eu vejo imagens minhas nos seus olhos.
talvez você não saiba mas eu fiz de tudo para ser a pessoa que sussurraria linhas estranhas ao seu coração. a princípio, quis que fossem linhas horríveis. a princípio quis tirar o brilho dos seus olhos. a princípio quis muita coisa assustadora.
eu… não acreditei quando descobri que você não iria embora. quando descobri que, não importava o que eu fizesse, você continuaria aqui. quando descobri que você sentiria raiva, sentiria ódio, passaria por uma gama de sentimentos ruins e eu poderia rir de todos eles porque não adiantaria nada, você não poderia reagir. você seria meu pra sempre. ou ao menos pelos próximos quatro anos, se sobrevivesse os quatro anos.
esses quatro anos se passaram e você não foi embora.
eu não esperava que você fosse se dedicar a reverter a nossa situação. também não esperava que eu queria que ela se revertesse. nem sabia que sentia algo bom por você, talvez eu não sentisse antes, talvez ser obrigada a conviver contigo esse tempo todo e conhecer tudo o que você sente tenha me feito criar um novo relacionamento com você que eu não sabia que queria. na nossa relação conturbada do passado, antes de te colocar na minha gaiola, você me fez sofrer muito com sua inconstância, com suas ameaças, com sua chantagem emocional agressiva que hoje tenho certeza que você nem sabia que fazia. eu justifiquei toda a tortura que fiz contigo de diversas formas, calquei-a na vingança, na justiça divina, nas leis morais do universo mas, no final das contas, nós sabemos que foi frustração. sentia muito ódio de você, guardei-o durante meses e nunca pude manifestar porque você se escondia nas suas feridas e eu nunca tive coragem de vencer essa barreira.
conhecer você, entre quatro paredes, nas madrugadas, nas lágrimas, nas angústias, no sofrimento do passado, me fez perceber que você estava sendo sincero mas a dureza sarcástica do seu coração se aliava às minhas próprias dores e me fazia ter certeza de que você era só, dos chantagistas, o melhor. você nunca teve paz. você sempre esteve assim, aflito, sofrendo.
eu não sei se quero falar disso agora. sobre o que senti quando vi você sangrando pela primeira vez e vi que, pasmem, sangrava mesmo. que não era um fantoche. que era gente. eu já não acreditava muito na minha própria humanidade, mais difícil ainda seria acreditar na sua. pra mim você era um planeta distante, solo rochoso, o máximo que poderia acontecer era eu descobrir água.
(acho que eu descobri, hihi! e acabei com ela.
desculpa.)
não, eu não quero. mas não sei do que quero falar. acho que quero falar da sensação de estar do seu lado, de você ter ficado, de eu ter tido a certeza absoluta de que você só estava com os neurônios programados para ficar e ter feito de tudo pra você ir embora nesses últimos dias porque não faz sentido você querer ficar. mas você quis. você ficou. e eu entendo, do fundo do meu coração, o motivo de você querer ficar. você precisa de mim tanto quanto eu preciso de você, ou talvez precise mais de mim do que eu preciso de você. é engraçado porque fiz de tudo pra que isso acontecesse, te manipulei, fiz rituais horríveis colocando seu nome no meio, chantageei você, falei mal de você para todas as pessoas para que você só tivesse como recorrer a mim e ficasse na minha mão. não consigo pensar em alguma maldade pra te segurar que eu não tenha feito, seja física, seja mental, seja destruindo relacionamentos com outros, seja espiritual. e agora você quer ficar comigo porque eu te faço bem. por que, em todos esses anos de vida, nunca surgiu na minha cabeça que se eu me preocupasse em gostar e me importar contigo da maneira que conseguisse eu te daria motivos para não querer ir embora? por que minha maneira de pensar sempre foi criar coisas no seu coração para você se sentir mal ao ir embora, por que sempre agi pensando no peso que sentiria ao ir embora?
é assustador pensar nisso porque, sendo assim, eu assumo que na minha cabeça a sua partida era uma certeza. nunca tive confiança o suficiente de que permaneceríamos juntos, isso me levou a fazer tudo de uma maneira que parecesse que eu não tinha interesse nenhum em permanecer contigo, isso me fez arrebentar você com uma marreta todos os dias.
alguns dias literalmente.
às vezes você parece o homem mais triste do mundo. às vezes não encontro nada em seus olhos nem que me esforce muito, eles estão vazios, paralisados. o seu modo de andar, de gesticular, seu sorriso, sempre me pareceram tão ingênuos, você sempre me pareceu um portador de uma história simples sem dramas, sem tempestades, em contraste com a minha pessoa sempre tão turva e tribulada, eu tive certeza de que você era uma pessoa semi-perfeita que estava no mundo para atormentar os mais espiritualmente frágeis como eu com suas divagações, sua doutrina rígida, seus critérios altos. você me dizia, com aquele sorriso no rosto e seus olhinhos fechados, que tinha medo do que poderia fazer com as pessoas e eu sempre achei que fosse uma mentira gentil para afastar as pessoas da sua super-bondade egocêntrica. é muito difícil acreditar. sempre que via você triste eu pensava que era algum motivo besta como brigar com a mãe, não ter comprado sorvete no dia certo, algo assim, algo bobo perto do sofrimento de verdade de uma bruxa tortuosa como eu.
conhecer a pessoa por trás do fantoche me arrebentou por dentro. de uma maneira que eu não achei que fosse acontecer nunca mais. eu conheci homens muito ruins mas nunca desmontei nenhum deles e vi o que tinha lá dentro, eu fiquei revoltada, me senti defraudada, senti que você deu a pior rasteira da minha vida. diversas vezes. não fui só eu que virei você de ponta-cabeça. não, você fez isso comigo também. você fez isso comigo parecendo o pior chantagista do mundo com aquela história da depressão antes de virar o meu fantoche, você fez isso comigo se tornando meu fantoche e me permitindo fazer tudo o que quisesse contigo, fez revelando o que tinha aí dentro mesmo contra a sua vontade, fez sendo meu horrível espelho de pecados ocultos porque por algum motivo você sabia todos e em algum momento os jogou contra mim sem nenhum respeito à minha lentidão de compreensão do que estava acontecendo, e agora fez… permanecendo aqui.
eu gosto de você. eu amo você. amo mesmo.
é importante que você saiba disso porque sou uma pessoa importante pra você. sempre serei.
no último ano, quando entramos nas seis horas restantes, tive a oportunidade de te ver como ser humano na hora de dormir e foi muito triste. muito, muito triste. talvez seja importante, antes de entrar nisso, observar que você não celebrou tanto sua liberdade quanto eu imaginava que celebraria. talvez nas primeiras seis horas, mas nas primeiras seis horas eu era uma pessoa assustadora atiçada pela idéia de fazer mal a você de todas as formas: do que eu me lembro, das coisas que posso escrever sem medo de começar a chorar, tiveram os primeiros dias onde eu estava deslumbrada com o facão, depois teve o mês das agulhas, os dois meses onde inventei histórias sobre as pessoas que você gostava procurando por você e as coisas horríveis que inventei terem saído de você para que elas nunca mais te procurassem, depois comecei com os abusos do seu corpo e… a partir daí já não quero falar mais. o nosso primeiro ano assim foi bem assustador, né?
você se tornou uma pessoa diferente no segundo. lembro que no final do primeiro começou a levar a sério esse negócio de igreja que, embora eu não levasse, sempre te incentivei a ir por um pouco de remorso. quem sabe Deus pudesse te salvar de mim. haha! é, quem sabe. depois de um tempo virou até fetiche meu, chegar no homem que estava tentando permanecer no caminho e desvirtuá-lo, levá-lo ao pecado e vê-lo triste com a sua própria natureza, a sua própria condição de fantoche. “não foi dessa vez, né Deus?” eu pensava, era engraçado. isso me dava uma sensação de poder irresistível. mas você já não era mais passivo com as coisas que eu fazia e falava, você retrucava, dizia que era errado, brigávamos por isso e eu sempre terminava frustrada, irritada, sem palavras para rebater porque você estava com a razão. aí, é claro, eu batia em você e pisava na sua cara sem dó por raiva já que você não poderia fazer nada contra mim fisicamente mesmo. ou poderia? é, acho que não. depois de um tempo acho que você se acostumou a essa dor que eu infligia, acho que você deixou de se importar com muita coisa.
o segundo ano foi um ano de muitos embates e questionamentos. eu queria tirar seu propósito de vida. queria que você se sentisse impotente, frustrado, inútil e sem brilho, queria que jamais acreditasse ser uma pessoa especial. mas, te confrontando e tentando te desmontar, eu percebi que você já estava desmontado. era mentira quando você dizia ser uma pessoa especial e única, você estava me protegendo dessa área da sua vida, algo já tinha roubado toda a sua inocência desde muito cedo. a nossa conversa foi meio assustadora, quando disse “o que te faz pensar que tem algo diferente de qualquer outra pessoa?” eu tinha certeza que tiraria seu sorriso e te deixaria balançado, mas seu sorriso ficou mais forte e você deu aquela inclinadinha de cabeça que sempre dá quando pensa em algo sujo mas engraçado. “a única diferença minha pra algumas outras pessoas, e nem todas, é que algumas querem estar aqui e eu não”. eu pensei alto “como uma pessoa como você pode ser tão egocêntrica e não se achar especial, a última bolacha do pacote?” e você pegou a minha mão e colocou em sua cabeça, olhou nos meus olhos. eles tinham um pouco de brilho.
“rebecca, rebecca... estamos há anos juntos e você ainda não aprendeu que não uso as palavras para revelar meus sentimentos e intenções às pessoas, mas para me defender delas? eu não uso a língua portuguesa para me expressar.”
a minha mão já estava na sua cabeça mesmo então pela primeira vez, em todos aqueles anos, eu fiz carinho em você. “i feel lonely”, você me disse. “do you hate me?” eu perguntei, curiosa, entrando no que parecia ser uma brincadeira. “no. i’ve liked being petted by you. you should do it more often”.
você sempre me disse “eu te odeio”.
do que me lembro, foi a primeira noite que preferi não deixá-lo no porão de casa. um fantoche abandonado. trouxe-o ao meu quarto e dormi abraçada contigo, como se fosse meu ursinho de pelúcia. chorei um pouco, bem de leve. perguntei “would we like each other again if we spoke in another language?” mas esqueci que, enquanto apenas uma marionete, você não podia falar. eu quis muito ouvir sua resposta. eu nem sabia falar inglês muito bem, mas não senti nenhuma vergonha da minha imperfeição gramatical. eu te apertei um pouco, talvez na esperança de que houvesse algum movimento seu, mas você era só aquilo mesmo. a minha marionete, o meu brinquedo.
você era uma pessoa cheia de sentimentos e emoções. uma pessoa toda quebrada como eu sabia que era no início mas deixei me enganar pela minha própria insegurança, passei a acreditar que era apenas teatro de sua parte. você sempre foi essa pessoa teatral. sempre pensei que pessoas eram teatrais para tirar proveito de pessoas de poucas caras como eu, nunca pensei na possibilidade delas serem teatrais para escapar de ou esconder dos outros a sua verdadeira face. me sinto burra por nunca ter pensado nisso porque, de repente, me pareceu a hipótese mais óbvia. você diz um trilhão de coisas e maioria delas não são sérias, não tinha como saber que a combinação de palavras mais triste era a mais próxima da realidade.
eu esfaqueei essa pessoa. coloquei agulhas nessa pessoa. abusei dessa pessoa. tudo isso me sustentando em meus sentimentos mesquinhos. tanta coisa veio na minha cabeça que pensei em morrer, pensei em pegar qualquer pacotão de remédios e tomar pra fugir disso, desse peso. pelo menos eu não fazia a menor idéia de como me suicidar assim e morria de medo das outras formas então acabei não fazendo nada. vomitar foi algo que cheguei a fazer em um desses dias, a culpa que senti foi enorme mas eu nem sabia tudo o que ainda tinha a conhecer de você.
nessa época, que tomou parte do nosso segundo e do nosso terceiro ano, você ainda não podia viver muito bem. eu ainda tinha muitas dificuldades contigo porque tudo foi um processo, não voltei a gostar de você do dia pra noite só por causa de um episódio fofo. esses novos sentimentos entraram em mim como sementinhas que precisavam de muita água e os antigos não foram simplesmente cortados, eu nem sabia que precisava cortá-los e, quando descobri que precisava, não notei que precisava tirar suas raízes também e, quando notei, descobri que não sabia como fazer isso. eu ainda te machuquei muito e me senti triste, magoada comigo mesma, porque num piscar de olhos eu me pegava fazendo as coisas horríveis de sempre contigo e antes de cogitar parar eu já tinha terminado. e você estava nas minhas mãos, todo ferido. e eu te apertava e te pedia perdão, mas você não me respondia nem se movia. “forgive me. i can’t control myself” eu dizia e chorava, às vezes um pouco, às vezes muito. deixei-o no meu quarto mais vezes, fui tentando me acostumar a isso até se tornar rotineiro, o que deve ter sido na segunda metade do terceiro ano.
a segunda metade do terceiro ano, quando estávamos a completar umas dezoito horas de liberdade pra você, foi muito impactante. eu finalmente senti tanto nojo de mim mesma ao maltratar você que consegui parar. eu já conseguia dizer coisas boas a seu respeito, já não sentia mais vontade de menosprezar a sua beleza, a sua inteligência e outras coisas que não vou ficar citando aqui pra não tomar meio texto (desculpa, minha opinião!). mas aí entramos na parte da nossa jornada que mais me deixou de coração partido, e que iria falar a princípio: nas últimas seis horas você passou a ter um tempo de sono como uma pessoa normal, não mais como uma marionete, e você parecia ter mais paz dormindo como uma marionete. as suas noites estavam muito sofridas e, a princípio, achei que era por culpa minha, mas não só eu já estava experiente na sua aflição como logo ficou claro que só agravei algo que estava aí desde o princípio.
você se mexe muito enquanto dorme.
você tem muita coisa na cabeça. você não dorme sem alguém falando “shhhh” toda noite. algumas vezes tive que segurar você com força, algumas vezes você acordou se batendo até acalmar. eu já não tinha mais forças para fazer mal algum, estava diante de algo que me tirava todas as forças. você tirava todas as minhas forças. o seu sorriso, quando eu pensava que vinha de alguém que estava sempre com medo dos outros, me quebrava porque eu pensava no esforço que você estava fazendo para sustentá-lo ali. por que você se esforçava pra sorrir pras pessoas? por que a alegria que você tem, que nem é sua no final das contas, você quer distribuir aos outros? não sobra nada pra você, você é burro? não vê isso? é uma irresponsabilidade sem fim, é horrível ver você se esforçando, é tudo horrível. foi horrível ver você sentindo coisas boas por mim, que te maltratei por anos. foi horrível te usar pra suprir carências, foi horrível descontar sentimentos ruins em você, foi horrível fazer tudo isso e ver que quando o quebra-cabeças começou a ficar claro ele foi se revelando algo totalmente diferente do que eu imaginava. você só estava ali. era um fantoche. eu deveria ter te deixado quietinho. isso tudo só refletiu o quanto eu sou deprimente, frustrada, o quanto é fácil para mim imaginar que as pessoas querem me trair e eu intensifiquei tudo isso em você nesses anos.
você, no entanto, é um problema da sua própria maneira. talvez você seja pior que eu. eu sei diferenciar as coisas. você… só sabe como ser um fantoche, só sabe como ser um brinquedo. foi um brinquedo a vida toda, foi um brinquedo desde a infância, foi uma criança-brinquedo. “do you like using me? does it make you happier? i always made people happier by letting them use me, so i believe you deserve it too”, “how the hell do you say a thing like that with a smile on your face? don’t you want to be pleased, too? don’t you want to be happy, too?”, “there is no such thing as pleasing me or making me happy”. você relacionava o seu próprio prazer ao abuso, à dor emocional e à aflição sexual, você… não sabia o que era outra coisa, que tinha outra coisa. quando notei isso eu me lembrei que a primeira vez que te fiz um carinho, ainda antes de se tornar essa marionete, você não entendeu. achou que era uma piada. você sabia tudo sobre as maldades que nós gostamos de fazer e não sabia nada sobre as coisas simples, gentis, que também queremos fazer. pior: quando se tornou a marionete que tanto maltratei de tantas formas, fiz com que você tivesse a certeza de que tudo o que existe no mundo é isso. maldade.
- okay, my boy. we’ve fixed your hair, your glasses, your clothes. now you look really cute. how do you feel?
- it’s weird.
- why?
- why do you try to fix me? i don’t like anything about me. why won’t you say you want me to look less weird? it’s horrible to stay with a fuzzy boy so i understand you, as a fashionable woman, want to have a fashionable man by your side. maybe i’ll become fashionable enough, but don’t say i look cute. yeah, it’s a nice joke, but i’m not laughing.
- i’m not joking.
- okay, okay. anyway, will you respect me and never say i do look cute?- you’ve been embracing me for three minutes.
- yeah, that’s right. i’ll probably stay like this for a while.
- are you feeling guilty?
- no, no! i’ve been a good girl lately, haven’t i?
- yeah, that’s why i don’t know the reason you’re feeling guilty. are you feeling guilty for something you’ll do in the future? how will this embrace end?
- are you serious? i just want to stay in touch with you, feel like i’m holding you. is that weird? you held me sometimes too and it felt really good, it shouldn’t be weird.
- don’t you worry about me suddenly changing? i never did, but, don’t you feel afraid?
- i feel afraid thinking you’ll stop and leave me. is this the kind of change you’re talking about?
- nope. i’ve been talking about me suddenly saying i hate you and start hurting you. i never did it and never thought of doing it myself, but i always believe it’ll happen to me. i’m really anxious right now.
(nem sei de onde tirei estrutura pra não chorar. tive uma idéia muito boa que sinto que não poderia ter sido minha)
- are you able to sleep inside my arms?
- of course not.
- i’ll teach you, then.- am i cute? i thought you’d like this haircut, this dress and these shoes. it’s a combination i thought you’d be stunned to see.
- yeah, i’m stunned. what do you want me to do for you?
- i’m pleased to see you stunned. it’s enough.
- are you saying you really did it for me? what’s the point? i cann —
(dessa vez eu já tinha aprendido a lidar com isso sem cansar minha beleza)
- ok, maybe you could kiss me. i’m happy. you made me happy today, and because you made such a horrible thing you have to pay with a kiss.
entre outras coisas que me entristeceram demais quando parei pra pensar o que significavam, mas aprendi a lidar. aprendi a lidar porque tive que engolir em seco, muito disso foi culpa minha, muitas dessas suas expectativas horríveis eu criei. eu, nos meus acessos de raiva, fiz carinho em você só pra te chocar depois, eu permiti que todos esses problemas que você já tinha antes de me conhecer se agravassem ao ponto de se tornarem os monstros que se tornaram. não tinha direito de investigar a fonte do seu problema, eu era parte da fonte do seu problema.
queria que você dormisse bem, em paz, com uma pessoa perversa ao seu lado. não tinha direito de cuidar de você de outras formas que não a passiva, que não fazer diferente, revelando sinceramente seu valor. sinceramente porque uma pessoa machucada como você não aceitaria mentiras, captaria-as no ar e da sua própria maneira as desmancharia e deixaria de acreditar em qualquer coisa que eu falasse. já era difícil fazer você acreditar em verdades, quanto mais em mentiras. lidar contigo algumas vezes foi como andar sobre um campo minado, sentia que se não medisse milimetricamente minhas palavras eu poderia jogar tudo fora, poderia desmoronar todo um castelo de cartas, eu não sabia como era possível alguém ser tão paranóico como você. doeu mais, no entanto, quando percebi que você não era bem paranóico, só muito sensível. você não encucava com verdades claras e eu tinha esse costume de ser escorregadia na minha língua, abusando das ambiguidades, acreditando que leves mentiras não fariam mal a ninguém.
algumas vezes eu cansei, mas me certifiquei de ser uma mulher clara no meu cansaço. ano passado, enquanto suas horas de fantoche diminuíam ao zero absoluto, eu tirei algumas das suas horas de sono para exigir que você satisfizesse algumas das minhas fantasias. eu senti falta, seu corpo de bonequinho era como uma droga pra mim e eu já estava cansada de lidar contigo, cansada de medir palavras, cansada de me sentir impotente, cansada de me assustar diariamente descobrindo os abusos que eu e outras pessoas cometemos contigo, cansada de reconsiderar todas as vezes que te machuquei pensando que só estava descontando algo que na verdade você não tinha feito por querer. eu poderia beber até cair, poderia usar alguma droga até desmaiar ou perder completamente a sanidade, ou poderia ter sido uma pessoa realmente prudente e procurado ajuda de Deus ou das minhas amizades mas preferi recorrer ao abuso mais uma vez. e mais outra vez. e mais outra vez. eu ainda não confiava muito em Deus, ainda me é estranha a idéia de ter um rapaz lá no céu que não me machuca porque acha que tem poder sobre mim nem quer me dar um bilhão de coisas pra tentar me conquistar, que simplesmente me conhece, que simplesmente está interessado em me ouvir e que se eu pedir conselhos não vai me dar o mais fácil mas o que realmente vai resolver meu problema sem medo da minha chantagem porque ela não funciona nada bem. Deus era um homem muito estranho e sistemático pra eu obedecer, agora ando aprendendo que é a melhor maneira.
mas eu disse a você. eu sei que não justifica nada do que fiz, os meus últimos erros com o meu fantoche antes dele se tornar meu homem de novo, mas fiz tudo expondo exatamente o que estava fazendo. nós consertaríamos depois, nós nos resolveríamos depois, você não carregaria meus fantasmas sem saber que estava os carregando mais uma vez. e foi assim. problemas que levariam meses para se resolver no passado se resolveram no dia seguinte, tudo é muito simples quando está na luz. eu reprogramei sua mente milhares de vezes: instalei novas bombas lá dentro, troquei as equações, submeti-a a cargas elétricas absurdas para vê-lo descarregar e chorar depois com medo do que fez, desmanchei conceitos, te deixei congelado de ansiedade, fiz você debater contra você mesmo, acabei com a sua honra e parti seu coração. tudo isso várias vezes. tudo isso fez parte do seu passado, comigo e antes de mim. quem sabe tenha sido ótimo fazer tudo isso de novo pra você perceber que não é normal, que não deve se sujeitar a mim nem a ninguém quando estivermos te machucando, que pode falar que não está se sentindo bem, que não precisa colocar um sorriso no rosto e falar “espero que esteja te fazendo bem” quando o que estou fazendo é passear com uma faca no seu peito. não interessa qual argumento ou conceito tentem colocar na sua cabeça: rejeite, você não é mais ninho espiritual de demônios.
eu vou proteger a sua mente.
eu concluí, nesses últimos dias onde fui sua dona, que você precisa de mim. concluí mas aceitei pedir sua opinião, não queria te forçar a ficar comigo e também não tentei florear meu ponto-de-vista numa expectativa de fazê-lo se sentir pressionado. você seria homem se ficasse, seria homem se me deixasse. eu não decidi isso com facilidade, por maturidade, por ter me tornado uma pessoa “zen”. eu aceitei, com muita tristeza, que poderíamos terminar assim que completássemos os mil quatrocentos e quarenta minutos, porque não teria um homem bom ao meu lado caso o chantageasse a ficar comigo e eu infelizmente já estou velha demais para ficar ao lado de um homem ruim só porque não gosto de ficar sozinha. isso era algo que eu fazia aos vinte.
eu sei cortar as coisas quando preciso. eu sei que choraria por dias, meses ou quem sabe até um ano, que muitas vezes me arrependeria profundamente e teria de fazer muita coisa para não te mandar uma mensagem pedindo pra voltarmos, pedindo seu “bom dia”, pedindo algum conselho, fingindo que precisava de algum conselho para ter uma desculpa pra ouvir sua voz, falando que joguei minha vida fora porque sem você não dá pra viver. tudo isso é mentira. a verdade é que, se fosse pra fazer uma confissão dos meus sentimentos por você, eu não poderia ser egoísta ao ponto de falar coisas na intenção de acariciar o seu ego e fazer você sentir que está perdendo muita coisa por estar longe de mim. eu teria que ser sincera e contar o que sentiria, de fato, falta: eu sentiria falta de te envolver nos meus braços e sentir esse charme eterno de uma pessoa que nunca está totalmente entregue, que todos os dias eu preciso convencer a se entregar totalmente a mim porque toda noite constrói uma muretinha no coração enquanto dorme; eu sentiria falta de cantar alto pra tentar competir com a sua guitarra e de rir toda vez que conseguisse te desconcentrar com isso; eu sentiria falta dos nossos códigos corporais tão pessoais e íntimos que acabaram nos fazendo capazes de flertar em qualquer lugar, de nossa casa a uma fila de banco; eu sentiria falta de paralisar seu coração com um olhar; eu sentiria falta de estalar seus dedos das mãos empurrando-os subitamente ao segurá-la enquanto sentados no banquinho do lago e discutindo como perdemos tempo fazendo algo que, se fôssemos analisar friamente, descobriríamos não ter sido perda de tempo coisíssima nenhuma; eu sentiria falta do seu peito como tecido perfeito para testes de qualidade do alisamento do meu cabelo, o que eventualmente acabo esquecendo porque paro de me esfregar nele para fechar os olhos e ficar aproveitando o som das batidas pesadas e assustadas do seu coração; eu sentiria falta de levantar os seus olhos com os meus; eu sentiria falta de colocar milhares de coisas na sua cabeça durante o dia para desmontar todas no final e dizer “eu te amo”; eu sentiria falta de reclamar que você está longe de mim para ver você vindo e então ter a oportunidade de reclamar que você está muito perto de mim; eu sentiria falta das suas poucas espinhas restantes, a única sessão de tortura masculina aceita socialmente; eu sentiria falta de reclamar do machismo, de falar das estruturas de poder e dominação masculinas que estudei de cabo a rabo daquelas mulheres americanas como judith butler e andrea dworkin e saí aplicando em todo lugar na época em que estava com raiva de você, sem nem perceber o quão estranho soava pregar com tanto afinco que homens dominavam completamente as mulheres para um homem que era minha marionete; eu sentiria falta de esticar minhas pernas e alcançar sua barriga com os pés no sofá e deixá-los lá, mexendo apenas as pontinhas dos dedos; eu sentiria falta das nossas estrelas, porque sentiria muita falta de ser uma rainha.
seria disso que sentiria falta. dessas coisas que envolvem nossos corpos e nossos sentimentos. eu realmente nunca liguei para as coisas que você colocou e tirou da sua cabeça, e colocou e tirou da minha, a mim só importa quando você faz disso algo concreto que poderemos usar para nos divertir e celebrar o nosso amor. nossa história de amor não importa pelas palavras bonitas ou pelo que raios significa esse negócio de “eternidade”, ela importa porque é a desculpa que temos para nos tocarmos hoje, porque ela torna seu toque seguro e puro pra mim. a partir do momento em que você parar de deixar eu segurar o seu braço eu já não me importo mais com a nossa história de amor, eu vou colocar ela debaixo do meu sapato e pisar até ela não conseguir levantar mais. eu não me importo com palavras, os homens da minha vida todos me prometeram muita coisa com a boca e nunca cumpriram. conforta meu coração saber que você também não se importa. parte meu coração saber que você não se importa porque te transformaram numa mulherzinha. alivia meu coração saber que você não é minha mulherzinha, é meu homem. meu rockstar. quem sabe eu decida ser sua vocalista um dia, não é? quem sabe eu já decidi.
mas chega dos “serias” e dos “sentirias”. não precisei disso. você decidiu ficar e não tenho tempo para ficar celebrando, mesmo porque isso só significa que nossa rotina permanece a mesma. tenho uma verdadeira reforma para fazer aí dentro e tenho que levantar algumas barreiras que nunca deveriam ter sido corroídas pelos choques emocionais e sexuais, temo que algumas vezes escorregue nessa tarefa, temo que às vezes exagere na quantidade de barreiras, mas tudo vai dar certo no fim.
e se preciso te pedir perdão, quero acrescentar algumas coisas a esse pedido. não quero que você me perdoe apenas pelo que fiz, o que fiz já não parece grande coisa hoje em dia. quero que me perdoe pelo que deixei de fazer, principalmente pelo que deixei de fazer. quero que me perdoe não porque te maltratei em todos esses anos, mas porque optei por não cuidar de você e te dar carinho. o mais prejudicial não foi ter cravado minhas unhas vez ou outra na sua pele porque isso às vezes escapa, é normal de qualquer mulher meio descontrolada como eu, o prejudicial foi não ter te enchido de beijinhos nenhuma vez nesse tempo. me perdoe pelo que faltou, posso tentar te ajudar dando tudo o que tenho a você mas pode ser que você queira coisas que eu não sei que você quer, você precisa se descobrir, precisa descobrir tudo o que há de bom e poderoso dentro de você que só você e Deus sabem, precisa descobrir todas as suas vozes. muitas vezes eu estarei aqui para cruzar minhas pernas, apoiar meu braço na minha bochecha, assistir e aplaudir. não para sugerir algo porque eu não sei tocar um sax, não sei tocar piano, não sei tocar bateria, não sei tocar teclado nem sintetizador. sempre há a opção de me ensinar mas sem ter o que me ensinar não vai adiantar.
a minha função é essa, de aplaudir. é a que eu mais gosto. você não precisa dos meus palpites porque não iria aceitá-los de qualquer forma, existem áreas da sua vida que só Deus consegue mudar porque você não aceita a opinião de ninguém. tenho um pouco de medo dessas áreas. bem, fazer o que? desmorone o nosso mundo, boa sorte a você para colocar tudo no lugar, eu serei a mulher que fechará os olhos e usará seu corpo para descansar até tudo isso passar. um beijo pra cada erro, um beijo pra cada acerto. a culpa não é minha se eu gosto de beijar.
sendo assim, eu estou te devolvendo as chaves da sua mente. de quebra estou me entregando a você. acabaram os seus quatro anos de prisão mas, por favor, queira ser meu brinquedo de vez em quando. é muito injusto, depois de quatro anos fazendo o que quiser contigo, não poder ditar as regras do seu corpo nunca mais. você é livre mas não precisa querer essa liberdade toda hora, precisa?
desculpa ter te assustado tanto, pra ser honesta uma das coisas que mais pensei foi se você seria capaz de se relacionar com alguma outra mulher que não fosse eu caso terminássemos. foi impossível não cravar uma ferida de ansiedade gigantesca dentro de você com a nossa relação. conversar com mulher deve ter sido um tormento pra você esse tempo todo, será que achou que todas as mulheres gostavam de brincar com faca como eu? hihi~! se sim, perdão. se não, perdão pela piada.
mas agora chega disso. estamos juntos. teremos de lidar com o que sobrou da nossa história de fantoches, nem sempre será legal mas chegaremos ao fim. podemos dizer que não somos apenas responsáveis pelo reino das estrelas, podemos dizer que somos responsáveis pelo reino do amor, porque só o amor explica o nosso final ter sido feliz.
se bem que só amor explica alguma coisa. o resto do mundo não passa de uma desculpa esfarrapada pra gente se beijar.