SΓ©rie: rebecca

1min

14 de janeiro de 2014

Novo lar

E eu me recordo de muito do que aconteceu entre nós: não, você não é necessariamente culpado; não, eu também não creio que seja muito culpada. Mas nós sentimos raiva — não parece segredo a ninguém que eu te odeio, e seria bem óbvio, não fosse o fato de que ninguém se importa.
Agora, somos só nós dois.

E você consegue se mover?
Eu acho que não.

Você só vai se mover quando eu decidir que você merece se mover.

Era o primeiro dia de Rebecca e seu novo companheiro — novo, pois estavam a construir um novo tipo de relação dali em diante. Não mais a de amigos, não mais a de inimigos: agora, a de marionete e a de titereira. Ambos tinham planos de vingança e destruição, e agora Rebecca tinha em suas mãos a oportunidade perfeita, enquanto sua marionete apenas aguardava as futuras punições injustas e enfurecidas de uma pessoa desequilibrada.
Talvez, um destino pior do que a morte: sua vida não era mais sua. Ele não sabia se ainda tinha alguma vida, mas se ela estivesse ali, estava completamente sob controle dela. Ele estava com medo — e não tinha nem como falar, os movimentos de sua boca também estavam selados.

Eu não sei o quanto posso estar sendo injusta, e na verdade, não me importo. Você não pode fazer nada agora. Não tem como correr, não tem a quem recorrer, eu sou tudo o que você tem.
Que péssimo “tudo” você tem, hoje.
Não se preocupe, não será permanente. Ao que fui informada, cada dia você terá direito a um minuto a mais de vida que o anterior, até que complete os mil, quatrocentos e quarenta minutos de um dia e então você estará completamente livre de mim. Significa que passaremos alguns anos juntos, e significa também que eu vou acabar com a sua vida antes que você possa pensar em sair do meu controle.
Eu não posso te matar, assim como você também não pode por enquanto, mas tenho certeza que você não desejará outras coisas quando sair daqui. Você viverá o inferno.

Rebecca não era uma assassina, nem psicopata, ao menos não até aquele momento. Ter tanto poder em suas mãos a deixava descrente de que estava fazendo o mal, e o fato de seu alvo odiado ser apenas um boneco que nem mesmo sangrava tirava de si o peso de estar ferindo outra alma — em suma, a sua consciência não gritava o suficiente para que a impedisse de fazer o que queria fazer.
E, para exemplificar o que estava dizendo até o momento, buscou de sua cozinha um facão e o contemplou por alguns instantes, faiscando remorso, mas determinada a realizar o que tinha planejado naquele dia.
Concentrando todo o ódio que tinha, deu o primeiro golpe no peito com uma mão, já que a outra estava constantemente ocupada pelas cordas ligadas ao corpo do rapaz. Depois do primeiro golpe, vários outros vieram, junto com gritos desesperados de ódio da própria titereira, já que o boneco não podia fazer nada além de sentir aquelas facadas rasgando todo seu corpo.
Ele sabia que não iria morrer, mas naquele momento, queria. A dor era real o suficiente.

Você tem direito a seu um minuto de vida agora. Aproveite-o como bem entender.

E a única coisa que conseguiu fazer, livre das amarras e dos panos, foi estender-se ao chão e esforçar-se, em vão, para as visões irem embora. Tendo apenas um minuto, elas não foram.

 

VocΓͺ leu um capΓ­tulo da sΓ©rie rebecca

escrito por nubobot42 narrado por heartshaped star