Razão
Rebecca não sabia ao certo o nível do ódio que a guiava enquanto brincava com sua marionete, mas já tinha certeza de que estava muito mais racional e concentrado que em seu primeiro dia. Ao pensar no primeiro dia, aliás, confessava sentir um pouco de medo do que realizara: cada golpe vinha do fundo de seu coração, era diferente de qualquer outra coisa que tinha passado por sua vida.
Era uma sensação, realmente, única. E embora soubesse que não voltaria a sentir aquilo, gostaria bastante de reviver essa descarga, até mesmo revelação — e, ao mesmo tempo, pensava em se manter distante e continuar com seu curso normal, porque era perturbador pensar na maneira como suas ideias estavam organizadas naquele momento. Elas representavam um vulcão em erupção.
Ninguém nunca saberia que ela passou por aquilo. Se tentasse contar, seria considerada louca pela história em si, ou pelo fato de merecer ser julgada uma assassina por quem acreditasse naquilo. Havia uma única pessoa que sabia de tudo o que estava acontecendo, e ela infelizmente não estava a seu favor. Ela não era uma pessoa, pra falar a verdade — riu um pouco ao pensar.
Doente.
Pra alguém que eu tenho o direito de machucar o dia inteiro, você até que está tendo uma vida boa, não é?
Ela continuava a observar a marionete. A marionete provavelmente também retornava o olhar, já que não tinha como fazer outra coisa: se estava realmente prestando atenção nela o tempo todo ou imersa em sua própria agonia, ela não podia saber. Sabia que estava injetando dor nele, mas estava curiosa, tinha necessidade de saber o que isso realmente significava.
O que realmente significava.
O que significava tudo aquilo? Se não soubesse dele, não fazia tanto sentido a não ser que fosse algo de toda a alma, como da primeira vez: ela não dependia dele na primeira vez. Tudo a levava a pensar em repetir algo tão intenso quanto aquilo. O que seria tão intenso? Será que devia se submeter a realizar algo que consideraria doentio depois, só para tentar entender um pouco mais? Ele estava em sua frente. Havia bastante tempo — faltava bastante para o fim do dia, tinha muito tempo para ceder os três minutos.
Mas, dessa vez, não teve coragem. O facão era mais seguro, cumpria seu objetivo e a deixava feliz. Por que não fazer daquela forma, mesmo? Sua felicidade daquela forma era suficiente, não era?
Era?
Muitas dúvidas, preferiu fugir.
E, dessa vez, as facadas não estavam como as da segunda vez. Mas também não como as da primeira. Os golpes representavam pura ignorância, e não pareciam ter sabor nenhum — e justamente pela falta de esforço, a sessão de facadas durou muito mais tempo, e à marionete restou sofrer mais do que nos outros dois dias.
Com seus três minutos de liberdade, tudo o que conseguiu fazer foi chorar.