudo. A vista era maravilhosa. Queria saber explicar com detalhes tudo o que vi, mas a minha memória desse momento é péssima, eu estava com um cansaço absurdo: de Haneda até Keikyu-Kamata eu me lembro de ter visto um pouco de água e me fascinado com isso, mas sinceramente não sei se passei mesmo pelo marcão ou só um riozinho que me chamou a atenção; é claro que já estava gostando dos prédios, mas ainda não era nada demais.

Quando chegamos em Keikyu-Kamata tive a sensação de que não deveria descer ali, quase como se fosse um resquício de memória dizendo que não era lá. Arrisquei confiar em minha memória e não descemos mesmo, seguimos em frente até Shinagawa. Esse trajeto sim foi o que despertou minha cabeça para o fato de que estávamos em Tóquio. Aquela arquitetura muito específica de cidade grande do Japão, os prédios bem quadradinhos, as iluminações que a gente vê nos animes, placas para todo o lado mas sem sobreposições poluentes visuais, cores, etc. Sei que não consegui descrever tão bem mas, quando penso no “começo de tudo” dessa viagem, eu penso nessa vista indo para Shinagawa. Quando começo a chorar pensando em como essa viagem foi boa e a memória resolve começar a desenhar a história da viagem para Tóquio ela começa exatamente aí, comigo sentada no metrô sentido Shinagawa, meia-noite e meia, esgotada, segurando minha mala com muita força por medo de assalto, a minha esposa dormindo no meu ombro, mas acima de tudo com o coração acelerado vendo Tóquio sendo desenhada na minha frente pela primeira vez através da janela daquele trem. Tudo começou aí. É, tudo começou aí. Eu estava em Tóquio.


Inacreditável, eu estava em Tóquio.


O dia poderia ter acabado aí, mas ele continuou. Chegamos na estação de Shinagawa, continuei sem pista nenhuma sobre se tinha descido na estação certa ou se a certa era Keikyu-Kamata. Tentei perguntar algo aos trabalhadores mas eles não falavam inglês e faziam um sinal de X com o braço. Entendi que isso significava, para eles, que o expediente acabou e que eles não tinham a obrigação nem de responder perguntas. Achei justo. Fiquei meio ferrada por isso, mas achei justo. Também sabia que aquela não era a estação final então imaginei que tinha me ferrado em mais uma frente: como eu faria para chegar em Ikebukuro agora? Eu não tinha mais internet e não fazia ideia de como fazer nada. Seguimos em direção ao lugar que todos apontaram e que todos estavam indo e… quando nos demos conta, estávamos fora da estação. OK.

Tinha sobrado Uber ou táxi, né? Tinha ouvido falar que Japão não tinha Uber, e eu sinceramente não sei se confiaria em pegar Uber em um país que ficava do outro lado do mundo. Aliás, essa sensação veio até mim em algum momento: estamos perdidas num país que fica literalmente do outro lado do planeta, onde o fuso horário é literalmente invertido. Era divertido pensar. Mais divertido do que horripilante, embora um pouco horripilante. Estar perdida com dinheiro parecia algo bem fácil de suportar. Além disso eu estava sem nenhum dinheiro de papel, não sabia se era prática comum dos taxistas aceitarem cartão, eu não estava tão informada sobre os táxis porque, sei lá, eu não pretendia pegar táxi - aliás, assim como no caso do cartão do metrô, talvez eu até tenha pesquisado algo sobre táxis, mas na hora o mínimo de informação possível veio à minha mente. Talvez eu estivesse bem mais nervosa do que estava imaginando lá, a minha sensação predominante ainda era a de ficar boba porque estava em Tóquio. Pegar um táxi e não conseguir pagar era um medo real naquele momento. Aí, é claro, eu me imaginei indo presa, sendo espancada pelo taxista, sendo deportada e tudo mais.


Bem, não tínhamos outra opção, tínhamos? Na verdade, tínhamos. Existe uma mágica que acontece quando você já conhece um lugar, que te faz pensar em inúmeras, centenas, milhares de possibilidades: veja bem, era Shinagawa. Talvez houvesse algum hotel ali por perto, aonde pudéssemos simplesmente chegar, perguntar se tinha lugar, descansar e deixar essa viagem para o dia seguinte. Antes de mais nada, talvez eu pudesse ter trancado meu cu por um pouco mais de tempo, passado a imigração, pegado um metrô mais cedo, chegado em Shinagawa, trocado para a Yamanote Line e pegado o trem sentido Ikebukuro, mas ainda assim isso não teria dado muito certo porque a estação mais próxima do hotel não era nem Ikebukuro e sim Otsuka. A estação de Ikebukuro era longe pra caramba do hotel, e mesmo Otsuka ficava umas quatro quadras de lá, o que era terrível considerando a mala que estávamos carregando.

Dando essas dicas para todo mundo que ainda não foi a Tóquio e quer ir: se você chegar depois das onze da noite na cidade corra, ou se prepare para gastar com táxi, ou simplesmente durma no aeroporto (aí eu não sei se pode, na real). Eu ia dizer para decorar todas as baldeações que vai fazer mas o meu grande problema aí foi o tempo, pouca coisa seria resolvida se eu tivesse todas as informações possíveis: ainda que eu soubesse exatamente em quais estações deveria passar não adiantaria nada, talvez ter feito tudo no automático na hora de pegar o cartão de passe pudesse me salvar, o tempo foi mesmo nosso maior inimigo e a palavra mais sábia da noite foi “hurry”. Se eu tivesse chegado em Tóquio às seis da manhã, era literalmente só perguntar para qualquer pessoa em Shinagawa “como faço pra chegar em Ikebukuro?”, pegar a Yamanote Line, chegar em Ikebukuro, perguntar a alguém como chegar no endereço X, descobrir que fica longe, etc. E se tudo der errado, pegar um táxi em Ikebukuro. De dia é muito fácil. Mas claro, eu entendo o charme de chegar à noite em Tóquio, de não ficar um dia todo dormindo por causa da viagem e tudo mais, então… corra para o hotel, não perca tempo com nada, segure a bosta se necessário.

Pegamos um táxi em Shinagawa. O taxista era um senhorzinho e não falava inglês, aliás, não entendia nem o nosso alfabeto muito bem, não conseguia entender o endereço do hotel no meu celular. Sim, eu salvei o endereço do hotel no celular para ter acesso mesmo sem internet. Ao menos nisso eu pensei. Levou um tempão para conseguirmos nos comunicar, eu também não vi possibilidade de perguntar a ele se ele tinha maquininha de cartão e ele também não parecia muito interessado em descobrir qual seria minha forma de pagamento. A viagem toda deu 8 mil ienes, ou seja, ali entre 250 e 300 reais. Preferi rir e não chorar, como manda Dilma Rousseff. Além do mais, ainda tinha muito o que aproveitar ao rodar por Tóquio de carro: o clima dos lugares onde passei eram bem tranquilos, a cidade não parecia estar muito viva, vários lugares eram bem silenciosos, e ali mais perto do hotel parecia até meio climão de subúrbio chique.

Quando chegamos lá e ele mostrou a máquina de cartão eu quase chorei de alívio, mas o dia ainda não tinha acabado.


Entramos no hotel e tentamos nos comunicar com o recepcionista, ali já deveria ser umas duas da manhã. Os recepcionistas também não falavam inglês. Quem vendeu que o Japão inteiro é bilingue vendeu muito mal. Não que eu os culpe, da próxima vez eu quero estar com meu nihongo afiadíssimo (spoiler: não estarei), ninguém é obrigado a falar inglês.

Eu estava muito cansada de me esforçar para me comunicar também. Peguei o wi-fi do hotel e tentamos nos comunicar com Google Tradutor. Levou um tempo até conseguirmos fazer todo o check-in, eles me passarem o quarto, as regras… sem contar que o nosso andar saiu mais barato porque era de fumante e eu só tinha descoberto ali, aí tentaram nos vender um quarto em outro andar por uma diferença de valor que eu não estava afim de gastar. Na próxima gastarei porque o cheiro do andar de fumante vai ficando bem irritante ao longo de duas semanas, mas nessa viagem eu realmente não estava com muito dinheiro para isso e teria me arrependido. Então subimos e despejamos todas as bagagens de qualquer jeito no quarto. Ainda tentei ligar meu notebook para mexer com gacha mas foi aí que descobri que o padrão de tomadas do Japão é totalmente diferente do brasileiro e que levei o notebook a toa. Era um sinal. Foda-se o gacha.


Finalmente aquele dia acabou.

Contando assim, parece até que foi muito trágico. É impossível descrever o que foi essa ansiedade de não saber o que fazer, esses medos de algo muito absurdo acontecer mas, por mais que eu seja uma pessoa ansiosa, eu não tenho nenhum transtorno de ansiedade generalizada, não tenho ataque de pânico nem nada disso, então foram só alguns picos de cérebro maluco traçando milhões de possibilidades. Mesmo esses picos foram incapazes de tirar o sabor desses momentos incríveis, do choque de me deparar com Tóquio e pensar “eu estou aqui”. Como disse: lembrar de quando eu estava sentada no trem, rumo a Shinagawa, é um fácil gatilho para a vontade de chorar de saudade dessa cidade. Essa lembrança do táxi também, essa primeira impressão super estranha de Otsuka, um lugar meio interiorano fazendo fronteira com esse centro gigantesco que é Ikebukuro, ver as linhas de trem pela primeira vez. É tão maluco pensar que eu me familiarizaria tanto com essas ruas ao longo dos doze dias ao ponto de eu sentir como se realmente morasse ali! Que todo final de noite, depois de fazer sabe-se-lá o que em Tóquio, eu subiria essa ladeirinha da estação de Otsuka, sairia por essa mesma rua que o táxi saiu, passaria no Seven-Eleven ou voltaria direto para casa porque estava cansada demais e deixaria a Vivian fazendo as compras sozinha… Mesmo com toda essa loucura, essas primeiras horas em Tóquio foram super especiais.

Fico feliz de saber que nunca terei primeiras horas tão aperreadas novamente, porque eu já sei bastante coisa de Tóquio para repetir essa experiência. Mas ainda foi uma primeira experiência especial, marcante, saborosa, inocente, que eu vou lembrar pra sempre.


Já tinha feito todo o sentido do mundo eu sonhar com aquela viagem, com aquela cidade. Mesmo nas primeiras cinco horas de viagem. Ainda sobrevoando. Ainda no corredor ouvindo a voz da trabalhadora chamando as pessoas. Ainda no metrô. Ainda perdida em Shinagawa. Ainda no táxi. Ainda no hotel. E depois, é claro, já na primeira vista do quinto andar daquele hotel.


Foi mesmo a viagem da minha vida.

Você leu um capítulo da série Tóquio, Japão - Julho de 2025

escrito por nubobot42 narrado por yasu