Ódio
À marionete, o segundo dia com uma rotina que teria de se tornar comum em breve. Felizmente, Rebecca não tinha muito fôlego — não era uma pessoa forte, tampouco determinada, então não estava em suas intenções passar o dia inteiro torturando um boneco indefeso.
Uma boa parte de seu dia consistia em ficar ali, parado, aguardando algo de ruim acontecer como um prisioneiro. Era abandonado no quarto de sua titereira, que ficava propositalmente escuro em sua presença para que não pudesse se distrair com nada, o que em sua cabeça dava a impressão de que havia muita coisa lá.
Como não podia se mover sozinho, não descobriria.
Para brincar, tinha apenas seus próprios pensamentos. A maneira como estava seu corpo simbolizava uma prisão. Estava, inicialmente, aterrorizado com toda a situação: aquela realidade não parecia palpável, tinha certeza em sua mente que estava preso em um horrível pesadelo e, em algum momento, acordaria com a cabeça atordoada e exigindo esquecer Rebecca para nunca mais passar por aquilo novamente. Até mesmo pedir perdão e perdoar — não que acreditasse que conseguiria chegar perto, caso acordasse, tão cedo.
Não sabia se já era capaz de se entregar ao medo. Não tinha muita esperança, mas tudo o que vinha em sua mente era revolta, ódio, uma vontade extrema de reverter a situação. O último dia fora humilhante o suficiente, e não só humilhante, mas também doloroso e assustador.
Sua cabeça ainda não conseguia fôlego para raciocinar o fato de estar nas mãos de uma pessoa que o detestava e estava disposta a fazê-lo sofrer pelo resto de sua existência, embora por vezes observando o completo vazio pequenos fragmentos dessa ideia circulassem pelo seu rio decadente de pensamentos. Em fato, não tendo para onde correr, uma hora teria de encarar sua existência mesquinha e o que realmente significava estar daquela forma.
Uma marionete nas mãos de uma louca.
Ou, como queria acreditar por um momento, um homem tendo um terrível pesadelo.
Está muito escuro aqui! Você passou quase o dia todo assim? Eu vou te ajudar um pouco.
Rebecca não parecia tão carregada de boas intenções como suas palavras davam a entender, e quando acendeu a luz daquele quarto o motivo ficou exposto: sem poder fechar os olhos, a iluminação repentina ardeu seus olhos até que eles se acostumassem — sem uma defesa instintiva, era muito pior.
Não imaginava que ela tinha tanto sadismo em mente. E pela maneira que ela ria, era de fato intencional.
Eu pensei em várias brincadeiras pra fazer com você. Eu ainda estou pensando, na verdade, mas a de hoje já decidi. Serão mais de mil dias, preciso de um manual pra saber o que fazer durante esse tempo todo…
As visões das facadas do dia anterior pareciam machucar tanto quanto as próprias facadas, talvez porque ele sabia que passaria por algo semelhante naquele momento. Era uma agonia absurda, um desespero mais horroroso, embora com menos suspense.
Acho que hoje posso dar exatamente o que você imagina que darei, será igual. Quando eu sentir que preciso mudar a tática… Aí eu mudo, ok? Não se desespere mais do que já está desesperado, logo logo as coisas acontecerão.
Rebecca ficou sentada por mais de trinta minutos, apenas observando a sua marionete. Era um pouco difícil entender o que se passava em sua cabeça, embora a razão fosse, em sua essência, deixá-lo ansioso para o abate.
Ela observava, ali, com os dois pés no chão, afastados um do outro. Ele não podia nem olhar para outro canto — sua visão era fixa, a não ser que ela o alterasse. Já era desnecessário observar o quão indefeso ele se sentia.
Ela logo pegou o seu facão e voltou a golpeá-lo, da mesma forma que no dia anterior, mas com um pouco de suavidade a mais. Mais sangue frio, como se soubesse controlar muito melhor a raiva de outro.
Com muito menos golpes, mas em lugares muito mais planejados, ela parou.
Você tem seus dois minutos, agora.
Como da outra vez, o boneco, um pouco humano, não tinha forças para se mover — embora seu corpo estivesse intacto, a dor era insuportável para que ele conseguisse fazer algo mais coerente que se arrastar pelo chão, e a visão das facadas era doentia a nível de paralisá-lo.
A única coisa que era mais forte que esse turbilhão de emoções entorpecentes era o ódio. Pelo ódio, ele era capaz de fazer muita coisa. E foi se arrastando lentamente até onde Rebecca estava, e com as suas duas mãos a agarrou pelo pé, e quando viu que seu tempo estava acabando falou tudo o que era capaz.
Eu te odeio.
E voltou às mãos da titereira que, com um sorriso, continuou a golpeá-lo repetidamente com sua faca até que o dia terminasse.