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O dia todo em Ikebukuro
18 de julho de 2025. O dia em que eu decidi levar a sério o show da Kyary Pamyu Pamyu, mas… era um pouco tarde para isso. Inspirada no mapa desenhado pela recepcionista do hotel, sobre como faríamos para conseguir um chip de celular com número para comprar esses ingressos, decidi que esse dia se passaria em Ikebukuro. Não a Higashiikebukuro que conhecemos no primeiro dia dando uma voltinha no bairro, mas navegaríamos nas profundezas de Ikebukuro, começaríamos explorando o Sunshine City com muito mais eficiência do que no outro dia, almoçaríamos lá inclusive, depois continuaríamos andando infinitamente até decidir que era o suficiente, que estávamos cheias de Ikebukuro. Esse seria nosso dia.
Para começar, uma má notícia: todo o afobamento na Uniqlo me levou a comprar uma saia que não me serviu, e essa saia ainda fazia conjunto com um blazer que, esse sim, me serviu. Tenho a impressão de que isso aconteceu com ao menos mais uma peça de roupa mas não consigo me lembrar. Eu fiquei muito chateada. Aquela saia era bem importante para mim, mas vida que segue. Eu estava sentindo um pouco de falta de tops, tinha esquecido de levar um cropped verde mesmo tendo separado para viagem e… assim, naquela época eu de fato tinha poucas roupas. Muitos sapatos sim, mas poucas roupas.
Para o look desse dia decidi que usaria aquele conjunto que achei que tinha estragado na loja - um vestidinho todo branco e até meio transparente, e por dentro uma regata também branca -, lace loira e um tamanco anabela da Schutz verde cheio de franjas. Na época era um modelo mais exclusivo deles, embora provavelmente tenha sido inspirado em algum outro, mas hoje em dia também tem uma pancada de lugares que vendem algo assim e em mais cores, e tem no AliExpress também.
Essa falta de roupas também se justificava um pouco com o fato de que eu estava esperando essa viagem para comprar roupas, mas os gastos com sapatos antes dela impactaram muito essa compra. Triste.
Como sempre, não saímos cedo. Saímos num horário bom para almoço mesmo. Andamos até o Sunshine City e, pouco tempo antes de entrar, um casal hétero de viajantes veio nos perguntar sobre nossa viagem, de onde vínhamos, se éramos imigrantes, coisas do tipo. Aparentemente a moça nos elogiou no final, mas não consegui entender muito bem.
Entramos no Sunshine City então, dessa vez com mais tempo, sabendo que a hora estava certa para vermos o que quiséssemos. Vou encurtar um pouco, mas: exploramos todas as lojas que não tínhamos explorado antes, eu olhei com cuidado as malas e as bolsas, comparei preços e já fiquei chateada ao perceber que tinha gastado demais na Donki de Ginza. É importante falar de mala e bolsa porque eu comprei a minha primeira bolsa feminina aí. Antes disso eu tinha tentado comprar uma bolsa rosa em formato de coração na Shein mas ela era tão pequena que não cabia nem o celular, e a alça era uma corrente que parecia coisa de prisioneiro de filme norte-americano, foi uma péssima compra. Essa aí era uma bolsa normal, verde, com alça, que dava para colocar documentos e celular, já que até então eu não sabia a conveniência de ter uma bolsa para colocar base, batom, ou qualquer outra coisa que necessitasse de retoque em algum momento do rolê.
Mais uma vez, minha memória me sabota. Tenho a impressão de que tivemos três rolês no Sunshine City e não dois, porque o primeiro dia foi aquela correria absurda, teve esse do almoço e onde, se bem me lembro, comprei a mala e a bolsa, e teve algum outro em que tomamos café. Ou pode ser que nesse dia tenha rolado o café também. Sério. Já faz meio ano e eu costumo anotar as coisas para não esquecer, só as fotos poderiam salvar minha memória nessa mas as fotos não deram conta.
Fato é que nesse dia conseguimos ver mais as lojinhas, como eu disse. Não necessariamente sair provando roupas já que eu estava um pouco traumatizada do último dia na Uniqlo mas vê-las, apreciá-las, e no caso de chapéus até pensar em experimentar mesmo. Minha esposa viu um boné muito legal lá, mas acabou não comprando porque começamos a suspeitar que poderíamos procurar as coisas em mais lugares antes de comprar, para fazer comparação de preços. Além das lojinhas, também conseguimos entrar num espaço enorme da Bandai-Namco cheio de brinquedos, gachas, jogos de cartas e outros merchandisings de algumas franquias tipo Dragon Ball, One Piece, Gundam e outras que, para mim, eram desconhecidas, mas estavam lotadas de fangirls esperando, fazendo barulho, mostrando cosplay e shippando personagens. Eu adorei.
Incrível como o gacha é famoso no Japão. Em todo lugar tem algum espaço dedicado a isso, é impressionante. E o pior é que essas lojas de gacha parecem lavanderias, a máquina que solta o bonequinho sortido parece uma máquina de lavar daquelas que abrem para frente, é muito engraçado. A Bandai-Namco tinha esse espaço gigante ali dentro do Sunshine City, um dos maiores que vi, só perdendo para o espaço da Capcom em Harajuku.
Andamos a praça de alimentação e quase morremos de tanta indecisão sobre o que comeríamos. Acabamos num restaurante de comida normal, ou seja japonesa, porque estávamos com vontade de comer sashimi. Mortas de vontade de comer sashimi. Não fazia sentido ir ao Japão e não comer sashimi nenhuma vez. O restaurante era um pouco chique então me senti um pouco desconfortável ali, achando que pessoas estavam me olhando, coisa que eu passei a sentir com certa constância, mas tudo bem. Olhei o cardápio e fiquei interessada no prato mais caro porque ele parecia enorme e que viria com um mundo de coisas, ele dizia ter um pouco de tudo, não tinha como eu não querer algo assim. Enquanto isso, a minha esposa quis uma coisa mais normal.
Pedimos. Estávamos morrendo de fome, já ficando mal-humoradas por isso, então havia uma certa ansiedade por aquela comida.
Quando a minha comida veio, bateu um arrependimento absurdo: a quantidade não era tão grande, a bacia era praticamente só gelo. Mal era o suficiente para eu ficar feliz, e o pior é que foi caro pra caramba. Dito isso, a comida estava ótima de novo. Sempre tinha algo a se apegar quando as coisas davam merda, sempre, mas devo dizer que lá pro meio da viagem a gente já estava pegando a prática e eliminando esses problemas. A comida estava ótima, a bebida estava ótima, fora o rombo no bolso e não ter conseguido estufar a barriga eu estava bem. Eu adoraria voltar a esse lugar mas dessa vez não pediria balde de gelo com sashimi, eu pediria uma quantidade bem generosa de sashimi e outras coisas que dariam o mesmo preço desse prato só que me fariam sair de lá rolando.
Terminamos de comer e exploramos o que faltava do shopping, que era o terraço e talvez alguma outra besteirinha. Do que me lembro, e posso estar enganada nas minhas lembranças, descemos ao primeiro andar, compramos outra mala e a minha bolsa e voltamos ao hotel rapidinho para guardar essa mala. Saímos do hotel, agora eu com a minha nova bolsa linda e maravilhosa, mas eu insisti no erro do primeiro dia: o tamanco parecia bem confortável então eu achei que não haveria problema em não levar o tênis, não queria sair com aquela mochila, e dessa vez acho que vacilei ainda mais do que no dia do shopping. Foi o erro para nunca mais errar de novo. Depois desse dia nenhuma desculpa passou a importar mais, levar o tênis era crucial.
Como dito desde o começo, tínhamos dois pontinhos no mapa que precisávamos ver e eles estavam em Ikebukuro. Eu ainda não sabia a diferença entre Higashiikebukuro e Ikebukuro, achava que seria só mais um pedacinho daquele bairro pacato, só fui descobrir nesse dia. Passamos o Sunshine City, vimos mais algumas casinhas e passamos aquela rodovia suspensa acima de onde acontecem trocentas cenas de Durarara, principalmente envolvendo perseguições de moto com a Celty. Eu não lembrava nada de Durarara, não me veio à cabeça que estava naquele cenário, aliás, eu nem lembrava que o Sunshine City era tão importante. Estava achando que Ikebukuro era um bairro dos primeiros Yakuza (eu joguei o 1 e o 2), foi essa confusão que minha cabeça fez para lidar com o fato de que uma obra de ficção importante para mim se passava em Ikebukuro mas eu não sabia qual. Yakuza se passa em Kamurocho. Se eu lembrasse mesmo de Durarara eu saberia que Ikebukuro é um centro comercial enorme, que não perde em nada para Ginza. Aliás, eu tinha planos de voltar para Ginza no mesmo dia, tentar provar o café divino e comer o wagyu do lugar prometido, porque achei que Ikebukuro seria uma passagem rápida aos lugares que a recepcionista me passou, pegar o metrô na estação de Ikebukuro direto para Yurakucho e seria isso.
Vimos um CoCo Ichiban logo após a rodovia suspensa e eu quase entrei para comer, mas pensei que seria melhor ir no recomendado pelos meus amigos, em Akihabara, como se o CoCo Ichiban não fosse uma rede de fast food e o bairro fosse fazer alguma diferença. É que o CoCo Ichiban não tem cara de fast food, esse é o problema, os japoneses nos enganam muito bem nesse sentido. Mas bem, continuamos andando, até que o bairro começou a crescer, crescer, crescer. O que era um deserto começou a virar um mar de gente, em primeiro lugar muitos jovens falando alto numa língua que eu não conhecia mas pelo tom conseguia dizer com certeza que eles estavam falando e fazendo coisas de jovens, e em segundo lugar muito homem seco de terno. Tinha um shopping com um cinemão enorme e outdoors dando a entender que aquele lugar só tinha filme, muito filme, você entraria lá e sairia vomitando filmes. Tinha muito café, tinha muita loja, mas tínhamos acabado de sair de um shopping então não estava nos nossos planos entrar em outros.
Acho que Ikebukuro foi o maior centro metropolitano que eu vi em Tóquio. Talvez, se eu tivesse explorado Shinjuku melhor, eu teria descoberto o único competidor a altura, mas nenhum outro bairro chegou perto. Nem Ginza nem Shibuya. Eu fiquei embasbacada pensando como cabe tanta gente, tanto consumidor. Os estabelecimentos que só tinham um andar eram os cafés, o resto era tudo prédio, tudo shopping, mas num formato em que você não se sentia tanto numa meca do capitalismo porque não tinha formato de shopping, é mais ou menos como se fossem os camelódromos da vida só que chiques e com espaço para a galera transitar.
E meu pé, claro, começou a doer. Por mais que a palmilha fosse meio acamurçada ela não fazia milagre, e o que mais atrapalhava era que as franjinhas da tamanca iam entrando dentro do pé e isso com o tempo ia incomodando, e eu não prestei atenção nesse incômodo mas ele foi piorando, piorando e piorando até que realmente se tornou um ardor. E aí eu lembrei que, no dia anterior, graças a um lapso de sabedoria, eu estava carregando um tênis e tudo se resolveria assim e fiquei com muito ódio de mim mesma. Que desgraça. Encontramos um dos dois alvos: a Bic Camera de Ikebukuro, que era como a Bic Camera de Yurakucho só que menor. Eu andei todos os andares da Bic Camera para ver o que tinha de bom, sem muito entusiasmo por conta da dor. Por fim, encontrei alguém para perguntar sobre o chip e a pessoa disse a mesma coisa que a Bic Camera de Yurakucho, então não deu certo.
Ainda havia mais um alvo, mas estávamos exaustas, com fome e sede. Como não houve um bilhão de acontecimentos e eu nem soube traduzir exatamente os sentimentos de ter visto e me surpreendido com Ikebukuro, não deve ter dado para perceber, mas havia se passado muito tempo, já eram umas cinco horas da tarde. Todos os lugares pareciam mega difíceis de se acessar, meio como Ginza no dia anterior: ou pareciam fechados, ou pareciam lotados demais. Estando num mega centro comercial, foi inevitável encontrar um McDonald's e ele parecia um ótimo lugar para se comer… não jantar, não queríamos bem uma janta, acho que o que mais queríamos era uma coquinha e alguma coisa que tampasse um buraco da barriga enquanto a gente não jantava. Era importantíssimo para mim descansar também, meu pé estava gritando de dor, eu não imaginava que um tamanco tão inicialmente confortável daria tanto trabalho - era um detalhe tão idiota, sabe, ter cuidado para não deixar as franjas entrarem para dentro do pé! Eu prestei atenção nesse detalhe em Florianópolis esses dias e fez tanta, mas tanta diferença! Pelo amor de deus. Esse foi o último dia em que efetivamente eu sofri por isso, prometo que nunca mais vão sentir raiva ou pena de mim por essa questão.
Descansadas, pero no mucho, saímos daquele McDonald's já praticamente a noite. O céu estava escuro, mas deveria ser cerca de sete horas. Tínhamos um pouco de pressa também: a experiência com Ginza nos ensinou que era questão de prudência não deixar para jantar dez horas da noite. A outra loja recomendada pela balconista ficava na frente do McDonald’s, algo que eu nem sequer tinha percebido, só aconteceu para nossa sorte.
A loja era uma concorrente da Bic Camera, mas parecia mais dedicada a tecnologia. Eu esqueci o nome dela, lembraria com facilidade se visse no mapa. A Bic Camera não é assim uma loja cem por cento de tecnologia, ela se mete a vender outras bugigangas também a depender do bairro. Já essa loja não. Ela também tinha ali seus cinco andares mas só vendia tecnologia: só celulares, notebooks, computadores, tablets, câmeras, Gundams (brincadeira), cadeiras de escritório, impressoras, coisas do tipo.
Procurei pelos chips por todo canto e não achei exatamente o que queria, então fui perguntar a um dos atendentes, expliquei toda a situação e ele disse que poderia me ajudar. Eu fiquei muito feliz, afinal, ainda dava tempo de comprar ingressos para o show da Kyary, o lote ainda não tinha acabado.
!!! Era essa informação que estava faltando, leitor, para entender o mistério do show da Kyary: eu cheguei a vê-lo no Brasil mas aparentemente já estava tudo esgotado. não tenho costume de comprar ingresso para nada porque só apoio a cena local então não entendia esse negócio de lote, só sei que quando vi não tinha mais como comprar, presumi que tinha perdido e era isso. Depois fui descobrir que aquele lote tinha acabado mas abririam outro no futuro. Foi isso que aconteceu. Esse era o último lote, agora eu sabia dessa informação, então cada minuto sem comprá-lo poderia ser o fim, eu só queria esse bendito número de celular para fazer um cadastro e comprar esse ingresso na Lawson Ticket.
Então os trabalhadores daquela loja pareciam ter resolvido meu problema, me deram um contrato para assinar, eu li o contrato e encontrei algo estranho: não parecia falar em nenhum momento que eu estava conseguindo uma linha de telefone para usar. Antes de assinar, então, questionei, expliquei a situação novamente e foi aí que caiu a ficha de algum daqueles funcionários de que não dava para fazer essa linha telefônica para mim, eles estavam achando que eu só precisava de um chip com dados móveis. Eu desanimei tanto, mas tanto! E também fiquei com pena do pessoal, parecia que eles tinham cometido um crime contra mim, me pediam desculpas toda hora, pela confusão, por tudo. Eu já tinha pago alguma coisa então eles deram um jeito de me ressarcir na hora, sempre pedindo muitas desculpas.
Importante dizer que, em paralelo com essa situação, eu trocava e-mails com a própria Lawson tentando encontrar uma solução para o meu caso e eles se esforçavam bastante, mas pareciam só não tê-la. Recentemente li um post em algum site, acho que no Unseen Japan, sobre a dificuldade de acessar a shows no Japão quando se é turista ainda que esteja no próprio Japão e, de fato, somos provas vivas disso. Parece até que o sistema é feito para que apenas os japoneses comprem ingresso, sendo que uma cacetada de artistas japoneses nunca farão turnê na América Latina e alguns talvez nunca farão carreira internacional (de novo).
Diante do fracasso absoluto, eu quase desisti. Pesquisei no mapa por postos da Lawson e encontrei vários, aliás, ela é uma empresa que atende a um trilhão de segmentos, inclusive é concorrente da Seven-Eleven, então existem konbinis da Lawson. Minhas duas últimas esperanças eram essas: comprar em algum posto da Lawson ou pedir o número de celular de alguém emprestado para cadastrar. Pedi para a Vivian entrar em contato com a prima dela para esse segundo plano, o primeiro ficaria para o dia seguinte.
Enfim, saímos da loja de tecnologia acabadas, eu particularmente arrasada mas ainda sem desistir de vez. Eu botei na minha cabeça esse show e só desistiria quando o show estivesse acabado e eu sem entrar para ver mas, sendo bem franca sobre como eu estava me sentindo, eu tenho esse tipo de esperança que só se demonstra em atos e determinação, eu não senti em nenhum momento que daria certo. O importante agora era procurar um lugar para comer porque não queríamos reviver a loucura do dia anterior em Ginza. Eu estava com um paladar muito restrito, não queria comer peixe cru de novo, não queria comer lanche, não queria comer carne, posso estar enganada mas em algum momento já tínhamos cruzado com um prédio vertical com uma enorme placa de pizza na frente e isso tinha me despertado um interesse, era uma das opções.
Algumas meninas super estilosas com maquiagem fortíssima, meio gyaru, nos pararam na calçada e começaram a falar que eu era linda, que adoraram meu cabelo, meu look, e tiraram fotos não lembro se minhas ou comigo e por um instante meu pé até parou de doer. Essa sensação de pessoas me pararem na rua para dizer como eu sou bonita era forte demais.
Digo sem nenhum problema com estar parecendo convencida, mas hoje sou muito acostumada com o reconhecimento externo da minha beleza. Quem não a reconhece ou enxerga mal (ia dizer é cego mas tenho certeza que cegos, da sua maneira, a enxergam) ou é transfóbico. Estou escrevendo com um ano de distância desse dia e já entendi que sou uma pessoa extraordinária, bonita pra caramba mesmo, e sempre procuro o tipo de extravagância perfeito para realçar minha beleza. Considero minha auto-estima saudável e nada perigosa, já que costumo reconhecer a beleza de outras pessoas e não achar que isso é uma disputa, odeio a própria ideia de achar que "feia", "baranga", esse tipo de coisa é xingamento, talvez porque beleza seja um conceito muito caro pra mim. Acho que todo mundo pode ser lindo se você for generosa o suficiente para prestar atenção na pessoa. Da minha parte só quero facilitar para que, mesmo com muita má vontade, seja inevitável reconhecer essa minha beleza.
Divagações conceituais encerradas, que entrem as divagações históricas. Faz muito pouco tempo que me olho no espelho. A primeira vez que me olhei no espelho e vi algo agradável foi quando passei a fazer progressiva e, embora ficasse uma merda num geral, eu adorava acordar cedo e ver aquele cabelo todo espetado pra cima parecendo algum cantor de visual kei, e era basicamente isso. Depois, quando comecei a deixar meu cabelo natural e crescendo um pouco mais, eu tinha lapsos de me olhar no espelho e me achar "legalzinho". Mais pra frente, quando tive um despertar da consciência racial, passei a deixar meu cabelo crescer muito mais e a travar uma luta para adquirir essa minha auto-estima perdida, achando que vencer uma prática de auto-racismo seria o suficiente para que eu conseguisse vencer. Agora... eu tenho uma consciência muito nítida da diferença que foi me ver no espelho pela primeira vez com uma lace, um conjunto preto da Marisa e um tamanco preto enorme três números abaixo do meu porque era emprestado da Vivian e uma maquiagem que ela fez, o que eu vi ali não se comparava a qualquer outra imagem já vista antes no espelho, eu nunca tinha conseguido olhar para a minha imagem e me entender como pessoa deslumbrante, encantadora, como se fosse um pecado dizer que a beleza não estava ali, ou elogiar com timidez, com vergonha. Isso aconteceu e foi uma força mesmo, eu só estava maravilhosa. Desde então, eu não tenho mais problemas com o espelho. Na pior das hipóteses eu penso que poderia estar melhor, e só.
Eu acho que, na época que eu estava escondida como menino, a única vez que alguém parou para falar da minha aparência foi na minha adolescência. Um palhaço (literalmente) em alguma praia do Paraná começou a gritar como eu era "feio" e estava assustando ele, e eu até hoje não entendi se era uma brincadeira ou foi pura maldade mesmo mas de qualquer forma foi péssimo e eu deveria ter saído no soco com ele. E independente de eu merecer ou não, no fundo eu sempre quis que as pessoas dissessem que eu tenho beleza. Esse lugar masculino de dizer que "homem tem que ser feio" me dava pavor, era algo fomentado tanto pelos homens que diziam literalmente isso, quanto as mulheres que nunca iriam dizer a mim que eu era "bonito". As da igreja pelo menos, porque com as de fora eu tive relacionamentos muito melhores. Ainda era bizarro porque elas me achavam "feio" mas queriam se relacionar comigo, o que pra mim era inaceitável. Eu tinha horror de ficar com alguém que me achasse feia.
Dito tudo isso, eu não tenho uma história boa com o espelho. Não vou dizer que ainda tenho qualquer dificuldade de me olhar, ou que um ano atrás eu tinha qualquer dificuldade de me olhar, mas um ano atrás eu estava fazendo aniversário de oito meses me relacionando bem com o espelho, me relacionando bem com o olhar das pessoas. E é claro que eu adoro receber elogios tanto sobre a minha beleza, quanto sobre a ousadia que tenho de colocar alguma peça de roupa extravagante, quanto sobre a sofisticação do meu look, mas nessa época era uma coisa muito necessária, eu precisava muito dessas pessoas anônimas me colocando no lugar que eu merecia, me fez muito bem, mudou minha vida. Eu ainda era uma pessoa muito camuflada na sociedade, só saía como eu mesma para festas, noitadas, coisas do tipo. Acredito que ter vivido de dia e de noite todos os dias em Tóquio, ter sido reconhecida pela cidade e por essas pessoas que eu considero tão estilosas tenha sido fundamental para me dar forças e avançar aqui no Brasil.
Então tiramos essas fotos e fomos comer pizza. Encontramos o prédio vertical. Ele já não parecia tão ativo, todas as lojas já estavam fechando e a Vivian se interessou muito por uma loja de materiais para confecção de roupas, que trouxeram muitas lembranças das tias da sua família nipo-brasileira. Não deu tempo de explorar quase nada, estávamos com fome e as lojas de fato estavam para apagar as luzes. Então fomos subindo as escadas rolantes daquele prédio, que eram todas bem confusas, e chegamos na bendita pizzaria.
Era uma pizzaria com um clima de bar gourmet, com pessoas meio jovens mas todas com cara de que estavam saindo do trabalho, participando de happy hour, coisas do tipo. Eu não estava num clima muito legal. Estava muito cansada, com fome, com um pouco de medo e cansaço de estar no meio de várias pessoas, com vontade de ir no banheiro mas medo também. Não lembro o sabor da pizza então não posso dizer que foi memorável, mas lembro que não era um sabor e um formato tão absurdamente diferente do nosso. Eu bebi alguma coisa gostosa também e fiquei mais feliz. E estava cansada. Fiquei enrolando bastante para ir embora porque estava cansada. Que ideia idiota foi aquele tamanco, meu deus. Mas tá, pra nunca mais.
Saímos então, apreciamos as lojas de materiais todas escuras e sem ninguém, embora nada estivesse realmente fechado então algum louco poderia entrar lá e olhar. Exceto que não porque haviam uns caras parecendo seguranças por ali, inclusive instruindo o pessoal a não desviar do caminho pra fora do prédio. E então estávamos nas ruas de Ikebukuro de novo.
Meu cansaço tinha passado mas, dessa vez, quem estava empolgada era a Vivian. Era nove horas da noite, ainda tinha mais uma horinha pra aproveitar, não tinha? Então fomos andando rumo a estação de Ikebukuro, que deve ser uma das maiores dessa cidade, até que achamos uma Donki e a Vivian resolveu entrar para comprar presente pro pai dela. A minha dor logo voltou a incomodar então eu achei uma escadinha pra sentar enquanto ela procurava esse presente. Passados alguns minutos me expulsaram dali então tive que ficar de pé, mas ao menos tinha aproveitado esse tempinho sentada. Logo ela terminou de comprar e saímos da Donki. Agora sim, dez horas.
Esse lugar onde fica a estação de Ikebukuro é muito, muito bonito. É uma avenida enorme por onde passam muitas pessoas e carros, talvez até faça uma cena mais bonita que o famoso Shibuya Crossing, mas como é muito maior não dá pra se sentir tanto num formigueiro humano assim. Em todos esses cantos da avenida havia uma escadaria para descer até a estação de metrô. De lá você consegue enxergar a Ikebukuro super colorida e cheia de gente. Eu sinto falta desse lugar, dessa cena. Entrada da estação de Ikebukuro, dez horas da noite.
Por fim, entramos na estação.
Como disse, uma das maiores dessa cidade. Das que me lembro ter visto, só a de Shinjuku e a de Tóquio são maiores, e pode ser que eu esteja enganada sobre Tóquio porque passei por Ikebukuro bem rápido. Achei o nome Otsuka e corremos até lá, com aquela pressa de quem queria chegar no hotel o mais rápido possível, tirar aquela tamanca e deitar pra sempre. Não me atentei, porém, que o sentido do trem não era Otsuka, mas Shin-Otsuka. Só embarcamos no metrô e fomos, eu ainda sem perceber a confusão, até que descemos e eu notei que havia mesmo algo muito estranho.
A estação de Otsuka tem duas saídas: uma que eu ainda não conhecia, mas que tinha uma Donki, um restaurante de sushi com esteira, um puteiro e uma ladeira muito mais tranquila de achar e subir do que a outra; a outra saída eu conhecia e tinha uma praça enorme, um McDonald's, um Burger King, um restaurante comum com o qual adquirimos uma relação afetiva fortíssima, a linha de trem e uma ladeira mais difícil de encontrar. Como eu não conhecia essa primeira saída mencionada, cogitei que estivéssemos nela. Não me lembro se meu celular ainda tinha bateria ou se precisei usar o da Vivian, mas finalmente tomei coragem de olhar no mapa e perceber que estávamos num lugar diferente. Pesquisei no mapa a distância entre aquela estação e o hotel e não parecia grande coisa, dava para ir a pé, e nessa altura eu já estava pouco me fodendo pra minha própria dor, só ri feito o Coringa da situação e decidi não só aproveitar a vista como jogar unidunitê com a vida: "Bem, estamos no bairro de Otsuka, só não sabemos onde. Se seguirmos reto não tem como não achar alguma coisa que nos situe no bairro. Pra que ficar olhando o mapa toda hora? Estamos em Tóquio, vamos apenas viver?". A Vivian não estava nem um décimo cansada como eu então topou, sem reclamar muito.
Não deu muito tempo e nos descobrimos magicamente na avenida do hotel, mas bem mais pra frente. Logo esbarramos naquele mercadinho onde fomos no primeiro dia. Eu gosto muito disso. Meu maior hobby de infância além de videogame foi decorar o mapa de Londrina e depois pegar ônibus para explorar todos os lugares, até hoje eu gosto de pegar o carro, ir para algum canto de Londrina e tentar saber onde estou, então eu me divirto tentando me localizar nas cidades. Coisa besta mas sou assim, viva a dupla excepcionalidade.
Chegamos no hotel e tatuei no fundo da minha alma a lição: nunca mais sair sem mochila, nunca mais sair sem tênis dentro dessa bendita mochila. Não importasse o quão confortável a sandália ou tamanca parecesse, eu não tinha intimidade com nenhuma delas para saber o quanto elas seriam minhas amigas ao caminhar dez quilômetros, que foi a média diária de distância caminhada que o meu celular mediu nessa viagem. Nunca mais fiz isso de novo. Nem em Tóquio, nem em qualquer outra viagem. Quando fui pra Brasília e sabia que iria andar bastante, levei uma papetinha. Na Anime Friends desse ano de 2026, independente do look escolhido, eu tinha um tênis rosa pink na bolsa para trocar as botas de salto.
Ainda era noite de sexta-feira, a primeira em Tóquio. Eu sinto falta de Ikebukuro. Posso falar já agora porque só fui em Ikebukuro dessa vez, então não terei outra oportunidade: foi graças a essa viagem que senti uma vontade enorme de reassistir Durarara!!. Enrolei bastante pra fazer isso mas, quando fiz, vez ou outra eu chorava reconhecendo os lugares. O Sunshine City, o centro comercial, a estação, a ponte que passa por cima da linha de Otsuka, a avenida suspensa das perseguições da Celty.
É óbvio que cogito uma segunda viagem para o Japão e que passarei ao menos uma semana em Tóquio de novo mas é meio esquisito pensar na possibilidade de não pegar o mesmo hotel, porque eu devorei todos os lugares de Ikebukuro por onde passei, acabei pegando uma familiaridade, carinho e afeto como se fosse a minha Londrina, como se eu tivesse saído aqui da minha casa para bater perna no centro. Eu passei quatro vezes por Harajuku e duas vezes por Shibuya, mas nenhum desses lugares me deu essa impressão de que fui fazer compras e resolver alguma coisa no centro comercial do meu bairro. Mesmo que eu tenha passado pela região residencial de Shibuya.
Às vezes eu sinto falta da cacofonia matinal daquela avenida. Eu sinto falta do Seven-Eleven sempre transtornado porque dia sim dia não estavam reformando algum ponto da avenida e tinha sempre um guardinha muito bem disposto orientando em qual ponto da calçada deveríamos pisar. Eu sinto falta de Tóquio toda sim mas sinto uma falta especial de Ikebukuro, em particular Higashiikebukuro que é onde está o hotel mas, ainda assim, toda Ikebukuro, porque parece que aquele pontinho mais familiar, pequeno, interiorano da prefeitura sempre está envolvido por esse enorme titâ urbano. Não dá nem mesmo vontade de parar de escrever sobre esse dia sabendo que não vou mais escrever sobre Ikebukuro, mas eu vou parar.
Para o dia seguinte, eu já estava no desespero sem respostas, sem soluções, para o show da Kyary. Eu tinha que ir para Ginza mais uma vez, tomar o café e comer o wagyu que meu amigo tinha recomendado, além de comprar coisas que esqueci. Acho que a ideia era passar o dia em Ginza e a noite em outro lugar, talvez ver o que ficou faltando em Ikebukuro, talvez passar em Shinjuku, não me lembro muito bem. Mas isso é pra amanhã. Por hoje... até que enfim, findamos.