Série: Tóquio, Japão - Julho de 2025

21 de julho de 2025

29 de julho de 2026

A primeira vez em Harajuku e Shibuya

21 de julho de 2025. O dia depois do tão aguardado dia. Devo dizer que esse dia tem um gostinho de continuidade porque era um dia para passear em um dos lugares que eu mais desejava conhecer e que tinha tudo a ver com a ASOBIEXPO: Harajuku. Eu finalmente conheceria Harajuku. A meca da moda alternativa japonesa, a meca da minha moda. Estava meio tristinha pensando que não estava esbanjando dinheiro e que teria dificuldades de encontrar uma roupa que servisse em mim, porque no Japão um G é um M e eu até então só vestia GG, tanto é que alguns problemas já haviam surgido com as compras na Uniqlo de Ginza, mas ao menos conheceria o lugar e havia de encontrar algo legal para mim.

O look desse dia foi um look bastante senhora. Não sei muito bem por que, se foram só as roupas que sobraram, se eu estava afim de usar roupas de Ginza logo, mas: uma camisa "masculina" que na verdade foi a segunda roupa bem pouco hetero que já comprei na vida, manga comprida, várias e várias estampas de flores azuis (ou roxas porque sou daltônica); a minha saia marrom grandona recém-comprada da Uniqlo; e um mocassim anabela preto da Schutz que depende muito da roupa para ficar chique ou desastre. Claro, tênis vagabundo na mochila para quando precisasse. Muito tempo nos maquiando. Saímos, provavelmente ali entre as 13h e 14h, como sempre.

Otsuka, descer ladeira. Metrô, finalmente no sentido Ikebukuro ao invés de sentido Ueno, porque Harajuku ficava bem mais longe do que Yurakucho. Yurakucho ficava tipo no oposto polar de Otsuka, qualquer dos dois caminhos funcionava em tempos muito parecidos, inclusive deve ter rolado no sábado de Ginza 2 de satisfazer a minha curiosidade de pegar a linha em sentido contrário, até para passar mais uma vez na estação de Ikebukuro em vingança. E entramos no vagão mais uma vez.

No outro dia eu provavelmente estava um pouquinho bêbada demais mas nesse, em plena luz do dia, eu estava com os ouvidos aguçados, eu já posso dizer que as músicas de metrô da linha Yamanote são muito marcantes. Eu não tinha percebido que a linha Keiyo não tinha as mesmas músicas, talvez porque estivesse eufórica demais ou cansada demais, mas dependendo do dia e de como estão meus hormônios eu posso desabar só de ouvir a JRE-IKST-010-01, que é a música que toca no embarque meio na pressa na linha Yamanote, normalmente à noite. Eu desenvolvi uma relação afetiva com esses jingles, é impressionante. Ultimamente ando sentido que São Paulo está querendo ter esse apelo mas, no dia em que escrevo esse parágrafo, um trem explodiu com gente dentro, então acho que as prioridades devem ser outras (se bem que no dia da ASOBIEXPO um vagão da linha Yamanote pegou fogo, mas foi por conta de um desses carregadores portáteis). Eu disse sobre poder dizer porque, além desses jingles comuns a toda estação, foi a segunda vez, a primeira em que percebi que havia algo diferente, que ouvi o jingle da estação Takadanobaba, que é muito fofinho e lindo. Os dias vão se passar, mas eu fiz o sentido Ikebukuro muito mais vezes do que o sentido Ueno então eu ouvi esse jingle muitas vezes, teve um dia em que eu tive o lapso de pesquisar e descobri que era a música-tema do Astro Boy original de 1980, porque o Astro Boy do desenho nasceu em Takadanobaba. Aparentemente a Takadanobaba do futuro foi o cenário de Astro Boy. Muito foda. Eu não assisti o Astro Boy de 1980 mas jogava muito o de Super Nintendo, amava o desenho que passava na Globo que já deve ser um remake e principalmente acho Astro Boy: Omega Factor um jogo muito, mas muito absurdo. Adorei a trivia. Às vezes assisto a abertura de Astro Boy para matar a saudade de Takadanobaba, mesmo que seja um bairro que eu não conheci, mas guardo para a próxima viagem já que essa valorizou muito pouco a região de Shinjuku.

Não lembro se foi dessa vez ou da outra que rolou alguma confusão nossa na estação por conta de passe, já que de tempos em tempos nosso cartãozinho precisava ser recarregado e nós acabávamos esquecendo de fazer isso com muita antecedência. A estação de Harajuku não é tão grande e é fácil de usar, dependendo da referência. Para sair da estação era bem simples, não tinha nenhum segredo, o caminho era bem intuitivo. O problema é para entrar na estação em alguma das entradas alternativas, o que aconteceu algumas vezes porque Harajuku foi o lugar onde mais fui nessa viagem, mais do que Ginza. Bem, isso não é importante.

Fato é que descemos em Harajuku. Uau, Harajuku. Em um dia, Kuru Kuru Harajuku. Em outro dia, estamos em Harajuku. Uau. Já saímos da estação e demos de cara com uma Uniqlo e muito movimento, em plena segunda-feira. Eu acho que podemos deixar os detalhes para outro dia porque esse dia era para ser o impacto inicial, só no segundo dia de Harajuku eu explorei um pouco mais o bairro e prestei atenção em como aquele troço funcionava, que existem várias Harajukus, etc. A primeira impressão de Harajuku é tipo um Brás japonês, é sério. Não importava muito que fosse segunda-feira, ou qualquer outro dia da semana, o lugar estava vomitando gente. As lojas não são nada espaçosas, o que é apenas uma observação, já que uma pessoa que espera ir a um lugar para ficar rolando no espaço livre dentro dos prédios não pode ir ao Japão.

Eu tinha noção de que o mais importante para nós naquele momento era explorar uma rua chamada Takeshita Street, que daria para ficar comparando com 25 de Março também mas, bem, já entenderam. A entrada era bem bonitona, tinha aquela fachada com o nome da rua, tinha aqueles pilares bem famosos de cultura japonesa, foi inevitável tirar algumas fotos ali, e então seguimos pela rua. Melhor dizendo: descemos, era uma enorme ladeira, até um tanto perigosa para o meu saltinho junto com aquele movimento, mas encaramos.

Já estávamos decididas a comer a primeira coisa que vissemos pela frente porque saímos de casa e não almoçamos, aí aconteceu que, para o bem ou para o mal, a primeira coisa que vimos foi um McDonald's. Um McDonald's não cairia mal, pra falar a verdade, eu já até estava com saudade de um hamburguinho meio vagabundinho mesmo, então entramos lá e comemos sem reclamar. Acho que o pior daquele lugar não era a comida, era a falta de espaço e a enorme quantidade de interessados, nós literalmente tivemos que esperar mesas serem liberadas para conseguir comer e ainda acabamos comendo em grupo. Mas deu tudo certo no fim.

Saímos de lá e começamos de fato nossa exploração pela Takeshita Street. Um calor do inferno, dessa vez aliado com essa quantidade gigantesca de pessoas ocupando a rua, mas fomos. Já na primeira loja, uma simples loja de meias, eu fiquei péssima querendo comprar tudo, mas já estava com muito medo de gastar um monte e depois ver coisas muito mais interessantes então me segurei. Nós passamos por essa loja, lojinhas de bugigangas, tivemos curiosidade de conhecer a loja de gacha da CAPCOM e conhecemos (eu pela CAPCOM, já a minha esposa aparentemente acha esses gachas físicos algo legal), vimos uma loja de acessórios cara, uma loja de acessórios barata, até que encontramos um paraíso não muito oculto ali: uma Daiso. Eu não sei se é a mesma empresa que da Daiso no Brasil, mas é uma Daiso. A loja é até bem parecida, mas é maior e as coisas realmente custam apenas 100 ienes (algumas etiquetadas podem custar 200 ou 300, mas tudo o que não tem etiqueta é 100). É claro que minha esposa entrou lá e comprou um monte de coisa, enquanto eu já trocava o sapato pelo tênis porque já estava andando há duas horas mesmo que eu tenha escrito apenas três parágrafos (se bem que a descida de Otsuka leva ali seus 15 minutos também). Lá também tinha acessório e alguns tipos de roupas, eu só comprei acessórios, talvez alguma coisa de maquiagem. Não foi assim a loja mais interessante do mundo para mim, mas se eu morasse no Japão provavelmente passaria muito por lá.

Saímos da Daiso e continuamos. Acho que não tem muita coisa a se falar: muitas e muitas roupas vistas, maioria das lojas bem comuns, uma ou outra com um estilo mais orientalzão com kimonos, vestidos compridos mais parecidos com os chineses, foi um dia de ver lojas então acho que vou ter que me virar nos trinta pra contar as coisas relevantes. Só tem uma coisa relevante que é fácil de contar e também indispensável: no meio da Takeshita Street tem uma escadaria subterrânea, aliás tem várias, mas essa em específico leva a uma lendária loja chamada Yellow House. A Yellow House é a loja de uma senhora roqueira que fala um inglês muito acelerado, com sotaque, e de palavras bem rústicas, um jeito bem bruto, bem orgulhoso de ser. Ela tem as blusas mais roqueiras que existem, poderosíssimas. Desde o primeiro momento uma jaqueta metade preta metade branca me chamou a atenção ali, ela me vestiu e disse que ficou muito, mas muito bom, e eu também adorei, me senti muito estilosa, me senti um fantasma roqueiro que podia até flutuar. Nos meus dias mais ousados eu poderia usar só aquela blusa e uma micro-saia, como se minha única peça de roupa fosse mesmo aquela blusa. Muito, mas muito foda. Porém 15 mil ienes. Então eu fiquei com muito medo de levar e deixei ela lá para decidir melhor. Outra coisa importantíssima sobre essa loja é que essa senhora vive falando que é uma brilhante fashion designer que já trabalhou para roqueiros do mundo todo, ela era muito recorrente em falar do Marilyn Manson e algumas outras pessoas (ela tinha fotos com todos eles), mas o maior orgulho dela era mostrar a foto delas com a galera do X Japan. Esse é outro lugar que falo que todo mundo que vai ao Japão deveria conhecer, falar com ela, perguntar pra ela sobre as coisas, tentar tirar alguma história dela como eu tirei, porque ela é muito foda, as roupas são muito fodas e quem não se arrisca a ir para Harajuku não é uma pessoa que ama moda japonesa. E você precisa amar a moda japonesa.

O clima todo de Takeshita Street aliás é um clima bem de pessoas que adoram moda japonesa. Não é todo mundo, aliás, vai muita gente bem normal para lá, é de fato um Brás japonês, tem muita variedade de roupa, muitos estilos, até os normais. Mas ao menos uma vez você vai ver uma gothic lolita lá procurando alguma coisa, ou alguma menina vestida como as meninas do J-pop do ASOBIEXPO, alguma gyaru, você vai ver vários estilos ali procurando suas referências porque ali também é o lugar deles. Você só não vai ver gente chique porque a Takeshita Street não é a Harajuku das pessoas chiques. A rua também tem trilha sonora, eles botam uma playlist de visual-kei e J-pop (bem mais visual-kei do que reparei, mas isso deve ficar mudando com o tempo) e essa playlist ecoa pela rua toda, não por ser muito alta, mas porque tem caixas de som espalhadas por ela.

Nós também passamos pelas duas lojas de sapatos quase todos femininos da rua, a primeira uma loja bem normal para pessoas normais embora tivessem umas Mary Janes anabelas azul bebê e coisas do tipo. Acho que Mary Janes são sapatos muito normais para as japonesas. A outra loja é uma... poxa, eu esqueci o nome, mas ela tem e-commerce internacional, é mais cara e já tem botas e sapatos bem mais voltados para o visual-kei, com plataformas enormes, muitas estampas, fivelas. Só tinha uma péssima questão: o maior tamanho de sapato das duas lojas não me servia, até então eu estava no modo econômico e encarava isso como bom sinal, mas também foi um pouco desanimador. Também me serviu de combustível para disforia, aliás, essa questão do tamanho das roupas alimentou um pouco minha disforia sim. Eu contei bastante sobre isso na experiência do provador da Uniqlo de Ginza, o suficiente para não precisar contar aqui, mas perceber que eu era uma mulher maior do que o que consideravam tamanho máximo de mulher em um país inteiro teve um impacto meio esquisito na minha saúde mental, deve ser uma gota do que uma mulher trans alta e/ou gorda sente no Brasil, sentindo disforia por não ser do tamanho esperado para uma mulher no seu próprio país, onde mulheres cis não são tão pequenas. Nada disso faz muito sentido, não queira ser a pessoa chata que aponta que isso não faz sentido.

A disforia de gênero muitas vezes não trabalha em cima de coisas que você deveria dar importância no mundo ideal, às vezes ela trabalha justamente montando hipóteses muito cruéis e irresolvíveis para tentar provar que você não é uma mulher de verdade, cruéis porque machucam demais e te colocam no chão para você perder as forças de se defender, irresolvíveis justamente para que você fique presa nela para sempre. Quem não sofre de disforia de gênero simplesmente nunca vai saber o que é lutar contra isso, mas o pior é que quem sofre de disforia de gênero muitas vezes também não sabe que está lutando contra isso, tanto é que estou narrando esse sofrimento com os tamanhos com muita clareza, mas naquele momento não era óbvio. Eu tentava botar a culpa toda na economia mas, quando penso bem no que estava sentindo, percebo que eu também queria preservar meu corpo da frustração de amar mais uma roupa e mais uma vez vê-la não cabendo nele. Não era só na minha barriga, era na minha cintura, era nos meus ombros, era nos meus pés. E não era só a sensação de que eu estava gorda, eu já tinha emagrecido mais de 5kg desde o início da transição, era principalmente a sensação de que a roupa estava me dizendo que ela só serviria em uma mulher de verdade. Eu não enxerguei isso lá, mas enxergo isso agora. Me irritava um pouco ver que minha esposa cabia nas roupas e eu não, era uma coisa muito ingrata, eu queria muito mais aquelas roupas do que ela "mas ela era uma mulher de verdade". E se nós falássemos sobre o sofrimento de uma travesti em um relacionamento afetivo com uma mulher cis? E se falássemos do sofrimento da mulher cis, que vê a dor da travesti e não sabe o que fazer, que às vezes pensa em se podar para não machucá-la? Quanta coisa pra falar, hein? Muita coisa acontece num relacionamento lésbico com uma pessoa trans, muita coisa. Poderíamos falar por horas sobre esse assunto, mas estamos falando de Harajuku e acho que deu para entender muito bem os problemas que estavam acontecendo ali, não precisa de mais nada.

Se estiverem interessadas ou com pena de alguém na história, quero dizer que um relacionamento lésbico com uma pessoa trans demanda muita comunicação, muita sinceridade, abrir as feridas e dizer "Eu sei que você não está fazendo nada de errado mas isso está me causando disforia, você pode parar? Só por enquanto? Só até eu aprender a lidar?", a pessoa cis acolher a ferida e não achar um "exagero", mas também não ceder e ignorar e sim ceder a um diálogo que aos poucos vai resolvendo a situação e fazendo tudo voltar ao normal. E muitas, muitas outras coisas. Isso é só o começo. Então agora, um ano depois, eu já não tenho mais problemas com isso que aconteceu em Harajuku porque nós conversamos muito. Nessa época da viagem eu ainda sentia muita tristeza olhando para minha esposa frequentando o mundo sem problemas porque eu só saía de casa do jeito que eu gosto para ir em baladas e bares LGBTQIAPN+, eu tinha poucas roupas, era minha segunda vez indo em lojas de roupas (a primeira foi na Uniqlo) e hoje eu já fui em tudo quanto é loja da minha cidade e de outras. Essas experiências tão cotidianas, tão comuns a qualquer mulher, curam muito a gente e nos ajudam muito a sanear o relacionamento. Assim como o dia em que preciso ir na casa de algum familiar que não sabe de mim e preciso ir disfarçada me faz muito mal a ponto de também prejudicar o nosso relacionamento. É assim. Quem não sabia nada, nem imaginava como é uma relação lésbica onde apenas uma pessoa é trans: agora você sabe alguma coisa. Parabéns!

Continuando Harajuku, em algum momento terminamos de ver todas as lojas da Takeshita Street, inclusive uma loja de tênis que nos horrorizou porque tênis no Japão é muito mais caro do que no Brasil, da mesma marca, do mesmo modelo aparente. Talvez seja diferente na qualidade, né? Vai ver é isso, mas nem entramos para experimentar. Eu estou em dúvidas sobre ter passado num shopping, já fora da Takeshita Street, no dia de hoje ou na segunda passagem por Harajuku, não tenho fotos nem pistas para comprovar qual tem mais chance, mas acredito que o segundo dia de Harajuku tenha mais chance porque me lembro de termos chegado um pouco tarde em Harajuku dessa vez, termos parado para almoçar e termos revirado todas as lojas dali, algumas duas vezes porque eu sou desse jeitinho, lembro-me inclusive de que algumas lojas já estavam fechando quando chegamos para visitá-las. A Takeshita Street fecha 18h ou 19h se não me engano, um horário bem normal. Acho bom eu ter enchido linguiça contando de coisas da vida porque é a única maneira de falar que gastamos uma tarde toda em lojas de roupas sem destacar nada de especial, a única peça de roupa que eu comprei foi um cropped branco com umas estampas de dragão chinês, o único G que me serviu (na verdade um dos poucos que tive coragem de experimentar), fiquei fervendo a cabeça sobre se compraria a blusa da desaina (como apelidamos a senhora da Yellow House, que sempre repetia a frase "I am designer"), fiquei chateada que os sapatos da loja alternativona não me serviam (é uma Yusuke, eu lembrei o nome agora) e foi isso.

Saímos da Takeshita Street, já nesse escurinho aparecendo, e pegamos a avenida da saída para ver o que tinha de bom. Continuava um bairro bem comercial, mas com um clima bem único também, bem diferente tanto de Ginza quanto de Ikebukuro. Já começava com um monte de restaurante de nacionalidades diferentes, servindo uns lanches bem estranhos de carne de frango que eu quis muito comer mas acabei sempre ficando com outras coisas, bem apimentado também. Acho que devo ter conseguido algo parecido em Ueno. Continuamos andando e vimos vários shoppings não muito grandes, todos fechados. Continuamos andando mais ainda e a avenida começou a ficar bem sofisticada, tão sofisticada quanto Ginza, aparecendo lojas famosíssimas como Balenciaga também, mas havia uma diferença muito importante e impossível de escapar: as lojas de Ginza são todas bem conservadoras por dentro, esteticamente, são lojas tradicionais dessas marcas; as lojas de Harajuku, e aí preciso dizer que não posso mais confirmar se ainda estávamos em Harajuku ou se já tínhamos entrado na área central de Shibuya, tinham todas um design interno muito experimental, paredes todas irregulares, algumas lojas com tênis pendurados no teto, com a parte interna esférica ao invés de quadrada comum, sei lá, cada loja inventava uma moda diferente e você conseguia ver todas essas modas através da vitrine. É uma avenida muito interessante, as iluminações também eram todas coloridas e muito diferentes, a própria avenida passava um ar de passarela assim, cheia de estéticas experimentais, eu gostei muito.

Mas é, continuando aquele assunto que surgiu sobre Harajuku e Shibuya: eu não entendo muito bem como funciona isso mas Tóquio é uma cidade, OK, isso ninguém discute, mas Tóquio tem um sistema próprio muito louco de municipalidade em que ela é subdividida em 23 "wards" (tipo um setor?), cada uma delas tem autonomia administrativa para alguns assuntos e compartilha a mesma administração central para outros, como por exemplo mobilidade urbana e saneamento básico. Eu não entendo se São Paulo é exatamente assim, aliás, eu duvido que São Paulo seja exatamente assim, não faz muito sentido para qualquer pessoa que saiba o mínimo de gestão pública acreditar que duas administrações de dois cantos opostos do mundo são iguais, mas esse negócio das subprefeituras parece servir para uma comparação mínima. É por isso que no dia anterior, para ir até o Makuhari Messe, passamos por uma estação chamada "Tóquio". Não faria muito sentido uma estação "São Paulo" na cidade de São Paulo, não é? Mas nesse caso, a estação se chama Tóquio porque ela fica no setor de Tóquio, onde se localiza essa administração central para todos esses departamentos e, aliás, onde fica localizado o Distrito Federal do Japão, então é como se fosse a Brasília do Japão. Não preciso dar detalhes sobre isso agora porque eu passei um dia no departamento de Tóquio e posso contar muito mais coisa lá. Fato é que assim é que as coisas são divididas. Toshima é um desses setores onde fica Ikebukuro e Otsuka. Yurakucho é um bairro do setor de Chiyoda, Ginza de Chuo (devem representar a fronteira entre os dois setores, inclusive). Quem prestou atenção na minha citação de Takadanobaba percebeu que eu mencionei Shinjuku, e é isso mesmo: é um bairro de Shinjuku. Eu sou funcionária pública, gente, teoricamente é para eu ter interesse em sistemas de administração pública. Se o Brasil tá infestado de funcionário público que nunca pensou nisso e odeia o Estado isso é uma das loucuras que o nosso sistema de admissão por concurso público decoreba sem um exame de cidadania permite acontecer, mas eu gosto, desde o primeiro instante fiquei muito interessada ao ver aquele endereço cheio de sub-endereços quando fui passá-lo para a imigração no aeroporto.

Qual é o ponto de citar tudo isso? O ponto é: Harajuku é um bairro de Shibuya, mas Shibuya também é um bairro de Shibuya, as duas estações na linha Yamanote são até bem próximas, então é meio difícil saber quando você saiu de um e entrou em outro. Então, em algum momento, nós chegamos em Shibuya e nem percebemos. E, assim, quando eu me dei conta, eu quase surtei. Estar em Shibuya para mim era o maior sonho da viagem junto com estar em Harajuku porque, afinal, a cena musical na minha visão mais importante do Japão é o shibuya-kei, uma das minhas bandas favoritas é o Pizzicato Five. Eu queria muito conhecer aquele clima, sentir, entender como aquilo formou música, tem uma parte sensorial, visual e sonora disso que é meio comum entre certo tipo de músico do qual eu faço parte, então estar num lugar por si só é algo muito importante pra mim. Quando eu estive na Índia uma das coisas mais importantes foi prestar atenção nos sons, até nas buzinas dos carros, porque os sons em cada cidade, em cada região, em cada país, são muito diferentes. Mesmo no caos urbano onde muita coisa se entrelaça por conta da globalização. Shibuya é um bairro com uma estética bem futurista, os prédios são super modernosos, com umas brincadeiras arquitetônicas, parece o tipo de coisa que esses filmes futuristas norte-americanos querem reproduzir mas não conseguem porque algumas partes da arquitetura consideram muito a arborização e outros elementos mais naturais, apesar de ainda ser um bairro muito concreto.

Como já era noite e eu fui pega de surpresa por estar em Shibuya, nós simplesmente fomos andando pela avenida principal tentando procurar coisa pra comer e, principalmente, beber. Estávamos sendo um pouco negligentes com água, Harajuku foi muito quente nesse verão, então a minha esposa quis passar numa konbini qualquer e comprar uns salgadinhos e bebidas. Continuamos a andar e encontramos um dos lugares mais especiais de toda a viagem para mim: o Miyashita Park. O Miyashita Park é um prédio-jardim. Sim, isso mesmo. É um prédio que ocupa um quarteirão todinho, mas que tem propriedades diagonais porque também é um jardim e centro urbano, então você pode tanto pegar um elevador em algum lugar quanto entrar pelo começo do quarteirão com uma escadaria, andar um pouco por aquele andar quase-térreo, subir outra escadaria e aí já estar no "terraço" do segundo andar, e aí esse lugar tinha mato, flores. Na minha cabeça tinha até árvores mas óbvio que não tinha porque onde raios estaria a raiz dela, né? Mas parecia ter de tudo porque era muito verde. Conforme as escadarias iam subindo surgiam também quadras de tênis, de vôlei, de vôlei de areia, banquinhos, maquininhas de bebidas, e acho que o mais importante disso tudo: era um lugar muito jovem, parecia ser o ponto de encontro entre vários jovens que iam lá praticar esportes, passar o tempo depois do trabalho ou da escola, tinha até VTuber gravando vídeos com sua hang light, gente deitada na grama ouvindo música, gente deitada na grama dormindo, gente olhando os prédios, grupo de amigos conversando. Gente fazendo de tudo. Era proibido ouvir música alta mas sempre tinha uma rodinha com alguém carregando caixa de som ouvindo algo em volume moderado e as outras pessoas ouvindo, curtindo, dançando. Era um lugar muito vivo. Me pareceu muito o que eu imaginava que fosse Shibuya, mas também me pareceu Tóquio num geral, e mais uma vez eu fiquei me questionando muito sobre segurança pública porque as cidades do Brasil não têm um lugar assim para os jovens: se você é jovem e quer sentir mais ou menos aquele clima do Miyashita Park você terá de ir a um lugar pago, ou se arriscar nos lugares públicos sabendo que corre riscos, eu fiquei um pouco assustada quando vi o moleque deitado na grama dormindo de roncar com o celular e os pertences ao lado; o mais engraçado: eu não vi um policial sequer ali, não tinha, o lugar simplesmente era seguro. Incrível.

Ficamos muito tempo no Miyashita Park porque era muito gostoso mas o principal é que, em algum momento, eu percebi que estava de frente para o prédio da Tower Records de Shibuya e tinha alguma cantora gravando ali no último andar. Eu não podia vê-la e nem ouvi-la, é claro, mas conseguia ver a silhueta dela pela janela e resolvi prestar atenção. Acho que fiquei uma meia hora prestando atenção enquanto minha esposa descansava. Prestava atenção nas poses, nos movimentos, na energia, e por um instante me permiti imaginar se um dia poderia ser eu naquele estúdio. A Tower Records de Shibuya. Não era a Stereophonic Sound Spectacular, mas estava em Shibuya. Eu fiquei assistindo aquela silhueta se movendo até acabar. Se ontem falei sobre achar indispensável pegar a linha Keiyo, o que vocês acham de alguém que considera uma das partes mais importantes da viagem ter acompanhado a silhueta de uma cantora no bairro da cena musical favorita? Pois é. Por isso que às vezes, quando olho para a minha viagem e vejo que falhei em passar pelos lugares mais famosos e notoriamente interessantes, eu não fico mal, eu acho que vivi sonhos etéreos que não fazem muito sentido para ninguém além de mim, mas foi muito bom ter vivido.

Ficamos lá por um bom tempo, pegamos algo da maquininha de bebidas achando que era água mas era tipo uma H2OH, ficamos com fome e... não me lembro muito bem, mas acho que não comemos em Shibuya. Não consigo mesmo me lembrar do motivo, acho que eu estava com muita vontade de comer um hambúrguer bem vagabundo de novo, deve ter sido esse o dia em que voltamos para Otsuka e comemos no Burger King de lá. Não tenho certeza, só digo isso porque não me lembro de alguma vez em que comemos em Shibuya, acho que isso simplesmente não aconteceu, e não posso justificar a vocês dizendo que Shibuya era um bairro muito com cara de fast food porque fomos comer fast food do mais duvidoso nesse caso. Vamos colocar isso como evento canônico então, OK?

O evento canônico é que descemos do Miyashita Park e continuamos andando por um corredor bem estreito, cercado pelas grades da linha de trem e por restaurantes minúsculos e lotados, até chegar na estação. A entrada da estação de Shibuya é bem complicada, é praticamente colada com o tal Shibuya Scramble Crossing, que é aquele cruzamento famoso por ser o mais lotado de gente do mundo, mas felizmente não estava lotado no momento em que passamos por ele. Quer dizer, estava, mas não morremos. Estava bastante confuso para entrar na estação de Shibuya, muita coisa estava em construção, muitas entradas estavam fechadas, muitas entradas alternativas improvisadas abertas, filas para tudo, muita gente, o lugar vomitava gente, nós conseguimos embarcar mas foi bem complicado, talvez a estação mais densa até agora. A de Tóquio era muito lotada também mas as pessoas estavam mais espaçadas, não era nada tão grudado assim.

Então, se o evento canônico é ter voltado a Otsuka e comido um hambúrguer qualquer no Burger King, foi isso que aconteceu. Eu não preciso contar o que há de interessante em comer um Burger King, preciso? Não há. Só deu vontade. Sei lá, eu só quis. Querer mesmo eu queria aquelas tortas de carne malucas dos imigrantes, mas essas vendinhas de comida de Harajuku fecham muito cedo, acho que ali pelas 19h já estavam fechando junto com as lojas ou talvez até antes. Deve ter sido por ver essas tortas de carne que eu fiquei com vontade de comer alguma carne bem vagabunda, mas infelizmente não existe o X-Bactéria no Japão ou eu não saberia encontrar, então foi BK. Olha como eu sou boa de contar história! Nem sei se foi isso que aconteceu, mas até eu já estou ganhando certeza que foi. Depois do BK resolvemos dar uma brincada e explorar o bairro de Otsuka, o que também estou tornando evento canônico agora mas pode ser que não seja. É porque, em algum dia, ao invés de pegarmos a ladeira de sempre ou subirmos na rua paralela à linha de trem, nós decidimos entrar um pouco mais no bairro e ver o que havia lá dentro.

Assim, Otsuka é um baita bairro. Lembrando que a gente já tinha explorado um pouco naquele dia em que descemos em Shin-Otsuka por engano, mas aqui pegamos muito mais coisa: a noite ali também era bem interessante, tinham vários restaurantes, tinha festas, um pessoal super bêbado na rua brincando de coisa idiota, tudo isso em um espaço bem pequeno e estreito, com decoração e arquitetura meio tradicionais, bastante luz amarela, um pouco de outras cores também. Outra coisa muito interessante foi quando vimos um grupo de negros voltando de um templo muçulmano (eu diria que não parece uma mesquita mas... eu lá sei de fato como é uma mesquita?), eles pareciam bem comportados, educados, mas não nego que fiquei um pouco preocupada de estarem olhando esquisito por terem identificado que eu era trans. Não sei se aconteceu, tomara que não. Nós fomos subindo e trocando de ruas um pouco sem rumo mas nem tanto, sabíamos que em algum momento esbarraríamos na avenida do hotel. Tivemos a impressão de que tínhamos uma cidade grande a explorar ali naquele lugar e estávamos perdendo tempo mas essa impressão meio que se perdeu, não teve nenhum dia em que comemos ou participamos de algo nessa "Deep Otsuka", foi a penúltima vez em que exploramos o bairro de alguma forma e o único em que dedicamos tanto tempo assim. Se ficarmos em Higashiikebukuro na próxima, talvez aconteça.

Então, wow, chegamos no hotel. O mesmo de sempre: talvez minha esposa tenha ido parar no Seven-Eleven para comprar alguma coisinha, daí capotamos. Não consegui descrever muito bem a experiência de Otsuka então deve ter parecido meio xoxo, mas foi bem legal, é que foi muita coisa acontecendo e muito rápido já bem tarde da noite. Mas foi um grande dia. Conheci Harajuku, conforme planejado. Conheci Shibuya e isso não era planejado. Tinha certeza absoluta de que precisava ir nesses bairros mais vezes, e de fato fui. Mas por hoje é só. O próximo dia era dia de ser nerd: Akihabara. Almoçar curry e bater perna em bairro de nerd. Eu estava bem ansiosa pra isso também. Até lá!

Você leu um capítulo da série Tóquio, Japão - Julho de 2025

escrito por nubobot42 narrado por yasu