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Ueno de verdade, e alguns parágrafos sobre as minhas relações com a arte e com a espiritualidade
25 de julho de 2025. Mais um dia pacífico, o terceiro dia em que eu não precisava mais contar nada para os meus pais. Mais um dia em que acordamos tarde pra caramba porque estávamos cansadas, e repito, Harajuku foi um dos dias mais cansativos para nós fisicamente falando, além de ter feito o meu autismo dar pirueta com aquela gritaria sem fim do shopping e de alguns lugares da Takeshita Street também. Tudo bem. Dito isso, nossa intenção agora era sextar em Ueno, nós queríamos mesmo ver aquele zoológico e era importante que chegássemos lá antes das 17h, de preferência bem antes das 17h porque queríamos ver todos os bichos possíveis. Do que me lembro, talvez nós tenhamos nos esforçado um pouquinho para acordar antes do meio-dia, para sair do hotel antes da uma da tarde. Mas sinceramente, mais uma vez não lembro o que comemos de almoço. Sério, eu só... não lembro. Não é possível que ficamos variando tanto assim no Nakau, acho que comemos em Ueno mesmo, mas talvez estivéssemos com tanta pressa que almoçamos, sei lá, uns salgadinhos, qualquer coisa assim. Talvez a minha esposa lembre muito bem porque ela se importa muito mais com comida do que eu, mas não quero consultá-la só para isso.
O meu look para Ueno foi o seguinte, se estou com boa memória: a lace loira, o vestidinho branco que comprei em Ginza, minha sandália anabela cheia de enfeites de cangaço. Eu acho que uma foto maravilhosa minha com a minha esposa, que também estava com um look deslumbrante e bem mais apropriado que o meu para um zoológico, corresponde ao dia de Ueno, então agora é evento canônico. Então partimos, sentido Ueno, com pressa. Chegamos no zoológico, entramos no zoológico. Eu infelizmente não sei muito bem como descrever a experiência de um zoológico, provavelmente vou passar muita vergonha porque, assim, deve ter sido a primeira vez na minha vida em que fui a um zoológico. Talvez eu tenha ido bem criança, mas minhas memórias de criança são péssimas, eu só não lembro. Então eu ficava embasbacada com tudo o que via. Tudo, tudo, tudo. Sei lá, se aparecia um pombo ali eu ficava fascinada. Tudo era muito legal, mas ao mesmo tempo isso significava que eu talvez não visse as coisas com tanto critério assim. Não sei se isso importa também, né? Qual o sentido de ser um expert em... zoológico? Eu parecia muito idiota, mas fui muito feliz.
Acho que nós entramos e demos de cara com alguns macacos, já vimos um bicho diferente e muito interessante, não lembro se era búfalo, sei lá. Eu não sei dizer muito bem a ordem. A primeira parte do zoológico era a parte dos animais grandões, que precisavam de mais ar livre, que ficavam soltos em algum espaço bem grande ou até presos em gaiolas menores mas com muitas árvores ao redor. Então eram macacos, uns bichos que pareciam hipopótamos mas não eram e que peidavam horrores, uma infinidade de espécies de aves, espécies muito parecidas com pavões, avestruzes, corujas, gaviões, falcões, pássaros menores e mais fofinhos. Depois, mais espécies de macacos, gorilas. Conseguimos ver alguns animais d'água tipo focas, mas muitos deles não conseguimos ver porque no verão eles só eram liberados de manhã, era muito quente, acho que tinha até urso polar no meio desse bolo, fiquei chateada. Além disso alguns animais até poderiam ser vistos mas eles simplesmente estavam putos com o calor e não queriam aparecer de jeito nenhum, vários gorilas entraram nessa. Conseguimos ver elefantes também. Sei lá, não sei mesmo descrever experiência com zoológico, vai a dica: se estiverem no verão, é melhor ir no zoológico de manhã, ou talvez o dia todo, porque alguns animais preferem o calor. O zoológico é enorme, tem coisa pra comer, não tem problema nenhum você tirar o dia todo para ver os animais.
Encontramos brasileiros lá e conversamos um pouco, eram mineiros. Foi a primeira vez que encontramos brasileiros e eu sinceramente fiquei com muito medo de ser julgada, deles olharem torto, ainda mais que era uma família bem comum. Mas ninguém me tratou mal não, não sei o que dizer sobre olhares. Também não prolongamos muita conversa, eram mineiros, estavam gostando do zoológico, estavam gostando do Japão, acharam legal isso isso e aquilo e pronto. Cada um para o seu canto. Foi a deixa para nós sairmos daquela área do zoológico e partirmos para outra. Lembra que, quando estávamos do lado de fora do zoológico no outro dia em Ueno, nós passamos por baixo de uma passarela no meio do bairro? Eu devo ter chamado até de viaduto, mas era essa passarela que ligava um lado do zoológico ao outro.
O outro lado do zoológico era um lado mais fechadinho e tropical. Ficavam os animais um pouco mais estrelinha, os animais que preferiam espaços mais fechados, os tropicaizões, e os animais pequenos que precisavam de uma estrutura mais específica. Nós começamos pelo mais estrelinha de todos: o panda. O panda, que não está mais no Japão, tinha uma fila só para vê-lo, você entrava e tinha uma quantidade muito pequena de segundos para filmar e tirar foto, depois tinha que ficar atrás de uma grade com um bolo de gente vendo ele bem de longe. Aquele panda tem muito jeito de estrelinha mesmo. Ele fica paradão, do nada decide dormir, do nada decide andar em passos muito lentos para o outro lado da mata, aquele mundinho ali era muito dele. Minha esposa conseguiu uma gravação perfeita, muito importante porque minha sogra é fanática por pandas. Bom, doido pensar que pegamos o último ano do panda em Ueno, né? Ainda antes de determinadas pessoas arrumarem encrenca com a China e terem que devolver. Depois fomos visitar uma outra espécie chamada panda-vermelho que não tinha nada a ver com o panda, então ficamos rindo disso. Outros animais tropicais eram espécies de pinguins, com tantas formas, tanta variedade, que parecia melhor do que o filme Madagascar. Vimos o menor rato do mundo, uma espécie de gato que parece um coala, super príncipe de tudo. Vimos girafas, os hipopótamos de fato, umas espécies diferentes de galinha que já estavam sendo guardadas porque cinco horas da tarde estava logo ali.
Desculpa, gente, não sei mesmo narrar zoológico. Foi isso. Foi muito mais legal do que parece ao me ler, eu juro. Foi um dia muito feliz. É muito legal ir a um zoológico, a gente fica bobo vendo bicho, incrível.
Depois disso fomos ao café menos lotado do zoológico, já que o outro ou estava impossível de ir, ou estava fechando. Por falar em café, as nossas experiências com café foram tão pouco memoráveis (exceto obviamente o de Ginza) que, nos dois dias em que fomos para Harajuku, eu esqueci de dizer que tentamos tomar cappuccino lá e nos demos muito mal, porque não existe açúcar num cappuccino japonês e, assim, adoro coisas sem açúcar, mas em algum momento eu senti muita falta. Eu queria aquele cappuccino vagabundo que a gente toma, sabe? Que é um chocolate quente com um semblante de café. As duas vezes em Harajuku foram horrorosas, e eu ainda peguei aquela bebida de bolhas que sinceramente eu não sei por que insisto nela, já que a odeio. Nesse de Ueno eu tive um pouco mais de sabedoria ao escolher uma bebida, eu não lembro exatamente qual critério usei, o que exatamente eu peguei, mas lembro que foi muito gostoso. Também queria carregar meu celular, acho que acabei pagando por aqueles dispositivos que eles oferecem para carregar o celular, meio a contragosto mas fiz. Acho.
Já estava escurecendo quando saímos daquele café, deveria ser umas seis horas da tarde. Queríamos conhecer algum museu. A minha esposa queria bem mais do que eu, mas eu também achava a ideia interessante. O que Ueno mais tinha, além de bicho, era museu. Foi muito frustrante que o único museu aberto até mais tarde ali era um museu de arte ocidental. Que porre, ir ao Japão para ver arte ocidental. Apesar disso, entramos lá do mesmo jeito. A viagem já tinha cartas marcadas para outros dias, já sabíamos que iríamos visitar o distrito de Tóquio no sábado, que iríamos até Tamamura no domingo visitar os familiares da minha esposa e que iríamos fazer a despedida em Shibuya de novo, além de que precisávamos dar um jeito de conhecer Shinjuku. Não tinha espaço para ir até Ueno de novo.
Então de arte ocidental fomos. Não foi tão broxante assim porque eu nunca tinha visto um museu cheio de quadros antes (sim, eu sou bem pouco aculturada nesse sentido), tinha uma guia que explicava muita coisa legal em inglês, os quadros antigos eram interessantes muito por conta dessa historicidade. Também era muito legal ver a história do museu, na verdade era uma das coisas mais legais: todo o fascínio e interesse dos responsáveis pelo museu, todas as batalhas que eles travaram pela escolha das obras, pela posse das obras, o fato de que eles construíram uma narrativa com todos aqueles quadros para tentar explicar a história do ocidente de um ponto de vista japonês, foi incrível, acho que foi a coisa mais foda do museu para mim. Depois disso, é claro que a seção de arte moderna foi muito boa e divertida. Eu não posso dizer que sou a pessoa mais sensível do mundo para quadros, tá? Não sou a maior entendedora, não conheço muitos nomes, eu sei que toda vez que paro para ver qualquer coisa eu acho muito legal, fico interessada em entender qual foi o rolê, o que significa. Gosto de prestar atenção também no que sinto assim que vejo a obra, eu sou uma pessoa muito mais abstrata do que essas pessoas que gostam de ver quadros muito realistas. Eu sou da música, afinal de contas, eu sinto um bilhão de coisas com ondas sonoras que não se vêem. Eu estava muito, mas muito, mas muito cansada, mas os quadros de arte moderna me empolgavam muito. Pena que tive que selecionar os que mereciam mais dedicação porque o museu já estava para fechar e todo mundo precisava sair. Minha esposa agradeceu muito, apesar dela ter sido a mais empolgada com a ideia do museu a princípio.
Não gosto da ideia de que existem pessoas que "entendem de arte mais do que eu" mas, pela minha falta de conhecimento, preciso também não gostar da ideia de que existem pessoas que entendem menos. Dito isso, acho que existem pessoas que entendem de arte mais do que eu. É confuso, mas explico. Eu valorizo muito o que sinto ao ver, ouvir, ler uma obra, e acho que qualquer entendimento que venha da ideia de que preciso descartar essa minha impressão porque uma pessoa que entende mais do que eu está falando é ridícula. Mas acho que pessoas que "entendem mais", de certa forma, são interessantes e me enriquecem, me ensinam, ao abordar a mesma obra. Às vezes estou qualificada para debater, às vezes não, mas o mais importante é ouvi-las. Essa ideia do "entender mais" que valorizo está relacionada a uma mistura de interesse com sensibilidade, digamos que o interesse movido pela sensibilidade, muito mais do que movido por uma ideia de formação de conhecimento acadêmico. É ainda mais complexo quando penso que acho que a formação de conhecimento acadêmico também é boa mas, ou também é movida pela sensibilidade, ou também acaba se tornando algo que cerca mas não entra no debate da arte. Mais do que isso não explico porque fiquei com preguiça. Mas é, foi meu primeiro museu de arte com quadros famosos, importantes, essa porra toda aí. Eu gostei, tanto é que depois dele peguei um certo costume. Se eu passei 31 anos sem ir a um museu de arte por intenção própria, posso dizer que já visitei outras exposições depois dessa. Uma delas bem melhor que essa, inclusive. Mas ainda sou muito fraquinha e também não é minha intenção de ficar fortinha nisso. Fui muito criada nos meus meios artísticos a participar dessa espécie de competição mas, sendo sincera, ela me fez tão mal que agora eu tenho repulsa. Eu tendo a achar que todo mundo está bem. Até ser pau no cu na internet, ao menos.
Saímos do museu bem tarde e, para ser sincera, acho que me perdi de novo nas noites de Tóquio. Talvez eu tenha me iludido com a coisa da anotação do número da budista ter sido no dia 24 e eu tenha visto ela pela primeira vez no dia 23, mas vou contar a história mesmo assim. Pensem que eu alterei o cânone, se foi isso, mas talvez tenha rolado nesse dia mesmo. Então tá: saímos de Ueno, exaustérrimas, e voltamos para Otsuka. Eu tenho a impressão de que não foi exatamente assim porque o museu deve ter fechado sete horas, no máximo oito, e voltar oito horas da noite para o bairro do hotel era muito absurdo, mas... acho que faz sentido quando penso no fato de que estávamos muito, mas muito exaustas. Nós passamos a tarde toda andando, vendo bicho, de pé, rodando de um lado para o outro, e aquele começo da noite naquele museu que nos deixou no mínimo mais uma hora em pé. E era sexta-feira, de uma semana muito exaustiva. Então tá, tem possibilidade de ter acontecido assim.
Chegando em Otsuka, com fome e vontade de comer alguma coisa bem ocidental, na verdade comer um doce bem ocidental, porque eu estava exausta das coisas sem açúcar do Japão. Nós fomos ao Starbucks do bairro. Como foi uma Starbucks, eu só posso dizer que a comida foi gostosa, bem do jeitinho que a gente esperava, mas nada memorável. Starbucks só foi memorável nos primeiros anos em São Paulo, quando era febre e nós íamos cuspindo o nosso coração adolescente pela boca em busca de romance. Eu acho que o mais importante foi o docinho, eu queria muito um docinho daqueles, estava seca por um docinho. Certa vez nós compramos um doce em Harajuku e ele não era doce. "Ah mas é que o brasileiro é caçador de diabetes" que se foda, eu adorei os doces japoneses mas tem horas que, sim, sou caçadora de diabetes.
Saímos da Starbucks e, evento canônico sendo formado já que não temos a certeza do dia: fomos abordadas pela mesma jovem budista do outro dia. Ela perguntou se eu tinha definido se iríamos para o Monte Fuji ou não, e eu disse que tínhamos muitos compromissos e provavelmente não conseguiríamos ir, mas poderíamos tentar. Ela insistiu com as conversas prosélitas de sempre, sobre se tínhamos feito a meditação, se tínhamos mais interesse no budismo, e eu sinceramente até tinha mesmo mais interesse então não posso dizer que fui uma pessoa chata. Mas quando ela viu que eu tinha mais interesse do que necessidade de me entregar a uma nova religião ela decidiu chamar uma "líder espiritual" para vir ajudá-la, e foi aí que minha relação com o budismo se encerrou. Era uma senhora mais velha que não falava inglês, falava bem mais brava, embora a moça suavizasse ao traduzir, com aquele sorriso meio amarelo de quem sabia que estava atacando. Como disse no outro dia, eu já fui evangelista, eu conheço muito bem tudo isso, toda essa técnica, documentada nos livros dos pastores mais nojentos que você graças a Deus não teve a oportunidade de conhecer. Ela me cercava por todos os lados, me questionava em tudo, eu tentava dar uma resposta para agradar mas não agradava porque ela não queria uma apreciação da religião dela, um reconhecimento, ela queria que eu negasse tudo o que acreditava na vida para seguir essa porcariada toda que ela me falava sendo que tínhamos acabado de nos conhecer. Então ela ia me incomodando mais, e mais, e mais, até que eu prometi que faria tudo o que ela falou que era para fazer e "veria no que dava". Ela ainda teve a cara de pau de me falar "espero que seja verdade, você sabe que tudo o que fazemos de mal volta para nós, né?", eu só respondi "OK" e fomos embora.
Desde esse dia, posso dizer que aprofundei muito minha relação com Buda. Eu tomei um tempo para falar com ele, falar "olha Buda, sei que não somos assim as maiores amigas, mas... que seguidorazinhas de merda você tem, hein? Mas se eu falei alguma coisa que te ofendeu, releva, perdoa, por favor, não foi minha intenção te desrespeitar. Te admiro muito e te acho muito foda, mesmo não conhecendo tanto. Mas... que seguidorazinhas de merda você tem, hein?". Foi a primeira vez que falei com ele. Nem sei se os budistas falam com Buda, talvez não, mas eu sou uma pessoa que acredita muito nos espíritos e no poder que existe na fé das pessoas, eu acho que Buda deve ser uma coisa fortíssima se tanta gente acredita nele, e acho que todo mundo que acredita nele deve estar muito certo então não tenho nada se não respeito por esse camarada. Mas foi isso que rolou.
Eu também tive uma epifania sobre a minha própria religião: tremi muito nas bases para falar que era cristã no dia anterior, mas acabei saindo um pouco mais cristã desse dia. Não me entendam errado, o meu tipo de cristianismo implica em acreditar que a única solução para que o evangelho volte a ser pregado no mundo é acabar com todas as igrejas, já devo ter dito em algum dos textos de Tóquio: eu acho que a institucionalização chegou num ponto em que a religião virou inimiga do evangelho. E sei que esse é um discurso que muitas igrejas usam para dar uma roupagem mais moderna à religião, mas não estou falando disso, eu já desisti de frequentar igrejas, não é esse o meu rolê. Posso falar da minha fé com muita paz sabendo que não estou fazendo propaganda religiosa para ninguém. Eu não recomendaria o cristianismo para ninguém, acho mais saudável a pessoa ter uma relação religiosa com o terreiro. Nunca entre numa igreja, faça a si mesma esse favor. Mas a minha relação com o cristianismo é a seguinte: a minha espiritualidade, na figura de Jesus Cristo, foi o primeiro lugar onde tive a recíproca de falar com alguém e essa pessoa não me chamar pelo nome atualmente morto, mas me chamar por "Lisbeth". Em 2012, Lisbeth era o nome que eu usava para escrever e desabafar, era o nome que eu usava para expressar minhas emoções e sentimentos mais profundos e, quando eu fazia a tal oração que a igreja me ensinou, eu sentia ser chamada por Lisbeth. Antes disso eu era atéia. Na minha última crise suicida eu ouvi muito forte alguém me falar "você não consegue mais cuidar da sua vida, deixa que eu cuido", e essa mesma voz sempre me chamou de Lisbeth quando eu precisava ser chamada de Lisbeth. Então eu acredito numa coisa extremamente transgressora, que é um cristianismo não-transfóbico. E fica por aí. Não dá para eu tentar acreditar em muitas outras coisas do cristianismo institucional porque ninguém mais sabe quando é que a Palestina terminou para dar espaço à doutrina européia, eu não tento ficar lendo a Bíblia e encontrar valores, princípios, e principalmente regras para a vida, porque é muito difícil saber se o que você sabe da Bíblia veio da Bíblia ou veio da colonização. É muito mais difícil do que parece, as pessoas subestimam demais o quão difícil é separar a Palestina da Europa. Talvez seja impossível. Ah, detalhe. Eu fiz faculdade de tecnóloga em Ministério Pastoral e bacharel em Teologia. Da primeira, consegui o diploma. Da segunda não, me faltou o TCC, e não estou interessada em ir poderosa e travestilíssima a uma instituição evangélica para fazer e entregar um TCC.
Eu ainda tenho esse elo com a voz que me acolheu, me aceitou, tirou caquinho por caquinho do meu coração, validou minha identidade. Toda vez que eu fiz coisas para destruir minha identidade dentro da igreja, e Deus sabe quantas vezes eu fiz isso, eu ficava mais e mais na mão dos outros, dava uma merda colossal, e no final eu reclamava com Deus e ele me falava "eu nunca te pedi para fazer isso, eu já gosto de você do jeito que você é, com os gostos que você tem". Então eu acho que não vou dar conta de reinterpretar algo que já significa tanto, não tenho interesse, e sinceramente me considero desgastada demais para participar de qualquer religião institucionalizada de novo. Desgastada? Melhor dizer: machucada, humilhada, usada, manipulada, abusada, entre outros. Eu vejo alguém se colocando como liderança espiritual ou religiosa e sinto calafrios, não é pra mim.
A minha fé está aqui. Essas budistas fizeram um ótimo trabalho em me lembrar que eu a tenho. Eu acabei suavizando todo o ódio ao cristianismo que estava dentro de mim até então porque percebi que o problema é generalizado, que a religião predominante de uma nação sempre vai ter seus tentáculos opressivos e tentar nos subjugar porque já não estamos mais falando de espiritualidade, estamos falando de política. Pasmem, até as técnicas de proselitismo religioso são iguais, mesmo do outro lado do mundo! Mas a religião predominante do nosso território segue sendo o cristianismo, então nada de abaixar a guarda.
E esse foi meu dia em Ueno. Um dia muito, mas muito agradável, muito cheio de aprendizado, de conhecer coisa nova, de me divertir, mas que não soube descrever muito bem. Saibam que foi assim. E lembrem-se: em Tóquio pela primeira vez? Ueno, por favor. De manhã, cedinho, para passar o dia. Se cansarem do zoológico, tem vários museus. Se cansarem do museu, voltem ao zoológico. Apesar de que terão de pagar de novo. Tem a Universidade de Artes. Ueno é incrível. Dá para resolver em um dia bem dedicado, mas por favor, resolvam. É ótimo.