Oi,
Pode ser que você me conheça. Pode ser que não. Eu honestamente não me importo, não dou a mínima se você me conhece ou não — acho que não faz diferença.
E se fizer diferença, eu lamento.
Há muito tempo eu não escrevo uma carta com a noção de que, talvez, não será apenas um o leitor. E, justamente por isso, quero me aproveitar um pouco. Talvez entendam isso como uma confissão, ou como um desabafo; não estou desabafando nem confessando nada, isso é apenas mais uma das diversas cartas que permaneço escrevendo.
Algumas, inteligíveis.
Outras, nem tanto.
Outras simplesmente não são feitas para seres humanos.
Mas são cartas. São algo que eu queria dizer para alguém, e então envio para esse alguém, e então ele recebe, lê e se quiser me retorna. E se quiser expõe também.
Às vezes tenho a impressão de que me tornei uma entidade horrível, “monstruosa”, e falo isso com uma certa paz. Eu tenho o que proteger, tenho um motivo para proteger, e estou desesperada tentando proteger. E eu vou soar horrível por fazer isso, eu não me importo; soarei horrível, me sentirei a pior pessoa do mundo, o que for necessário.
Eu não vou deixar de protegê-lo.
Nunca.
Não que ele tenha um coração de ouro, ou mesmo que seja uma pessoa muito boazinha. Só que ele tem tudo aquilo que eu sinto falta em mim. Eu gosto de estar com ele, em qualquer lugar e conversando sobre qualquer coisa; não importa o assunto, tudo o que precisa é haver algum, e estou satisfeita.
Mas isso está bem longe de ser uma carta de amor. Eu quero falar de proteção, quero falar o quão corrompida estou me tornando pela obsessão da proteção. E eu simplesmente não consigo parar.
Eu não tenho nenhum escrúpulo.
Eu sou aquilo que o impede de se aproximar de você. Sabe, quando sente que ele está próximo de abrir, de alguma forma, seu coração, e então algo acontece e de repente tudo fica tão distante? Eu sou a responsável. Eu me certifico de tornar isso um passo doloroso, para ambos, mas especialmente para ele. Eu tenho orgulho disso.
Eu não gosto de você.
Eu não gosto de nenhum de vocês.
Todas as vezes que vocês fazem algo que passa despercebido por ele, eu faço questão de guardar. Sim, eu guardo o que cada um de vocês fez, eu escrevo; depois eu mostro, de alguma forma, e eu consigo muita coisa com isso. Eu sou capaz de torturar, de aprisionar, de fazê-lo recuar. Eu sou capaz de muita coisa. E eu me utilizo disso para responsabilizá-los por qualquer coisa que acontece.
É simples, não? O que isso significa? Quem eu odeio mais? Vocês ou ele? Vocês, é claro.
Eu adoraria que ele acreditasse que é tudo culpa de vocês, que vocês são maus, mas infelizmente ele não acredita. Todos os dias ele continua se odiando por coisas que, creio eu, não são responsabilidade dele. Todos os dias o mesmo peso. Todos os dias eu ouço “Olha. Eu sei lá, está difícil. Eu vou dormir” e não posso falar nada. Estou farta de passar por tudo isso.
Tudo o que me restou foi atacá-lo. E protegê-lo, principalmente de vocês. Eu não me importo em ser um monstro. Não me importo em ter que atravessar o coração de vocês com uma lança caso cheguem perto: não vou deixar ninguém chegar perto. Quando estiverem quase lá, podem ter certeza, estarão perto de morrer no campo de batalha.
Quando se sentirem constrangidos com a arrogância dele, é porque eu estive ali. Quando ele simplesmente desaparecer, é porque eu o levei. E se ele voltar, é porque eu deixei. Eu quero controle. Eu terei controle.
Mas o que eu queria mesmo era atenção.
Só um pouquinho.
Eu queria que não estivesse tão difícil. Eu queria que ele não fosse dormir. Eu queria que ele falasse comigo. Vocês tem noção de quanta raiva eu sinto? Eu já não tenho mais. Estou esgotada. Triste. Amargurada. Sozinha, com um companheiro de alma do lado; sozinha.
Eu queria não ter que me esforçar tanto pra ouvir ele dizer que gosta de mim. Mas mais satisfeita ainda eu ficaria se não tivesse que me esforçar tanto pra ouvir ele dizer que não se odeia.
Me desculpem.
Não pelo ódio que eu sinto por vocês, eu acho que não tem como se desculpar disso.
Mas pelo simples fato de existir.