SΓ©rie: lisbeth

Lisbeth II

15 de abril de 2012

Quebrado estava meu boneco humano,
um boneco bonito, um boneco vivo, mas eu não o entendia.

Eu não entendia por que ele não queria certas coisas.
Tanto me confundo com essas circunstâncias que nem mesmo consigo começar a explicar o que não entendo.
Eu não entendo nada.

Ele senta na minha mesa, retira uma série de remédios e toma, como se não fizesse nenhuma diferença; e talvez não faça.
Seus erros são severamente tratados. Eu odeio erros. Há repreensão através de palavras, socos e consequências. Mas isso passa despercebido.
Ele é estúpido, age como um imbecil, não tem senso lógico nenhum e não se importa com nada.

Mas eu queria muito entender o que se passa ali. Que universo há ali dentro.
Eu queria entender que universo é esse que, não importa o que esteja acontecendo aqui, não é nem mesmo alterado. Queria saber por que ele passa tanto tempo ali dentro. O que há de tão ruim aqui fora? Ou o que há de tão bom lá?
Não posso tirá-lo. Não consigo. Ele parece não se importar com nada, mas se importa com o que se importa. Não quer que ocorra, e vai ocorrer. Não quebra com nada, exceto gente que se quebra por ele. Não quer ser elogiado, nem glorificado, e muito menos quer algum contato. O contato o chama pra realidade, parece deprimi-lo; não só deprimi-lo, como machucá-lo, estimular dores que o fazem se contorcer. Isso o defende, também; todo mundo desiste uma hora.

E é por isso que eu quero fazer alguma coisa.
Já não é mais um boneco qualquer, é meu boneco. É meu, eu posso fazer o que quiser com ele.
E eu quero entendê-lo. Eu quero muito entendê-lo.
Eu quero muito mostrar a ele algumas coisas.

Mas para isso o quebrei, rasguei nó a nó com a mais carinhosa das minhas lâminas, retirei algumas coisas e comecei a operar.
E agora não tenho mais volta.
E tudo o que posso fazer é pedir para que não se preocupe… Com o dobro do carinho que tive ao quebrá-lo, lhe consertarei.

 

VocΓͺ leu um capΓ­tulo da sΓ©rie lisbeth

escrito por nubobot42 narrado por lisbeth