SΓ©rie: lisbeth

Lisbeth XIII

29 de maio de 2013

Bem-vindos de volta ao meu inferno.
Eu estou vivendo um inferno, sabiam?
Talvez vocês não saibam. Talvez eu não deixe isso bem claro. Às vezes eu me questiono, “por que eu não deixo isso bem claro?”; eu não tenho a resposta, mas sinto que tenho. Sinto que sei.

Havia uma história sobre dois bonecos, sobre cordas, e sobre eles estarem sendo controlados pela mesma rede de cordas. Ainda há; ainda está; e ainda é. O meu linguajar é o mesmo. As minhas repetições desnecessárias da mesma expressão a ponto de demonstrar uma progressão emocional que não consigo por gestos, ainda estão aqui. Eu estou aqui. O segundo boneco está aqui. O segundo boneco está mais alto, ele ainda tem as cordas; eu acho que as perdi.
Eu contei a história. Nós contamos. Nós cantamos. Não foi possível enxergar a linha, talvez não seja enquanto a linha estiver num plano imaginário. Continuaremos a cantar. Mas dessa vez eu vim sozinha, sem armas, sem conversar com ninguém; eu vim só querendo falar. Só um pouquinho. Acho que com você, que está aqui do meu lado, me segurando enquanto eu não posso voar sozinha, me impedindo de cair no completo abismo; mas acho que com vários, que estão um pouco perto, mas não o suficiente. As únicas cordas que eu posso compartilhar são as suas, ninguém mais pode me amarrar, ninguém mais pode me envolver, se não você; isso não é uma declaração de amor, isso não é amor, isso não é dependência — isso é compartilhamento. Eu acho que ninguém compartilha cordas. Eu acho que cada um tem as suas. Por que nós temos de compartilhar?

Eu estou muito pesada?
Você ganhou mais alguma corda, ou está conseguindo ir tão longe só com as que não arrebentaram? Você aceitaria minha gratidão só depois? Eu sinto uma tristeza tão grande…
Eu sinto um vazio, não muito relacionado com o existencial. Aliás, não porque o existencial é definido, mas porque acho que já me conformei com a nossa impossibilidade de não ser uma incógnita — e pior que uma incógnita, perdoe-me utilizar de artifício matemático, mas se vistos como uma função, temos duas variáveis. É tão mais difícil resolver uma função com duas variáveis! Mas esqueçamos isso. Esqueçamos esse parágrafo. Esqueçamos a matemática.
O que eu quero dizer com essa última volta é que me sinto vazia. É que usei tanta força regenerativa que, embora ainda haja e sempre haverá, eu não vejo mais um sentido. Eu estou cansada de fugir do abismo; cansada da gravidade, cansada de depender de outro boneco — frágil, como todos — para não cair ali. Dói em mim a própria dor, dói em mim também a dependência. Cansada de tirar forças de onde parece não existir mais nada para conseguir segurar seus braços novamente. Eu sempre precisei tirar forças de onde parece não existir mais. Eu não quero mais. Eu queria sentir a sensação de não precisar mais, nem que fosse uma única vez.
Queria sentir a sensação de não precisar mais.
Nem que fosse uma única vez.
Você está errado. Vocês estão todos enganados. Vocês fingem que é bonito ser forte, que é bonito sempre ter forças para se superar. Vocês estão todos errados. Vocês nunca vão cair da corda, vocês têm as suas. Vocês nunca vão entender que não é errado, pelo menos uma vez na vida, não querer invocar forças internas do nada para fugir do abismo; que não é errado querer, pelo menos uma vez na vida, que alguém esteja lá pra te salvar do abismo; que não seja apenas você, o abismo e algumas cordas — que seja alguém.
Não é errado.
Não me falem que está errado.
Eu daria minha vida para sentir esse erro. Uma única vez.

Eu daria minha vida.

 

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escrito por nubobot42 narrado por lisbeth