Sรฉrie: mega man

Por que Mega Man deve morrer?

22 de abril de 2014


Vamos lá, recentemente eu dei uma espiadinha em um texto do meu amigo de longa data SkSonicSk no Hyrule Legends, o “Por que séries de jogos não duram pra sempre”. Nele, Mega Man foi mencionado mesmo que brevemente e houve a pergunta sobre a série ter morrido pra sempre. Pra falar a verdade, eu acho que já passou bastante tempo, a ideia de “superação” da série devia estar bem tranquila de digerir.

Mas cada pequena cutucada mostra que não está.

Bem, eu particularmente sou um fã de Mega Man. Eu zero, por ano, cerca de 23 jogos da série: tenho um ritual de finalizar a série clássica, a série X — até o X6, pulando o X7 por ser muito ruim e o X8 por eu ter realizado uma run tão emocionante que não quero sobrescrevê-la —, a série Zero e a série ZX; todos os anos. Começou como um ritual da série X, mas eventualmente fui percebendo que gostava igualmente de todas as séries então percebi que devia expandir, e só não coloquei no pacote as séries Battle Network, Star Force e Legends (demandam mais tempo para jogar do jeito que gosto, e a Legends em particular eu tenho problemas com controle).
Eu, não como muitos outros, não me empolguei tanto com Mega Man Legends 3 e não tive tanto impacto particular com o fim. Eu gosto da série Legends mas foi um negócio meio tardio — aquela série que não interessa tanto quanto as outras porque conheceste mais velho, mas já estava morta então não tinha nada para acompanhar. No entanto, como todos os outros achei um absurdo quando cancelaram o jogo. Fui ficando triste e me afastei dos “jogos” num geral ao ver que a série tinha morrido, porque era, e ainda é, minha série favorita.
Ok, narrado um pouco essa triste história, eu posso dizer duas coisas. A primeira, apropriada também, mas não o propósito do texto é: vai trabalhar, vagabundo. A segunda eu explico agora, com uma única observação: usarei a palavra “desenvolvedor” como função “desenvolver”, e não especificamente como função “programar”.

Keiji Inafune saiu da Capcom, levando com ele toda a equipe que desenvolvia Mega Man nos últimos tempos. Veja bem, quem desenvolvia Mega Man plataforma 2D não era a Capcom: era a Inti Creates; a mesma que está envolvida com Mighty No. 9 e Azure Striker Gunvolt. As figurinhas da Capcom, em questão de desenvolvimento, não se envolvem com Mega Man plataforma 2D desde o fim da série X — elas foram escaladas, no máximo, para a série Battle Network e Star Force.
Sendo assim, a falta de base da Capcom para elaborar novos jogos da série é ainda pior do que imaginado. Não é que falta a cabeça, é que falta tudo. Até para os Mega Man clássicos “retrô” quem era escalada era a Inti Creates, onde o Inafune via liberdade o suficiente para confiar projetos tão “indies” quanto os da série. Essa estrutura independente da Inti Creates é tão compatível com Mega Man que Inafune consegue convencer qualquer desenvolvedor das séries antigas a participar nela: observe Mega Man 10, seria impossível que uma estrutura grande e burocrática como a Capcom desenvolvesse Mega Man 10, porque só o cenário independente é capaz de aconchegar tantas pessoas a um mesmo projeto simplesmente “porque sim” (a informar, Mega Man 10 teve uma equipe gigantesca. Por exemplo, no departamento musical, além da própria Inti Creates foi contratado um compositor por Robot Master, sendo que todos participaram da composição de algum Mega Man clássico). Menção honrosa também para o envolvimento de desenvolvedores de Mega Man 1 e 2 em Mighty No. 9.
Sendo assim, desde que depositou a série nas mãos da Inti Creates em 2001 no desenvolvimento do primeiro Mega Man Zero, Inafune já sabia que a Capcom era incapaz de lidar com Mega Man. Por mais que hajam aquelas controvérsias bobas de “nem foi o Inafune que criou Mega Man”, a estrutura de desenvolvimento da série é toda dele, e sempre foi algo diferente do que a Capcom proporciona hoje — e quem não se adequou foi o próprio “Inafking”, assim como Shinji Mikami. A Capcom, hoje, tem Christian Svensson tentando fazer o elo entre fãs e a empresa nesse aspecto, assim como Inafune sempre fez (Mega Man Legends 3 e Mighty No. 9 são idênticos no desenvolvimento, e a Inti Creates nada mais era que fãs doidos de Mega Man quando receberam a série pra desenvolver), mas acho difícil que algum avanço significativo seja feito disso. A maneira que ele está encontrando de lucrar com a série até agora está sendo vender brinquedo e construir mídia em cima daquilo que já existe, o que nem considero “caça-níquel” e sim a estratégia mais inteligente mesmo.
Creio que Svensson é um rapaz inteligente que descobriu, antes de fazer cagadas, que criar um jogo novo não é o caminho para satisfazer as pessoas. O que é muito engraçado, porque as próprias pessoas não descobriram que jogar um novo Mega Man não vai deixá-las satisfeitas. É o extremo oposto da mentalidade de Sonic the Hedgehog, onde as pessoas não param de tomar tapas na cara para superar uma série com alicerce perdido há dezesseis anos; a Capcom está, basicamente, protegendo a fanbase de Mega Man do destino da fanbase de Sonic the Hedgehog. Em especial porque todos com um pouquinho de noção de mercado sabem que a Sega está numa sinuca de bico com Sonic, já que o retorno da série não vale a dor de cabeça produzida, mas eles simplesmente não podem mais parar.
Por mais que adorem transformar a Capcom em uma vilã ela, na verdade, é quem está tentando conciliar mercado com consumidor. Se a Capcom fosse tão vilã ela não teria uma equipe tão atenciosa com Ace Attorney e seu público-alvo, por exemplo. Não que eu esteja querendo defender empresa, longe de mim, mas gostaria bastante de ver menos gente falando bobagem.

O alicerce perdido não foi Keiji Inafune, a Capcom perdeu o alicerce de Mega Man há anos, muito tempo antes de Inafune sair. A estratégia do rapaz era, justamente, colocar a série nas mãos de quem tinha competência para lidar com ela e supervisionar. A Capcom poderia fazer o mesmo, mas ela ainda não descobriu como e quando descobrir, se descobrir, não será da maneira que fãs esperam.
Porque na verdade nenhum dos que ainda reclamam querem um bom Mega Man novo. Querem exatamente o Mega Man Legends 3 de volta sem pensar no processo e nas consequências, querem um Mega Man X9 porque já tá na hora de reviver a série tão aclamada, querem Mega Man ZX3 explicando aquele cliffhanger de cortar o coração do ZX Advent, entre outros — inclusive uma série sobre a Elf Wars, alegando que tem muita coisa sem explicar, mas isso é só preguiça de consultar os materiais da série mesmo: a Elf Wars não tem nenhum furo relevante, só “renderia jogos legais” mesmo.
Para falar a verdade, acho MML3 e MMZX3 algo natural de se desejar. Eu ainda queria o ZX3, de verdade. Mas não vai acontecer, e é bom que não aconteça.
Quem acha que é simples porque é desenvolver um Mega Man, um jogo de plataforma 2D simples, com uma fase introdutória, oito fases e mais três ou quatro finais, definitivamente não tem noção do que está pedindo. Mega Man é uma das séries com particularidades mais marcantes de level design por conta da estrutura de desenvolvimento proporcionada por Inafune, e pra provar isso eu teria que trazer aqui um estudo de level design que é impossível de fazer em um único texto. Um novo Mega Man X será inevitavelmente “anti-climático”, mesmo que seja um ótimo jogo; um novo Mega Man ZX não trará um encerramento satisfatório porque quem começou a ideia não está lá pra terminar, e será ainda mais difícil de assimilar como Mega Man ZX que Mega Man X, já que a Inti Creates é ainda mais única em questão de desenvolvimento.
E aí teremos aquela fragmentação que só a série Sonic sabe.

Enfim, fui bastante redundante e deixei de explicar um monte de coisa. Mas o fato é: Mega Man, como fãs desanimados querem, não vai voltar. Mega Man pode voltar, e eu confio no trabalho do Svensson, eu acho que ele acertaria ao criar uma série completamente nova desvinculada das outras.
Uma sequência de acontecimentos muito improvável seria necessária para que uma série antiga fosse terminada com êxito. E entre ficar torcendo pelo mundo dos negócios funcionar de maneira fantasiosa e seguir adiante, vale bem mais a pena o segundo: conhecer novas séries, jogar o “bom e velho” Mega Man de vez em quando pra extrair coisas novas, preencher essa vontade até mesmo desenvolvendo conteúdo próprio.
É meio inútil, conforme o próprio Sk disse no texto dele que mencionei anteriormente, ficar querendo que nunca acabe uma série. Criadores vem, criadores vão. Todos esses caras vão cansar, todos esses caras vão morrer. Eu quero repetir o “vai trabalhar, vagabundo” de antes porque, além de ser verdade simplesmente porque sim, quem gosta mesmo de jogo devia ver nesses jogos inspiração pra desenvolver além deles. Mega Man, num geral, é uma série de uma geração que já passou, mas tem ensinamentos valiosíssimos para desenvolvedores do estilo que muito provavelmente não foram bem estudados. Eu e uns amigos, de maneira tão descontraída que chega a dar raiva, conseguimos fazer um “podcast” que durou horas sobre o primeiro Mega Man.
Está levando muito tempo para desconstruir essa ideia de que desenhar um jogo é só “desenhar e pronto” e “a parte difícil é programar”, e muitos que conseguem desconstruir acabam não conseguindo investir seu tempo em identificar o que, afinal, é difícil e como os criadores fizeram para lidar com essas dificuldades. É muito raro Sonic, uma série repleta de particularidades e qualidades de level design, ter análises do que realmente vale a pena, o que mais se vê é gente sem noção nenhuma de construção tentando expor pontos de vista com pouco ou nenhum embasamento — é bonito para a comunidade que gosta, mas é completamente dispensável para o amadurecimento como jogador e até mesmo como desenvolvedor.

Quem realmente se importa com aquilo que há de melhor em Mega Man pode até ter problemas em aceitar um cliffhanger, ou um jogo cancelado após uma demo ser paga, mas sabe que, for everlasting peace, é melhor deixar essa ferida cicatrizar.

 

Vocรช leu um capรญtulo da sรฉrie mega man

escrito por nubobot42 narrado por leibniz